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Artigos-->Relato de uma experiência plural(?)! -- 05/11/2000 - 13:23 (Ana Maria Reis Macedo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos




Fevereiro de 2000. Escola Municipal de Belo Horizonte. Sala de aula. Primeiro ano do terceiro ciclo. Alunos de uma turma intitulada “Projeto”. A maioria com 10 anos de escolaridade. Idade variando entre quatorze e dezenove anos. O Currículo estabelecido: três aulas semanais de uma hora de Matemática, Geografia, História e Ciências, duas aulas semanais de uma hora de Educação Física e Inglês e uma aula de uma hora de Educação Artística, duas aulas semanais de Português, uma aula destinada ao Projeto afetivo Sexual com a metade da turma em revezamento com a aula de Português. Objetivo: cumprimento do ciclo de três anos em um ano.

A proposta foi apresentada pela Direção da Escola, individualmente a cada professor que comporia a equipe de trabalho. Os alunos foram selecionados a partir das “bombas”: conseqüentemente a disparidade entre ciclo, ano e idade. Uma reunião inicial com o grupo de profissionais e alunos foi realizada e puderam argumentar a direção da Escola , o grupo de profissionais e alunos. Procurou-se enfatizar a oportunidade que estava sendo dada a esses jovens a qual eles deveriam corresponder. O tom usado era mais para a dádiva do que para o direito de aprender a ler, escrever, contar, vivenciar experiências, participar de um grupo de aprendizagens. Os alunos manifestaram-se individualmente sobre o desejo de fazer parte desse “grupo de acelerados”. Todos os ditos foram na direção do agradecimento. E assumiram um compromisso verbal de estarem se esforçando para retribuir a confiança depositada neles. Uma comoção geral. Foi então feita uma proposta por um dos profissionais para que se estabelecessem combinados para a convivência do grupo nos aspectos relacionamento e envolvimento na proposta pedagógica a ser executada.

A partir dos significados das palavras combinado e convivência foi estabelecida uma carta de princípios que norteariam a convivência na Escola e na sala de aula: a Escola é um direito do aluno; a sala de aula é um espaço de aprendizagem e alegria; todos têm o direito de expressar seu pensamento sem ser interrompido ou ridicularizado; quando uma pessoa estiver falando a outra deve escutar; os alunos devem estar atenciosos nas explicações do professor; devem respeitar uns aos outros; devem abolir a “zuação” por qualquer motivo; devem ajudar-se mutuamente nas atividades; devem fazer os exercícios e o para casa; devem trazer o material completo; devem participar das atividades que forem propostas na sala e na Escola; devem respeitar o direito de quem não gosta de ser chamado por apelido; devem manter um clima de organização quando o professor sair da sala e/ou durante a troca de professores; devem respeitar a fila na hora da merenda; devem respeitar o corpo do outro, evitando brincadeiras de toques com quem não gosta; alunos e educadores devem ter compromisso com a Escola, evitando faltar, atrasar na entrada, na volta do recreio; os alunos e educadores devem ter interesse e responsabilidade; não devem gritar na sala de aula; devem procurar a compreensão como base do relacionamento; o educador deverá explicar até o aluno entender; os educadores devem ser mais legais com os alunos e os alunos devem ser mais legais com os educadores; não deve haver agressão física nem verbal nem por parte dos alunos nem dos educadores; devem manter o ambiente limpo e organizado.

Mesmo havendo a compreensão que os combinados não esgotariam na relação sala de aula /professores/alunos era um primeiro passo na tentativa de construir coletivamente as regras de convivência.

O primeiro texto coletivo da turma estava produzido. Durante a construção foram apontados aspectos textuais como coesão e coerência,, a intenção do texto, os aspectos ortográficos, as regras de acentuação, a pontuação. O texto coletivo transformou-se em Documento e foi entregue para a Direção da Escola e cada um dos profissionais que estava envolvido com a turma. Cada aluno recebeu um texto para ser afixado no caderno. Um cartaz foi feito para ser afixado na sala. Nosso compromisso era revisar a cada período os combinados para serem suprimidos caso não fossem, na prática efetivados ou não suportassem mais o contexto e/ou acrescidos outros itens que julgássemos importantes. Teoricamente perfeito. Os combinados seriam nosso ponto de partida para revisar as relações na sala de aula. Sabíamos da importância dessa revisão. Insistentemente procurávamos, alguns profissionais, retomar os combinados. Embora os combinados tivessem calcados na política do não que é própria da Escola Tradicional e do isolamento do contexto Escolar, pois a prática de combinar não se estendeu às outras turmas da Escola e de realmente a turma ser tratada como uma ilha... era tudo que havíamos conseguido até ali.

Os desafios não tardaram a acontecer. Ausências constantes, negativa ao trabalho proposto, escolha das aulas que seriam assistidas, tratamento vulgar e desrespeitoso com alguns profissionais, recusa em ouvir a coordenação disciplinar e pedagógica, ausências deliberadas da sala aula formaram o cotidiano dessa turma. Um sem fim de conversas por parte da coordenação pedagógica e disciplinar atentando aos alunos para os combinados e com os pais daqueles alunos que insistiam em desrespeitá-los, a insistência em aproveitar o tempo foram em vão com a grande maioria dos alunos. Rompemos os combinados. Não na relação dialógica como era objetivo. Ele foi sendo rompido aos poucos, na prática.

Quando numa reunião pedagógica, discutíamos um dos combinados ditados pelos alunos que se não houvesse adaptação na turma os pais seriam avisados e que esse aluno teria um lugar em outra turma chamada “normal, tivemos a informação por parte da direção da Escola que a turma “Projeto” não poderia ser reorganizada e que pela proposta da Escola Plural aqueles alunos teriam o direito de estarem se formando no fim do ano por causa da idade. Embora argumentássemos sobre a importância de estar garantindo junto a esses alunos as suas próprias palavras, a intencionalidade educativa dos combinados e que não é proposta da Escola Plural a não construção do conhecimento independente da idade... não tivemos sucesso. O que fazer? De onde retomar? Como resgatar o processo?

Adaptação: palavra mais oca. O que parte do grupo de profissionais pretendia era conscientizar esse aluno para que ele se inserisse, com sua experiência escolar num contexto que havíamos criado e não apenas adaptá-lo. Talvez um contexto imaginário..

As relações disciplinares foram se agravando até a perda geral do controle e a turma tomou conta da Escola. Um dos alunos circulava pela Escola com um abaixo-assinado objetivando expulsar a Coordenadora Pedagógica alegando que esta havia acusado dois alunos da mesma turma de porte de drogas. Discutimos a questão no coletivo do turno e com a representante legal do aluno e apontamos para a transferência desse aluno. Pensávamos na transferência para que o aluno pudesse conviver com outros grupos num outro espaço, já que ele agia tutelado por alguns profissionais da Escola neste, e em outros casos. Buscamos como parceiros para essa discussão os integrantes do Conselho Tutelar, além dos profissionais que trabalham no Departamento de Educação. Esses dois órgãos nos levaram a crer que deveríamos trabalhar com esse aluno buscando o resgate da sua relação na Escola. Comprometeram-se a ajudar o grupo de profissionais e o aluno assistindo-o quando necessário. Esse episódio detonou uma série de outros: esse mesmo aluno arremessou contra um dos profissionais da Escola uma bomba de fabricação caseira insistindo que a falha seria recuperada com um tiro, pois a bomba não chegou a atingir ao profissional. Outro aluno envolvido no episódio do abaixo-assinado quebrou o pára-brisa do carro de uma professora e tendo sido delatado por colegas confirmou o feito. Outro aluno retirou da bolsa que estava sobre a mesa da professora, enquanto ela fazia correções de atividades nas carteiras e se mantinha de costas, seu documento de identidade permanecendo com ele por dois dias e meio e ao ser delatado por uma aluna testemunha do feito... devolveu-a A professora registrou queixa na delegacia evitando envolver o menor e foi aconselhada pela direção da Escola a não levar mais bolsas para a sala de aula. Outro aluno colaborou com outro de outra turma a retirar da bolsa de uma outra professora um aparelho de telefone celular. A professora dando falta do aparelho, telefonou e o aparelho tocou na mochila do aluno. Um outro aluno na saída da Escola proferiu uma “bombinha” contra a Coordenadora. Um grupo de alunos usando cenouras encontradas no lixo atiram-nas contra uma professora. Ao encaminhá-los para a direção da Escola para discussão do caso ouviu ser a palavra dela contra a do grupo de alunos já que esses diziam não terem feito o que ela afirmava. Um outro aluno pulou o muro da Escola para “zuar” na hora do recreio e como encontrou um desafeto seu, iniciou uma perseguição pelos corredores da Escola e ao proferir um chute a esmo golpeou uma professora que passava. A professora teve o tendão do braço deslocado, ficou afastada da Escola e continua em tratamento médico. São apenas alguns exemplos, apenas para citar os acontecimentos mais graves, embora o desrespeito verbal com toda espécie de palavra de baixo calão ditas insistentemente alto e em bom tom para quem quer que atravessasse o caminho desses jovens.

Simultâneamente ao processo da convivência foram feitas tentativas de organização pedagógica, já que a maioria dos alunos, após perfil realizado demostrava ter percorrido um caminho irregular em relação a escrita e leitura. Alguns apresentavam dificuldades em grafar o próprio nome. Embora em algumas reuniões pedagógicas tenha-se notado um esforço da Coordenação Pedagógica para alinhavar um pensamento em torno de uma proposta, cada profissional continuou com sua construção prévia, impedindo assim que a circulação das idéias acontecesse consolidando objetivos comuns. Enquanto parte da equipe pensava e executava a idéia “espécie de supletivo” e que a cada “bimestre” pudesse ser condensado o “conteúdo” que deveria ser ministrado ao longo dos três anos do ciclo; outra parte pensava e executava outra concepção: partir do perfil daquele aluno, análise das sucessivas “bombas” com o próprio aluno, diálogo sobre a referência da sala de aula, e sobretudo puxar o fio da meada onde o conhecimento havia sido interrompido e/ou descontinuado.

Nesse impasse conceitual iniciamos o trabalho tentando construir um grupo com os adolescentes. Nas primeiras reuniões pedagógicas detectou-se a dificuldade do grupo formado por oito profissionais lançar olhares na mesma direção, visto que os valores educacionais estavam cristalizados. Como cada dia era uma novo encontro com os alunos optamos pelo trabalho em duplas de profissionais com afinidades pedagógicas e que estavam mais abertos ao fazer em conjunto.

As duplas de trabalho não se consolidaram. Constantes ausências e atestados médicos dos profissionais, individualismo por parte de outros, evitando inclusive a participação nas reuniões pedagógicas, quando procurávamos pensar coletivamente sobre os trabalhos, os horários diferenciados dos profissionais atendendo a interesses particulares impedindo assim que o coletivo se estabelecesse, além das diferentes posturas sobre os combinados estabelecidos com os alunos, o afastamento da direção da Escola do turno e da proposta, as ausências contínuas dos alunos ferindo o primeiro combinado, a cada dia tínhamos um grupo diferente de alunos na sala para dar prosseguimento, a falta de material inclusive lápis e um lema: “não vou fazer nada hoje!” impediram realmente que a turma “Projeto” existisse de fato.

Agosto, novo semestre, novas tentativas. Na primeira semana recebemos uma notícia por parte da Direção da Escola que seria realizada uma reunião com os pais dos alunos da turma para que eles pudessem assinar o encaminhamento para o segundo grau. Quando argumentou-se que muitos alunos não haviam correspondido à proposta e/ou nós, profissionais, não estávamos dando conta dela e que precisávamos rever o processo para uma decisão, recebeu-se a resposta que era direito dos alunos estarem no segundo grau. Caso algum aluno recorresse a uma instância superior, a Escola deveria encaminhá-lo para a Escola Estadual mais próxima para que ele pudesse cursar o segundo grau ...e “que essa era a proposta da Escola Plural”.

Quanto afastamento da concepção Plural! Para atingir quais objetivos? Um grupo de profissionais “reescreve” a proposta da Escola Plural. Condiciona os alunos ao pensamento que na Escola Plural “tudo pode”. O conceito depósito de crianças, jovens que passam pela instituição e não são tocados pela função social da Escola que é a formação humana. A idéia “pares de idade” onde os alunos poderiam estar vivenciando e trocando experiências próprias da idade transformou-se num aglomerado de adolescentes como um caixote de tomates. A construção do conhecimento objetivo principal da concepção Plural passou a ser um desmantelamento do saber. E a lei do “vale tudo” por que pago imposto e o profissional da Educação é um empregado do contribuinte dava luz para a relação.

Uma mãe de aluno procurou a Coordenação pedagógica insistindo que seu filho de dezessete anos não fosse encaminhado para o segundo grau, pois ele não se adaptaria à Escola para a qual a maioria havia sido encaminhada. “Lá o ensino é forte e eu tenho medo que ele não dê conta. Vão caçoar dele. Ele vai acabar saindo da Escola e não tem emprego e vai ficar na rua. Sou lavadeira. Quero que ele aprenda.” Quando interpelada pela Coordenadora no sentido de explicar o motivo pelo qual o aluno não “daria conta”, num desabafo tímido e cheio de culpa ela respondeu: “Ele nem sabe olhar as horas num relógio comum!”

A Coordenação Pedagógica levou o caso para o grupo de professores e tentou discutir que os problemas de Física exigindo como conhecimentos prévios velocidade /tempo que um automóvel percorreria uma certa distância não seria resolvido pelo aluno de maneira que houvesse compreensão. Recebeu como resposta da profissional que ministrava o conteúdo: “... são noções elementares sem as quais ele não pode ir para o segundo grau.” Na tentativa de antenar o aluno com o tempo, a coordenação sugeriu a outra profissional que organizasse atividades para que esse aluno pudesse contar o tempo. Um relógio de parede foi usado em encontros específicos entre professora e aluno e colagens de propagandas de relógio para que houvesse identificação das horas. O aluno foi presenteado com um relógio. Ficou muito feliz, mas os algarismos eram romanos e ele não tinha familiaridade. Eis uma outra versão para os tempos Escolares.

Agora, em outubro, paramos para pensar no que foi esse ano para os alunos desta turma “Projeto” e para os profissionais que nela atuam. Do ponto de vista das relações e convivências e do ponto de vista do crescimento intelectual para os jovens e profissionais. A maioria dos profissionais passou parte do ano em licença médica sem substituto. Os alunos não freqüentaram as aulas, não cumpriram os combinados, não houve regularidade nos dias e horários previstos em Calendário em função da desorganização da Escola do turno e da turma.

A qual Projeto está experiência serviu? Ao projeto do desmantelamento da Escola Pública? Ao projeto pessoal para Eleições Diretas para Diretores que pode aplicar o golpe: “resolver o caos”? Quem perdeu? Quem ganhou? A quem poderíamos atribuir culpabilidade? Talvez sejam insolúveis esses problemas tanto quanto o de Física para quem não tem noção de tempo. Mas algo nos parece claro: ou repensamos o Processo Plural ou a Escola Pública de Qualidade, bandeira de toda a sociedade será uma quimera cada vez mais afastada das nossas mãos. E teremos cidadãos assinando no título de Eleitor: Fulano de Gesus e considerando a sociedade uma terra sem lei.



Ana Maria Reis Macedo

Professora da Rede Pública

estadodesitio@bol.com.br

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