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Artigos-->O aspecto social da tv -- 19/05/2002 - 13:01 (Marcelo Rodrigues de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O aspecto social da tv.



Marcelo Lima.



“Porque é verdade. Mas não penses que te censuro. Se queres transformar-te num homem de letras, e quem sabe um dia escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua história ficara monótona. Mas terás que faze-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem sobre coisas grandiosas”, (Baudolino, Umberto Eco. Ed. Record).





A

tv, “bastante popularizada nos EUA e na Europa, só seria inaugurada no Brasil em 18 de setembro de 1950, quando então puderam ser captadas as primeiras imagens apresentadas pela Tupi de São Paulo”, (A invasão cultural norte-americana, Júlia Falivene Alves. Ed. Moderna).

Percebeu-se, então, que esse novo veículo de comunicação, além de fascinar as pessoas, era um surpreendente meio de captação de propaganda.

Isso talvez explique o aumento crescente de aparelhos. Dez anos após o aparecimento da tv, por iniciativa do empresário e jornalista Assis Chateaubriand, “o número de televisores aqui existentes já era de um milhão e 800 mil, elevado para 6 milhões em 1970 e chegado à cerca de 18 milhões em 1978”, (Idem).

A tv modernizou-se. As pessoas podiam agora ver ao invés de ouvir sua novela preferia. Podiam associar as vozes com os rostos dos cantores. Podiam ver soldados morrendo no front de batalha, ao invés de uma foto, da mesma guerra, estampada na página dos principais jornais.

Com todas essas características, a tv logo passou a ser o principal objetivo dos anunciantes. Sozinha, “carrega quase 60% das verbas existentes, ficando 18% para os jornais, 15% para as revistas, 7% para as rádios”, (O que é indústria cultural, Teixeira Coelho. Ed. Brasiliense).

“Embora o rádio cubra praticamente a totalidade da população brasileira, dos grandes veículos é o que menos recebe verbas de publicidade. A distorção se explica pela qualidade da audiência da tv e dos jornais e revistas: as classes com poder aquisitivo vêem mais tv do que ouvem, rádio, em número suficiente para compensar a enorme massa economicamente inválida que assistem tv”, (Idem).

Com o passar do tempo, a tv também passou a cobrir todo o território nacional. A Rede Globo, sozinha, alcança 99%, com uma programação nacional e regional.

O poder da tv no Brasil é tão forte que até mesmo preceitos constitucionais já foram infligidos para assegurar seu crescimento. É, mais uma vez, o caso da Rede Globo.

“Nascida de acordos assinados desde 1962 pelas Organizações Roberto Marinho com o grupo Time-Life (que investiu 5 milhões de dólares nesta instituição), a Globo foi denunciada por isso dois meses após ter sido inaugurada, sendo também instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar suas ligações com o grupo norte-americano”, (A invasão cultural norte-americana).

Foi provada a ilegalidade da emissora, que tinha participação financeira, administrativa e intelectual estrangeira, o que era proibido. O governo Castelo Branco fez com que o processo caminhasse a passos lentos até o governo de Costa e Silva, “quando se decidiu então que não houvera violação da lei, e o caso foi arquivado”, (Idem).

Não é muito difícil imaginar o por que de um grupo de comunicação ser tão protegido. Já é senso comum dizer o poder de persuasão que a tv tem e como essa persuasão pode ser usada, mas é impossível fugir desde contexto se quisermos entender o papel social da tv no Brasil.

Uma vez dito isso, a principal tarefa da tv, vinda sob o apadrinhamento do regime militar, “tinha o objetivo comum de interligar todo o país (...) A integração nacional tornaria possível à difusão massiva e maciça de mensagens que garantiriam a padronização de opiniões, desejos e valores, colocando-se facilmente no mercado maior quantidade de produtos, tanto materiais quanto ideológicos. A Embratel (1965), o Ministério das Comunicações (1967), o vídeo tape e os satélites de comunicação tornariam tudo isso possível”, (Idem).

É fácil agora deduzir que a tv não tem só um interesse financeiro em suas atividades. Na verdade, esse é seu principal objetivo, mas para que esse bem seja mantido, é necessário apostar em outro tipo de interesse, isto é, o ideológico. Desta maneira, o primeiro objetivo fica assegurado.

A padronização de opiniões sempre existiu. Antes mesmo do surgimento da tv, as pessoas eram induzidas a olharem os acontecimentos com os olhos da igreja, da família e da sociedade na qual estava inserida. Mas a massificação de opiniões feita pela tv é bem mais abrangente e preocupante, já que atinge os cerca de 170 milhões de habitantes do país.

Quando dizemos preocupante, nos referimos ao simples fato de determinado conjunto de valores serem “lançados” para a sociedade sem um mínimo de critério quanto a sua importância social. Não existe um controle de “qualidade” sobre nada.

Um grande exemplo disto foi a primeira eleição para presidente que tivemos após os 21 anos de ditadura militar. A Rede Globo tornou seu jornalismo uma maneira de promover Fernando Collor de Melo e destruir a imagem de Luis Inácio Lula da Silva.

Em uma sociedade dita democrática, como é possível uma rede de tv tomar partido de um candidato em detrimento do outro? O certo não seria mostrar as qualidades e defeitos de ambos, de maneira apartidaria e deixar que a população escolhesse?

A resposta é tão simples quanto à pergunta. Na época, Collor representava os interesses dos empresários, que começavam a aderir a onde de globalização e queriam um presidente que os representasse neste aspecto, e não Lula, de longe um candidato “errado” para o serviço.

O grande problema, por incrível que pareça, não é um empresário, como Roberto Marinho, tomar partido de um presidenciável, mas sim passar a imagem de que sua rede é completamente transparente em seus objetivos e esconder interesses políticos e financeiros por trás de uma falsa credibilidade criada ao longo dos anos.

Desta maneira, telespectadores de todo país, convencidos de uma credibilidade que não existe, acabam por fazer o jogo da mídia. Acreditam no que vêem e ouvem e tornam isso fator determinante para formarem suas opiniões.

O processo técnico para que a opinião de um grande empresário de tv se torne a opinião da grande maioria da população não é muito complicada de entender. O fato é que a tv nunca mente, mas omite. Ela não trabalha com todos os fatos disponíveis, apresentando uma meia verdade de determinado assunto, justamente a que lhe é conveniente.

Não é muito difícil comprovar essa questão. O Jornal Nacional, carro chefe da emissora em credibilidade, trabalha com processos ideológicos e técnicos bastante definidos para atender os interesses da emissora. Esse telejornal, atrás de sua iluminação perfeita e de suas apresentadores sérios e compenetrados apresenta “conteúdos das informações de forma a conduzir muito mais ao conformismo do que à reflexão. Divulga-se um volume incrível de dados soltos em ritmo ultra-rápido, sem dar tempo para o exercício de qualquer atividade mental mais profunda a seu respeito”, (A invasão cultural norte americana).

E não para por aí. Ela minimiza “a importância de movimentos populares, reações anti-imperialista ou processos revolucionários, ridicularizando-os, apresentando-os como acidentais ou reinterpretando-os segundo uma ótica desfavorável”. Ela “rotula tendenciosamente as pessoas envolvidas na política, conduzindo de antemão a simpatias e antipatias conforme os interesses do agente da divulgação”, (Idem).

Se observarmos essas características, veremos que o Jornal Nacional já está fazendo seu trabalho ideológico em prol e contra alguns candidatos. Na grande maioria das vezes em que o assunto é economia, Lula é colocado como responsável pelas especulações financeiras feitas pelo investidores estrangeiros. Isso porque, segundo a Rede Globo, caso Lula vença as eleições para presidente, o Brasil mergulhara em um profundo abismo financeiro. Mas esse mesmo telejornal não diz que essas especulações são feitas para que as bolsas de valores do país oscilem, o que faz com que as grandes empresas ganhem mais dinheiro. Isso, em detrimento do futuro presidenciável.

Mas quando o assunto é José Serra, do PSDB, o Jornal Nacional mostra apenas as viagens políticas do candidato pelo Brasil e dão ênfase a qualquer coisa que ele diga. Ora, o partido de Serra, que está há oito anos no poder, tem muita coisa a explicar, seja suas armações políticas e econômicas, seja sua falta de vontade de resolver questões sociais como educação, saúde e emprego. Mas isso a Rede Globo não discute.

Há alguns anos atrás, todas as emissoras de tv deram ênfase aos saques que estavam ocorrendo no nordeste por causa da seca que castigava a região. Logo, montou-se uma campanha nacional para levar cestas básicas aos necessitados. A Copa do Mundo começou na França e o assunto foi esquecido.

Esse também é um ano de copa do mundo e ano de eleição. E o que vemos é uma tv, não só a Rede Globo, ocupada de todos os assuntos, menos do que mais nos interessa neste instante: política.

Vemos entrar em nossas casas assuntos considerados importantes, como futebol, vida de artistas, shows de realidade. O que pensar de uma tv que quer fazer a convocação de Romário mais importante que a corrida presidencial? O que dizer de uma sociedade que foi moldada a se preocupar mais com quem ficará a atriz principal da novela das oito, do que com as propostas políticas dos candidatos?

Como diria Aristóteles que “definiu o estudo da retórica (comunicação) como a procura de todos os meios disponíveis de persuasão (...) deixou nitidamente fixado que a meta principal da comunicação é a persuasão, a tentativa de levar outras pessoas a adotarem o ponto de vista de quem fala”, (O processo da comunicação, David K. Berlo. Ed. Martins Fontes).

Então começamos a entender a relação entre esse dueto mídia-sociedade. De um lado interesses econômicos e políticos, de outro lado uma população passiva, que é feita acreditar ativa e recebe diariamente em suas casas programas de tv com conteúdo duvidoso.

Esse fato vem a provar que a miséria, não só nutricional, mas intelectual do individuo é um campo fecundo para a manutenção de um padrão econômico de uma pequena minoria. Senão, por que fazer calar assuntos pertinentes à sociedade em detrimento de futilidades?

Nesta grande apartação social que vivemos, como definiu Cristovam Buarque, temos uma mídia completamente distante de suas responsabilidades sócias. O próprio Buarque tem uma explicação para isso. Ele afirma que o grande problema da mídia no Brasil foi ter nascido sem “um compromisso cultural com a sociedade integrada. A televisão foi o instrumento chave de uma maneira de ver o mundo dividido, necessariamente partido entre duas classes apartadas: divulgando os interesses da minoria como sendo os objetivos óbvios de e únicos do país; oferecendo a ilusão da possibilidade de todos serem promovidos aos privilégios; justificando a ditadura como modelo; fazendo tolerável a desigualdade; ignorando seu papel pedagógico; criando necessidades e induzindo a uma demanda viável apenas com forte concentração de renda; disseminando a idéia de uma modernidade com base na técnica usada, e não nos objetivos sociais cumpridos; criando uma visão individualista, do salve-se quem puder, da apologia de uma riqueza exclusiva para poucos”, escreveu (O que é apartação social, o apartheid social no Brasil. Ed. Brasilense).

A tv não tinha um compromisso social quando surgiu e continua não tendo. A questão educação, no seu sentido mais ampla, é colocada em cheque e nos faz pensar sobre nosso papel social.

A mídia é um dos fatores utilizados para a manutenção da nossa sociedade. É a principal, por ser a formadora de opinião e ação, mas está junto a outras tantas, como dominação econômica, política.

Os defeitos do tripé: sociedade-economia-política ficam evidentes quando estudamos qualquer um deles. Todos os caminhos levam ao mesmo problema, as mesmas origens e as mesmas conseqüências. E não é um discurso de esquerda, como é rotulada qualquer oposição, dizer isso. Qualquer pessoa minimamente informada e curiosa, chega aos mesmos resultados.

“Não há, nunca houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria prosperidade. O que houve e que há é uma massa de trabalhadores explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma de ordem social vigente”, (O povo brasileiro, a formação e o sentido do Brasil. Darcy Ribeiro. Ed. Companhia das Letras).

Essa é nossa mídia. Nossa tv com telejornal, esportes, novelas, filmes, programas de entrevista, culinária e de fofoca e shows de realidade. Tudo isso, entretenimento, já que não traz revelação e o próprio ato de entreter é feito para relaxar e esquecer.

E como diria o próprio Ribeiro: “Nós, brasileiros, neste quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo”.

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