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Crônicas-->Nietzsche, o Naufrágio e o Peixe Cru -- 29/12/2002 - 08:07 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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. Abstenho-me de comer carne animal desde os quatro anos de idade. Sei que pensarão que isso não é lá muito relevante, mas espero que acolham a minha narrativa como uma nostálgica catarse de final-de-ano. Sempre apreciei os animais e, certo dia, um dos meus irmãos mais velhos (de treze ou quatorze anos anos) divertiu-se ao associar a canja de galinha que eu ingeria aos pintinhos e frangos com os quais eu acabara de brincar. Foi o bastante!... Abominei a prática e jamais consegui compreender a necessidade de se sacrificar animais num contexto de mercado que oferece tantas alternativas alimentares. Em minha casa o cardápio não diferia do das outras famílias e meus filhos cresceram com carne à mesa. Os novos conhecidos ou amigos surpreendem-se quando, num restaurante, eu recuso discretamente o alimento. Quando perguntam o porquê da abstenção, tento abreviar ao máximo a resposta, não sem antes tentar desviar-me do assunto. Ajo dessa maneira por dois motivos: não pretendo estragar prazeres com polêmicas, nem escutar o repetitivo e desafiante argumento de que também não deveria consumir vegetais visto que são seres-vivos. Inúmeras vezes tentei explicar que os mesmos não possuem sistema nervoso central e que sem eles eu morreria por inanição, mas é sempre em vão... Enquanto escrevo, acompanha-me dorminhoco o meu shar-pei Nietzsche. Além de suas abundantes pregas ele possui postura e olhar reflexivos, razão pela qual lhe conferimos o nome do pensador alemão. Uma outra característica semelhante a do ferrenho crítico da filosofia ocidental é a de que é um contestador nato. Quando reluta em comer, é só falarmos NÃO perante a sua ração e temos à frente, imediatamente, um glutão. Caso desejemos que saia ou entre em algum aposento da casa, damos a ordem contrária e atingimos o nosso intento prontamente. No entanto, Nietzsche é um cão amoroso e protetor e, sem dúvida, só acrescenta alegria à nossa vida. Mas, retornando ao assunto, vocês sabiam que os antepassados do meu amado amigo já nutriram inúmeros estômagos chineses? Animais da realeza, foram mal vistos após a revolução comunista de Mao Tsé Tung e sua carne espessa tornou-se alvo culinário. Sinto um frio na barriga ao pensar nisso...  O livro de Gabriel García Márquez, " Relato de um Náufrago" ilustra uma curiosa situação verídica, na qual um sujeito, numa balsa à deriva, devora primitivamente um peixe vivo: " Mastigava com nojo. O cheiro de peixe cru sempre me repugnou, mas o sabor é ainda mais asqueroso......Mas quando mastigava o primeiro alimento que chegava à minha boca em sete dias, tive, pela primeira vez na vida, a repugnante certeza de que estava comendo um peixe vivo". Nesse caso, é claro, surge o instinto predador e nos surpreendemos com a nossa condição animal. Fico feliz, no entanto, por não ser um náufrago e possuir vários supermercados próximos à minha casa. No último Natal vivenciei um fato curioso...Durante a ceia percebi minha filha um tanto pensativa e, após a saída das visitas, notei que ela havia levado rapidamente para a cozinha o chester e o presunto que estavam sobre a mesa. Sorrindo confidenciou-me que pela primeira vez havia achado estranho, numa data que celebra o nascimento, uma presença de morte entre nós. Disfarcei a minha alegria perante o seu "insight"! Creio que em breve teremos mais uma ovo-lacto-vegetariana no mundo... Leia também: Cartas a meu irmão Pedro Wilson ************************************************************************

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