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Ensaios-->Sem esperança -- 08/06/2010 - 12:44 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Folha de S. Paulo - 7/6/2010


Sem esperança

Luiz Felipe Pondé


Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo e toda a bobagem de luta de classes


RESPONDO ASSIM, de bate-pronto, a um aluno: 'Não, não tenho nenhum ideal'. Silêncio. Talvez um pouco de mal-estar. Todos ali esperavam uma resposta diferente porque todo mundo legal tem um ideal.

Eu não tenho. É assim? Confesso, não sou legal, nem quero ser. Duvido de quem é legal e que tem um ideal. Esperança? Tampouco. E suspeito de quem queira me dar uma.

De novo respondo assim, de bate-pronto, a outro aluno: 'Não, não quero mudar o mundo, nem mudar o homem, muito menos a mulher, a mulher, então, está perfeita como é, se mudar, atrapalha, gosto dela assim, carente, instável, infernal, de batom vermelho e de saia justa'.

Mentira, esta última parte eu acrescentei agora, mas devia ter dito isso também. Outro silêncio. Talvez, de novo, um pouco de mal-estar. Espero que falhem todas as tentativas de mudar o homem.

Não saio para jantar com gente que quer mudar o mundo e que tem ideais. Prefiro as que perdem a hora no dia que decidiram salvar o mundo ou as que trocam seus ideais por um carro novo. Ou as que choram todo dia à noite na cama.

Tenho amigos que padecem desse vício de ter ideais e quererem salvar o mundo, mas você sabe como são essas coisas, amigo é amigo, e a gente deve aceitar como ele (ou ela) é, ou não é amizade.

Perguntam-me, estupefatos: 'Mas você é professor, filósofo, escritor, intelectual, colunista da Folha, como pode não ter ideal algum ou não querer mudar o mundo?'.

Penso um minuto e respondo: 'Acordo de manhã e fico feliz porque sou isso tudo, gosto do que faço, espero poder fazer o que faço até o dia da minha morte'.

Perguntam-me, de novo, mais estupefatos: 'Mas você está envolvido no debate público! Pra quê, se você não quer mudar o mundo?'.

Sou obrigado a pensar de novo, outro minuto (afinal, são perguntas difíceis), e respondo: 'Participo do debate público pra atrapalhar a vida de quem quer mudar o mundo ou de quem tem ideais'.

Os intelectuais e os professores pegaram uma mania de ser pregadores, e isso é uma lástima. Inclusive porque são pessoas que leem pouco e que são muito vaidosas, e da vaidade nunca sai coisa que preste (com exceção da mulher, para quem a vaidade é como uma segunda pele, que lhe cai bem).

O que você faria se algum professor pregasse o evangelho ao seu filho na faculdade? Provavelmente você lançaria mão de argumentos do tipo que os intelectuais lançam contra o ensino religioso: 'O Estado é laico e blá-blá-blá... porque a liberdade de pensamento blá-blá-blá...'. Se for para proibir Jesus, por que não proibir qualquer pregação?

Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo em sala de aula e toda aquela bobagem de luta de classes e sociedade sem lógica do capital? Isso não passa de uma crendice, assim como velhas senhoras creem em olho gordo.

Nas faculdades (e me refiro a grandes faculdades, não a bibocas que existem aos montes por aí), torturam-se alunos todos os dias com pregações vazias como essas, que apenas atrapalham a formação deles, fazendo-os crer que, de fato, 'haverá outro mundo quando o McDonald`s fechar e o mundo inteiro ficar igual a Cuba'.

Esses 'pastores da fé socialista' aproveitam a invenção dessa bobagem de que jovem tem que mudar o mundo para pregarem suas taras. Normalmente, a vontade de mudar o mundo no jovem é causada apenas pela raiva que ele tem de ter que arrumar o quarto.

E suspeito que, assim como fanáticos religiosos leem só um livro, esses pregadores também só leem um livro e o deles começa assim: 'No princípio era Marx, e Marx se fez carne e habitou entre nós...'.

Reconhece-se uma pregação evangélica quando se ouve frases como: 'Aleluia, irmão!'. Reconhece-se uma pregação marxista quando se ouve frases como: 'É necessário destruir o mundo do capital e criar uma sociedade mais justa onde o verdadeiro homem surgirá'.

Pergunto, confesso, com sono: 'E quem vai criar essa sociedade mais justa?'. Provavelmente o pregador em questão pensa que ele próprio e os seus amigos devem criar essa nova sociedade.

Mentirosos, deveriam ser tratados como pastores que vendem Jesus e aceitam cartão Visa.

ponde.folha@uol.com.br





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