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Contos-->MUAMBEIRO -- 07/09/2003 - 19:18 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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MUAMBEIRO



João Ferreira
07 de setembro de 2003

O povo estava em festa e assistia, na Esplanada dos Ministérios ao desfile da Independência, com Lula no camarote presidencial.
Eram dez da manhã. Duas esquadrilhas, uma de caças e outra de helicópteros troavam nos ares. Das sacadas e janelas, os brasilienses acompanhavam os aviões. As televisões estavam abertas e mostravam os festejos e os desfiles.O céu límpido e ensolarado dava aos rostos candangos um tom de festa pátria. Os Eixões Norte e Sul apresentavam-se coloridos, movimentados e alegres. As crianças curtiam suas palhaçadas e seus brinquedos e Brasília dava uma amostragem de sua cidadania.
Na concentração popular, bem no Eixão Norte, estava ele, o Muambeiro. Era um nome que ganhara desde há muito tempo devido às suas viagens até ao Paraguay onde ia de tempos a tempos buscar mercadoria na cidade paraguaia de Ciudad Del Este.
Viera do interior de Goiás para a capital Federal para trabalhar em canteiros de obras como servente. Fora criado numa fazenda lá para os lados de Cachoeira Dourada. Nas noites enluaradas de Brasília lembrava as veredas de sua terra, as várzeas e os buritis balançantes, em leques garbosos de elegância e de majestade. Recordava as lindas flores brancas raiadas do pequizeiro que animavam o cerrado em sua infância. Trazia na memória as imagens dos pássaros mais familiares em seu tempo de infância. Sobretudo os bem-te-vi e o sabiá, que no final do inverno, quando a natureza ensaiava seus primeiros brotos costumavam cantar as baladas de um amor que se avizinhava.
Do que aprendeu no campo, a melhor lição que trouxe para a cidade foi a luta pela vida. Quando os matos goianos estouravam no tempo seco e crepitavam envolvidos em chamas devoradoras, Muambeiro habituou-se à idéia segura de que o que resta na vida, de bom mesmo, “é conseguir estar e crescer no mato sem se queimar”. Era uma idéia que aprendeu na sua vida rural quando via alguns troncos do cerrado resistirem no meio das chamas e depois crescerem apesar de levemente chamuscados. Havia árvores como a sucupira e o angico que jogavam seus ramos lá para cima e iam driblando o fogo fazendo uma armação natural de crosta contra o fogo para preservarem sua vitalidade.
Muambeiro estava mentalizado para exercer sua nova atividade em condições normais ou no meio do fogo, buscando não se queimar. Sabia que para onde quer que se virasse tudo era risco. Mas mesmo assim achava que valia a pena arriscar. Risco por risco, adivinhava que seu risco era menor que o risco-Brasil diante dos investidores e do FMI. O Brasil que para os pessimistas ia mal e representava um risco de investimento internacional, continuava pujante e próspero para os otimistas. Muambeiro teria que acreditar que o caminho se faz caminhando. Fez disto sua filosofia inabalável. Tinha que arriscar. Os canteiros de obras da capital não garantiam mais aquele dinheiro certo que os pioneiros ganhavam nos tempos de ouro de Juscelino. Brasília era agora uma cidade como outra qualquer onde os espaços estavam ocupados e a luta se tornava na primeira moeda da economia individual e social. Os novos dados comerciais mostravam que ele tinha que se virar. E a maneira acessível era fazer da comercialização da muamba paraguaia sua fonte de renda.Mesmo correndo riscos.
Em excursões organizadas a partir do Plano Piloto, Muambeiro passou por isso a integrar-se nas comitivas que viajavam em ônibus fretados rumo a Foz do Iguaçu. A primeira vez foi como turista. Não levava por isso preocupações especiais nem grana. Só um dinheirinho para a viagem e para o hotel e para trazer um radinho de pilha para seu uso pessoal.
Mas no decorrer da viagem, alguns muambeiros experientes o puseram a par das peripécias da estrada. Sem muita cerimônia, foram-lhe contando algumas histórias sobre estas viagens ao reino da muamba. Algumas eram até de amor. Casais que se conheceram em plena viagem e que tiveram sucesso na vida. Outras histórias falavam de grandes lucros de gente competente e audaciosa. Mas outras eram estarrecedoras, com bandidos e polícia disputando a tranqüilidade dos passageiros dos ônibus fretados. Mesmo assim, em sua cabeça imperava a aventura e o sonho. Queria conhecer de perto as Sete Quedas em Iguaçu. E também a hidrelétrica de Itaipu. Tudo valeria a pena. Logo que chegaram ao destino, depois de uma desgastante viagem, adorou quando passou da Foz para o lado paraguaio. Atravessou a ponte da Amizade e viu-se em plena Ciudad Del Este, já no Paraguai. Era a primeira vez que em sua vida atravessava a fronteira que separava seu pais de um país vizinho. Como se tivesse entrado numa Disney, tudo era maravilhoso para Muambeiro. Olhos arregalados, ia curtindo imagens de objetos e preços, tentando construir sua vida de amanhã. E já ia idealizando os preços de venda e seus próprios lucros. Não tinha grana, de momento, mas na próxima vez traria a grana necessária.
Olhava tudo com atenção. As lojas variadas e as mercadorias. Entrava nas grandes casas comerciais dos chineses, dos coreanos e de outros estrangeiros e pedia licença para olhar a mercadoria. Por vezes, acudia uma simpática recepcionista ou vendedora. Era prestígio para ele. Os preços pareciam em conta. Poderia dobrá-los uma vez e meia em sua região. Era tentador, sim. As ruas estavam apinhadas de brasileiros que davam a esta cidade uma movimentação fora do comum. Aqui corria muito dinheiro e os negócios eram sedutores e incríveis. A grande clientela era verde-amarela. O dólar, o real e o guarany eram as moedas da transação. Grandes caravanas de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e DF, demandam Foz de Iguaçu como a cidade nuclear de muitas operações turísticas e comerciais. Daqui se repartem as excursões para a barragem multinacional de Itaipu e para Iguaçu na Argentina, e, sobretudo, em enormes grupos para fazer compras em Ciudad Del Este, no Paraguay.
Muambeiro estava começando esta sua experiência. Também ele tinha ido em sua primeira viagem como turista. Na verdade, tudo começa em nome do turismo, mas aos poucos as coisas vão se misturando e se tornando menos claras. Os primeiros turistas, viram, habitualmente, em grande maioria muambeiros também, atraídos pelos lucros possíveis e mirabolantes que poderão ter em sua região. Televisores, rádios, computadores, celulares, telefones tradicionais, jogos de criança, brinquedos, disquetes, cds, óculos escuros, canetas, relógios, perfumes, cosméticos, roupas, tapetes, lingerie, baralhos, jogos de mesa, whiskys, vinho do Porto, vinhos finos de muitos países e licores de marca importados. Há de tudo, de tudo. Do que você imaginar. Sobretudo, muitas novidades tecnológicas que vão aparecendo no mercado. Dependendo da cobiça e da vontade dos clientes, os muambeiros vão servindo de intermediários e fazendo seus negócios, vendendo as mais diversas muambas. As praças brasileiras são testemunhas da variedade destes artigos. Em certas capitais já há instaladas as feiras do Paraguay, que se tornaram as centrais de venda pública deste tipo de artigos trazidos desse país.
Nosso Muambeiro só em visitar o país da muamba já se mentalizou para entrar no esquema. Sua fantasia começou a trabalhar de verdade. Só teve o trabalho de ir imaginando e aprofundando um esquema de venda e de crescimento com dinheiro rotativo e clientela selecionada. Passou a pensar em brinquedos de criança e em eletrodomésticos que poderia vender em excelentes condições na capital Federal.. As coisas iriam melhorar e crescer no dia em que tivesse uma longa lista de clientes que lhe encomendassem a compra direta de artigos em Ciudad Del Este. No dia que atravessou a ponte da amizade pensou nisso. Imaghinou que podia vender como tantos estão fazendo com imposto mínimo ou até sem imposto. Na primeira viagem já trouxe uns radinhos de pilha que ensaiou como primeira venda junto de uns amigos. Depois, fez como todo o mundo fazia. Preparou uma segunda viagem. Esta, sim, verdadeira, em termos de negócios. Para ela já foi organizando uma lista de pedidos de compras de pessoas interessadas na área de comunicações, brinquedos e pequenos aparelhos eletrônicos.
O dia da excursão chegou. Desta vez já viajou como muambeiro. Seria tudo diferente. Levava dinheiro e iria correr o risco da compra na estrada procurando trazer a salvo sua mercadoria até ao local de venda. Tinha bem claro o tipo de negócio que iria fazer. E teve sorte. Tudo lhe correu bem. Ganhou um bom dinheiro e não perdeu tempo. Com esse dinheiro conseguiu alugar uma barraca na Feira do Paraguay, perto do Setor de Indústria, em Brasília. Colocou no balcão a mulher, o filho mais velho e uma filha. Agora iria viajar com regularidade para garantir as vendas em sua loja. Seria a forma de desenvolver seu negócio e regularizar suas economias.
Depois de duas viagens bem sucedidas, numa terceira viagem, o ônibus foi assaltado em plena noite entre Cascavel e Campo Mourão. Era um grupo de bandidos profissionais armados de metralhadora, todos de rosto encapuzado. Foi um assalto violento. De metralhadora em punho, os bandidos obrigaram todo o mundo a tirar a roupa, para que houvesse a certeza de que todas as bolsas e esconderijos do dinheiro tinham sido identificados. Foi uma cena desoladora. Sem dó nem piedade nem respeito, os bandidos agiram com violência. Mulheres chorando ou gritando constrangidas, calados muitos homens. A cena tornou-se horrível e dramática. Conseguindo o que queriam, roubaram toda a grana e mercadoria. Carregaram num caminhão e foram embora.. Todo o ônibus foi depredado. No fundo, uma experiência triste.
O golpe desta viagem atingiu duramente a estrutura econômica de Muambeiro, mas rapidamente se recompôs. Noutra viagem, a Receita Federal parou o ônibus e cobrou rigorosos impostos de todos os muambeiros. Houve casos também com a polícia mas estes são alguns capítulos que constam necessariamente de quem se rege pelo estatuto da muamba. Ganhar dinheiro correndo riscos.
Muambeiro estabilizou. Seus negócios hoje estão bem. Vive num bom condomínio nos arredores de Sobradinho. Possui vários lotes de família. Tem dinheiro no Banco.
Hoje, dia da pátria, tal como seu país, sente que sua vida é um risco. Mas sua filosofia matuta lhe diz que viver, em si, já é um risco. E viver assim é apenas um degrau do risco.
Muambeiro celebrou no Eixão Norte a festa pátria de 7 de setembro. Tranquilo. Tranquilo, porque decidiu negociar só muamba limpa, daquela que não tem rabo de foguete. Esta é a estrada de Muambeiro, um sujeito que conta pontos no mapa social da economia informal do país.


João Ferreira
7 de setembro de 2003
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