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Ensaios-->Ensaiando o Hipertexto -- 03/05/2010 - 10:05 (Ana Paula Martins Corrêa Bovo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O texto abaixo foi produzido como trabalho final para a disciplina LEITURA EM AMBIENTES DIGITAIS: UMA ABORDAGEM PSICOLINGUÍSTICA, do PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS da UFMG

ENSAIANDO O HIPERTEXTO

Introdução
Uma pergunta na cabeça, um desejo no coração. Talvez isso baste para mover um professor a buscar, senão respostas, porque muitas vezes elas não existem, modos de agir em sua prática cotidiana, seja como autor, como pesquisador, como educador. As práticas de linguagem realmente mudam com o surgimento das novas tecnologias? A tentativa é expressar a(s) reflexão(ões) que pude vivenciar antes e durante esse semestre, através de nossas discussões no âmbito da disciplina em questão, e também em outros âmbitos. Resposta não definitiva como, aliás, todas as respostas o são.

1 O que é ler?

É possível pensar a leitura de várias maneiras. Pode-se privilegiar, por exemplo, seu caráter social, a história da leitura, a formação leitor, os mecanismos lingüísticos e psicológicos envolvidos etc. Essa diversidade de abordagens confirma o caráter complexo do próprio fenômeno, que faz parte das práticas de linguagem. Sabemos que ler envolve múltiplas capacidades e essa prática só faz sentido na interação social. Pode-se dizer, portanto, que a leitura é um processo de interação entre o leitor e o texto no qual o este busca construir o significado para o texto. Nessa perspectiva, o leitor assume um papel como agente ativo que processa e examina esse objeto. O leitor, então, torna-se um elemento importante, contrariando algumas abordagens que centravam a significação no autor ou no texto.
Segundo Coscarelli (2003), a leitura pode ser dividida em duas grandes partes, uma que lida com a forma lingüística e outra que se relaciona com o significado. Essas partes, por sua vez, podem ser ainda subdivididas. Para realizar o processo de ler, é preciso realizar vários tipos de processamentos nos níveis lexical, sintático e semântico que ocorrem quase que simultaneamente. Ou seja, ler é fazer vários tipos de operações, inferências, associações, num processo que não acontece linearmente. Faz muito mais sentido pensar num processamento em rede(s).


2 O que é ler na cibercultura?

A formação de uma cultura pretensamente diferente da impressa, a que alguns chamam “cibercultura”, torna instável nosso conhecimento sobre as práticas de ler e escrever? Alguns autores defendem que a tecnologia, especialmente a “telemática”, revoluciona as práticas de leitura e escrita e outros afirmam que se trata de uma evolução que acarreta algumas mudanças nessas práticas, mas não as revoluciona.
Poderíamos afirmar, grosso modo, que o termo cibercultura abrange os fenômenos associados às formas de comunicação mediadas por computadores. O termo envolve a convergência das telecomunicações com a informática e é utilizado para se referir aos aspectos característicos das trocas culturais no ciberespaço.
Segundo Guimarães Jr (1997), O virtual, por outro lado, distinguiria-se do atual na medida em que, diferentemente do possível, não contém em si o real finalizado, mas sim um complexo de possibilidades que, de acordo com as condições e os contextos, irá se atualizar de maneiras distintas. O virtual, portanto, não pode ser compreendido como o possível, pois este já está determinado, mas sim como um 'complexo problemático' que dialoga e interaje com o atual, transformando-se de acordo com as peculiaridades de cada contexto. O ciberespaço poderia ser, portanto, considerado como uma virtualização da realidade, uma migração do mundo real para um mundo de interações virtuais. Sendo assim, a emergência da cibercultura provocaria uma mudança radical no imaginário humano, transformando a natureza das relações dos homens com a tecnologia e entre si.
Assumir a postura acima é assumir que o computador, a internet, enfim, as novas tecnologias de informação e comunicação, nos levam sim a uma revolução nas formas de interação social e, portanto, nas práticas de linguagem. Dessa forma, a revolução do texto eletrônico seria, ao mesmo tempo, uma revolução relacionada às técnicas de produção e de reprodução dos textos, ao suporte da escrita e às práticas de leitura. Ou melhor, seria uma revolução relacionada às formas de comunicação humanas e práticas de linguagem na sociedade.

As tecnologias são diferentes, mas a história é a mesma... ou seja, quando a escrita surge e vai tomando espaço na(s) sociedade(s), muitos desconfiam, criticam, condenam essa técnica e as práticas sociais associadas a ela. A leitura, por exemplo, tão festejada hoje, já foi condenada como prática insalubre! No entanto, atualmente, mesmo que boa parte das pessoas ainda não tenha grande acesso a livros, ou não saiba ler nem escrever, mesmo essas pessoas vivem mergulhadas nas práticas de leitura e escrita desta(s) sociedade(s) que se tornou(aram) grafocêntrica(s). Assim, ainda que não haja uma mudança na modalidade (oral para escrita), há uma grande, enorme mudança nos modos de produção, circulação e recepção da própria escrita, que agora, preferencialmente, será mesclada a outras linguagens. O verbo será propositalmente está no futuro porque essa mudança ainda não aconteceu, mas está em processo.


3 Letramentos?

Então o texto passa a ser hipertexto, o suporte, a tela e o letramento é o digital.
Mas, afinal, o que vem a ser letramento digital? Coscarelli e Ribeiro (apud Souza, 2007) denominam letramento digital a “ampliação do leque de possibilidades de contato com a escrita também em ambiente digital (tanto para ler quanto para escrever)”. Por seu turno, Soares (apud Souza, 2007) o define como “um certo estado ou condição que adquirem os que se apropriam da nova tecnologia digital e exercem práticas de leitura e de escrita na tela, diferente do estado ou condição do letramento dos que exercem práticas de leitura e escrita no papel”. Já Frade (apud Araújo & Frade, 2007) concebe a alfabetização digital considerando que “a aprendizagem dos gestos desta nova escrita é uma forma de “alfabetização” necessária para que o escritor/leitor se torne um usuário efetivo da tecnologia. Para isto, é preciso garantir o aprendizado de algumas formas de uso da máquina, ensinando alguns códigos deste novo artefato”.
Soares (2002) defende a idéia dos letramentos, no entanto, faz sentido diferenciarmos esses processos (letramento e letramento digital) na fase de transição que vivemos, mas num futuro não muito distante, o letrado fatalmente terá que se haver com a tecnologia digital, o letramento será necessariamente o digital. Então, falar em alfabetização digital será como falar em dominar o uso do lápis, do texto impresso, enfim, das técnicas relacionadas ao processo de alfabetização, que não é só a técnica, muito embora essa lhe seja indissociável. Sabemos que não é fácil adquirir a capacidade de dominar a técnica da escrita em texto impresso, como também não é fácil dominar a “máquina”, o computador e tudo que está ligado às “novas tecnologias”. Talvez por isso se dê uma grande importância à maquina, ao computador, aos programas e às interfaces, porque estamos engatinhando nesse domínio. Mas a cibercultura e a hipertextualidade são fenômenos extremamente amplos, que envolvem o nosso imaginário e os nossos hábitos.


4 A hipertextualidade – uma utopia desejada

Alguns autores muito sensatamente afirmam e demonstram que, na verdade, há pouca discrepância entre resultados obtidos nos dois formatos de apresentação de textos (o impresso e o hipertexto). Isso fortaleceria a postura de que todo texto é um hipertexto e de que toda leitura é um processo hipertextual. Esses experimentos indicariam que o texto, sendo bem escrito, isto é, respeitando regras de textualidade do seu gênero e estando adequado ao leitor; e sendo o leitor um bom leitor; a leitura geraria resultados satisfatórios.
Devemos concordar com a afirmativa de que o “bom leitor” e o texto coerente e adequado garantem que o processo de interação, a própria leitura, aconteça. Isso não muda, pois, enquanto a sociedade for desigual, haverá pessoas mais ou menos preparadas para participar das práticas de linguagem, ainda mais quando elas envolvem a educação formal. Faz muito sentido, como já comentamos acima, falar num processo hipertextual (em rede) para a leitura, no entanto, quando se fala em hipertexto, o produto, ou seja, o que conseguimos produzir, esse constructo está ainda distante da idéia de hipertextualidade.
Segundo Furtado (2007), o volume de produção ensaística sobre o “hipertexto” tem diminuído; a excitação dos primeiros hipertextos – as visões extáticas de Joyce e Landow, entre outros, sobre a “liberdade” que o hipertexto iria assegurar – deu lugar a queixas mal humoradas sobre o comercialismo na World Wide Web.

Também já não se publicam ensaios, impressos ou digitais, celebrando euforicamente as potencialidades do hipertexto; por fim, as proclamações utópicas e revolucionárias sobre o hipertexto deixaram de estar em voga, em parte porque aparentemente nada ocorreu de particularmente utópico ou revolucionário. Em suma, hoje o hipertexto é, na maior parte dos casos, sinónimo da Web. E, como qualquer observador minimamente atento reconhecerá, a maioria dos Web sites não são criados com estruturas associativas livres, não são nem artística nem esteticamente inspiradores e, na realidade, são sumamente lineares e hierárquicos. Assim sendo, tornou-se quase obrigatório, na reflexão acadêmica sobre os novos media, sublinhar o malogro da Web em constituir-se como instância das suas profecias iniciais. Kendrick pensa que, muito embora fosse necessário pôr fim ao excessivo entusiasmo das origens, se pode ter ido demasiado longe na crítica ao discurso da mudança radical, pois o zelo em corrigir os excessos dos primeiros teóricos do hipertexto pode ter levado ao perigo contrário: a elisão do “novo” nos novos media. (Furtado, 2007)

Dessa forma, parece claro que o hipertexto que temos hoje é um produto aprisionado pela tecnologia, a mesma que teoricamente o potencializaria. Novamente a história se repete, pois a tecnologia da impressão já foi acusada de aprisionar o texto . Mas a idéia de hipertexto como produto revolucionário transcende. Ela está presente já em suas primeiras concepções. Para demonstrá-lo, podemos citar as palavras de Ted Nélson (apud Xavier, 2007), o qual afirma que o objetivo no Projeto Xanadu não foi suprir a necessidade da indústria ou fazer coisas acontecerem um pouco mais rápido ou de modo mais eficiente. Teria apenas um objetivo justo: fazer um novo mundo... A abertura do hipertexto manifestaria publicamente o destino de uma sociedade livre, que é desejável, poderosa e que está a caminho.
O texto traz em si o gérmen da hipertextualidade e muitas características do hipertexto com certeza podem ser atribuídas ao texto, mas o texto não é o hipertexto efetivamente, pois este só seria plenamente realizável no contexto cultural que está se formando, mediado pelas novas tecnologias que alteram radicalmente o nosso modo de vida, no qual possivelmente o produto (o hipertexto) se aproximará mais da idéia de hipertextualidade e do modo como os processos mentais e cognitivos acontecem em nosso cérebro e, por que não dizer, em nossas mentes. Estamos ensaiando o hipertexto...

5 Conclusão

Quanto valeria um pensamento que nunca fosse transformado por seu objeto? Talvez escutando as coisas, os sonhos que as precedem, os delicados mecanismos que as animam, as utopias que elas trazem atrás de si, possamos nos aproximar ao mesmo tempo dos seres que as produzem, usam e trocam, tecendo assim o coletivo misto, impuro, sujeito-objeto que forma o meio e a condição de possibilidades de toda comunicação e todo pensamento. (Lévy, 1997)

Há mais uma pergunta importante que está relacionada àquela que motivou a escrita deste texto: por que a questão da revolução tecnológica é tão importante para os professores de língua? Ora, porque as mudanças ligadas à tecnologia são engendradas, são geradas e ao mesmo tempo geram grandes alterações em nosso modo de vida, o qual esteve, está e estará fundamentalmente ligado à linguagem, à comunicação. Assim, como mediar a aprendizagem de práticas de leitura e escrita se não as reconhecemos ou atuamos criticamente sobre elas?
Chega a ser cansativo ver professores de língua culpando a internet pela má escrita dos alunos, quando eles mesmos – os professores – muitas vezes não sabem utilizar a escrita com propriedade, com criatividade, com desenvoltura! Ou seja, culpam as novas tecnologias por problemas antiqüíssimos!!!! Não reconhecer a importância e abrangência desses fenômenos, as grandes mudanças que estão acontecendo, é um equívoco, pois, dessa forma, o professor continua perpetuando o problema e deixa de contribuir para a formação de indivíduos que sejam altamente letrados (leitores e escritores competentes) na sociedade que está se formando e na qual eles – os alunos –, muitas vezes mais que nós, já estão inseridos.




Bibliografia consultada
ARAÚJO, Mônica Daisy Vieira & FRADE, Isabel C. Alves da Silva. Cultura escrita impressa e cultura escrita digital: a perspectiva de crianças de camadas médias. Revista Língua Escrita, número 2, dezembro de 2007.

DELL´ISOLA. Regina L. Péret. Leitura: os roteiros para estudo de texto e as habilidades de compreensão textual. Educ. Tecnol., Belo Horizonte, v.9, n.2, p.33-40, jul./dez. 2004.

COSCARELLI, C. V. Entendendo a leitura. Revista de Estudos da Linguagem. Belo Horizonte: UFMG. v. 10, n. 1, p.7-27, jan./jun. 2002.
_______________. Inferência: Afinal o que é isso? Belo Horizonte: FALE/UFMG. Maio, 2003. IN http://bbs.metalink.com.br/~lcoscarelli/publica.htm
_______________. Hipertexto: quem ensina o quê? Revista Língua Escrita, número 2, dezembro de 2007.

FURTADO. José Afonso: Práticas de leitura e letramento digital – Por Ana Elisa Ribeiro. Revista Língua Escrita, número 2, dezembro de 2007.
GUIMARÃES Jr. Mário José Lopes. A cibercultura e o surgimento de novas formas de sociabilidade. Trabalho apresentado no GT 'Nuevos mapasculturales: Cyber espacio y tecnologia de la virtualidad', na II Reunión de Antropologia del Mercosur, Piriápolis, Uruguai, de 11 a 14 de novembro de 1997. IN http://www.cfh.ufsc.br/~guima/ciber.html
LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
_______. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
MENEZES, Vera L & NASCIMENTO, Milton do. Sistemas adaptativos complexos – Lingua(gem) e Aprendizagem. Belo Horizonte: FALE, 2009.
RAMAL, Andrea Cecilia. Avaliar na cibercultura. Porto Alegre: Revista Pátio, Ed. Artmed, fevereiro 2000.

SOUZA, Valeska V. S. Letramento digital e formação de professores. Revista Língua Escrita, número 2, dezembro de 2007.

SOARES, Magda. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura. Educ. Soc., Campinas, vol. 23, n. 81, p. 143-160, dez. 2002. Disponível em http://www.cedes.unicamp.br

XAVIER, Antonio Carlos Xavier. A Dança das linguagens na web: critérios para a definição de hipertexto. IN http://www.abralin.org/abralin2007/resumos/xavier.pdf

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