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Ensaios-->A guerra do crack, por Vania L. Cintra -- 12/01/2012 - 18:00 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

A GUERRA DO CRACK – uma analogia 

Quem freqüentou minhas aulas de Relações Internacionais sabe que, usando de todos os recursos na tentativa de que as conexões entre Política Externa e Política Interna fossem bem compreendidas, após apresentar o programa da disciplina aos alunos, eu sempre recomendava que alguns filmes fossem vistos, pois eles ajudariam a perceber a respeito de que estaríamos falando. Entre esses filmes incluía-se “A Guerra do Ópio”.  Por vezes, até o levei à sala de aula para provocar uma discussão imediata.

A expressão de espanto manifesta por alguns mais atentos vem-me imediatamente à memória ao ler, hoje, uma notícia na Folha de S. Paulo: “Bairros de classe média abrigam cracolândias privês - Traficantes alugam apartamentos e casas na Vila Mariana, Paraíso e Bela Vista para receber viciados”.

Lembremo-nos da Guerra do Ópio, não o filme, mas ela mesma. Assim foram chamadas duas guerras enfrentadas pela China no século dezenove, quando as chamadas Índias Orientais eram os principais mercados de destino dos produtos do chamado “velho continente”. China e Índia eram os mercados mais visados principalmente pelos ingleses, já na segunda fase da Revolução Industrial. Os chineses cultos denominavam os estrangeiros de “bárbaros” inclusive em documentos oficiais e não demonstravam interesse em adquirir produtos europeus. E a China exportava mercadorias muito valorizadas, tais como chá, porcelanas e sedas. A British East Índia Company produzia ópio na Índia – um entorpecente extraído da papoula – já no século dezessete, e o exportava em grande quantidade para a China. O ópio devia compensar as perdas nas relações comerciais. Em finais do século dezoito, o Imperador Ch& 39;ung Ch& 39;en (ou mais ou menos isso) proibiu o consumo da droga. O fornecimento e o consumo da droga, que causava graves problemas sociais, continuaram sendo garantidos pelo contrabando, propagando-se mais e mais por todo o território chinês. O decreto imperial não deteve a expansão desse consumo que proporcionava muitos lucros aos comerciantes ingleses que forçavam a liberação do comércio de ópio, e o Governo imperial da China mais uma vez tentou proibi-lo.

A primeira guerra – Em 1839, o Imperador Daoguang (também mais ou menos isso) determinou o confisco da mercadoria proibida nos portos chineses. Marinheiros britânicos assassinaram um de seus enviados. O governo chinês confiscou e destruiu cerca de 20 mil caixas de ópio nos depósitos britânicos do porto de Cantão, e expulsou os comerciantes ingleses da cidade. Os interesses afetados eram, em tese, privados, mas esses comerciantes apresentaram uma queixa ao governo britânico, que atacou a China com a sua poderosa Armada. Tropas chinesas foram incapazes de lidar com a superioridade bélica e técnica dos ingleses, que bombardearam Nanquim e cortaram sua comunicação com a capital, Pequim. A proporção das tropas envolvidas era de 20.00 soldados ingleses contra quase 92.000 soldados chineses, que terminaram por render-se. A guerra teve fim em 1842, com a assinatura do Tratado de Nanquim, comprometendo-se a China com pagar aos ingleses uma indenização, com liquidar com o sistema comercial estatal, com ceder  Hong Kong ao domínio inglês por quase cem anos e com abrir mais cinco portos ao comércio britânico nos quais permaneceria permanentemente ancorado um navio da Marinha de Guerra de Sua Majestade. Nos demais portos o comércio de ópio continuou sendo proibido.

A segunda guerra - Em 1856, oficiais chineses abordaram e revistaram o navio Arrow, de bandeira britânica, o que foi considerado uma violação do Tratado de Nanquim. O comércio nos portos “livres” não prosperava a contento e a Inglaterra contou com a França como um aliado no ataque desferido em 1857. Os EUA também participaram de 1856 a 1859 com pouco menos de trezentos homens e três dos 176 navios de guerra envolvidos no ataque. A intenção era a assinatura de novo Tratado que liberasse o comércio, inclusive o do ópio, em todo o território chinês. O Imperador recusou-se a aceitá-lo e Pequim foi ocupada. Com nova derrota, a China assina o Tratado de Tianquim em 1858, ratificado pela Convenção de Pequim em 1860, pelo qual legalizava o comércio de ópio, garantia a abertura de mais onze outros portos ao Ocidente, liberdade de movimento aos mercadores europeus e missionários cristãos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês consentiu a instalação de delegações ocidentais na capital e renunciou ao termo "bárbaro" ao fazer menção aos estrangeiros. Em 1900, o número de portos abertos ao comércio com o Ocidente, chamados de "portos de tratado", chegava a mais de cinqüenta, sendo que todos os países europeus, assim como os EUA e o Japão, gozavam de concessões e privilégios comerciais especiais. Participaram da guerra cerca de 18.000 soldados aliados contra 200.000 soldados chineses. A metade da população adulta masculina da China era viciada em ópio. O comércio e o consumo desenfreado de ópio somente pôde ser extirpado após 1949, por ação violenta do governo comunista. Hong Kong somente foi devolvida à China em Julho de 1997.

 

*** 

O que distingue uma ciência de uma disciplina é que a primeira não apenas se apóia em leis ou regras como procura estabelecê-las em algum campo do saber, cada vez mais adequando-as ao desenvolvimento desse saber. Essas leis, que são teorias formuladas de acordo com a repetição dos fenômenos empiricamente observados, limitarão teoricamente o campo da atenção dada a esses fenômenos para os quais se busca uma explicação. Assim como a Política e a História, as Relações Internacionais não são qualquer ciência – todas essas são disciplinas, ou seja, são um conjunto de saberes apenas ordenados e sistematizados de forma a nos servir de apoio ao conhecimento do comportamento humano. Não há leis quaisquer que nos digam como se faz a História, a Política ou as relações entre os indivíduos nacionais e estrangeiros que habitam os territórios estatais ou nele fazem seus negócios, ou as relações entre os Estados. Mesmo os Tratados e Acordos entre os Estados são rompidos a qualquer momento em que os indivíduos por eles responsáveis julguem conveniente ou necessário. 

Alguns, no entanto, gostam de ensinar que a História se repete. Outros acrescentam que ela se repetirá sempre como uma farsa. Digamos que isso não seja exatamente um equívoco proposital, mas não passa de força de expressão, pois o que se repetem são os instintos e as emoções dos Homens, desencadeados por qualquer motivo. Porque os Homens são apenas Homens desde que o mundo é mundo. Desde sempre observados na sua busca de obter e/ou preservar seus interesses, nunca exatamente os fatos, nunca a exata razão deles, nunca exatamente os objetivos, nunca exatamente os mesmos métodos por eles empregados serão exatamente os mesmos em todos os tempos. Isso porque não apenas as circunstâncias se alteram como os próprios Homens ganham em experiência e em conhecimento. E, assim, não haverá receitas prontas que nos permitam a projeção da História ou seu controle ou, portanto, a sua construção, ou regras rígidas que nos indiquem com segurança qual política deva ser adotada em cada ocasião – mas daí a importância da analogia que, naquelas disciplinas, é capaz de produzir muito mais conhecimento que quaisquer supostas rígidas leis. Desde que saibamos formulá-las.

 

*** 

Conhecido desde a Antiguidade, sabe-se que o ópio, pelo menos, foi já utilizado no culto a Deméter, que os soldados gregos a ele recorriam, em solução em álcool, para tranqüilizar-se e, assim, ter mais coragem durante as batalhas, e que era prescrito não só como sedativo, mas também como sendo eficaz na cura da epilepsia, da bronquite, da asma, das pedras nos rins, da disenteria, da gota, do diabetes, do tétano, da insanidade e até da ninfomania. Os romanos viram nele também uma arma, pois útil a suicídios e assassinatos.

O livre comércio inglês mais disseminou o ópio ao Ocidente, que consumia seus principais derivados. E as chamadas "casas de ópio" proliferaram.  Para conhecê-las, leiam-se, por exemplo, o Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde ou algumas das aventuras de Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle. Em 1898 foi desenvolvida a heroína, substância muito mais potente e viciante que a morfina. E, desde 1862, a cocaína, substância extraída das folhas da coca, o arbusto originário da região andina, também é produzida em laboratório, sendo em seguida utilizada como anestésico local e como analgésico, medicamentos que podiam ser comprados livremente. Só foi considerada danosa quando mortes foram atribuídas ao consumo em excesso e essas mortes assustaram as autoridades. A Colômbia é hoje responsável por 80% da cocaína consumida no mundo, e a cultiva para exportação.

Até 1920, o ópio, seus derivados (morfina e heroína), a cocaína e seus substitutos considerados mais "leves", como a maconha (haxixe), foram utilizados livremente e de diferentes formas. Após a Primeira Guerra (1914-18), observado um grande número de dependentes, as convenções internacionais de 1925 e 1931 recomendaram a restrição da produção e do comércio de entorpecentes, que novamente se expande durante a Segunda Guerra, principalmente a partir de Hong Kong e Marselha. Não sendo permitido seu comércio livre, o contrabando garantiu um mercado negro, em especial nos EUA. Na década de 60 do século passado, o consumo atingiu os jovens de classe média, por um lado estimulado por mudanças culturais e, por outro, estimulando-as. De 1960 a 1970, o número de consumidores decuplicou, atingindo somente naquele país meio milhão de indivíduos. Através das artes (literárias, inclusive), o vício prosseguiu sendo sofisticado, intelectualizado e mistificado. Era um vício considerado seletivo, porque demasiadamente oneroso, mas, já no fim da década de 70, o uso do crack, uma droga derivada da cocaína bem mais barata, mais poderosa e mortífera, começou a disseminar-se em todas as camadas sociais.

O consumidor dessas drogas estupefacientes torna-se passivo e oscila entre apático e eufórico, experimentando uma sensação de bem-estar transitório, em que a realidade e a fantasia perdem seus contornos. Às substâncias que causam dependência química o seu organismo se habitua e, para obter os mesmos efeitos, exige doses cada vez maiores e mais freqüentes. Já em 1891, um ensaio sobre o ópio de Baudelaire (em Paraísos Artificiais) apontava seus efeitos: aguçamento das potencialidades manifestas pela índole, estímulo ao sonho e ao delírio, além da perda do controle da imaginação e da capacidade de trabalhar, caso, dizem, seja utilizado em excesso. Os efeitos dos demais entorpecentes são equivalentes. Tolice será pretender exigir algum critério moral ou ético no comportamento do viciado. O dependente torna-se capaz de fazer qualquer absurdo em troca da droga que, pouco a pouco, substitui-lhe a própria razão e a vontade de viver.  

 

*** 

Tendo sido eles fartamente utilizados durante a guerra no Vietnã, desencadeou-se nos EUA em 1971 uma grande campanha contra os traficantes e produtores de entorpecentes. O problema tinha assumido dimensões incontroláveis e ameaçava a segurança do país. Um ano antes, um dos ícones da juventude, Janis Joplin, havia sido vítima de uma dose excessiva. Se alguns outros ídolos tiveram melhor sorte, tentando livrar-se definitivamente da droga, outros tantos tiveram e continuam tendo esse mesmo fim. A cultura norte-americana se encontra visceralmente minada e, já há alguns anos que se apontam a inconsistência das decisões de Política Externa e Política Interna e a decadência daquele país em termos de poder global. E não só nos EUA como em nosso próprio bairro, em nossa própria rua, famílias nossas conhecidas ou ignoradas até hoje sofrem a dor da perda de seus filhos jovens, influenciados por esses mesmos ídolos do niilismo e da anarquia. Já a China nos ofereceu um exemplo eloquente das consequências do entorpecimento de metade de uma população nacional. Em seguida, ofereceu-nos também um exemplo contundente, dramático, das formas como setores não contaminados dessa população são capazes de reagir à submissão e às humilhações que lhes são impostas.

Em nosso País, com muitos entusiastas incondicionais das culturas acadêmicas e/ou ditas "populares" norte-americana e européia, vinte anos depois de iniciada essa campanha nos EUA, alguns não poucos irresponsáveis alçados a ídolos da juventude e a grandes vultos da Política pregavam livremente a liberação do consumo de tóxicos além de preconizar o estímulo ao cultivo da coca como mercadoria vital à economia de territórios vizinhos de nosso território. Hoje, ainda, esses mesmos compromissos assumidos com narcotraficantes promovem a eleição de muitos de nossos dirigentes.

Evidentemente, as condições dos chineses do século dezenove não se repetem no Brasil de hoje. Muito menos verificamos hoje, em nosso País, o resultado de uma política semelhante à que os revolucionários do começo do século vinte puderam imprimir na China. Quais analogias, então, que, sendo (bem) feitas, permitem-nos apurar nosso discernimento, oferecendo-nos um conhecimento aplicável às nossas condições e circunstâncias atuais e que possa nos ajudar a projetar o nosso futuro próximo, precavendo-nos da absoluta desagregação social?

Nas sociedades em que alguns setores tenham, ainda que mínimas, certas expectativas de proporcionar um ambiente seguro às gerações futuras no território delimitado por fronteiras de Estado em que essas sociedades se desenvolvem, a reação ao uso indiscriminado de drogas ganha violência equivalente à ação de setores aos quais esse consumo interessa. A reportagem da Folha de S.Paulo a que me referi antes vai abaixo transcrita. Esse jornal afirma que ela visitou cinco "casas de crack" somente na capital paulista. As demais notícias também aqui incluídas, publicadas pela Folha ou pelo UOL, são acessórias. Quem defende esse comércio e essa prática? Que pressões recebe? Que pretende? A que pressões cede ou crê que deve ceder? As Polícias, a estadual e a federal, devem bem saber onde estão essas casas e devem conhecê-las... ou não serão Polícias. De quem uma Polícia depende e a quem ela atende? Então, quem defende a tolerância para com o vício permitindo que a população se torne cada vez mais vulnerável ao interesse do narcotraficante? A que nos leva a apatia e a lassidão de nossa Sociedade? A quem entregaremos a defesa de nossas famílias em âmbito nacional e a realização de nossas expectativas em âmbito internacional? Quem será responsável politicamente pelo que somos hoje e responsável também será pelo que seremos dentro de alguns anos, quando um governo policial radical qualquer resolva acordar a população descomprometida e dar um fim a esse problema? Nas garras de quem estarão amanhã e para que hoje servem as nossas liberdades?

VaniaLCintra

 http://www.minhatrincheira.com.br  -  minhatrincheira@uol.com.br

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/18915-bairros-de-classe-media-abrigam-cracolandias-prives.shtml

São Paulo, domingo, 08 de janeiro de 2012

Bairros de classe média abrigam cracolândias privês

Traficantes alugam apartamentos e casas na Vila Mariana, Paraíso e Bela Vista para receber viciados

AFONSO BENITES - DE SÃO PAULO

Em um espaço do tamanho de uma perua Kombi, seis homens dividem três cachimbos de crack feitos com antenas de TV e latinhas de alumínio.

Cinco deles estão sentados no chão. São iluminados por um lampião que contrasta com a janela de vidros escurecidos. O outro está em pé. Observa a cena ao lado da porta. Ali, não há móveis, tapetes, tampouco cortinas.

Passa das 16h de uma sexta-feira nublada em São Paulo. O ambiente descrito acima poderia ser em uma rua da cracolândia, na região central da cidade, mas não é.

Trata-se do interior de um apartamento de classe média na Bela Vista, a poucas quadras de um dos mais famosos corredores gastronômicos da metrópole, a rua Avanhandava. Lá, usuários de crack alugam a sala, o quarto e a cozinha com um único propósito: fumar a droga.

Com três celulares no bolso, um senhor cabisbaixo, aparentando ter 60 anos, era o responsável pela venda das pedras e também pelo aluguel do imóvel. Preço: R$ 10 (a pedra), mais R$ 10 pelo espaço usado para o consumo.

Antes mesmo da operação da Polícia Militar, que cercou a cracolândia na semana passada, a Folha percorreu, nos últimos seis meses, bairros como Vila Mariana, Bixiga, Paraíso, Penha e Bela Vista.

Nesses locais, a reportagem encontrou casas e apartamentos onde funciona um esquema até então desconhecido das autoridades, as cracolândias privês.

Dentro do apartamento da Bela Vista, o cheiro, uma mistura de tabaco, fumaça, óleo de lampião queimado e suor, é forte. Dois jovens estão alucinados. Acabaram de fumar a terceira pedra do dia. Entreolham-se e parecem apavorados, sem motivo aparente.

Um acaba de dar seu primeiro trago. Os outros três observam. Eles fumam cigarros. Esperam a vez para terem a sensação que tanto aguardaram após uma manhã inteira de trabalho em uma loja de informática ali perto.

As cracolândias privês são extremamente lucrativas e seguras para o criminoso. Ele ganha duas vezes: na venda da droga e na locação da área.

Para o usuário, a maioria homens de classes baixa e média, com idades entre 18 e 35 anos, de diferentes profissões, é algo discretíssimo.

Nesses ambientes, ele consegue fugir dos olhares de reprovação de moradores e também do controle policial.

Para entrar nesse submundo, é preciso ser apresentado por algum conhecido do traficante. Deve-se seguir a principal exigência do local, só consumir a droga vendida ali.

"Fique esperto, aqui não entra pedra [de crack] de outro lugar", alerta o traficante.

LUZ DE LAMPIÃO

A Folha visitou cinco imóveis, entre casas e apartamentos. Em dois deles, a reportagem entrou acompanhada de um usuário, em tratamento, que conheceu na cracolândia enquanto apurava outra história. Ele só aceitou apresentar o repórter às cracolândias privês porque diz estar indignado com a quantidade de jovens viciados na cidade.

À primeira vista, por fora, não é possível perceber que em qualquer um desses cinco lugares haja venda e consumo de drogas lá dentro.

Os apartamentos, na Bela Vista e no Bixiga, são iluminados por lampiões. Possuem pequenas brechas nas janelas, para não intoxicar quem está trancado lá. As portas permanecem quase o tempo inteiro fechadas.

Para ter acesso a eles, é preciso subir dois lances de escadas. Na sequência, deve-se comprar a "pê" (pedra de crack) vendida na própria escadaria e pedir que o vendedor autorize a entrada -vale registrar que o repórter não comprou a droga.

Já as casas, ou estavam abandonadas e foram invadidas ou haviam sido alugadas pelos traficantes por preços baixíssimos por conta de seu mau estado de conservação.

Elas estão na Vila Mariana, Paraíso e Penha. Os muros têm mais de três metros de altura. Os portões não têm brechas, o que impossibilita que alguém, do lado de fora, observe o que acontece ali.

A casa da Vila Mariana não é imunda como os cortiços fechados pela operação da polícia no centro paulistano.

A morada é simples. Fica em uma rua bem arborizada, próxima de um posto de gasolina, rodeada por prédios residenciais. Dentro dela, poucos móveis. Uma mesa e duas cadeiras na sala, onde ficam o "patrão" ou seu subordinado. Ao todo, são 11 cômodos improvisados, transformados em quartos, coletivos ou individuais. São divididos por finas paredes de madeira compensada.

Há dois tipos de cracolândia privê. Nos apartamentos, o usuário compra a pedra com o traficante e a consome em um dos cômodos.

Na outra, vive no lugar, chamado "mocó". Pode tomar banho, comer, dormir. O valor varia conforme a forma de pagamento. Adiantado em dinheiro, R$ 210. Se for pagar no fim do mês, R$ 300.

 

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/18916-base-do-crack-cocaina-viaja-2600-km-para-chegar-a-sp.shtml

São Paulo, domingo, 08 de janeiro de 2012

Base do crack, cocaína viaja 2.600 km para chegar a SP

Droga parte do Peru, da Colômbia e da Bolívia

DE SÃO PAULO

O crack consumido na cidade de São Paulo rodou, pelo menos, 2.600 km para chegar ao consumidor final.

Apesar de essa droga ser produzida na Grande São Paulo, o principal "ingrediente" dela, a cocaína, não é plantada no Brasil.

Levantamento da Secretaria Nacional Antidrogas mostra que a cocaína parte de três países sul-americanos: Peru, Colômbia e Bolívia.

De lá, entra por estradas vicinais ou por pistas de pousos clandestinas de Acre, Amazonas, Roraima, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A droga chega aos grandes centros produtores de crack, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Paraná, por meio de rodovias, contando com a omissão ou a conivência de autoridades, dizem especialistas.

Ao chegar nos laboratórios clandestinos, a cocaína é misturada com bicarbonato de sódio e outros produtos para formar pequenas pedras que, geralmente, são consumidas em cachimbos.

Desses laboratórios clandestinos, a droga abastece primeiramente os maiores mercados consumidores, as cracolândias das grandes cidades e os consumidores que compram em bocas de fumo. Depois, são levadas para outros Estados brasileiros.

Levantamento da Confederação Nacional dos Municípios divulgado em novembro do ano passado mostrou que 70% dos 5.559 municípios brasileiros já constaram a venda e consumo de crack.

O mesmo estudo constatou que 98% dos municípios têm algum problema com o combate às drogas ilegais, como a ausência de políticas efetivas na área de saúde.

FRONTEIRA ABERTA

Coordenador da comissão de Justiça e Segurança do IBCCrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), o defensor público Renato de Vitto diz que a redução do tráfico de crack só será sentido quando houver um controle eficiente das fronteiras brasileiras por parte do governo.

O sociólogo José dos Reis Santos Filho, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas Alternativas da Unesp, defende acabar com a participação de policiais no crime e ampliar as investigações sobre os chefes do tráfico no Brasil.

"Toda vez que penso no tráfico me lembro de uma empresa clandestina em que há uma coordenação bem feita e a presença tanto de traficantes quanto de policiais. É preciso acabar com essa estrutura."

(AFONSO BENITES)

 

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http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1032475-promotores-abrem-inquerito-para-investigar-acao-na-cracolandia.shtml

10/01/2012 - 17h25

Promotores abrem inquérito para investigar ação na cracolândia

AFONSO BENITES - DE SÃO PAULO

Um inquérito civil foi instaurado em conjunto por quatro promotorias para investigar a operação iniciada no dia 3 pela Polícia Militar na cracolândia, no centro de São Paulo. Segundo os promotores de Habitação, Direitos Humanos (Inclusão Social e Saúde) e da Infância e Juventude, o objetivo é descobrir quem está comandando a ação e se houve improbidade administrativa.

Em entrevista coletiva realizada nesta terça-feira, eles caracterizam como "desastrosa" a ação, que teria boicotado o trabalho que já estava sendo feito na região.

A principal crítica dos promotores é que a operação foi realizada antes da inauguração do centro de acolhimento para usuários de drogas, localizado na rua Prates, região central.

O grupo marcou uma reunião com os órgãos envolvidos para o próximo dia 13 a fim de decidir o que pode ser feito e quem pode ser responsabilizado.

Os promotores ainda foram questionados se operação teria sido deflagrada para tentar impedir uma intervenção do governo federal na região. "Não é possível fazer esta afirmação, mas temos que lembrar que é um ano eleitoral", disse o promotor Maurício Lopes, da promotoria de Habitação.

 

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http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/01/10/em-sete-dias-operacao-prende-49-e-apreende-apenas-meio-quilo-de-crack.htm

10.01.2012 - 13h55 > Atualizada 10.01.2012 - 18h53

Em sete dias, operação prende 51 e apreende apenas meio quilo de crack em São Paulo

Do UOL, em São Paulo

A operação que atua na região da "cracolândia", no centro de São Paulo, iniciada no último dia 3 e que completa hoje uma semana, prendeu 51 pessoas, segundo o último boletim divulgado pela Polícia Militar. Dos presos, 28 eram condenados pela Justiça. A ação retirou até o momento apenas meio quilo de crack (0,447 kg no total) de circulação no local --o que representaria o consumo de apenas um dia entre os usuários da cracolândia, segundo estimativa de especialistas ouvidos pela Folha.

Segundo o site HowStuffWorks, cada pedra de crack pode ter entre 1 a 5 gramas. A polícia não informa quantas pedras foram encontradas.

O UOL questionou a assessoria de imprensa da PM sobre a quantidade de droga apreendida, mas ainda não obteve uma resposta oficial do órgão. Informalmente, um policial afirmou à reportagem que toda apreensão passa por análise antes de ser contabilizada como droga, com isso o número atual poderia não corresponder ao total já apreendido.

A operação, que conta com policiais e órgãos estaduais e municipais ligados à segurança, saúde e assistência social, também retirou 61,3 toneladas de lixo das ruas.

Ainda segundo balanço da PM, foram realizadas até o momento 2.869 abordagens policiais. Os agentes de saúde realizaram 812 abordagens e encaminharam 34 pessoas para serviços de saúde, nove para hospitais e 47 para internação.

Segundo reportagem publicada na Folha de hoje, quase uma semana depois de a PM deflagrar a operação, traficantes ainda atuam à luz do dia na região. Ontem (9), por volta das 11h, a reportagem do jornal flagrou um grupo de pessoas vendendo e consumindo crack no cruzamento das ruas Guaianases e Aurora, mesmo com a região ocupada por mais de cem homens da PM e da Guarda Civil Metropolitana.

Imagens também mostram que os usuários se dispersaram para áreas no entorno da cracolândia.

Também em reportagem publicada hoje, o jornal "Agora S.Paulo" mostrou que usuários de crack levados em vans da Secretaria Municipal da Assistência Social para a AMA (Assistência Médica Ambulatorial) Boracea, na Barra Funda, esperaram ontem por oito horas para serem transferidos para clínicas de tratamento. Como não conseguiram vaga, voltaram para a cracolândia.

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