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Contos-->DEPOIMENTO-Angústia de uma adolescente -- 03/09/2000 - 12:00 (Vânia Moreira Diniz) Siga o Autor Outros Textos
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http://planeta.terra.com.br./arte/vaniadiniz
vaniamdiniz@zaz.com.br

DEPOIMENTO- Angústia de uma adolescente
Quando me lembro dela uma ternura muito grande toma conta de mim. Era frágil. Talvez uma das minhas amigas de colégio mais delicadas. Não fisicamente.
Bonita, sem consciência dessa beleza, extremamente atraente e elegante Luiza era uma das melhores e mais aplicadas alunas da nossa turma.
Costumávamos conversar sobre assuntos os mais diversos, sairmos muitas e muitas vezes, passar fins de semana fora e isso tudo geralmente em turmas divertidas e entusiasmadas.
Conhecia toda a família da minha amiga e achava-os fantásticos. Sua mãe era linda e muito jovem e gostava de conviver com aquela mulher ímpar em todos os aspectos. Seu pai era um médico muito famoso e Luiza era a mais velha de quatro irmãs. Assim formavam uma família aparentemente feliz e agradável.
Muitas vezes, entretanto observava uma diferença no casal talvez porque Dona Sônia fosse extremamente exuberante o que me fazia admirá-la muitíssimo e Dr Roberto embora muito simpático possuía uma sisudez que o tipo físico parecia aumentar. Mas isso eu não raciocinava conscientemente e era fruto talvez de uma intuição involuntária.
Algumas vezes Luiza havia me falado de sua mãe e eu notava o quanto havia de diferença no temperamento das duas.
- Sua mãe é muito bonita, às vezes fico admirando-a, disse eu um dia em que estávamos lanchando as duas sozinhas.
- Sim, é. Não sei, Vânia há alguma coisa que me diz que meus pais não são felizes.
- Não, não acredito nisso, Luiza. Que idéia mais extravagante é essa?
- Minha mãe parece sempre insatisfeita. Recorda demasiadamente a vida antes de conhecer meu pai. Tenho quase certeza que ela não gosta dele.
Olhei para minha amiga perturbada pela suas palavras que revelavam algo inusitado. O tom da sua voz, a maneira suave, mas diferente de expressar essa opinião me deixaram bastante surpreendida.
- Sua mãe é simplesmente encantadora.
- Sei que é. Aliás, essa admiração que você tem por ela é mútua. Ela também lhe adora. Mas não é a isso que quero me referir. Você entendeu o que quis dizer.
- Claro que entendi, mas não acho que você esteja fazendo um julgamento muito preciso. Deve entender que nosso raciocínio, como eles dizem é de adolescente. Algo distorcido.
Luiza olhou para mim e eu vi em seus belos olhos lágrimas de verdade. Apertei suas mãos com carinho não sabendo o que dizer e pedi que ela tirasse esses pensamentos da cabeça. Só poderiam prejudicá-la.
Desde aí nos momentos que estava conturbada com esse mesmo problema vinha procurar-me e trocávamos idéias. Não sei se isso a acalmava, porém pelo menos ela dizia se sentir melhor.
Foi numa tarde que tínhamos nos divertido bastante e estávamos conversando na Rua onde ela morava na porta de seu edifício com outros jovens que Luiza me apertou a mão pedindo que eu a acompanhasse. Parecia estar indignada e me mostrava algo que eu não conseguia ver.
- Veja, Vânia, ela está ali.
- Ela quem?
- Minha mãe. Olha está dentro daquele carro. Está vendo?
- Ah, vejo agora. E que tem isso?
Luiza olhou para mim indignada;
- O que é que tem? Meu Deus, não está vendo que ela está com um homem?
- Por favor, Luiza, acalme-se. Deve ser um conhecido, alguém que ela encontrou. Claro que é. Como pode pensar alguma coisa a mais de sua mãe? Eu não acredito que você esteja tão nervosa por causa disso.
Estava acabando de falar quando Dona Sônia saiu do carro. Logo nos viu. Estávamos a pouca distância e ela veio em nossa direção sorrindo numa atitude natural que logo desarmou a minha amiga.
Beijou-nos alegremente, recomendou à Luiza que não se demorasse e perguntou-me se não queria ficar naquele dia lá e jantar com eles. Respondi-lhe que minha mãe estava me esperando e voltei-me logo que ela se distanciou para a minha desconfiada colega
- Por favor, Luiza, ainda não creio que você tenha pensado algo de sua mãe.
- Talvez você tenha razão. Ando muito nervosa, Vânia. Você não fica assim às vezes? Isso é coisa da nossa idade. Os adultos dizem que adolescente é sempre cheio de problemas.
- Sim, mas precisamos controlar. E não ficar arquitetando idéias absurdas. Se está tão nervosa assim porque não procura a psicóloga do colégio, Dra Cleuza? Tenho certeza que ela lhe dará uma ajuda.
- Acha que preciso?
- Não fará mal, não é mesmo?
Nunca lhe perguntei quem era o homem que conversara com sua mãe. Seria atiçar um assunto que parecia ter morrido.
Muitas vezes quando via Dona Sônia ficava admirada com a capacidade daquela mulher de manter-se jovem e vibrante. Mas sentia em Luiza seguidamente uma crítica velada ao modo encantador com que a mãe enfrentava os acontecimentos.
Pensava como era complexo o ser humano. Enquanto muitas meninas de nossa idade gostariam que a mãe tivesse uma visão mais esplendorosa da vida outras preferiam o tradicionalismo completo. E imaginava que o encanto da existência deveria ser justamente os contrastes de temperamento e visão que existiam entre as pessoas tornando-a saborosa. Gostava de devanear e encontrava sempre um motivo atraente que me fizesse refletir nas complexidades que passo a passo surgiam como novidade. Até a nossa própria história naquele momento era uma inovação e eu acolhia isso com muito ânimo. Estava abrindo os olhos para um mundo que ainda não conhecia e que me parecia deslumbrante.

2ª PARTE

Luiza naquele dia me telefonou agitada. Acostumara-se a me fazer as suas confidências e às vezes estranhava que eu não fizesse o mesmo.
- Não sou muita de segredos disse eu um dia, respondendo á curiosidade de minha amiga.
- Ou talvez ache que sou complicada.
- Não Luiza, não é isso. Você por vezes fica insegura. Mas é o temperamento de cada uma. Eu acho pelo menos que tudo deve se modificar um pouco quando ficarmos mais velhas.
Quando a vi imaginei que alguma coisa acontecera. Estávamos no meu quarto, em minha casa e poderíamos contar com uma total privacidade.Lá podíamos conversar à vontade.
- Que aconteceu, Luiza? Parece que viu fantasmas.
- De certa forma vi mesmo, Vânia. Trouxe uma para você ver.
- Uma o que? E fiquei olhando a impetuosidade da minha amiga ao retirar de um caderno que trouxera uma folha de papel escrito.
- Leia.
- O que é isso?
- Uma carta de um antigo namorado de minha mãe. Estava numa caixa em sua gaveta junto com outras
- Você está louca? Não vou ler e você não devia ter lido também. Como pode ler uma carta dirigida à sua mãe se ela não permitiu?
- Não é certo que ela as guarde.
- Não sei. Não é problema nosso. Só ela pode decidir.
- como pode dizer isso, Vânia. Ela é casada. Não é certo fazer isso.
- Não sei se é certo ou não. Acho que não temos competência para julgar. Se ela guarda é porque não acha errado. E é um assunto de seus pais.
- O que sentiria se encontrasse isso nas coisas de sua mãe?
- Jamais encontraria, Luiza. E simplesmente porque não mexeria nas gavetas dela. E você deve ter aprendido isso também. Não me compete vasculhar a vida de meus pais.
- Pensa, assim, Vânia?
- Meu Deus, é natural que pense.
A minha amiga começou a chorar e eu me culpava achando talvez que tivesse sido um pouco incisiva com ela.
- Não sei o que fazer – disse me olhando enquanto as lágrimas desciam em torrente
Passava as mãos em seus cabelos, com carinho não sabendo como agir.
- Olhe, vamos fazer isso: procurar alguém mais experiente para você conversar.
- Não, teria vergonha, muita vergonha.
- Por que então não conversa com sua própria mãe? Se pensa assim, Luiza deveria fazer isso. Mas não é justo que leia a correspondência dela.
Muitas vezes depois desse dia sentindo minha amiga tão angustiada, insisti para que ela procurasse uma pessoa adulta e da sua confiança para trocar idéias e principalmente tirar aquela dor que se instalara em seu coração.
Quando conversávamos sempre lhe sugestionava que ela cuidasse da própria vida e esquecesse aqueles pensamentos horríveis. Lembrava-lhe o quanto Fábio que ela sempre gostara a estava assediando o que parecia não interessá-la mais. A impressão era que nada mais chamava a sua atenção verdadeiramente.
Um dia no meio da aula ela me perguntou:
- Vânia acha que ela se casou gostando do outro?
Estava tão distraída que não entendi sua pergunta
- Quem casou?
- Minha mãe, Vânia, minha mãe. Quem poderia ser?
- Para com essa neurose, Luiza, por favor, respondi muito baixo porque a professora já nos olhava como pedindo silêncio.

3ª PARTE

Uma certa tarde num feriado que nos reunimos na casa de Luiza, seu pai como sempre veio nos cumprimentar e notei o quanto parecia abatido.
Brincou conosco e quando tive oportunidade de falar sozinha com minha amiga perguntei-lhe o que estava acontecendo.
- Não sei, exatamente, Vânia.Acho que os dois não estão bem. E meu pai está preocupado comigo. Como dizer a ele das minhas desconfianças? Ajude-me, amiga.
- Gostaria, mas é algo muito delicado. Por que não conversa de modo especial com sua mãe? Já falamos sobre esse assunto. É difícil qualquer situação parecida. Na verdade acho que os dois e só os dois estão aptos a resolver tudo isso.
Luiza olhou-me desamparada, mas não falou nada.
E no dia seguinte contrariando hábitos, Dr Roberto veio buscar a filha no colégio. Luiza me contou em seguida a dolorosa conversa que tivera com o pai.
- Ele estava notando que eu estava muito triste, Vânia.
e disse-lhe que achava que ele e minha mãe não estavam bem. Sabe o que ele me respondeu?
- Não faço nenhuma idéia
- Confessou-me que precisava me contar, já que eu estava percebendo algo diferente algumas verdades: que minha mãe nunca gostara realmente dele. Mas pediu-me que não pensasse que a culpada era minha mãe.De jeito nenhum. Apenas o casamento se dera em circunstâncias estranhas já que ela havia perdido num acidente o noivo que amara muito. E que ele apaixonado há longo tempo se aproximara nesse momento triste da sua vida. Acabaram se casando, mas minha mãe fez questão de dizer-lhe que não o amava. Claro sentia carinho e gratidão por tudo que ele fizera, ajudando.
Papai Enfatizou que o casamento deles estava em crise. Não sabia o que podia acontecer. Mas não queria que eu ficasse na incerteza dentro de minha própria casa, por isso resolvera conversar comigo.
- E agora, está mais calma?
- Mais calma, não. Menos ansiosa talvez. Ele disse que tudo dependia de minha mãe. Ele é muito apaixonado por ela, Vânia.
- É, dá para notar. Sua mãe é especial.
- Acho que ele é especial. Agüentar uma situação dessas.
- Os dois são maravilhosos e como disse a você só eles podem resolver tudo. Procure ficar menos concentrada nisso.
- Tentarei. Mas é muito difícil. Pelo menos sei que ela não está se correspondendo com ninguém.
- Luiza, eu não entendo. Por que essa situação te perturba tanto? Eles são adultos. Tem que saber o que fazem.
- Não percebe então o quanto eu sou menos que ela?
Olhei-a apavorada. Durante alguns segundos ninguém disse nada até que eu rompi a pausa que se fizera.
- Não acredito no que estou ouvindo. E não quero acreditar. Está tentando competir com sua própria mãe?
- Não, Vânia ela que compete comigo. Minha mãe é mais bonita que eu. Por que quer tornar isso tão evidente?
- Pelo amor de Deus, Luiza não fale bobagens. Sua mãe é linda e você também o é. Só que ela já é uma mulher e você uma garota. Tire essas idéias alucinadas da cabeça. Não pode concorrer com sua mãe. Não acredito que uma pessoa maravilhosa como você poderia guardar esse tipo de ressentimento tão... Tão...
- Não tem palavras, não é Vânia? Não me compreende.
- Não quanto a isso.
Fiquei olhando minha querida amiga e imaginando como estava precisando de uma ajuda especializada que lhe tirasse esses tristes pensamentos da mente e a reintegrasse a uma vida sadia e harmoniosa.
Dois meses depois os pais de Luiza se separaram e a crise foi grande naquela família. Dona Sônia começou a manter um relacionamento com uma pessoa e pelo menos parecia feliz nesse sentido. Mas Luiza não aceitava essa ligação.
- Não aceito isso, Vânia.
- E por que não? Ela é livre agora. Acho que ainda não compreendeu isso. Com seu pai um dia vai ocorrer a mesma coisa. É natural. Tem que ser assim, Luiza. Eles ainda são muito jovens.
- Aceitaria se fosse com seus pais?
- Claro que sim. Acho que até torceria para isso.
- Eu me sinto infeliz.
- Não acho que haja motivos.
- Acredita que esse homem seja aquele, Vânia?
- Não entendi
- Entendeu. Sei que entendeu. Aquele que um dia vimos no carro com ela.
- Por favor, Luiza, esqueça isso. Sua mãe está feliz. Você não que estragar tudo, não é verdade? Seja feliz também. Pelo amor de Deus. Que interessa isso agora?Ela não era feliz com seu pai. Não o amava! Se não puderam ser felizes juntos porque não serem separados? Não acredito que você seja egoísta!
Tinha muita pena de Dona Sônia, que eu sentia oprimida e com um sentimento de culpa que não precisava carregar. Não podia ser feliz sem restrições, afinal.
CONCLUSÃO

Luiza estava inteiramente apaixonada por Fábio e começava a aceitar a idéia dos pais separados. Acho que o tratamento e o namorado ajudaram muito esse lenta mudança de atitude. Voltara a sorrir muitas vezes como era seu costume e de forma totalmente espontânea. Todos achavam que o resto viria normalmente.
Só ficava triste porque sentia em Dona Sônia um inútil sentimento de culpa em relação às filhas e que às vezes atrapalhava sua felicidade.
Uma tarde que viera buscar a filha mais nova que havíamos trazido para lanchar conosco aproveitou um momento que Luiza se afastara e perguntou-me
- Ela ainda está muita agressiva, Vânia. Por que não conversa com ela?
- É só um período, Dona Sônia. Logo ficará melhor. Não acho que a senhora deva se preocupar tanto.
- Tomara que você tenha razão. Você acha que ela realmente está apaixonada por esse rapaz?
- Eu não teria nenhuma duvida.
- Acha que a paixão ajuda, Vânia? Que vai ajudá-la?
- É claro quando as pessoas estão felizes tudo parece mais fácil.
- Parece uma mulherzinha falando, mas é verdade.
Beijou-me com carinho e eu compreendi que ela mesma estava com grandes esperanças. E que seus problemas chegavam lentamente ao fim depois de tantas incertezas. Haveria algumas batalhas, mas ela se empenharia em vitórias sucessivas que a levasse a um final satisfatório.
Havia discutido com a filha há alguns dias atrás, porém isso serviu para que ambas achassem um ponto de equilíbrio convergente,
Sabia que breve Dona Sônia refaria completamente sua vida e eu achava muito bonito e sedutor o casal que ela formava com o homem que amava. Torcia por eles. E com muito entusiasmo
Entendia que logo Dr. Roberto se restabeleceria daquela dor e procuraria seu próprio caminho. Sabia e desejava isso verdadeiramente. Aquela família merecia toda a felicidade e ambos tinham qualidades e força para que o sol brilhasse intenso e tudo indicava que o horizonte se apresentava amplo.
Luiza tinha um extenso caminho que tudo indicava ser promissor em todos os sentidos. Seus valores aos poucos se modificavam e ela procurava encarar abertamente a felicidade que vinha ao seu encontro com sagacidade e alegria. A juventude estava ali minha amiga era forte e audaz e eu sabia disso. .
A vida se estendia diante dela vasta, surpreendente e com surpresas inesperadas e transbordantes de fascínio. Só por isso teria valido as angústias vividas.

Vânia Moreira Diniz

OBS: Os fatos são absolutamente reais, e os nomes dos personagens, excetuando o da autora, foram substituídos para preservar suas identidades.
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