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Artigos-->O diálogo dos mortos -- 11/01/2020 - 16:16 (Padre Bidião) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

O diálogo dos mortos

As palavras vão ao encontro de uma eternidade sem limites. Ao assumir um posicionamento no eterno, os mortos são alfabetizados        pelo método silencioso onde a linguagem expressiva é a desintegração do corpo inerte sem ser coisa. A sonoridade das palavras não existe, embora o recurso silencioso do apodrecer seja um som que facilita o diálogo entre eles. Cada um, na sua cova medida, não reclama a terra doada sobre si. Todos estão numa aparente paz em que a essência é a mediadora. Media-a-dor aos que continuam a viver no ciclo da vida, a essência restaura todo o entender da finitude. No corpo jaz, debruçam lágrimas, terra, gramas e flores no ar-dor da ferida provocada pelo espaço vazio. Os mortos comungam o mesmo diálogo: o silêncio.  Silêncios barulhentos no minifúndio, sem nada a reclamar. Aliás, os mortos só se percebem no silêncio. A tampa por sobre o túmulo, brinca com as evidências de que não é a vida que reina, mas a morte que a vence. Morrer é vencer e aquilo que vence, reina. A vida é caminhar transitoriamente numa estrada de ilusão dando alusão ao estado fictício do ser gente. A vida cede espaço à eternidade de um existir e de um insistir de que algo somos. Acreditamos sermos passageiros onde de fato existe o matrimônio entre o existir e o morrer. Morrer é socorrer ao corpo cansado no cansa-dor. Viver para morrer finda na estrada de um novo alvorecer para enfim, flor-rir.


Marcos Palmeira

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