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Cordel-->MEU CARRO DE BOI CANTAVA NAS QUEBRADAS DO SERTÃO -- 22/01/2004 - 18:52 (José de Sousa Dantas) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
MEU CARRO DE BOI CANTAVA NAS QUEBRADAS DO SERTÃO
José Aires de Oliveira e José de Sousa Dantas, em 22/01/2004

Era tudo carregado
no carro de boi da gente,
corda, marreta e corrente,
enxada, foice e machado,
chocalho, arame farpado,
cavaco, lenha, algodão,
gergelim, milho, feijão
arroz, melancia, fava,....
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Espingarda, cavalete,
chicote, enxó, arapuca,
chincho, tigela, cumbuca,
moinho, canga e ginete,
preguiçosa, tamborete,
cabaça, loro, gibão,
porta, janela, pilão,
chapéu, parafuso e trava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Balde, trempe, caçarola,
serrote, escada, alavanca,
peixeira, lima, chibanca,
cepo, fojo, padiola,
jarra, pote, rabichola,
tarrafa, silo, bridão,
quartinha, bule e ferrão,
vassouras de piaçava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Levava até petisqueiro,
cacuá, corda e cambito
porco, galinha, cabrito,
garrote, bode e carneiro,
querosene e candeeiro,
resíduo, palma, ração,
cangalha, lona, sabão,....
todo troço transportava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

No carro se conduzia,
madeira, areia, tijolo,
sal em grosso, fumo em rolo,
telha, pedra, pá, bacia,
água quente, morna ou fria,
barro para construção,
estaca, vara e mourão, .....
tudo isso carregava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

O carro de boi servia
como grande alternativa,
reunindo a comitiva,
que formava a freguesia,
uma viagem sadia,
para todo cidadão,
que no dia de eleição,
levava gente e voltava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Levava gente pra missa,
casamento e batizado,
forró, quermesse e reisado,
numa luta sem preguiça,
dentro de pedra e caliça,
com presteza e precisão,
servindo a população,
um favor não se negava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Menino para escola,
gente para se tratar,
outro para viajar,
e o cantador de viola,
time para jogar bola,
pra farinhada e leilão,
argolinha e apartação,
todo mundo se empolgava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Era o carro de vovô,
que papai utilizava,
no dia que precisava,
com ele se dava o show,
inda hoje quando eu vou,
passear no meu rincão,
tenho na recordação
os cantos que ele passava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Eu lembro o carro de boi,
ao lado do armazém,
que ainda hoje mantém
as marcas do que se foi,
e mesmo que o tempo voe,
não sai da imaginação,
toda aquela tradição,
a gente deliciava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Nosso carro era guardado,
debaixo do tamarindo,
num ambiente mais lindo,
no pátio, perto do gado,
era sempre procurado,
para tanta obrigação,
tinha grande aplicação,
nos trabalhos, ajudava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Todo dia a gente ouvia
um carro de boi cantando,
que por perto ia passando,
aumentava a alegria,
da gente e da freguesia,
era a melhor condução,
que não tinha caminhão,
e o carro de boi rodava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

A minha primeira vez,
para estudar na cidade,
saí com tanta saudade,
em agosto, foi o mês,
de pessoas eram três,
eu, vovô e meu irmão,
chorei deixando meu chão,
no carro que nos levava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

A gente em cima do carro,
por dentro da capoeira,
num sobe e desce ladeira,
em pedra ou estrada de barro,
às vezes, o solo piçarro,
baixio, várzea ou grotão,
o boi com disposição,
todo canto atravessava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

O seu canto era bonito,
em qualquer hora do dia,
na mais perfeita harmonia,
constituindo um bendito,
e se escutava o apito
do gemido do cocão,
que se usava carvão,
no peso se amaciava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Às vezes de manhãzinha,
botava nos bois a canga,
saindo-se para a manga,
com a água na quartinha,
rapadura com farinha,
era a nossa refeição,
cumpria-se a missão,
de tardezinha voltava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Gente do lado de fora
ou em cima do tablado,
satisfeito e animado,
e não se contava a hora,
de terminar, vir embora,
era boa a diversão,
o dia todo em rojão,
mas ninguém não se enfadava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Me lembro quando menino,
com papai ia buscar
o carro pra trabalhar,
enfrentando o sol a pino,
como bravo nordestino,
sempre com disposição,
nunca fazia questão,
da luta não se afastava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Eu sinto muita saudade
do velho carro de boi,
tempo bom que já se foi,
de criança e mocidade,
hoje moro na cidade,
distante do meu torrão,
guardo no meu coração
momentos bons que passava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Quando a gente ia buscar
o carro de manhãzinha,
só vinha de tardezinha,
para o dia aproveitar,
e achava gostoso estar
ouvindo aquela canção,
confortava o coração,
era tudo o que eu sonhava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Sempre me vem na lembrança,
quando o carro ia passando,
e a gente ficava olhando,
desde o tempo de criança,
pela nossa vizinhança,
uma grande atração,
já houve transformação,
e hoje nada se grava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Quem nasceu no interior
do nordeste brasileiro,
conhece todo roteiro
do sertão abrasador,
o carro tinha valor,
muita utilização,
para as festas de São João,
com ele se festejava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Era uma brincadeira,
para toda a nossa gente,
que se sentia contente,
numa vida prazenteira,
levava troços pra feira,
numa grande lotação,
retornava em procissão,
muita gente acompanhava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Na frente era o candeeiro,
orientando a boiada,
para seguir na estrada,
já atrás era o carreiro,
verificando o fueiro,
cada um tinha um ferrão,
na hora da precisão
à boiada ele esporava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

No carro de boi, a gente
seguia ao lado ou em cima,
no mais favorável clima,
mesmo enfrentando o sol quente,
continuava contente,
na maior animação,
ouvindo aquela canção,
constante e não se enjoava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

O som era disputado
por todos da redondeza,
que era a maior proeza,
para o homem do roçado,
ninguém ficava zangado,
naquela competição,
havia aproximação
e a cantiga melhorava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Cheda, mesa, tamoeiro,
são peças que têm no carro,
chumaço, junta, pigarro,
chavelha, camba, fueiro,
eixo e no lado traseiro,
caniços e argolão,
na roda, pino, meão,
na borda, o ferro cercava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Cada boi era famoso,
de nome, nego, melado,
crioulo, estrelo, pintado,
pelé, redondo e mimoso,
navegante e caviloso,
brasil, mineiro e furão,
fubá, gaúcho, sansão,
veado se apelidava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

O boi era acostumado
a trabalhar na fazenda,
nos serviços da moenda,
no transporte ou no arado,
era sempre bem tratado
pra suportar o rojão,
conhecia o estradão,
todo tempo trabalhava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

O carro vinha gemendo
na descida da ladeira,
se ouvia a estaladeira,
e a gente ficava vendo,
uma carrada trazendo,
numa superlotação,
agüentando o rojão,
naquela quentura brava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

A mocinha na janela,
achava lindo o cantar
do carro de boi passar,
ficava de sentinela,
o rapaz vendo a donzela,
tinha a admiração,
marcava uma reunião
e o namoro iniciava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

O sertão está mudado,
não se vê carro de boi,
aquele tempo se foi,
não volta mais o passado,
tudo está fantasiado,
não houve conservação,
toda a nova geração
sem vê de que se deprava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Não usava gasolina,
nem levantava poeira,
o carro era de primeira,
nessa área nordestina,
a sua melhor buzina
era o canto do cocão,
não tinha poluição,
nem a cantiga abusava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Lembro o rastro da boiada
na nossa propriedade,
eu tinha a felicidade,
de percorrer na estrada,
mesmo com a pele tostada,
os pés rachados no chão,
trago na imaginação,
o que tanto apreciava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Hoje em dia quando eu vou
visitar o meu lugar,
dá vontade de chorar,
vendo a casa de vovô,
onde tudo começou,
mas houve transformação,
dentro do meu coração,
uma revolta se trava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Toda vez que a gente via
o carro pela estrada,
na harmoniosa zoada,
aumentava a alegria,
era uma melodia,
numa boa entoação,
despertando a atenção,
chega a gente decorava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Passeei muito na vida
naquele carro importante,
porque era fascinante,
na subida ou na descida,
a viagem divertida,
durante a locomoção,
não havia contra-mão,
a rota se controlava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Eu ainda tive a sorte
de no carro passear,
hoje eu fico a recordar,
foi meu primeiro transporte,
além da luta, um esporte,
tão forte na região
mas a globalização
mela, lambuza e não lava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Quem quiser se interessar,
em tempo ver um tesouro,
gibão e chapéu de couro,
vá num museu constatar,
é raro ter um lugar,
que faça preservação
dessa velha tradição,
que a cada dia se agrava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Quando Dom Pedro Primeiro,
no IPIRANGA gritou,
nosso Brasil se livrou
da garra do estrangeiro,
todo o povo brasileiro,
ficou de trunfo na mão,
valorizando a nação,
que a PORTUGAL se curvava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

No grito da INDEPENDÊNCIA,
que se deu no IPIRANGA,
O CARRO, BOIADA e CANGA,
gritavam por resistência,
despertando a consciência
de toda a população,
trazendo a grande lição
de quem tanto cultuava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Toda vez que se recorda
desse transporte altaneiro,
em que Dom Pedro Primeiro (*),
deixou exposto na borda,
acho que você concorda
com esta observação,
faça uma avaliação
da relíquia que brilhava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Toda vez que se aborda
o tema CARRO DE BOI,
às vezes, foi e não foi,
a minha memória acorda,
e no meu peito transborda
um rio de emoção,
tenho na recordação
o CARRO que eu viajava.
Meu carro de boi cantava
nas quebradas do sertão.

Eu ficava satisfeito
se houvesse uma defesa,
valorizando a riqueza
do trabalhador do eito,
o CARRO DE BOI, aceito,
em toda a federação,
conservando a tradição,
nossa vida melhorava.
E o CARRO DE BOI cantava
nas quebradas do sertão.

À margem do IPIRANGA,
existe um CARRO DE BOI,
pintado por PEDRO AMÉRICO,
que JESUS o abençoe,
é bom que a gente exiba
o filho da PARAÍBA,
que há muitos anos se foi.

A PARAÍBA se orgulha
em saber que um filho seu,
brilha no mundo das artes,
no mais sublime apogeu;
qual fez AUGUSTO DOS ANJOS,
poeta, com seus arranjos,
que compôs o livro EU.

O canto melodioso
que o CARRO DE BOI deixava,
será sempre recordado,
inda mais por quem lidava,
constituindo a história,
que nunca sai da memória,
de quem tanto apreciava.


(*) O nome completo de Dom Pedro é:
Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourdon.





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