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Contos-->As Marés -- 26/01/2004 - 11:52 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A patroa acordou com a campainha estridente, insistentemente acionada. Era Sônia, a faxineira, olhos irritados já pela manhã. – Mas por que diabo toda mulher hoje em dia é loura?- confabulou Marina com seus botões. Retornou ao quarto para prolongar um pouco mais o sono, não sem antes olhar de soslaio para o "platinum blonde" da empregada.

Abraça o travesseiro, vira pra cá, vira pra lá, desembaraça os pés do lençol, aperta os olhos, abre novamente e...não, não dá!...Melhor levantar de vez e agitar! Na cozinha, abre a geladeira e eis que uma voz migra da área para os seus ouvidos: "- Dona Marina, hoje eu tenho de sair mais cedo. Lá na Maré tá o maior sufoco.... A senhora sabe que nem dormi... Foi uma barulhada de tiro a noite inteira. Ficavam andando em cima da lage e a gente lá quietinho, quietinho...Sabe como é...guerra de bandido...e ai da gente se botar a cabeça pra fora...".

Marina tentou falar alguma coisa, mas achou melhor abreviar a história. Qualquer palavra seria imprópria e dispensável. O importante era apenas não impedir o retorno da moça antes do horário habitual, pois implicaria em desumanidade e falta de bom-senso. Afinal, pra que os noticiários se as patroas não sabem de nada, enclausuradas no conforto e recém- saídas do seu colchãozinho macio?

"- A gente que precisa, D. Marina, tem que passar por cada coisa!... A senhora sabia que semana passada mataram um menino de doze anos lá perto de casa? Tive até que sair da casa do meu patrão das quintas-feiras mais cedo. Deixei a chave com a vizinha, porque a filha dele não tinha nem chegado ainda."

A patroa resolve tomar um banho e ir ao supermercado. Ao sair, recomenda que a faxineira não abra a porta pra desconhecidos. Sônia recomeça: "- Ah, Dona Marina!...A senhora nem queira saber como tem mulher desocupada lá onde eu moro... Tudo à toa.... envolvidas com os marginais. Quando eu chego do trabalho, passo direto. Se a gente olhar, elas arranjam confusão...Encaram mesmo!... Às vezes até inventam coisa pros homens delas...Tem uma lá que já namorou o Bira e agora se envolveu com gente ruim. Porque é assim: se a gente precisa de ajuda, os home vai e ajuda...Mas depois...Uma época o Bira tava bebendo muito...não conseguia emprego, o coitado!...Falei pra mãe dele e ela nem te ligo...Chegou um dia, ele me bateu... Ah, Dona Marina!...Eu fui lá em cima, procurei o manda-chuva e ele mandou uns cara lá no bar pra dar uma prensada nele. Até aí tudo bem...só que já umas duas vezes eu tive que abrir a porta pra ele por causa de busca da polícia. O Bira nunca mais me encostou um dedo – também, covarde como ele é! ... - mas o problema é que agora a gente vai ter que sair de lá da casa...e nem sei pra onde!...O Bira tá morrendo de medo!..."

Marina ficava cada vez mais tensa..."Nossa Senhora...quanta vida horrível existe por aí!..."- pensou. Vai então pro quarto pegar a bolsa...De novo: "- Dona Marina!...Eu trouxe uma revistinhas da Avon pra senhora dar uma olhada...e uns brinquinhos também, que eu tô vendendo." A patroa responde: "- Tá bom!...tá!.. tá!..." (tátátátátátá!!!! - reage internamente....). "- Na volta eu vejo, Sônia...Pode deixar!..."

Na garagem, abre a porta do carro e senta-se ao volante. Respira fundo...Hoje é preciso: lavar o carro, ir ao Banco, fazer as compras, ir à reunião do colégio da filha, pegar o sapato do marido no sapateiro, separar a roupa suja, marcar consulta médica pro filho...e ouvir todas aquelas queixas do marido por ocasião da volta do trabalho. Será que é por isso que tem mulher que arranja amante e joga tudo pro alto?...Um sorriso ameno e rebelde aparece no retrovisor interno do carro..."Ah, Meu Deus!... A Sônia lá na Maré , uma vida tão difícil e eu aqui pensando bobagem!...Aquilo sim, é complicado!..."

Dirige até o supermercado...Mas, que fila!... É lógico, final de mês!... Pior é que não há chance de ir embora...o sabão em pó acabou e é dia da lavagem de roupa. Os pensamentos retornam na fila do caixa:. o marido cada vez mais chato, a falta de tempo para reingressar na Faculdade, o pai doente no hospital..."Mas, de novo?... A Sônia morando num lugar perigoso daqueles
e eu aqui reclamando...Isso é falta de religiosidade, diria a vovó..."

Sobe com as compras...Melhor nem pedir ajuda à empregada, tão cansada que ela está!...Mal entra em casa, encontra um bilhete na mesa da cozinha..."D. Marina, tive de ir pruque o Bira telefonou que tá passando muito mau, vou leva ele no hospital".

"Ah, não!... Isso já é demais!..." – desespera-se a patroa. E é aí que surge a brilhante idéia: não fazer coisa alguma naquele dia...Nada!...Absolutamente nada!...A idéia chega a ressoar no ambiente... até que escuta um barulho no quarto. "Estranho! Será que a Sônia ainda não se foi?..."

Atravessa a sala, pega a correspondência que descansa sobre a mesa e dobra o corredor... E eis que ele aparece subitamente!..."- Não!...Você?...Cadê a Sônia, Bira?...". Foi quando um fio de realidade ganhou terreno num coração de batidas descompassadas... Infelizmente ela não mora na Maré e provavelmente Bira não se sente ameaçado no asfalto. Não pode contar com a proteção de nenhum "manda-chuva", por pior que seja a circunstância. Ficou ali, impotente, mergulhada naqueles segundos com peso de horas. Só lhe restava esperar pelo desfecho da invasão, prestes a desmaiar, frente ao medroso e intimidado morador da (até então longínqua...) Maré.



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