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Ensaios-->Politicamente correto: a transgenia das palavras -- 06/09/2008 - 16:38 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Politicamente correto: a transgenia das palavras

Félix Maier

“Political language...is designed to make lies sound truthful and murder respectable, and to give an appearance of solidity to pure wind” (George Orwell).

Em sua obra 'Pequena História da Desinformação' (*), Vladimir Volkoff fala sobre a “língua de pau” (langue de bois, em francês), adotada como língua oficial pelos antigos países comunistas. “A língua de pau, segundo o Larousse, é uma forma rígida de expressão, nomeadamente no domínio da política, através da multiplicação de estereótipos e de fórmulas congeladas” (Volkoff, op. cit., pg. 66).

A antiga língua de pau se utilizava de imagens lingüísticas e figuras de retórica para fazer propaganda ideológica, como a alegoria, o eufemismo, a prosopopéia, a metonímia, a metalepse. Utilizava-se do maniqueísmo simplista para exaltar suas próprias virtudes e demonizar o inimigo. Com o tempo, o idioma russo foi se empobrecendo, tornando-se minimalista. “O dicionário de Dahl contém 22000 palavras; os escritores soviéticos utilizavam 1500” (pg. 68). Enfim, o “idioma fantasma” assume a confissão de Goebbels: “Não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter um determinado efeito” (cit. pg. 68).

Goerge Orwell, no grandioso '1984', desenvolveu com muita propriedade uma língua de pau imaginária, a Newspeak (Novalíngua). Nessa obra, havia um tirano em Oceânia, chamado Big Brother, que impunha à população uma doutrina totalitária, o Ingsoc (Socialismo inglês), de modo que “um pensamento herético, ou seja, um pensamento divergente dos princípios do Ingsoc, se torna literalmente inconcebível, pelo menos na parte em que o pensamento depende das palavras” tão logo a “Oldspeak”, a língua atual, seja esquecida. Tal resultado era alcançado “parcialmente, com a invenção de novas palavras, mas sobretudo através da eliminação de palavras indesejáveis e despindo as restantes de qualquer significação heterodoxa e, tanto quanto possível, de significado secundário, seja ele qual for. Reduziu-se o número de palavras, a redução era um ganho, pois menos escolha havia e menor era a tentação de pensar” (pg. 69-70).

O Big Brother de Orwell estava associado, inicialmente, ao onipotente, onipresente e onisciente Josef Stalin, o déspota que maximizou o terror na União Soviética, assassinando os próprios camaradas da Revolução para se manter incólume no poder. Com a ruína da URSS, o Big Brother passou a representar os EUA, única hiperpotência do planeta, que tenta ser a polícia do mundo, com incursões no insolúvel tabuleiro de xadrez que são os Bálcãs, ao mesmo tempo em que pretende “impor a democracia” no Afeganistão e no Iraque, declarando guerra sem trégua ao terrorismo islâmico internacional.

Se Orwell desenvolvia a gramática da Newspeak, Ludwig von Mises identificava o “polilogismo” – não o talento para desenvolver vários temas, mas a capacidade para “provar” que, por exemplo, o comunismo (totalitário) e a democracia (representativa) são a mesma coisa (cfr. www.mises.org).

Hoje, ocorre nos meios pensantes algo semelhante à antiga língua do rígido pau-ferro: o modo “politicamente correto” (pecê) de se expressar. As antigas línguas de pau, utilizadas tanto por comunistas quanto por nazistas, ao menos tentavam camuflar o objetivo ideológico que havia por trás das palavras colocadas no freezer, que tinham a intenção subliminar de difundir a desinformação. O pecê de hoje não tem nenhum escrúpulo de assumir sua postura ideológica, pós-socialista porém mais socialista do que nunca, que deve ser imposta a toda criatura humana com a mesma ênfase que os islâmicos, extremistas ou não, tentam impor a fé de Alá.

A língua de pau moderna do pecê tem também enorme influência na elaboração das leis. Se o “politicamente correto” é a gramática de pau que orienta a sociedade atual, podemos dizer que a Constituição brasileira de 1988 é sua bíblia, especialmente por subordinar todas as decisões legais a uma palavra abstrata, oca, que nada diz, mas que tem força plena, relativizando conceitos como “propriedade”, por ter enorme apelo populista: o “social”.

“O politicamente correto consiste na observação da sociedade e da história em termos maniqueístas. O politicamente correto representa o bem e o politicamente incorreto representa o mal. O sumo bem consiste em buscar as opções e a tolerância nos demais, a menos que as opções do outro não sejam politicamente incorretas; o sumo mal encontra-se nos dados que precederiam à opção, quer sejam estes de caráter étnico, histórico, social, moral e sexual, e inclusive nos avatares humanos. O politicamente correto não atende à igualdade de oportunidade alguma no ponto de partida, senão, ao igualitarismo nos resultados no ponto de chegada” (Entrevista de Vladimir Volkoff a Marc Vittelio - Mídia Sem Máscara, 27/04/2004).

“Stalinismo puritano” foi a denominação dada pelo diretor teatral inglês, Peter Hall, para a moda do “politicamente correto” em vigor. Para Hall, a esquerda liberal substituiu a antiga direita e hoje promove patrulhamento e censura a trabalhos de intelectuais que ousam escrever palavras julgadas ofensivas. Segundo Hall, um de seus atores secundários recusara-se a dizer a palavra “nigger” (crioulo), embora o autor de Um Bonde Chamado Desejo, Tennessee Williams, a tivesse escrito.

Mas, enfim, como se expressa o lingüista de pau politicamente correto, em suas lições diárias de eufemismo e manipulação da informação?

Não se deve chamar um homem baixo de “anão”. Nem de “baixinho” (Baixinho é cu de cobra! – resmungava um baixinho esquentado, conhecido meu, quando o chamavam de baixinho.) É politicamente correto chamar o “pintor de rodapé” de “negativamente avantajado”. Preto brasileiro deve ser chamado de “afro-brasileiro”. Gustavo Kuerten e Giselle Bünchen seriam, então, teuto-brasileiros, assim como este escrevinhador?. E Emerson Fittipaldi, ítalo-brasileiro?

Infanticídio não existe mais, nem aborto, apenas o “direito da mulher dispor de seu próprio corpo”. Prostituta não é mais prostituta, é “empresária do sexo”. Papa-defunto virou “empresário do luto”. Pederasta, palavra riscada dos códigos brasileiros, passou a ser o inofensivo e alegre “gay”. O coronel Guerra, segundo a gramática pecê, deveria ter seu nome mudado para “coronel Paz”. A polícia seria menos violenta...

O “esperanto” de pau falado hoje já merece um dicionário, por isso estou coletando palavras e expressões de pau, onde constarão verbetes como “agenda positiva”, “anos de chumbo”, “anticomunismo primário (ou visceral)”, “antiglobalização”, “a propriedade é um roubo”, “burguês”, “cavaleiro da esperança”, “centralismo democrático”, “clero progressista”, “consulta às bases”, “contrato social”, “copyleft”, “democracia de cruzeiro” (dos mísseis Cruise), “democracia no Iraque”, “discriminação positiva”, “expropriação”, “Fome Zero”, “função social da propriedade”, “governo paralelo”, “orçamento participativo” e tantos outros. A lista estará absolutamente incompleta, que poderá ser enriquecida pelo leitor. É só prestar atenção ao palavreado que se fala no local de trabalho, nas mesmices vistas nos noticiários, jornais e revistas, e ir anotando as palavras e expressões pauleiras da atualidade. A seguir, um verbete, como exemplo:

Anos de chumbo – Expressão de pau utilizada pela esquerda brasileira para designar os anos em que os militares combateram os grupos terroristas em nosso país. Não tivessem os militares feito seu serviço de casa, hoje estaríamos combatendo as “FARB” em todo o país, como ocorre hoje na Colômbia das FARC, que na época “gazeteou” a aula. Não é com bombons que se desarmam terroristas e bandidos comuns – como espera o Movimento Viva Rio apaziguar a favela da Rocinha, oferecendo flores a seus habitantes no “Dia do Carinho”.
Sem pudor, esses antigos militantes, que dinamitavam civis inocentes, hoje afirmam que lutavam pela democracia. Que democracia? A de Cuba que lhes servia de modelo, como era o caso da ALN de Marighela, do Molipo de José “Daniel” Dirceu e do MR-8 de Fernando Gabeira, todos com treinamento de guerrilha na “ilha do Dr. Castro”?
A verdade é que não haveria “anos de chumbo” no Brasil se não tivesse havido “anos de dinamite”.

Uma sandice pouco conhecida foi a obrigatoriedade dos proprietários do Dicionário inglês Webster de 'raspar' algumas palavras consideradas 'ofensivas' aos negros. Algo parecido foi tentado por uma deputada distrital do PT durante o governo de Cristovam Buarque no Distrito Federal (época em que foi rejeitada, pelo PT, a concessão do título de cidadão honorário a Pelé). Energúmenos acreditam que a retirada do Aurélio de palavras como puta e crioulo iria diminuir a putaria e a discriminação. Os brasileiros livres de ódio e preconceito, que são a imensa maioria, estão cansados de ouvir tanta bobagem. Nada de negritude júnior, amarelice sênior ou branquelice master. Somos todos brasileiros e ponto final.

O próprio governo federal é racista, na medida em que implanta as famigeradas “cotas raciais”, macaqueando a affirmative action dos americanos. Não dá para acabar com o racismo propondo uma ação baseada na pigmentação da pele das pessoas. Movimento Negro Unificado, grupo musical Raça Negra e outros movimentos do mesmo teor apenas conseguem pregar ou sugerir a exclusão racial, pois abrem o precedente de serem criados no Brasil, por exemplo, o Movimento do Orgulho Branco ou algo como Camerata da Raça Ariana, com todos os seus integrantes sendo obrigatoriamente louros e de olhos azuis, descendentes da Renânia, tocando violinos e violoncelos Stradivarius...

Nos EUA, o jornalista Bernard Goldberg lançou o livro Bias – A CBS Insider Exposes How the Media Distort the News (Tendencioso – Um Conhecedor da CBS Mostra Como a Mídia Distorce as Notícias). Logo, Goldberg foi tachado de “mentiroso”, “extremista de direita”. Uma das teses polêmicas de Goldberg se refere aos doentes da AIDS, cujos números foram escondidos para agradar ao lobby dos homossexuais e das minorias raciais dos EUA (negros e hispânicos), para acelerar as pesquisas de remédios. Por exemplo, dos aidéticos mostrados na TV, 6% eram gays, 16% eram negros e hispânicos e 2% eram drogados. Na verdade, 58% eram gays, 46% eram negros e hispânicos e 23% eram drogados (período estudado: 1992 a 1995).

A Universidade de Oxford, nos EUA, lançou uma versão “politicamente correta” do Novo Testamento, Novo Testamento e Salmos: uma versão não-excludente, onde há alterações, como: “A expressão Deus Pai passa a ser Deus Pai e Mãe; a oração Pai-Nosso recebe o nome de Pai e Mãe Nossos; foi excluído o termo ‘escuridão’ como sinônimo do mal por ter conotação racista; eliminaram-se as acusações de que os judeus mataram Jesus Cristo; as mulheres deixam de ser ‘sujeitas’ aos maridos e passam a ser ‘compromissadas’; as crianças devem ‘prestar atenção aos pais’, não ‘obedecê-los’ ” (Cfr. “Deus Pai e Mãe”, in revista Istoé, 6/9/1995).

“Um dos objetivos da ‘novilíngua’ (vide Orwell) é apagar as emoções e tornar tudo pasteurizado, anódino, sem emoção. Os sentimentos devem ser varridos para debaixo do tapete. Tome cuidado com o que fala. O termo ‘crioulo’ pode enquadrá-lo na Lei Caó (cujo apelido nos tempos da UNE era Crioulo). Tudo depende de como se fala, embora a descrição ‘passou por aqui, era um crioulão’ seja adequada. Mas, se fosse vivo, Adolfo Caminha teria problemas com ‘O bom crioulo’ ” (Fritz Utzeri, in “O Politicamente correto”).

Em suma: além de aprisionar a língua do cidadão numa gaveta do freezer, o modo politicamente correto de se expressar propõe uma mudança radical da natureza humana, impedindo as pessoas de externar suas emoções, seus ódios, de dizer um palavrão, tornando a vida mais insípida que um lanche de frango encontrado em uma loja de fast food.


(*) VOLKOFF, Vladimir. Pequena História da Desinformação – do Cavalo de Tróia à Internet. Editora Vila do Príncipe Ltda., Curitiba, 2004.


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