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Contos-->A PAIXÃO QUANDO CEGA -- 22/01/2008 - 10:39 (Edmar Guedes Corrêa****) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A PAIXÃO QUANDO CEGA

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Márcia foi uma menina reservada e tímida até os doze anos, quando começou aos poucos se soltar, a sair com as colegas de escola, as quais de santinhas nunca tiveram nada. Anabela, a mais velha das três, sempre gostou de andar rodeada de meninos, embora, ao ser citada em rodinhas de amigos, seu nome nunca vinha acompanhado de palavras que pudessem manchar sua reputação de menina direita. Um ou outro rapaz, com o intuito de contar vantagens, chegava a inventar histórias a seu respeito, mas ninguém os levava a sério; pois no fundo sabia-se que Anabela era uma muralha intransponível. A outra amiga, Maria do Socorro, seis meses mais velha que Marcinha, não dava assim a devida importância à reputação. Seu nome corria na boca de rapazes da escola, mas ela não se importava com isso; talvez por causa da sua condição – seus pais eram pobres --, do excesso de liberdade – ficava o dia todo sozinha em casa – e de sua cor – uma mulata de seios fartos, quadris largos e vultosas nádegas. Essas diferenças na aparência, na personalidade e na maneira de levar a vida jamais foi um empecilho para que as três amigas mantivessem-se unidas ao longo dos anos. Aliás, talvez a maior contribuição para essa união duradoura foi o fato de estudarem desde a infância na mesma classe, o que lhes gerou o apelido de “As Três Marias”.
Os anos passaram. E elas se tornaram mulheres na flor da idade, espalhando beleza e graciosidade por onde passam.
Márcia aos dezenove anos tornou-se a mais cobiçada das três, com seus um metro e setenta e seis, rosto fino, cabelos longos e castanhos, um olhar parecendo sempre ocultar algo, lábios vermelhos, nem muito salientes, nem muito apagados. Aliás essa dificuldade em definir seus lábios era o que mais chamava a atenção dos homens. Dir-se-iam carentes, implorando a todo momento por um beijo. Mas não eram somente seus lábios a encantarem os homens; muitos se sentiam fascinados por suas mãos brancas, delicadas, e cujas unhas grandes, muito bem cuidadas, tornavam seus dedos finos e longos, mais longos e bonitos. Seus seios em formato de cone, com os mamilos levemente apontados para cima era um ingrediente a mais nas já incandescentes larvas a correr nas veias masculinas; veias essas sem idade, sem cor, sem credo.
Às vezes, a falta de malícia e a inexperiência com os homens -- pois nunca foi namoradeira como as amigas – a levavam a se iludir com palavras doces, galanteiosas, que no fundo revelavam completa falta de respeito para com os sentimentos daquela jovem. As amigas por sua vez, acudiam-na e abriam seus olhos para as verdadeiras intenções por trás daquelas palavras, daqueles rostos a esconder pensamentos que fariam a mais desavergonhada das mulheres corar. Isso contudo era possível porque Márcia apenas sentia uma leve atração por tais homens. Nunca se apaixonara; até porque se tal se sucedesse, se uma paixão a arrebatasse, as amigas pouco ou nada poderiam fazer; pois o coração feminino, quando varrido pela tempestade do amor é um barco sem leme navegando por mares tenebrosos.
Há coisas que se pode adiar por um tempo, mas não por toda a vida. E em se tratando de um ser humano, de uma jovem bela, cheia de vida, onde o desejo de se aventurar por terras desconhecidas vai aos poucos crescendo, era de se esperar que mais cedo ou mais tarde algum felizardo encontraria a chave, capaz de abrir seu coração e tomaria posse de todo o tesouro guardado ali dentro. A questão consistia em quem seria esse premiado. Seria ele um rapaz de família, alguém merecedor de tamanha beldade? Porque nada aterroriza tanto os pais quanto a preocupação com o caráter daquele que lhes levaria a filha de casa.
E esse dia chegou.
Talvez se imaginasse que Anabela, que completara vinte anos há uma semana, fosse a primeira a enveredar-se pelos caminhos da paixão; contudo, era ela uma mulher que só pensava em se divertir, em aproveitar a vida, como sempre dizia. Nunca queria saber de relacionamento sério, até porque falava para quem quisesse ouvir:
-- Os homens não prestam. Não querem saber de compromisso. Só pensam em sexo, em ir para a cama e by-by no dia seguinte.
Muitos não compartilhavam de suas posições um tanto radicais. E Márcia era uma dessas pessoas. Confessava à amiga que os homens não poderiam ser todos assim, pois devem haver muitos rapazes decentes por aí. Anabela por sua vez mantinha-se irredutível.
-- Você não conhece os homens. No fundo, todos são farinha do mesmo saco – declarava, como se fosse uma profunda conhecedora do universo masculino. -- Espere e você verá – profetizava amiúde.
E quando Márcia passou a demonstrar um interesse desmedido por um dos rapazes, amigo de um dos amigos de Maria do Socorro, foi alertada por Anabela.
-- Cuidado com esse sujeito! Ele não é flor que se cheire.
Pela primeira vez em todos esses anos Márcia não ouviu os conselhos da amiga. Ao invés disso, preferiu concluir que Anabela fazia isso por ciúme ou inveja, haja vista que o rapaz tinha boa aparência e assemelhava-se bastante com o ator Antônio Bandeiras. Embora Anabela nunca tenha lhe dado motivos para uma conclusão tão precipitada, isso já era indício de que o coração começava a pensar mais que a cabeça. E temendo o pior, Anabela tentou sem sucesso afastar o rapaz da amiga, impedindo-o de estar presente quando as amigas saiam para se divertir. Entretanto, o resultado acabou tendo o efeito contrário. Esse afastamento, que durou apenas alguns dias, acabou despertando-lhe uma paixão que jazia latente, pronto a entrar em erupção.
O encontro foi inesperado. Após a faculdade, fora com as amigas até um barzinho muito frequentado por universitários. E eis que lá depara com aquele mesmo rapaz que fazia palpitar seu coração, ocupava seus pensamentos e perturbava seu sono. Não pode conter o sorriso, o qual foi retribuído em igual teor. Márcia esqueceu as amigas e passou a próxima hora à mesa com aquele rapaz.
E entre uma carícia e outra, um beijo e outro, acabou conhecendo-o um pouco mais. Júlio não falou muito de si e na mais das vezes teve de mentir sobre a vida que levava. No entanto, para impressioná-la, não mentiu acerca das condições financeiras de seus pais; embora, encantada como estava, isso não lhe fizesse a menor diferença.
O namoro começou naquela mesma noite. E uma semana depois havia conhecido os pais de Júlio e ele seus pais. Anabela, numa última tentativa de impedir aquele relacionamento fez chegar ao conhecimento dos pais de Márcia que o rapaz não trabalhava e andava com pessoas de má índole. Marcia no entanto desmentiu a amiga. Disse que tudo não passava de mentira, de inveja da amiga. Isso aliás foi a gota d`água para separar definitivamente Márcia das amigas de infância.
Seu Roberto, pai da bela jovem, aos poucos foi notando um comportamento estranho no rapaz. Às vezes parecia agitado, como se alguma coisa o incomodasse. Além disso, deixava escapar uma gíria ou outra que não correspondia ao nível social que dizia pertencer. E preocupado com o futuro da filha, alertou-a sobre isso. A filha, como era de se esperar, não deu ouvidos às palavras do pai. Acabou foi se indispondo com ele, o que a levou pela primeira vez a ficar dois dias sem falar com o pai. Seu Roberto, com medo de perder a filha que tanto amava, resignou-se e pôs a felicidade da filha mas mãos do destino.
Cega de paixão, Márcia não fazia a menor consciência de quem realmente era Júlio. O seu lado obscuro, ele escondia de seus próprios pais, embora a mãe do rapaz desconfiasse de alguma coisa. De forma que não era culpa sua se não soubesse de nada. Ela não passava vinte e quatro horas com o rapaz, como poderia saber de tudo que ele fazia? Na frente dela, ele se comportava como uma pessoa normal, que não tem nada a esconder.
Toda mulher sonha em se casar, ter filhos. E Márcia não era diferente. Embora ainda estivesse cursando o segundo ano de faculdade, tencionava se casar na igreja, de véu e grinalda o mais breve possível. E a despeito dos conselhos dos pais, que lhe sugeriram terminar a faculdade primeiro, acabou marcando o casamento para o final daquele mesmo ano.
Quando as amigas de infância viram-na entrar na igreja, sentiram um aperto no coração e lágrimas caíram de seus olhos. Mas não eram lágrimas de felicidade como se poderia supor, eram lágrimas de tristeza, pois sabiam que a amiga, apesar de todos os avisos, estava entrando numa fria.
E não demorou para que a verdade viesse à tona.
Na primeira semana de casamento, Júlio começou a mostrar sua verdadeira face. Sem motivos aparente tornava-se agressivo, ameaçador e gritava com a jovem esposa usando palavras ofensivas, como se tencionasse rebaixá-la, fazer com que se sentisse diminuta. Pouco depois porém acalmava e pedia desculpas à esposa, a qual perdoava-lhe incondicionalmente.
Júlio às vezes saía no final da tarde e só retornava tarde da noite, sem dar explicações. Márcia o aguardava com o jantar e como ele não aparecia acabava jantando sozinha. E então ia deitar com o coração apertado, preocupada com a demora do marido. E quando lhe indagava acerca da demora, ou esquivava com uma mentira, ou tornava-se agressivo, acusando a esposa de querer controlar sua vida.
Certo dia ela acordou no meio da madrugada e o marido não estava na cama. Achou aquilo estranho, pois adormecera nos seus braços após fazerem amor. Pensou em chamar por ele, mas ao invés disso resolveu levantar-se. A porta do quarto estava entreaberta. E quando ela chegou ao corredor viu a luz do banheiro acesa. O que estaria ele fazendo ali àquelas horas? Será que não se sentia bem? Foi a pergunta que se fez. Mas quando chegou à porta, deparou com uma imagem chocante: sobre a pia jazia um pequeno espelho, que o marido usava para fazer a barba, e sobre este um pó branco que o marido aspirava através de um canudinho. Não teve dúvidas: Júlio estava cheirando cocaína.
De tão chocada, ela ficou sem reação. E o marido assustado, surpreso por ter sido descoberto depois de fazer de tudo para ocultar o vício, tentou contornar o incontornável. Num primeiro momento chegou mesmo a negar, mas as provas eram contundentes. Assim, acabou admitindo o vício, mas mentiu-lhe afirmando que se viciara há pouco tempo, depois do casamento.
Márcia não dormiu mais aquela noite e nem a noite seguinte. Suas olheiras, seu brilho apagado, seu esgotamento físico a prendeu dentro de casa por três dias. Não queria que os pais a vissem naquele estado, não queria que os colegas notassem alguma coisa de errado com o seu casamento. Assim, só saiu de casa quando se sentiu capaz de esconder o que se passava.
Num ato de desespero, fez o marido prometer que não usaria mais aqueles porcarias. Mas nem ela mesma acreditava nas palavras dele. No entanto isso a confortou. As vezes precisamos acreditar numa mentira a enfrentar a verdade. E assim, Márcia se agarrou à mentira para manter seu casamento.
Não tardou para que ela tornasse a surpreendê-lo usando droga. Uma tarde, após se dirigir a casa dos pais e não encontrá-los, voltou mais cedo. Embora tenha feito barulho ao destrancar a porta da sala, o marido não a ouviu entrar. Ah, não deu outra. Flagrou-o no mesmo local aspirando a droga. Fez um escarcéu dos diabos. Descontrolada, arrancou-lhe o espelho das mãos e o espedaçou no chão. Júlio, irritado com aquela histeria toda, avançou para cima da mulher e acabou por lhe acertar um murro na cara. Márcia desequilibrou-se e caiu para trás, batendo com a cabeça no vaso sanitário. Por sorte não se machucou gravemente. No entanto, a região atingida pelo murro inchou e enroxeou. Seu rosto ficou horrível e ela mais uma vez teve de ficar quase uma semana sem sair de casa. E quando a mãe ligou preocupada com o sumiço da filha, Marcia teve de mentir dizendo estar muito ocupada.
O casamento nem completara um ano e a vida daquela jovem se tornara um inferno. Agora o marido não media pudor para agredi-la. Ela não podia falar nada, reclamar de nada que se tornava vitima de sua ira. Embora ele procurasse não lhe deixar marcas onde as pessoas poderiam ver, nem sempre se comedia.
Certo dia chegou em casa descontrolado. E quando ela foi reclamar que ele estava fazendo muito barulho e a impedindo de dormir, ele partiu para cima dela. Atirou-a ao chão e, enquanto a chutava, rasgou-lhe a roupa do corpo, deixando-a inteiramente nua. Não satisfeito, queimou-lhe os seios com a ponta do cigarro.
Ela permaneceu por mais de meia hora imóvel, esquecida no soalho do quarto enquanto o infeliz roncava na cama. Dir-se-ia sentir medo de se mexer, de acordá-lo e ser novamente espancada. E quando finalmente resolveu se levantar, quase não conseguiu. Seu corpo doía-lhe todo, como se passara por um triturador. Foi até o banheiro para tomar um banho quente para aliviar-lhe a dor. Nesse interim tomou a decisão de por um fim aquele sofrimento. Não tinha coragem de voltar para a casa dos pais e dar-lhes o desgosto dum casamento fracassado na família. Sabia que tanto eles quanto suas amigas de infância, as quais não via há algum tempo, atirar-lhe-iam na cara os alertas do passado.
-- Não. Não vou passar por essa humilhação. Chaga! Não aguento mais essa vida miserável.
Foi até a cozinha, abriu a porta do armário onde ficava o compartimento de produtos de limpeza, pegou a lata de soda cáustica, pegou um punhado e engoliu; e depois outro. Para que o produto agisse com rapidez, tomou um copo de água por cima.
Agonizou por quase meia hora, antes de perder os sentidos. Júlio, dormindo sob o efeito da cocaína, não ouviu nada. E quando finalmente acordou no dia seguinte, por volta das dez horas, e foi até a cozinha, encontrou a esposa praticamente sem vida. Chegou a socorrê-la, contudo, Márcia acabou falecendo na tarde daquele mesmo dia.


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