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Artigos-->A contracultura, o demônio e a era de Aquário (ou Crowley e -- 19/01/2016 - 01:56 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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O inglês Aleister Crowley (1845/1847) não tinha nada a perder. Nascera em família abastada, com a prescindibilidade do trabalho. Daí, toda uma vida dedicada às faces do ocultismo. Tinha uma relação romantizada com o demônio, ao qual se dizia devoto. Identificava-se com as denominações “A Besta” e “666”. Há seguidores que justificam a sua pretensa identificação com o Satã como um escárnio pela sua pueril e insuportável vivência em colégios cristãos tiranos. Mas o fato é que se tornou reconhecido como “o pior homem do mundo”. Referindo-se à magia, afirmava: “A Magia é a Arte ou a Ciência de causar mudanças em conformidade com a vontade” .

No seu enredo religioso houve uma Eva. Recém-casado, a esposa recebeu uma incorporação. A mensagem era destinada a Crowley. Programado um ritual em dias posteriores, recebeu por psicografia “O Livro da Lei”, que profetizava o início de uma nova era no futuro: a de Aquário. O princípio básico revelado na obra seria: “Faz o que quiseres, há de ser tudo da lei.”

Crowley foi atuante no propósito. Feiticeiro, alquimista e escritor, dentre outros, passou a difundir os princípios da religião Thelema, da qual se tornou encarregado. Segundo esta, e a seu favor, os deuses morimbundos” seriam substituídos posteriormente. Referia-se ao Cristianismo, Judaísmo, Budismo etc. Estendendo o tema, Aleister teve o seu mapa astrológico analisado e retificado por ninguém menos que Fernando Pessoa. Contaminou o misticismo das Ordens (inclusive Maçonaria) com os novos veios da revelação obtida. Ressalte-se que sempre havia pertencido a organizações do tipo, com histórico de muitas dissidências. Para ilustrar a sua importância, o amigo Ian Flemming, que mais tarde criaria e imortalizaria James Bond (007), certa vez lhe solicitou auxílio no interrogatório do nazista Rudolf Hess (007). Desejavam informações para o Presidente Churchill sobre as superstições e misticismos do inimigo Hitler e ninguém melhor que Crowley, considerado o Papa do ocultismo, para elucidar a questão. Isso deixa claro o quanto a História foi influenciada por essa prática. Afirma-se que até o próprio "führer" alemão tenha sido orientado pelo inglês, ele próprio frequentador de uma sociedade ocultista em Munique. Coincidência ou não, conta-se que um grande seguidor de Crowley teria sido um dos dois únicos ingleses convidados para a comemoração de cinquenta anos do nazista. Reportando-nos à vida pública de Aleister, esta acumulava escândalos e repreensões sociais. Figura polêmica para a época, declarava-se abertamente como bissexual. Tentou estabelecer uma sociedade alternativa telêmica na Itália, mas verificaram que o local era destinado a orgias e drogas. Em razão disso, Mussolini o expulsou de lá. Daí, dedicou-se a escrever outras obras, como“O 8º Grau Masturbatório ou Grau Auto-sexual”; “O 9º Grau de Magia Heterossexual”; “O 11º de Magia Homossexual”; “O Intercurso Anal”, etc. Folclore ou não, apenas para exemplificar a que tipo de rituais Crowley estava associado, conta-se que, num deles, promoveu o ato sexual entre uma mulher e um bode. O animal, tão cultuado no satanismo, acabou sendo degolado no encerramento da cerimônia. Referindo-me agora à contracultura e considerando-se que dela fez parte o rock, veio justamente daí o recrudescimento de Crowley. O seu rosto ressurgiu, tímido, na capa do disco "Sargent Pepper`s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Eles, por sua vez, haviam se interessado pelo mago em decorrência da difusão do mesmo nas comunidades alternativas dos anos 60. O termo “Era de Aquário” facilitava isso. Enfim, a repressão e o passado bélico recentes haviam despertado na juventude um grande fascínio tanto pela vida e o amor livre (faça o que quiser), como pelas configurações de paz, prazer e fraternidade que a futura era de Aquário prometia. As dificuldades na comunicação global, assim como as referentes à aquisição de livros nas comunidades, facilitavam e difundiam o prestígio de algumas obras ou autores, ainda que não desfrutadas individualmente. No primeiro caso, alguns leitores as descontextualizavam e difundiam algumas palavras de ordem aparentemente compatíveis com o momento existencial. Transar com cabras e praticar orgias coletivas aristocráticas certamente não pertenciam ao imaginário dos beats em geral, sem dinheiro e bem mais econômicos nos seus instintos. Ainda assim, Crowler tornou-se para muitos deles uma figura excepcional. Jovens que, no plano consciente, haviam deixado para trás a sua base, inconscientemente necessitavam de algo que a substituísse. Daí se encantarem (e se desencantarem, posteriormente) com alguns líderes. Isso ocorreu com os Beatles, na Índia, ao apelarem para o guru Maharishi Maheshi. Viajaram até ele e perceberam que os fragmentos filosóficos estavam inseridos num contexto impossível de ser digerido. A euforia e o fascínio dos músicos pelo místico hedonista foram intensos, a ponto de Jimmy Page, do Led Zepellin, comprar a mansão Boleskine House, na Escócia, adquirida por aquele em 1889. Atribuíam ao local maior parte dos seus rituais, o que o tornava profundamente excitante para a leitura rebelde do rock. Os admiradores foram muitos. Em “Quicksand”, do disco “The man Who sold the world”, David Bowie cita o mago: “I`m closer to the Golden Dawn Immersed in Crowley`s uniform” Ozzy Osbourne (Black Sabbath): compôs a música “Mr. Crowley”. “Mr. Crowley, what went on in your head Oh, Mr. Crowley, did you talk to the dead Your life style to me seemed so tragic With the thrill of it all.” Iron Maiden, em “Piece of Mind”, fez várias referências aos enunciados do ocultista. Mais tarde, já em carreira solo, o ex-vocalista Bruce Dickinson homenageou o menino Crowley em “Man Of Sorrows”, tentando penetrar no psiquismo reprimido e ameaçado da criança, este afligido pelas culpas atormentadoras do passado: “Aqui numa igreja, um pequeno garoto está ajoelhado/ Ele ora para um Deus que ele não conhece/ que não pode sentir todos os seus pecados da infância/ Ele vai se lembrar/ Não vai chorar/ lágrimas ele não vai chorar. (...) Um homem sofredor / contestado, com pensamentos que ele não ousa falar o nome/ Preso dentro de um corpo/ feito para sentir só culpa e a vergonha/ Seu ódio por toda a vida, "Eu me odeio", ele gritou/"Faça o que quiseres! Faça o que quiseres!", ele gritou/ Homem sofredor, não verei seu rosto/Homem sofredor, você saiu sem rastro/ Um pequeno garoto imagina, o que foi isto tudo?/ Sua jornada acabou? Apenas começou?” Poderíamos percorrer um vasto caminho de adeptos e roqueiros internacionais. Entretanto, sobrevoando a cultura musical brasileira, chegamos a Raul Seixas. Também se autodenominava “A Besta”. Ao interpretar “Sociedade Alternativa”, diz ao final: “ “-O número 666 Chama-se Aleister Crowley" Viva! Viva! Viva! A Sociedade Alternativa "-Faz o que tu queres Há de ser tudo da lei" Viva! Viva! Viva! A Sociedade Alternativa "-A Lei de Thelema" Viva! Viva!” Concluindo, a contracultura tudo fez para contrapor o sistema vigente, nele abrangidos os vários subsistemas, inclusive o religioso. Uma vertente artística rumou para o Oriente e aproximou-se do zen-budismo. Outra, associada ao rock, partiu para o polo oposto da religiosidade americana. A rebeldia optou por contrariar os princípios evangélicos de repulsa à Lúcifer. Resgatou a vertente satânica e entregou-se a uma certa ludicidade, aterrorizando prazerosamente os grupos conservadores e repressores da sociedade com a qual não conseguiam mais se identificar. Entretanto, houve permeios entre a vida comedida do budismo e os excessos que Crowley representou. O poema“O que saber para ser poeta”, de Gary Sneider (um dos inspiradores do beat Kerouac), inicialmente delicado, exemplifica a dicotomia: “O que saber para ser poeta?/ tudo que puder sobre animais e pessoas/ nomes de árvores, flores e ervas daninhas/nomes de estrelas, e o movimento dos planetas e da lua/ os seis sentidos propriamente, com mente desperta e elegante / pelo menos uma das antigas magias: vidência, astrologia, o livro das mutações, tarô;sonhos / os demônios ilusórios e os imponentes e ilusórios deuses; beijar o cu do demônio e comer merda; foder de pau duro e farpado/ foder a megera/e todos os anjos celestiais”. Retornando ao mago, o estímulo à confusão e à dúvida: “Estive na luta da morte comigo mesmo: Deus e Satan lutaram por minha alma durante três longas horas. Deus venceu - agora me resta apenas uma dúvida - qual deles era Deus?” Paulo Coelho alimenta a fornalha através da voz de Raul Seixas: “-Enquanto Freud explica as coisas, o diabo fica dando toque.” Pois é...

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