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Ensaios-->Economia arrebentada, o Brasil volta aos anos 30 -- 13/12/2016 - 17:43 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

 

A economia está arrebentada e o país volta aos anos 30. Entrevista especial com Waldir Quadros

 

 

 

 

http://www.ihu.unisinos.br/563310-a-economia-esta-arrebentada-e-o-pais-volta-aos-anos-30-entrevista-especial-com-waldir-quadros

A “grande lacuna do governo do PT” à frente da presidência da República nos últimos anos foi “não ter feito” uma “política industrial”, diz o economista Waldir Quadrosà IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone. Na avaliação dele, na última década “perdeu-se uma grande oportunidade de industrializar o país” e, diante da atual conjuntura recessiva, “a economia está arrebentada, as indústrias estão endividadas e o país fica, novamente, refém do agronegócio e, ao mesmo tempo, dependente do preço do mercado”, constata.

De acordo com o economista, a “situação de vulnerabilidade” econômica atual é “maior porque o país abandonou a indústria e adotou uma política de desindustrialização, com um câmbio favorável à importação, e uma taxa de juros que impede o investimento”.

Como consequência da crise econômica e do aumento do desempregoQuadroschama atenção para a “queda da mobilidade social” e para a redução da renda das famílias. “Todos os analistas falam dessa queda da mobilidade social, mas ninguém fala da causa dessa situação, que é fruto das decisões equivocadas que a ex-presidente Dilma Rousseff tomou, ou seja, adotou uma política econômica que jogou o país na recessão”. E acrescenta: “Esses dias eu estava num debate e o pessoal estava comentando que a crise do país está relacionada com a PEC dos gastos, mas a PEC nem foi aprovada ainda. Esses efeitos que estamos vendo hoje são reflexo das decisões já tomadas no passado”.

Para ele, as medidas econômicas propostas pelo governo Temer estão “agravando o que a Dilma fez em termos de política monetária”. Como alternativa para sair do atual estado de recessão, Quadros frisa que é preciso retomar o investimento estatal em infraestrutura. “Teria que haver uma política econômica alternativa, com juros mais baixos, que retomassem o investimento, com um câmbio favorável à produção nacional”, diz.


Waldir Quadros  Foto: Beatriz Arruda/SEESP

Waldir José de Quadros possui graduação em Economia pela Universidade de São Paulo - USP e mestrado e doutorado em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, onde atualmente é professor associado do Instituto de Economia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Desde a sua análise da Pnad de 2013, o senhor tem alertado para o fato de que está em curso um retrocesso social em cascata no país. Esse processo se agravou de lá para cá?

Waldir Quadros – O retrocesso que eu imaginava que ocorreria em 2014 não ocorreu, porque houve uma recuperação em relação a 2013, de modo que o primeiro governo Dilma terminou de forma positiva em termos de mobilidade social. Não há dados claros que expliquem a razão dessa recuperação em 2014, mas provavelmente o governo agiu para evitar a recessão. Mas esse retrocesso se iniciou em 2015 e se agravou em 2016. Eu acompanhei os dados de 2015 pela Pnad Contínua, que é trimestral e que diz respeito àqueles que estão ocupados ou procurando emprego, ou seja, é um retrato do mercado de trabalho, mas esses dados ainda não nos permitem saber o que está acontecendo com as famílias. De todo modo, os dados já indicam que houve um retrocesso social.

Em 2016 a situação se agravou porque não só o desemprego continuou a crescer, como também a estabilidade que observávamos na estrutura dos ocupados não se manteve

Em 2015 quem continuou empregado apresentou uma situação estável na estrutura social, mas, de outro lado, ao longo do ano o desemprego foi aumentando e, por conta disso, as famílias começaram a ser afetadas. Em 2016 a situação se agravou porque não só o desemprego continuou a crescer, como também a estabilidade que observávamos na estrutura dos ocupados não se manteve. Então, em 2016 tem uma dupla determinação da crise: o desemprego se acentuou e junto com isso piorou a situação dos ocupados, ou seja, há uma mobilidade descendente entre os ocupados. Esse é o cenário que observamos até o terceiro trimestre de 2016, ou seja, é um dado atual que já indica o que vamos observar em 2017, quando sair a Pnad 2016. A Pnad Contínua já antecipa o que será retratado na Pnad anual.

IHU On-Line – Diante desse cenário que o senhor descreve, já é possível estimar em que percentual a renda do brasileiro diminuiu? A partir dos seus estudos sobre a evolução da estrutura social brasileira, é possível estimar a qual patamar a renda irá regredir em comparação com outros momentos de crise econômica?

Waldir Quadros – Sem dúvida essa situação se reflete na perda da renda, e os dados já estão mostrando isso: a renda vem caindo e, nesse cenário de crise, vai continuar caindo. A queda da renda reflete o encolhimento do topo da pirâmide e a expansão da base da pirâmide. Certamente haverá uma regressão, mas eu não compararia essa recessão com a dos anos 90, embora o fenômeno que se vive hoje possa ser comparado.

Todos os analistas falam dessa queda da mobilidade social, mas ninguém fala da causa dessa situação, que é fruto das decisões equivocadas que a ex-presidente Dilma Rousseff tomou, ou seja, adotou uma política econômica que jogou o país na recessão. Obviamente que um ajuste precisaria ser feito, mas não do modo como ela fez. Ela se elegeu prometendo uma coisa e fez outra, jogou o país na recessão e agora ninguém sabe quando o país sairá dessa situação, porque recessão é uma coisa gravíssima, que tem efeitos terríveis para um país. Jogar um país na recessão é muito mais fácil do que tirá-lo, e o quadro hoje é bastante preocupante, porque não há nenhum indício de que o país sairá dessa situação.

Esses dias eu estava num debate e o pessoal estava comentando que a crise do país está relacionada com a PEC dos gastos, mas a PEC nem foi aprovada ainda. Esses efeitos que estamos vendo hoje são reflexo das decisões tomadas no passado. Estados como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, além da recessão que estão sofrendo pelo corte dos gastos estatais, sofrem ainda por conta da crise envolvendo a Petrobras, porque esses estados dependem do setor de petróleo que, ao estar em crise, afeta todas as cadeias ligadas a esse setor.

A única forma de ativar a economia é através do gasto público, porque o setor privado não vai investir agora de forma significativa

Nesse cenário em que estamos, a única forma de ativar a economia é através do gasto público, porque o setor privado não vai investir agora de forma significativa. Mas só se fala em cortes.

IHU On-Line - Muitos economistas têm criticado a PEC 55 porque ela propõe regular o gasto do Estado, mas argumentam que nada foi feito para estimular a economia. Como o senhor avalia as medidas adotadas?

Waldir Quadros – No fundo o atual governo está agravando o que a Dilma fez em termos de política monetária. O que precisa ser feito? Gastar, mas essa PEC limita o gasto. De onde é possível liberar espaço para o Estado poder investir? Da redução dos juros, porque aumentar a arrecadação é algo que não terá efeito neste momento, porque diante da recessão cai a arrecadação e não tem superávit. Agora, se cortarem os juros, libera-se espaço para começar a investir em infraestrutura, porque neste momento também não adianta reativar o consumo, uma vez que ninguém quer comprar por conta do aumento do desemprego.

Então, é preciso investir em atividades que geram empregos, como por exemplo, reativar o setor da Petrobras. A Operação Lava Jato deveria prender os donos das empresas envolvidas nos casos de corrupção, mas manter as empresas funcionando.

Mas quem está no governo é refém do mercado financeiro, e o governo Temer só ficará no poder enquanto fizer o que o mercado quer. Na última reunião do conselho, um empresário disse que Temer deveria aproveitar a sua impopularidade – já que não tem popularidade mesmo - para aprovar medidas impopulares. Então, Temer não fará nada de alternativo, e não existe nenhuma força política no momento se contrapondo de forma viável e apresentando uma alternativa ao que é proposto pelo governo.

IHU On-Line - Fazendo uma retrospectiva, que análise o senhor faz do modo como os governos petistas conduziram a política econômica brasileira nos últimos anos? O que poderia ter sido feito para que hoje houvesse uma alternativa econômica?

A grande exceção foi o pré-sal, porque estimulava o conteúdo nacional, a industrialização, mas fizeram toda aquela “baianada” com a Petrobras, e deixaram a situação econômica vulnerável

Waldir Quadros – Essa é a grande lacuna do governo do PT: não ter feito política industrial, ou seja, perdeu-se uma grande oportunidade de industrializar o país. Tivemos nos últimos anos governantes com alta popularidade, que poderiam ter investido em um desenvolvimento sustentável. E agora vem uma situação de crise e a economia está arrebentada, as indústrias estão endividadas e o país fica, novamente, refém do agronegócio e, ao mesmo tempo, dependente do preço do mercado. Se há uma crise das commodities, como houve com a redução do preço, o país fica vulnerável e passa a depender novamente do café, como era em 1929.

Hoje vive-se uma situação de vulnerabilidade maior porque o país abandonou a indústria e adotou uma política de desindustrialização, com um câmbio favorável à importação - e nós ficamos comprando produtos importados -, e uma taxa de juros que impede o investimento. É justamente esse o problema do Brasil.

Teria que haver uma política econômica alternativa, com juros mais baixos, que retomassem o investimento, com um câmbio favorável à produção nacional. A grande exceção foi o pré-sal, porque estimulava o conteúdo nacional, a industrialização, mas fizeram toda aquela “baianada” com a Petrobras e deixaram a situação econômica vulnerável.

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