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Artigos-->AGRICULTURA vs. ECOLOGIA NO COMBATE AO GAFANHOTO -- 20/11/2000 - 15:00 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos






Agricultura vs. Ecologia no combate ao gafanhoto Rhammatocerus sp.



Engº. Agrº. Paccelli M. Zahler

Serviço de Defesa Sanitária Vegetal,

Delegacia Federal de Agricultura do Ministério da Agricultura









Abstract. Agriculture vs. ecology in the locust Rhammatocerus sp. combat. This paper describes the way that has been developed the locust Rhammatocerus sp. Combat in the Campo Novo region, MT, Brazil, and calls attention to the problems that may appear with the little concern to the use of inseticide of large spectrum action over the environment.

Resumo. Este trabalho descreve a forma como está sendo efetuado o combate ao gafanhoto Rhammatocerus sp. na região de Campo Novo, MT, e alerta para os problemas que poderão advir da despreocupação com o uso de agrotóxicos de largo espectro de ação sobre o meio ambiente.



O gafanhoto Rhammatocerus sp., assumindo característica migratória, partiu da Reserva Indígena dos Parecis, no período de agosto e setembro de 1985, em direção às plantações de cana-de-açúcar das usinas de álcool da região noroeste do Estado de Mato Grosso. De lá para cá, sua área de infestação expandiu-se para cerca de 15 milhões de hectares, abrangendo os municípios de Diamantino, Lucas do Rio Verde, Nobres, Nova Brasilândia, Paranatinga e Nova Xavantina, além da cabeceira do rio Caiapó¹. Foi organizada, então, uma campanha para seu combate com a participação do Ministério da Agricultura, através da Delegacia Federal da Agricultura do Estado de Mato Grosso, Embrapa, Emater/MT, Secretaria da Agricultura do Estado de Mato Grosso e FAO².



No período de 26/08 a 19/09/86, a Delegacia Federal da Agricultura do Estado de Mato Grosso, através do Serviço de Defesa Sanitária Vegetal (SERDV/DFA/MT), instalou uma base no distrito de Campo Novo, município de Diamantino, MT, próximo à Reserva Indígena dos Parecis, com o objetivo de efetuar o combate às nuvens de gafanhotos que prejudicavam as lavouras de cana-de-açúcar dos cooperados da usina de álcool local. Lá, foi possível entrar em contato com os moradores e produtores rurais da região e colher informações sobre o gafanhoto, bem como efetuar algumas observações sobre seu comportamento em condições de campo. Tais informações encontram-se reunidas abaixo, juntamente com uma análise do problema.









Antecedentes



O distrito de Campo Novo, município de Diamantino, MT, localizado próximo à Reserva Indígena dos Parecis, segundo informações do sr. João Florêncio Netto, morador local há seis anos, teve seu crescimento acelerado nos últimos cinco anos com a chegada de colonos do sul do país (gaúchos, catarinenses e paranaenses), que lá se estabeleceram para desenvolver a agricultura e a pecuária.



No início, a região era coberta com vegetação de cerrado, a qual foi pouco a pouco derrubada, queimada e seu solo preparado para o plantio de culturas comerciais.



Os produtores se reuniram em uma cooperativa e, incentivados pelo Pro-Álcool, construíram uma usina para a destilação do álcool de cana-de-açúcar.



Como o solo do cerrado não oferece condições para o crescimento da cana-de-açúcar, logo após a derrubada da vegetação, é plantado: arroz de sequeiro no 1º ano; soja, no 2º e 3º anos; e cana-de-açúcar do 4º ao 7º ano; voltando-se à soja no 8º ano. Devido à necessidade de manter a usina de álcool em funcionamento, a cana-de-açúcar atualmente se constitui na cultura principal de Campo Novo, cobrindo uma área de cerca de 5.000 ha. Todavia, a meta dos cooperados é atingir 10.000 ha de cana-de-açúcar no ano de 1987 (informações pessoais do sr. João Alfredo, da Fazenda Cristina).



Em agosto e setembro do ano de 1985, os agricultores ficaram apreensivos com a possibilidade de perderem suas lavouras com o ataque dos gafanhotos, os quais surgiram em grandes nuvens, vindas da Reserva Indígena dos Parecis. Imediatamente, os órgãos ligados ao setor agrícola foram acionados para efetuarem o combate à praga.





Combate ao Gafanhoto





O combate ao gafanhoto está sendo feito através da instalação de uma base na área infestada, sob a responsabilidade de uma equipe de técnicos do Ministério da Agricultura. Esta equipe entra em contato com os produtores (ou é procurada por eles) e colhe informações sobre as áreas atacadas. Na lavoura, a equipe avalia o nível de ataque e a dimensão da área infestada. Se for o caso, aciona um avião agrícola para pulverizá-la com inseticida.



O controle químico das nuvens e bandos está sendo feito com “Malatol” (produto organofosforado à base de malatiom, de baixa toxicidade, com um período residual de 4 a 5 dias, porém de largo espectro de ação³), na dosagem de 1,0 litro. ha-1; e com “Sumithion” (produto à base de fenitrotiom, também organofosforado, que age por contato e ingestão, de média toxicidade, com um período residual de 7 a 28 dias e de largo espectro³), na dosagem de 0,3 litros.ha-1.











Problemas no Combate ao Gafanhoto





O contato com os produtores de Campo Novo, MT, no período de 26/08 a 19/09/86, possibilitou a constatação de inúmeros problemas no combate ao gafanhoto. O primeiro deles é que o agricultor não está suficientemente esclarecido quanto à biologia do gafanhoto, quanto ao nível de infestação da praga, quanto ao uso de produtos químicos e ao efeito dos mesmos sobre a sua saúde, a praga e o meio ambiente. Um dos produtores veio procurar a equipe, relatando que sua lavoura estava totalmente infestada (realmente estava) e que ele já havia tentado tudo, inclusive pulverizado com “Tamaron” (organofosforado sistêmico, de largo espectro, que age também por contato e ingestão e é altamente tóxico³) e não adiantou nada. Outro produtor estava uma mistura de “Sumithion” (já descrito) com “Furadan” (carbamato sistêmico, de largo espectro, que age também por contato e ingestão e é altamente tóxico³). Durante a aplicação desta mistura, os gafanhotos iam caindo, só que as nuvens sempre voltavam.



Como o Rhammatocerus sp. é migratório, ele tende a se refugiar no cerrado e em determinados períodos volta à lavoura de cana-de-açúcar. Devido as extensões de cultivos, as pulverizações aéreas freqüentemente se estendem às áreas de cerrado que as margeiam.



Corre entre os agricultores a idéia de que o problema com o gafanhoto somente irá acabar quando as áreas de cerrado forem eliminadas.



Como o ataque do Rhammatocerus sp. não se restringe unicamente à cultura da cana-de-açúcar, atingindo também o arroz, milho, pastagens e a soja, alguns produtores ficam preocupados com os próximos plantios e procuram a equipe do Ministério da Agricultura para que a terra preparada para o plantio também seja pulverizada, como se o produto utilizado no combate fosse uma panacéia.







Discussão



Os gafanhotos vêm causando prejuízos à agricultura há muitos anos e pesquisadores do mundo inteiro têm se empenhado no estudo da biologia desses insetos.



O Brasil sofreu os primeiros ataques nos anos de 1938-42 e 1946, quando o Schistocerca americana, procedente da Província de Santa Cruz, Argentina, causou sérios danos às lavouras dos três estados do Sul4). Entre 1969 e 1971, foi a vez do Rhammatocerus pictus prejudicar as lavouras da região de Alta Sorocabana, São Paulo5. Mais recentemente (1983-84), foram verificados ataques de Schistocerca pallens no Nordeste6 e de provavelmente uma nova espécie do gênero Rhammatocerus no Estado do Mato Grosso¹, a qual, partindo da Reserva Indígena dos Parecis, onde , segundo informações obtidas em Campo Novo, MT, têm seu hábitat natural no cerrado daquela reserva, sendo utilizado pelos índios, há muitos anos, como isca para a pesca, tem se expandido para os municípios do norte e leste daquele Estado, compreendendo uma área de 15 milhões de hectares (dado de março/86), ameaçando atingir o Estado de Goiás.



É difícil explicar o processo que regula o nível de uma população de gafanhotos e determinar a mudança da fase solitária para a migratória, enquanto não for obtida uma tabela de vida para esses acridídeos7. Entretanto, foi observado que seu comportamento é afetado pelas condições climáticas8. Para o gafanhoto australiano Chortoicetes terminifera foi encontrada uma melhor correlação entre o aparecimento de nuvens daquele gafanhoto e um índice de precipitação9. No Arizona, EUA, foi verificada uma diminuição na população dos gafanhotos em anos de menor precipitação pluviométrica10. Entretanto,, Cosenza5 relacionou o ataque do gafanhoto-crioulo ou gafanhoto-tucura no norte de Minas Gerais em 1971-72 à baixa precipitação pluviométrica em relação à normal, ocorrida naquele período, discordando do trabalho anterior10 porque a vegetação na região era mais exuberante que no Arizona, EUA, no mesmo período.



Comparando registros de nuvens de Schistocerca gregaria entre julho e novembro de 1950, no nordeste da África, sul da Arábia Saudita e norte da Índia, Rainey11 verificou que as nuvens desse gafanhoto acompanhavam ou localizavam-se nas vizinhanças da Zona de Convergência Intertropical, onde as precipitações são mais prováveis.



Na opinião de Müller12 , a mudança da fase solitária para a fase migratória em Locusta migratoria e Schistocerca gregaria é controlada por glândulas chamadas corpora alata e não acontece por falta de alimento, mas por um aumento da taxa de reprodução e densidade da população, as quais estariam relacionadas com maiores precipitações pluviométricas em regiões próximas e seriam favorecidas pelas elevações de temperatura que ocorrem quando a pressão atmosférica baixa. Segundo Baron13, os gafanhotos, guiados pelo vento, seriam carregados para locais onde há solo úmido, adequado à oviposição, à germinação de sementes e ao desenvolvimento de plantas perenes que irão fornecer alimento para os saltões. No caso do Rhammatocerus sp., em Mato Grosso, foi verificado que seu ciclo é de 12 meses e que a fase de saltão ocorre entre janeiro e março, coincidindo com o final do período chuvoso, enquanto a vegetação do cerrado se encontra exuberante.



Cosenza e Pacheco6 relatam que o gafanhoto do Nordeste Schistocerca pallens normalmente não é migratório, mas em período de seca no cerrado, quando as gramíneas desaparecem, ocorrem vôos de dispersão em direção às lavouras, preferencialmente cana-de-açúcar. Foi observado em condições de campo que o Rhammatocerus sp. começa a apresentar vôos de dispersão a partir de abril-maio, quando a seca começa a se fazer sentir, atacando as lavouras. Os níveis críticos de ataque são atingidos no período de julho a setembro, época de maturidade sexual e acasalamento, a qual coincide com a estação seca, quando a vegetação do cerrado também seca, reduzindo sua possibilidade de alimentação, mas deixando suscetíveis as lavouras de cana-de-açúcar que nesse período estão próximas do ponto de colheita.



Clark14 verificou que o número de gafanhotos australianos, Chortoicetes terminifera, era grandemente limitado pela presença de árvores, porém não estava relacionado com a densidade delas, mas com um “efeito barreira” em altura e em grande parte devido à redução da intensidade de luz que elas produzem. Na visita à região de Campo Novo, MT, em setembro/86, obteve-se informação de que havia 5.000 ha com cana-de-açúcar; essa área seria ampliada para 10.000 ha em 1987. Convém ressaltar que isso vem acontecendo em outras áreas daquele Estado, cuja agricultura está em grande expansão.



Os ataques às lavouras, não só de cana-de-açúcar, mas de outras culturas em diferentes épocas do ano, poderiam ser amenizados pela presença de predadores naturais. Entretanto, a ema, a seriema e a perdiz, as quais alimentam-se de insetos, estão se afastando cada vez mais das áreas de cultivo, tendo como causas principais o desmatamento desenfreado e a caça predatória do homem. A situação é tão grave que para o combate ao gafanhoto no Nordeste já se recomenda a introdução de aves predadoras, como a galinha-d’angola1,4.



A aplicação de inseticidas de largo espectro em áreas virgens de cerrado, muitas vezes infelizmente necessária para impedir que a nuvem de gafanhotos se desloque para a lavoura; ou o uso de produtos altamente tóxicos por parte dos agricultores (como as misturas já citadas) sem a orientação do Ministério da Agricultura, pode estar acabando com os poucos inimigos naturais que ainda restam (como dípteros, vespas, percevejos predadores) e contribuindo para o surgimento de uma nova praga que se encontre sob controle na vegetação do cerrado; pode ainda provocar o surgimento de resistência fisiológica na praga, de modo que sejam necessárias dosagens cada vez mais altas para o combate 4,16,18, ou causar a morte das aves domésticas e silvestres, pois, como foi observado no campo, alimentam-se dos gafanhotos mortos ou agonizantes, imediatamente após a aplicação do inseticida, pela ingestão de grande quantidade de presas contaminadas, como já ocorreu com o tordo migrador americano Turdus migratorius, nos EUA, após ingerir minhocas contaminadas pelo DDT, que havia sido aplicado sobre os olmos e contaminou o solo15.







Conclusões





Diante do que foi exposto pode-se concluir que:



1. o combate ao gafanhoto na forma como está sendo realizado justifica-se apenas como medida de emergência porque a expansão da praga tem sido muito rápida;



2. deve-se esclarecer os agricultores sobre o problema, a forma de controle, o nível de infestação da lavoura que justifique o controle e o momento em que esse controle deva ser feito, para evitar que utilizem “fórmulas” próprias para o combate à praga;



3. as observações de campo sugerem que o surgimento e a expansão do gafanhoto Rhammatocerus sp. em Mato Grosso estão ligados às condições climáticas da região, ao desmatamento desenfreado e à abundância de alimentos (lavouras de cana-de-açúcar) na época seca;



4. deve-se incrementar os estudos sobre a biologia e a ecologia do gafanhoto Rhammatocerus sp. de modo a estabelecer estratégias para um controle menos agressivo ao ambiente.







Notas e Referências





1. G.W.Cosenza – O gafanhoto ataca novamente. Jornal do Engenheiro Agrônomo, nº 1, p.5. Associação de Engº Agrº do Estado do Mato Grosso, Cuiabá (1986).



2. Anônimo – Algumas informações sobre a área de infestação da praga de gafanhotos no Estado do Mato Grosso. Jornal do Engenheiro Agrônomo, nº 1, p.5. Associação de Engº Agrº do Estado do Mato Grosso, Cuiabá (1986).



3. E.Andrei (coord.) – Compêndio de defensivos agrícolas. Editora Andrei, São Paulo (1985).



4. R.B.Silva – O gafanhoto: uma praga imprevisível. Informativo SERDV/DFA/SE. Aracaju, nºs. 2-3: 1-9 (1986).



5. G.W.Cosenza – Uso da aplicação aérea e terrestre de inseticidas para o controle do gafanhoto em Minas Gerais. Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, 6(2):295-300 (1977).



6. G.W.Cosenza e J.O.M. Pacheco – Controle do gafanhoto no Nordeste(Schistocerca pallens). Embrater, Brasília (1985).



7. G.C.Varley, G.R.Gradwell e M.P.Hssel – Insect population ecology: an analytical approach. Blackwell Scientific Publications, Oxford (1973).



8. B.P.Uvarov – Insects and climate. Transactions of the Royal Entomological Society of London, 79:1-247 (1931).



9. K.H.L. Key – The general ecological characteristics of the outbreak areas and outbreak years of the Austtrallian plague locust (Chortoicetes terminifera Walk). Bull. Counc. Scient.ind. Res. Mellb., 186:1-127 (1945).



10. N.J.Nerney e A.G.Hamilton – Effects of rainfall on range forage and populations of garsshoppers. San Carlos Indian Reservation, Arizona,Journal of Economic Entomolofy, 58:559-565 (1969).



11. R.C. Rainey – Weather and the movements of locust swarms: a new hypothesis. Nature, 168:1057-1061 (1951).



12. P.Muller – Introducción a la zoogeografía. Blume, Barcelona (1975).



13. S.Baron – The desert locust. Eyre Methuen, Londres (1972).



14. L.R.Clark – On the abundance of the Australian plague locust Chortoicetes terminifera (Walker) in relation to the presence of trees. Australian Journal of Agricultural Research, 1(1):64-75 (1950).



15. J.Dorst – Antes que a natureza morra. Edgard Blucher, São Paulo, 394 p. (1973).



16. S.Gravena – Manejo integrado de pragas. Ciência Hoje, 5(28):34-40 (1987).



17. L.C. Naidin – Um mercado sob reserva. In Defensivos agrícolas ou agrotóxicos? Ciência Hoje, 4(22): 53-56 (1986).



18. G.C.Ullyett – Insects, man and the environment. Journal of Economic Entomology, 44(4):459-464 (1951).



Artigo recebido em 19/nov/86.

Aceito para publicação em 29/mai/87.



Autor

Paccelli M.Zahler – engenheiro agrônomo, Serviço de Defesa Sanitária, Delegacia Federal de Agricultura do Ministério da Agricultura (SERDV/DFA/MA/DF). SAS – Q 05 – Lote 08. Ed. Ceplac, 3º andar. 70070, Brasília, DF.







[Publicado na Revista Ciência e Cultura 39(8):703-706 (1987)]







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