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Artigos-->Santa Tereza e a questão dos Anjos e demônios. -- 15/01/2016 - 09:11 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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O jornalista Hermes Rodrigues Nery, em entrevista a Mário Quintana, formulou uma questão referente ao alerta de "Santa Teresa D` Ávila". Segundo ela, deveríamos ter cuidado ao nos livrarmos dos demônios para não perdermos também os nossos anjos. O poeta mostrou-se surpreso com a colocação da santa, para ele até então desconhecida.



A questão dos anjos e demônios, representantes do bem e o mal, poderia estar fortemente banalizada, tantas as abordagens mitológicas ou religiosas existentes sobre o assunto. Uma delas toma como alicerce a grande paixão de Lúcifer por Deus, visto que a sua admiração por Ele atiçava-lhe um ciúme incontrolável, levando-o a ansiar por exclusividade. Outra concepção prega que Deus, sentindo-se muito só, havia criado um ser semelhante em força, mas surpreendendo-se-se depois com o resultado. As ideologias entre os dois haviam denunciado um contraste conflitante e Lúcifer ficou deveras magoado, o sentimento de rejeição alimentando sentimentos de vingança. Afinal, considerava-se uma vítima da maldade do Criador, incapaz Ele de lhe retribuir o amor intenso. Para agravar a situação, embora dotado de grande beleza e inteligência, o carente demônio amargava-se por saber que Deus só não o destruía por tê-lo, inadvertidamente, dotado da imortalidade. Retornando à Santa Teresa e sintetizando a sua preocupação, concluímos que o seu temor maior se relacionaria à perda dos anjos particulares. E estabelece como condição, para que tal não ocorra, a administração dos nossos demônios submersos.



Pois o enfoque existencial centralizado nesse convívio de forças estende-se também ao social. Sabemos, por exemplo, que o histórico da religião católica, com metas excessivamente angelicais para a condição humana dos seus fiéis, resultou em atos de extrema de selvageria. Hitler, objetivando a pureza racial, utilizou-se de artifícios diabólicos (as famílias sobreviventes que o digam...), pregando uma réplica do espaço celestial na terra, repleta de anjos loiros com olhos azuis.



A questão do bem e do mal sofre múltiplas influências, inclusive antropológicas. A aldeia global tende a uma maior uniformização cultural, tentando, por exemplo, abolir a extração do clitóris em tribos africanas. As mulheres da região já oferecem resistência à prática, dada a legitimidade e o respaldo que a cultura mundial dominante lhes concede. O esvaziamento do sofrimento coletivo é como aquela historinha infantil, na qual a criança aponta para o rei e diz em alto e bom tom que ele está nu. Aqueles que se esforçam para ostentar admiração pelo que não vêem, sentem-se imediatamente aliviados com a súbita revelação.



Em Psicanálise, trabalha-se com o conceito de ganho secundário. Segundo ela, tudo o que fazemos seria resultante de uma estratégia particular, ainda que inconsciente. Os que praticam a bondade e desenvolvem a ética podem estar a agir de forma tão egocêntrica quanto os maldosos e invejosos, ambos atendendo a sua própria subjetividade. Até aí tudo correto? Sim, conceitualmente sim!... No entanto, tratando-se de seres humanos, um fator prepondera sobre todos os outros, com um peso esmagador: - o limite da dor!



Quando o sofrimento faz parte de um contexto cultural enraizado, pode ser que a resistência psicológica o minimize. Mas quando não, o mal fica claramente explicitado. Estivéssemos nós na condição de judeus num campo de concentração, nossa condição fragilizada fatalmente valorizaria os conceitos éticos de bondade e equidade. Sem precisar ir tão longe, teríamos o mesmo posicionamento caso nos encontrássemos abandonados num hospital público ou atingidos por uma tristeza súbita decorrente do desemprego. O bem e o mal estão, portanto, ligados a uma situação limítrofe de sensibilidade. Ao contrário dos exercícios conceituais, é aí que o contraste torna-se gritante e o antagonismo facilmente reconhecido.



Como vemos, é tudo uma questão de empatia. A luta por determinados valores éticos não retrata, absolutamente, uma atitude romântica e circunstancial. Ao contrário, é a percepção de que, sem a revisão dos freios, podemos ferir desnecessariamente o outro, devido aos nossos demônios internos. Lançá-los como explosivos, causando desconforto e amargura aos demais, não aplaca as nossas indisposições afetivas e existenciais. Além disso, quanto à brincadeira infantil de vislumbrar-se como a encarnação da maldade, não podemos tomá-la como uma forma prática de viver. A energia é dispersada inutilmente e o fato de o ser humano não contar com a supremacia de Lúcifer pode transformá-lo num zumbi inexpressivo, ausente nele o glamour do anjo ciumento e carente ao qual, inicialmente, Deus propôs parceria.











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