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Ensaios-->Globalização ideologizada -- 14/05/2007 - 10:44 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Globalização Ideologizada

Claudio Téllez (*), 13 de maio de 2007
http://www.claudiotellez.org/

Demonizada, satanizada e vilipendiada por onze de cada dez intelectuais 'pop' (digo onze de cada dez, porque pelo menos um deles defenderá duas teses contraditórias), a globalização está aí e é uma realidade. O processo de globalização econômica proporciona, mediante a crescente mobilidade de bens e de fatores de produção, uma integração cada vez maior da economia mundial e a criação gradativa de um espaço econômico comum. Enquanto uns vêem nesse processo a possibilidade de concretizar o sonho da vitória da racionalidade sobre a barbárie, outros consideram a globalização como um sofisticado mecanismo de enriquecimento de uns poucos às custas do sofrimento de muitos.

Esse processo, contudo, não é de hoje. Observando somente pelo prisma do comércio internacional, a título de ilustração, notamos que a integração comercial do mundo vem ganhando fôlego, progressivamente, pelo menos desde os tempos de Adam Smith. Por sinal, se a liberalização do comércio é uma das características da globalização, devemos notar que não se liberaliza o comércio de uma hora para a outra. Afinal de contas, as nações se abrem às relações comerciais mediante negociações com as outras nações. Em uma dada negociação, o que está em jogo são sempre os interesses de todas as partes. Um acordo que pode ser benéfico para duas partes, no balanço geral, não será necessariamente benéfico para todos os diversos grupos que compõem cada uma dessas partes. Um tratado de livre comércio, por exemplo, proporciona para alguns produtores um mercado maior para a colocação dos seus produtos. Ao mesmo tempo, porém, abre os mercados locais para uma concorrência mais acirrada. Sob a perspectiva dos agregados, esse aumento da concorrência levará a melhores resultados para todos. Já sob a visão particular de um determinado agente econômico, a abertura para a concorrência pode significar tanto prosperidade quanto o fim do jogo.

Em suma, a integração da economia mundial envolve uma miríade de negociações onde cada parte luta acirradamente pela defesa de seus próprios interesses. É por isso que a globalização econômica é um processo lento e, ao mesmo tempo, inelutável. Lento (apesar de estar em aceleração), porque qualquer tentativa de criar um espaço econômico comum de uma hora para outra requereria uma dose gigantesca de arbitrariedade e terminaria por eliminar a espontaneidade que caracteriza as relações econômicas no mercado livre. Inelutável, porque o homem é um agente transformador do mundo e os progressos técnico-científicos proporcionam um contato maior entre as pessoas das mais diversas regiões, intensificando as comunicações e, naturalmente, as negociações e demais interações econômicas entre os povos.

Quem acredita, portanto, que é possível implementar rapidamente a globalização plena para benefício de toda a humanidade, está apenas defendendo, mesmo sem saber, a criação de um mundo politica e economicamente centralizado. No outro extremo, quem defende o fim da globalização, por considerá-la excludente, está na verdade defendendo um 'outro mundo impossível', que contraria uma coisa que é essencial na natureza dos seres humanos: a sede pelo conhecimento.

O ponto crítico dessas duas posições extremadas é o mesmo: ambas são ideológicas. Cabe, aqui, esclarecer o conceito de ideologia. É comum que as pessoas confundam 'ideologia' com 'ideário', 'convicção' ou 'doutrina'. Um ideário, ou um conjunto de idéias a respeito de algum tema ou problema, pode ou não ser ideológico. Em geral, um ideário pode representar um conjunto de diretrizes que ajudam a situar em uma determinada perspectiva. Já o termo 'convicção' envolve essencialmente a retidão de princípios e, portanto, convicções pertencem ao domínio da moral. Convicções podem se tornar ideológicas quando envolvem o comprometimento com uma determinada causa. Uma doutrina é um conjunto de elementos que servem de base ou de referencial para algum sistema, que pode ser político, religioso ou de outra natureza. O termo 'doutrina' vem do latim, 'doctrina', que significa ensinança, instrução. O apego desmedido a uma determinada doutrina também pode conduzir à ideologia.

Toda ideologia envolve pelo menos três elementos: prescrição, racionalismo e idealização. Ideologias são construções racionais, isto é, nascem do exercício intelectual. Elas prescrevem uma série de medidas a serem adotadas para a consecução de um determinado fim, considerado como o 'mais benéfico' para todos (ou para o maior número de pessoas). Esse fim é idealizado e, portanto, os construtos ideológicos priorizam a transformação ou mesmo a negação da realidade em nome de algo que supostamente será desejável. O ideal de um mundo onde não há desigualdade de nenhuma espécie e onde todas as relações humanas são pautadas pelo amor e pela fraternidade é considerado, por muitos, como um fim pelo qual vale a pena adotar qualquer meio. A 'paz mundial', outro fim considerado altamente benéfico e desejável para todos, exalta os melhores sentimentos de jovens e de candidatas a misses ao redor do mundo.

Quando, através do exercício da razão, chega-se à elaboração de um conjunto de princípios que, caso implementados, conduzirão a um fim desejado, tal como a uma sociedade justa e fraterna, ou mesmo a um mundo livre de guerras, podemos estar diante de uma ideologia. O fim idealizado não será, necessariamente, condizente com a realidade. A razão, que é fundamental para a atividade científica, termina por negar a própria possibilidade do conhecimento científico quando não está limitada pelo real. Além do mais, a afirmação de que as coisas 'deveriam ser' de uma determinada maneira confere ao postulante um alto grau de arrogância. Afinal, por que um certo indivíduo deverá saber o que é melhor para os demais?

Quem se compromete com a causa de construir uma sociedade justa, fraterna e harmoniosa está apenas defendendo a imposição, à humanidade inteira, do que uma certa pessoa ou um grupo limitado de pessoas entende por justiça, fraternidade e harmonia, a partir de uma série de mecanismos racionais que não têm comprometimento algum com a realidade. Quem não sabe realmente o que está fazendo, isto é, quem apenas adere a uma determinada corrente ideológica por impulso altruísta, está sendo ingênuo. Assim, quem realmente acredita na possibilidade de construir um 'outro mundo possível' é tão cândido quanto quem realmente acredita que 'o livre comércio vai pacificar o mundo'.

O que nos resta quando nos afastamos das ideologias? Resta-nos o desejo de compreender melhor como o mundo funciona, para a partir daí identificar as melhores possibilidades para o desenvolvimento, a prosperidade e o bem-estar. É possível, portanto, ser prescritivo sem ser ideológico. Para tanto, há que ter a humildade de não colocar a razão acima da realidade e de ater-se ao que 'é' em vez de defender o que se acredita que 'deveria ser'.

Os intelectuais 'pop' que satanizam, vilipendiam e demonizam a globalização econômica, por considerá-la assimétrica e excludente, estão comprometidos com construções ideológicas tanto quanto os intelectuais (geralmente 'não-pop') que defendem a globalização por considerá-la um caminho para a paz mundial. Sonhos (ou delírios) à parte, o processo de globalização econômica é real. Podemos gostar dela ou não, porém buscar compreendê-la, antes de tentar modificá-la, é um compromisso responsável com a honestidade intelectual.


(*) Claudio Téllez é analista internacional e matemático.


http://www.claudiotellez.org/port/artigos/130507. html
Claudio Téllez
Vice President of Formation and Projects - CIEEP
Personal Web Page: http://www.claudiotellez.org/
E-mail: claudio@tellez.com
'Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.'
(Samuel Beckett)



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