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Ensaios-->Estratégia e ideologia diante do encerramento da crise síria -- 17/09/2013 - 13:36 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

ESTRATÉGIA E IDEOLOGIA DIANTE DO

ENCERRAMENTO DA CRISE SÍRIA
 

:: George Friedman – Tradução de FRANCISCO VIANNA

Terça feira, 17 de setembro de 2013

Diz-se que quando o famoso diplomata austríaco Klemens von Metternich soube da morte do embaixador turco, ele disse: "Eu me pergunto o que ele quis dizer com isso?"

Se isso é verdade ou não, se é sério ou piada, o dito assinala um problema de diplomacia. Em busca do significado por trás de cada gesto, diplomatas começam a considerar todas as ações como meramente gestos. No mês passado, o presidente dos EUA tratou o ato de bombardear a Síria como um simples gesto destinado a transmitir um significado, ao invés de uma ação militar que pudesse ter alguma finalidade específica. Esta é a chave para a compreensão do conto que foi o desdobramento dos fatos ao longo do mês passado.

Quando o presidente Barack Obama ameaçou sua ação militar em retaliação por aquilo que ele dizia ser o uso de armas químicas pelo governo sírio, que se referia a um ataque limitado, que não iria destruir essas armas. Destruir todos elas com ataques aéreos exigiria bombardeios extensos, consistentes e demorados, que, afinal, não poderiam ser enquadrados como “limitados”, sem falar no fato de que a operação militar, ao atingir tal arsenal arriscaria liberar grande quantidade de produtos químicos letais para a atmosfera. Tal operação, também, não teria a intenção de destruir o regime presidente sírio, Bashar al Assad. Também isso seria impraticável a partir do ar e haveria o risco de criar um vácuo de poder que os Estados Unidos não estavam dispostos a gerir in loco, mediante uma ocupação, como no Iraque. Em vez disso, a intenção era sinalizar ao governo sírio que os Estados Unidos estavam zangados...

A ameaça de guerra é útil apenas quando a ameaça é real e significativa. Tal ameaça, no entanto, foi concebida para ser insignificante. Alguma coisa seria destruída, mas não seriam as armas químicas do regime ou o regime em si. Como gesto, portanto, o que Obama sinalizou não é que era perigoso provocar a ira dos EUA, mas sim o fato de que não dar bola para Washington não traz consequências significativas. Os EUA são extremamente poderosos militarmente e suas ameaças de guerra deveriam assustar, mas, ao invés disso, o presidente optou por pintar tal ameaça de tal forma que seria seguro ignorá-la.

EVITAR A AÇÃO MILITAR

Com toda a franqueza, ficou claro no início que Obama não queria uma ação militar contra a Síria. Duas semanas atrás eu escrevi que esta era "uma comédia em três atos: o guerreiro relutante se tornando num general furioso e encontrando seus seguidores se dispersando, e voltando de novo a ser um guerreiro relutante”. Na semana passada, em Genebra, o guerreiro relutante reapareceu, pôs de lado suas armas e prometeu não atacar a Síria.

Quando tomou posse, Obama não queria se envolver em qualquer guerra. Seu objetivo era aumentar o limiar para uma ação militar muito maior do que tinha sido, desde o final da Guerra Fria, quando a operações militares “Tempestade no Deserto” no Iraque, na Somália, no Kosovo, e no Afeganistão, além de outras intervenções menores, indicaram um padrão habitual da política externa dos EUA. Quaisquer que tivesse sido as justificativas para qualquer dessas operações bélicas, Obama viu os EUA como sobrecarregados pelo tempo e custo da guerra. Ele pretendia livrar o país desse belicismo caro e nem sempre compensador passar a desempenhar um papel menor na gestão do sistema internacional. No máximo, ele pretendia fazer parte de uma coalizão de nações, e não praticamente o único líder e, quase sempre, um ator solitário.

Claramente, ele considerou não seguir esse novo padrão na Síria, apesar de toda a movimentação de forças no Mediterrâneo ao largo da costa do país ameaçado. Ele estava na iminência de se envolver numa guerra civil, na qual os EUA não têm um lado favorito a apoiar e não têm sido bem sucedidos em impor a sua vontade em tais conflitos internos no Oriente Médio. Washington tem uma longa história de hostilidade contra o regime de al Assad, mas também é hostil aos rebeldes, que – embora possam ter alguns democratas constitucionais entre suas fileiras – têm cada vez mais caído sob a influência de jihadistas radicais, como é o caso da Irmandade Muçulmana.

Possibilitar a criação de um novo Estado-nação islamofascista como o do Irã, por exemplo, com base nessas facções seria recriar a ameaça representada pelo Afeganistão que levou ao 11 de setembro de 2001, e fazer isso num país que faz fronteira com a Turquia, o Iraque, a Jordânia, Israel e Líbano, seria altamente temerário.

A menos que os Estados Unidos estivessem preparados para novamente perpetrar uma ocupação e construir um novo país conforme seus interesses, a escolha de Washington teria que ser "diferente de qualquer das anteriores".

A estratégia e as especificidades da Síria, ambas questionadas pela distância americana, fizeram com que Obama seguisse essa lógica. Já que armas químicas foram usadas, no entanto, o raciocínio mudou e duas razões explicam esta mudança.

ARMAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA (ADM) E INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA

A primeira consistiu nas preocupações estadunidenses com relação às ADMs. Desde o início da Guerra Fria até o momento atual, o medo das armas nucleares tem assombrado o psiquismo americano. Alguns diriam que tal esquisitice atribuída aos EUA é proveniente do fato de ter sido o único país a usar bombas atômicas em conflitos bélicos. Acho que é precisamente por causa disso. Entre Hiroshima e a certeza de destruição mútua, houve uma razoável aversão às consequências de uma guerra nuclear. Pearl Harbor tinha criado o medo de que uma guerra pudesse eclodir de modo inesperado e a qualquer momento, e a íntima consciência de que Hiroshima e Nagasaki pudesse gerar o medo de uma súbita aniquilação dos EUA.

Outras armas capazes de aniquilação em massa de populações se juntaram às armas nucleares, principalmente as químicas e biológicas. Robert Oppenheimer, que supervisionou o trabalho científico do Projeto Manhattan, empregou o termo "arma de destruição em massa" para designar uma classe de armas capazes de causar destruição na escala de Hiroshima e além, uma categoria que pode incluir armas químicas e biológicas, que eventualmente podem tornar a Terra um local inabitável.

O conceito de armas de destruição em massa, eventualmente, passou de "destruição em massa" para o de “arma” em si. O uso e até mesmo a posse de tais armas por atores que anteriormente não as possuíam, passou a ser visto como uma ameaça para os Estados Unidos. O limiar de destruição em massa deixou de ser a medida significativa e, em vez disso, a causa da morte de tal ataque ocupou o centro das atenções. Dezenas de milhares de pessoas morreram na guerra civil da Síria. A única diferença nas mortes que levaram às ameaças de Obama foi a de que muitas delas forma causadas por armas químicas. Apenas essa distinção foi suficiente para mudar a estratégia da política externa dos EUA na região.

A segunda causa dessa mudança de estratégia dos EUA é a mais importante. Todas as administrações americanas têm tido uma tendência de pensar ideologicamente, e há uma forte inclinação ideológica presente na administração Obama que sente que o poder militar dos EUA deveria ser usado para impedir genocídios. Este sentimento remonta à Segunda Guerra Mundial e ao Holocausto, e se tornou particularmente intenso com relação a Ruanda e a Bósnia, onde muitos acreditam que os Estados Unidos poderiam ter evitado o assassinato em massa. Muitos defensores da intervenção norte-americana em operações humanitárias e que se opõem ao uso da força militar em outras circunstâncias, consideram a sua utilização como um imperativo moral para impedir o assassinato em massa.

O medo combinado de armas de ADMs com a “ideologia de intervenção humanitária” tornou-se uma força resultante irresistível para Obama. A chave para esse processo foi a de que a definição de genocídio e a definição de destruição em massa havia tanto se deslocado e de tal forma que a morte de menos de mil pessoas numa guerra que já custou dezenas de milhares de vidas resultou em demandas por intervenção por ambos os motivos.

A pressão sobre Obama cresceu dentro de sua administração por parte daqueles que estavam preocupados com o uso de ADMs e daqueles que viram outra trama semelhante em Ruanda. O limiar para a “intervenção moralmente obrigatória” era baixa e acabou por ser cancelado, com o limite estratégico sendo muito amplo do que a ‘linha vermelha’ estabelecida por Obama, uma vez que ele não queria saber de se envolver na Síria como se envolveu no Iraque e no Afeganistão, ou na Líbia. Mas a ideologia das ADMs e a ideologia de “intervenção humanitária” obrigaram-no a mudar o discurso.

UM EQUILÍBRIO IMPOSSÍVEL

Obama tentou encontrar um equilíbrio onde não havia qualquer equilíbrio, entre a sua estratégia que ditou a não intervenção e de sua ideologia que exigiu que algo seja feito. Sua solução foi ameaçar em voz alta com uma ação militar que ele e seu secretário de Estado, tanto indicaram que seria mínima. A ameaça de ação despertou pouco interesse do regime sírio, que luta uma guerra sangrenta de dois anos. Enquanto isso, os russos, que buscavam ganhar posição na região, resistindo aos EUA, algo que Washington pinta como irresponsável e unilateral.

Obama quer tudo isso para simplesmente dizer que fez o que tinha de ser feito e ir dormir, mas ele precisa de alguma garantia de que as armas químicas da Síria sejam postas sob controle internacional e mesmo serem destruídas. Para isso, ele precisa de aliados de al Assad, dos russos, e da promessa de que concordam com isso. Sem tais garantias, ele teria sido forçado a tomar uma ação militar ineficaz, apesar de não querer.

Portanto, a fase final da comédia encenada em Genebra, o local da sepultura dos encontros da Guerra Fria (é estranho que Obama tenha aceitado este local dado o seu simbolismo), onde os russos concordaram em, de alguma forma não especificada e num período de tempo incerto,   fazer algo sobre as armas químicas da Síria. Obama prometeu não tomar medidas que teriam sido ineficazes de qualquer maneira, e que tudo chegaria ao fim, permitindo que Assad continuasse a matar seu próprio povo, desde que por “meios convencionais”.

No final, este acordo será significativo se vier a ser posto em funcionamento. Tomar o controle de 50 locais de arsenal químico no meio de uma guerra civil, obviamente, levanta algumas questões técnicas sobre a sua factibilidade. O núcleo do negócio é, obviamente, completamente vago. No centro dele, os EUA concordaram em não pedir ao Conselho de Segurança da ONU permissão para atacar no caso dos sírios deixarem de cumprir a sua parte. Também não esclarece os meios para avaliar e garantir as armas químicas da Síria, tanto em qualidade quanto em quantidade. Os detalhes do plano provavelmente irão acabar rasgando-o no final. Mas a questão do não era propriamente lidar com as armas químicas, mas era a de ganhar tempo e liberar os EUA de seu compromisso de bombardear alguma coisa na Síria.

Houve, sem dúvida, outros assuntos que foram discutidos, incluindo o futuro da Síria. Ambos, os EUA e a Rússia, querem que o regime de al Assad continue, e que este bloqueiem os sunitas. Ambos querem o fim da guerra civil, os norte-americanos para reduzir a pressão sobre si no sentido de ajudar os sunitas e, os russos, para reduzir as chances de o regime de al Assad entre em colapso. Permitir que a Síria se torne outro Líbano (historicamente são um país) com vários senhores da guerra – ou, mais precisamente reconhecendo que isso já aconteceu – é o resultado lógico de tudo isso.

CONSEQUÊNCIAS

Globalmente, o resultado mais importante é que os russos se sentaram com os norte-americanos como iguais, pela primeira vez desde o colapso da União Soviética. Na verdade, os russos se sentaram como mentores, posicionando-se e aparecendo para instruir os imaturos americanos na gestão de crises. Para tal efeito, o editorial e opinião de Putin no jornal The New York Times foi brilhante.

Isto não deve ser visto apenas como meras imagens: a imagem dos russos forçando os americanos a recuarem ressoa em toda a periferia russa. Nos ex-satélites soviéticos, na completa desordem europeia, no tocante a esta e outras questões. A vacilação dos EUA e o simbolismo de Kerry e Lavrov negociando de igual para igual vão moldar o comportamento internacional por um bom tempo.

Também será o caso de países como o Azerbaijão, uma alternativa fundamental para a energia russa que faz fronteira com a Rússia e o Irã. O Azerbaijão enfrenta uma segunda consequência da ideologia do governo, que vimos durante a Primavera Árabe. A administração Obama tem demonstrado uma tendência para julgar regimes que são potenciais aliados na base dos direitos humanos, sem uma análise cuidadosa sobre se a alternativa poderia ser muito pior. Juntamente com uma imagem de fraqueza, isso poderia causar a países como o Azerbaijão reconsiderarem suas posições vis-a-vis com os russos.

O alinhamento de princípios morais com a estratégia nacional não é fácil de ser obtido e, na melhor das circunstâncias, as ideologias tendem a ser mais sedutoras em termos gerais, mas não tão coerentes em casos específicos. Isto é verdade em todo o espectro político, mas particularmente intenso na administração Obama, onde as ideias de intervenção humanitária, o absolutismo dos direitos humanos, e a oposição às ADMs colidem com uma estratégia de limitar o envolvimento dos EUA – particularmente o envolvimento militar – no mundo. As ideologias acabam exigindo julgamentos e ações que a estratégia rejeita.

O resultado é o que vimos no mês passado em relação à Síria: a tensão constante entre a ideologia e a estratégia que fez com que a administração Obama procurasse modos e maneiras de fazer as coisas contraditórias. Este não é um fenômeno novo nos Estados Unidos, e este caso não reduz o seu poder objetivo, mas cria uma sensação de incerteza sobre o que exatamente os Estados Unidos pretendem e pretenderão fazer no futuro em situações parecidas que fatalmente surgirão não apenas no Oriente Médio, mas em qualquer outro lugar do cenário internacional. Quando isso acontecer num país menor, a problemática não será de tirar o sono de ninguém. Mas se isso ocorrer com uma grande potência, aí a coisa poderá se tornar muito perigosa.


 

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