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Ensaios-->LITERATURA E TRADIÇÃO -- 13/05/2007 - 15:32 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
LITERATURA & TRADIÇÃO – CONFERÊNCIA

Francisco Miguel de Moura

1. As duas histórias: a política e a literária

Os historiadores têm afirmado que a história só pode ser escrita, no mínimo, cinqüenta anos depois dos fatos. Schopenhauer diz praticamente isto em seu livro “A Arte de Escrever”:
“Na história universal, meio século é sempre um período de tempo considerável, porque sua matéria passa sem cessar. Contudo, há sempre algo que se destaca. Na história da literatura, no entanto, o mesmo período de tempo não costuma significar nada, porque coisa alguma aconteceu: as tentativas canhestras pouco importam. Portanto, continua-se na mesma situação em que se estava cinqüenta anos antes.” (1)
Quando se fala em tradição, dando ênfase à literatura, os clássicos nos vêm à mente em primeiro lugar, desde os gregos aos romanos, e antes deles os chineses, a seguir percorrendo todo o Renascimento, o Século das Luzes na França até chegarmos a nós, ou digamos, ao século passado, para ser bem claro, para relacioná-lo com o presente. Porém, para nós, o século passado continua sendo o séc. XIX e não o séc. XX. Porque ainda vivemos literariamente, talvez também historicamente, o séc. XX. Aí nos vem a pergunta do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985): “Por que ler os clássicos”? (2)
Dos diversos capítulos do livro (“Por que Ler os Clássicos”?) em que Calvino discute a literatura, escolhemos o que tem muita aproximação com o presente e com o assunto desta palestra, para evidenciar, através das citações, o que vem a ser uma obra clássica:
“Na metade do séc. XX, o grande romance do Oitocentos russo retorna, como o espectro do rei Hamlet, para visitar-nos. A emoção que “O doutor Jivago” de Boris Pasternak (1956) suscita em nós, seus primeiros leitores, é esta. Em primeiro lugar, uma emoção de ordem literária, portanto não política; mas o termo literário ainda diz muito pouco; é na relação entre leitor e livro que sucede alguma coisa: lançamo-nos à leitura com uma ânsia de interrogação das leituras juvenis, de quando – precisamente – líamos pela primeira vez os grandes russos e não buscávamos esse ou aquele tipo de literatura, mas um discurso direto e geral sobre a vida capaz de colocar o particular em relação direta com o universal, de conter o futuro na representação do passado.”(3)
Depois de um longo passeio crítico-especulativo sobre a nova literatura russa (que, mutatis mutandis, valeria para toda a moderna literatura do mundo), ele conclui:
“Talvez a importância de Pasternak esteja em advertir-nos disso: a história – no mundo capitalista como no mundo socialista – não é ainda bastante história, não é ainda construção consciente da razão humana, é ainda excessivamente um desenvolvimento de fenômenos biológicos, estado de natureza bruta, não o reino das liberdades.
Neste sentido, a idéia do mundo de Pasternak, é verdadeira – verdadeira no sentido de assunção do negativo como critério universal, em que era verdadeira aquela de Poe ou a de Dostoiévski ou a de Kafka – e o seu livro tem a utilidade superior da grande poesia.”(4)
A renovação das artes não se faz facilmente. Como filósofo das emoções, Schopenhauer cindiu a história do homem em duas: – a história política e a história literária, uma representando a vontade e a outra, o intelecto. Não obstante a rapidez da história política com sua desagradável angústia de chegar logo, fazer logo, daí as guerras, os assassinatos, os holocaustos, etc. a história literária – a que mais devagar anda – é a mais agradável mesmo quando relata os erros e descaminhos do homem ao testemunhar. Testemunho tem que ser buscado no passado, no que já parece ter sido apagado da memória. Entretanto, nada se apaga, há o inconsciente coletivo. Eis por que políticas literárias se repetem como os ciclos do conhecimento humano. São as modernidades, as revoluções formais, as vanguardas. Esses arautos se revoltam não com o imediatamente anterior, mas com outros movimentos de muito antes do anterior, o que, sem dúvida, é tendência para a tradição.
Estendi-me nas citações dos escritores Ítalo Calvino e Schopenhauer porque a crítica e o estilo deles são tão elevados quanto esclarecedores. Começamos a ver que temos o lastro do passado espelhando o futuro. E essa é a melhor forma do encontro do passado com o presente. Essas duas companhias me dão a força e o jeito de declarar que sem tradição não há modernidade, sem tradição não há literatura, sem tradição não há o homem.


2. Classicismo e modernidade


Voltaremos a referir o mestre, romancista e crítico Ítalo Calvino outras vezes, assim como Shopenhauer, o filósofo moderno que mais se preocupou com o sentir e os sentimentos, a literatura e a arte. Assim é que, de outra forma, insistimos na pergunta de Calvino: Por que não ler os clássicos, ou melhor, por que não reler os clássicos?
– E não é isto que os escritores de modo geral fazem ao longo da vida?
Mas devia também ser uma prática do leitor comum. É Calvino quem nos responde, claramente, em vários tópicos, como proposta de definição do que é clássico. Ao pé da letra, clássicos são os autores lidos e estudados na sala de aula, por professores e alunos em conjunto.
Preocupa-me, mas me vejo obrigado a resumir, tanto quanto possível, as valiosas opiniões expendidas na obra do mestre italiano:
1 – Clássicos são aqueles livros dos quais em geral se ouve dizer sempre: “Estou relendo...” E quase nunca: “Estou lendo.”.
2 – São os livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado, riqueza não menor para quem teve a sorte de lê-los pela primeira vez, em condição de poder senti-los e apreciá-los.
3 – São clássicos os livros que exercem uma influência própria, impondo-se como inesquecíveis, e também se ocultam nas dobras da memória e por isto se incorporam ao inconsciente individual e coletivo. Ex. Homero, Virgílio, Camões, Shakespeare, Cervantes e seu D. Quixote, e a Bíblia, em nossa civilização cristã.
4 – A releitura de um clássico traz sempre novas descobertas, é uma recriação, pois não há duas leituras iguais.
5 – Toda primeira leitura de um clássico já é na realidade uma releitura dos clássicos anteriores a ele.
6 – Clássica é a obra que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer, nem terminará, dela nascendo muitas outras.
7 – Enfim, clássicas são aquelas obras que trazem até nós os traços das leituras que se infiltraram na consciência coletiva de uma ou diversas culturas, agregando linguagem e costumes. (5)
São pequenas definições que valem tanto para os antigos como para os chamados clássicos modernos. Entre nós temos, por exemplo, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector e tantos outros.
Modernamente há uma luta surda entre o velho e o novo, entre a tradição e a novidade (e a novidade não quer dizer o mesmo que o novo). No novo enxerga-se claramente a originalidade, a criatividade, mas ao mesmo tempo o conhecimento e o prazer da tradição. Basta consultar a história recente e compará-la com a mais antiga. Ver-se-á que esta luta praticamente não existia na antiguidade, o importante era fazer arte, literatura, ciência, filosofia, e continuar aperfeiçoando-as, não só renegando tal como os movimentos destrutivos da modernidade e pós-modernidade. Com base em pensamento escrito por Karl Marx – uma previsão do que aconteceria (e aconteceu) ao sistema capitalista – o “tudo o que é sólido se desmancha no ar” tornou-se um ícone dos “novíssimos” e virou livro com o mesmo título.
É sabido que a religião foi o substrato de toda a cultura humana. Quando se desconhece tudo, adora-se a esse tudo, que é um todo. Quando se conhece alguma coisa, adora se aquela pequena coisa. A moeda é essa coisa, substituto de todas as coisas. Coisa que se traduz modernamente pela mercadoria que o homem próprio faz, não importa se tiver que destruir aquilo que é sua casa, o planeta. Vivemos a religião da mercadoria, da coisa, do que é o “fora de si.”.
Muitos conhecimentos do passado tornaram-se folclore. No melhor sentido. O folclore guarda a memória oral e coletiva das sociedades. É nele que se armazenaram os sonhos da humanidade não realizados, talvez por serem impossíveis. A alma da cultura está no folclore, o classicismo se baseia no folclore; a modernidade, na mercadoria, no descartável, no destrutível, no nada.

3. A boa e a má literatura


Diz Heródoto (historiador grego do séc. IV, a.C.), também conhecido como o pai da História, que Xerxes chorou ao contemplar seu numeroso exército, imaginando que dali a 100 anos nenhum daqueles combatentes estaria vivo. Fazendo uma paráfrase do fato histórico, Schopenhauer diz que certamente sentiria também vontade de chorar ao entrar nos empórios livreiros ou ao consultar os grossos catálogos dos livros de sua época, pois tinha certeza de que dali a 10 anos poucas daquelas obras estariam vivas. Acontece na literatura como na vida. “Os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro”, diz o filósofo, exagerando. E dá como exemplo três escritores do século XIX (Spindler, Bulwel e Eugène Sue), que foram célebres no seu tempo, venderam milhares, depois desapareceram totalmente da história, ninguém mais os conhece nem fala deles, seus livros não são reeditados. Os leitores da época liam-nos talvez para ter assunto nas suas conversas sociais, pois que todo mundo os estava lendo. E isto nos faz lembrar o nosso Paulo Coelho, que escreve mal, estilo frouxo, fraqueja na língua, e sobre assuntos e temas que não conhece: – lendas e histórias de origem árabe supostamente espirituais, copiando-as mal, para ganhar dinheiro. Quem diz que ele se atreve a contar a realidade brasileira e a sua, com sinceridade? Se o fizesse ainda teria a barreira do mau estilo, desleixo na linguagem. Cito-o por ser o mais evidente exemplo. Claro que há outros até o imitando, o que é ainda mais lastimável.
Não sou tão radical, acredito que quem escreveu tantos livros, pode ter esperança de algo ficar para a história, mas não para a história literária. Para a história religiosa, social, de auto-ajuda, talvez. Creio que, à literatura, sendo o reino da liberdade como tenho dito, “muitos são os chamados e poucos os escolhidos”, para lembrar a Bíblia há pouco referida. Para consolo, é oportuno lembrar o poeta português Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Mas a alma é paixão, é sentimento, é vontade, segundo a maioria dos psicólogos e filósofos. O próprio Schopenhauer, autor de um livro que resume a essência de sua filosofia, “O Mundo como Vontade e Representação”, vê que a consciência é apenas uma parte muito limitado e frágil do ser humano. A realidade concreta só pode ser conhecida no momento em que as emoções, os sentimentos interferem no racional, e este os sintetizam no que denomina de representações. Para que não me traia, cito um pequeno trecho de alguém que interpretou e resumiu sua obra assim:
“Da mesma forma como nos homens, a vontade seria o princípio fundamental da natureza. (...) Na queda de uma pedra, no crescimento de uma planta, ou no comportamento instintivo do animal afirmam-se tendências em cuja objetivação se constituem os corpos. Essas diversas tendências não passariam de disfarces sob os quais se oculta uma vontade única, superior, de caráter metafísico e presente igualmente na planta que nasce e cresce, e nas complexas ações humanas.” (6) Ou seja, assim repetimos o poeta, com quase as mesmas palavras: “tudo no mundo tem alma” e “se essa alma não é pequena” produz o mundo por sua vontade. A cultura, a literatura, as artes fazem parte desse mundo produzido por nós. Para ser escritor é preciso não ser pequeno; é preciso ter alma elevada, mas ao mesmo tempo firme, vigorosa, no chão da realidade.
Para mostrar como os sentimentos são fortes, o nosso filósofo Schopenhauer, tão apreciado pelos intelectuais e literatos, valeu-se do poema “Don Juan”, de Byron (1723-1786):
“O ódio constitui de longe o prazer mais insistente
Os homens amam às pressas, mas detestam longamente.”. (7)
Aqui tocamos um problema que tem ocupado os filósofos, padres, profetas, professores, poetas, psicólogos, e ninguém chega a uma conclusão. Chegamos a Freud (1856-1939). Dois sentimentos humanos opostos – por que um, justamente o inferior, dura mais? Ou será que o poeta estava enganado? Ou será que a literatura clássica desde os gregos, romanos, românticos, realistas etc. está errada? Literatura é isto: problemas humanos, problemas da alma, busca de soluções através da linguagem e da comunicação, caminhos, desejos... Nisto o modernismo, ou o que se autodenomina de pós-modernismo – o “pós-tudo” (que é o fim da modernidade, o fim da história, o apocalipse) – tem-se traído redondamente.


4. Sobre a pós-modernidade


Num estudo sobre o século XX, Affonso Romano de Sant’Anna, na revista O Escritor, nº 112, de março/2006, órgão da UBE-SP, conclama a que esqueçamos esse século, numa recorrência a outros escritores como Mário de Andrade, Jean Baudrilard e Yves Bonnefoy, ao mesmo tempo em que lembra a luta do ensaísta Harold Bloom com sua teoria da “ansiedade da influência” ou de como os autores lutam para não imitar ninguém, salvo os clássicos porque evitá-los seria derrubar a base da tradição artística. São dois problemas: a busca de originalidade (hoje impossível) e o esquecimento do passado (mesmo o recente). E o poeta A. Romano de Sant’Anna assim se expressa:
“Mastigo esta frase psicanalítica, antropológica e literariamente; esquecer o passado”. É preciso sair do século XX, como havia assinalado Edgar Morin. Mas só se pode sair depois de entrar, só se pode aquilatar o que comemos depois da devoração. Esse século XX que foi essencialmente um parricida tem que ser examinado, devorado. Marinetti (1876-1944) propunha a queima dos museus e da tradição, os dadaístas chegaram ao nada, e tornou-se um leitmotiv na modernidade e na pós-modernidade a repetição de lugares comuns tais como: a morte da arte, a morte de Deus, a morte da história, a morte do homem, etc. Ou seja, o século XX transformou-se num vasto cemitério. Daí a melancolia dessa ideologia decadente que é a pós-modernidade. ”(8)
Sobre a busca da originalidade, temos o depoimento de um escritor de bem perto, o nosso querido O.G. Rego de Carvalho que me declarou não ler os contemporâneos, justamente para não se inspirar neles e não ter a tentação de escrever o mesmo estilo, os mesmos assuntos, os mesmos temas. Haroldo Bloom, talvez o maior crítico da atualidade, afirma que os grandes poetas não lêem os grandes poetas justamente porque querem ser um dos grandes poetas em originalidade. Mas quem diz que os grandes poetas não leram os clássicos? É uma afirmação impossível e improvável, mesmo que não queiram confessar. A arte literária como a história (seja do homem, seja da ciência) produz-se por acumulação de experiências e as melhores experiências são as dos clássicos. Por isto é que são imortais, eternos.
Descontando os exageros, os dois escritores têm razão. Ler apenas os contemporâneos é um perigo tão grande como ler apenas os clássicos (ou somente um ou outro clássico). Leitura, leitura sempre, de todos os tipos; escrita todo o dia, todo santo dia – eis o que faz do escritor um grande escritor. Os músicos compõem e tocam sempre, os pintores todos os dias experimentam. Por que apenas os poetas teriam que escrever quando lhe viesse a incerta inspiração? Ela não desceria por encanto, é preciso incentivá-la, exumá-la, para que possamos pelo nosso passado ver e julgar o nosso presente; pela nossa personagem sentir as outras, o homem comum e o não-comum, a vida correndo através dos poros da sociedade, pelo amor e pelo ódio, pelo medo e pela paixão.
Por tudo isto, chegamos certamente à tradição: a história não acabou a literatura não acabou, nem o romance, nem a poesia. Tudo continuará até ninguém sabe quando, pois se houver uma coisa que o homem não pode prever é o futuro. Se isto fosse possível, o futuro não existiria. E que seria de nós sem o futuro? Sem o mistério? Sem a história? Sem a poesia?


5. Literatura e tradição

O conceito de Literatura, nós sabemos desde o séc.XVIII, quando os estudos de Benedetto Croce e De Sanctis sintetizaram-no e o Prof. Soares Amora o cita através de Fidelino de Figueiredo: “É a ficção, a criação duma supra-realidade, com os dados profundos, singulares e pessoais da intuição do artista” (9)
Mas o que é tradição, afinal?
Nossa batalha maior não é encontrar o futuro, ele virá. Temos que não perder o passado de vista, da mente e do coração. A tradição fez a civilização e a cultura. As mais antigas tradições como a chinesa, a grega, a egípcia, a judaica, por exemplo, viraram folclore religioso. O folclore religioso virou história, e é filosofia e tradição. A história de tudo transforma-se em saber. Segundo Marx, “a única ciência que existe é a história”, pois encarna todos os saberes. E tudo está em documentos, monumentos, construções, inscrições de cavernas, objetos arqueológicos, etc. Mas, principalmente nos livros. E quantos livros não se escreveram em chinês, em caracteres cuneiformes, em papiro e depois dele, no papel?
Conta-se aí também a tradição oral. Esta, sim, rapidamente se transforma em folclore, e este guarda um substrato enorme de conhecimentos humanos e de valores, os quais, com percuciência, serviram de ajuda às fantásticas descobertas que o mundo tem feito. Quantos quadros não se pintaram, quantas músicas não se fizeram, quanto teatro já não foi representado? Quantas epopéias? Daí advém a dificuldade do escritor de hoje. Ele não deve desconhecer as obras que vieram antes dele. Impossível? Talvez. Mas as principais, dos clássicos, devem ser lidas e estudadas exaustivamente, sob pena de nadar na ignorância, na penúria e na cegueira.
A leitura de boa parte dos contemporâneos realmente é dispensável; a dos clássicos, nunca. Há quem exagere e diga que não existe mais espaço para a criação, tudo já foi dito e escrito, o que fazemos é simplesmente imitar ou reescrever. Não comungo com dessa idéia. Cada homem é um homem novo e, como tal, diferente dos outros. Cada escritor é um escritor novo, desde que tenha paixão pela descoberta, pela criação, pela originalidade. Não vemos como são as crianças? Inventivas, ainda não foram contaminadas pela linguagem comum, por isto falam de forma bem própria. Os loucos também não imitam, são eles próprios, embora sofram com isto. Ou não sofram, podemos até pensar assim, considerando que têm plena liberdade, justamente aquilo que a sociedade nos rouba em grande parte. E aqui lembro de um conto de Nilto Maciel, intitulado “Aníbal e os Livros”, “a “estória” de Aníbal, sua família, seus livros”. Ele lia tudo, principalmente sobre antropofagia e canibalismo, e, na ânsia de saber, adquiriu Caetés, de Graciliano Ramos. Não gostou muito. Aníbal apreciava mais a História. O título o enganou, mas nem tanto. Notou a semelhança entre os índios caetés e João Valério: ambos devoravam seus semelhantes, aqueles comendo a carne e este, metaforicamente, os sonhos, as vidas dos brasileiros. Aníbal caracterizou-se por inventar nomes estranhos para os filhos que iam nascendo: Baribal, Aníbara... Aníbal foi piorando, caiu na bebida. Leonardo, um amigo, levou-o ao médico, depois ao psiquiatra, que o mandou para o hospício, enquanto a esposa, Bárbara, se chateava, acusando-o de ter trazido a loucura pra dentro de casa. A discórdia em casa já vinha de longe, desde que nasceram os primeiros e filhos e ele começou a dar-lhes nomes esquisitos, se bem que tirados do nome de Bárbara e de Aníbal. Um dia ela pôs fogo na biblioteca, esperando que assim ele ficasse bom e que a família tivesse paz. “(10) Como vemos, o escritor tratou seriamente do estigma da leitura e dos homens de letras”. Esse conto prestar-se-ia muito bem à ilustração do assunto que estamos desenvolvendo. Essa luta da cultura humana é bem explicada por Freud, de forma psicológica: – a tendência que temos a ficar entre a morte e a vida, ora abraçando a Tânatos, ora se agarrando a Eros.
Mas o amor tem vencido. A tradição vencerá. A literatura também.
Não importa que as inovações tecnológicas como a internete digam: “o livro tem seus dias contados”. Não. Todo o tesouro da sabedoria humana está neles. Temos que respeitar a tradição. Na nossa língua, citemos Camões, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado, Eça de Queiroz, O.G. Rego de Carvalho, Assis Brasil, Fontes Ibiapina, Da Costa e Silva, Celso Pinheiro, Mário Faustino, Mário de Andrade, Mário Quintana, Guilherme de Almeida, Osvald de Andrade, Drummond, Bandeira, entre outros. Sem suas obras nós não existiríamos como escritores e bons leitores.

6. Eduardo Maffei e o Piauí

Tradição, o Brasil já possui – o Piauí, inclusive – porque também fazemos história. Temos a herança da arte humanista e da literatura universal. Nossa contribuição é pequena, mas temos literatura, cultura e arte. Para comprovar a afirmativa, apresento-lhes um autor tão caro a mim e ao poeta picoense Ozildo Batista de Barros, com cujo autor nós dois convivemos um diálogo mais ou menos intenso, por cerca de 5 anos. Quero me permitir a leitura de parte do precioso artigo denominado “Chico, o Poeta do Piauí” com que nos brindou o sábio escritor, Dr. Eduardo Maffei, publicado em Salvador – “Jornal da Bahia”, em 30 de março de 1980, quando fiz o lançamento de meu 3º livro de poemas, Universo das Águas. Sobre esse livro, a Profa. Deolinda Marques escreveu também – um ensaio com o título de “Um Rio em Chico Miguel”. Ambos os trabalhos dizem, em conclusão, que dei um salto qualitativo na poesia. O artigo de Eduardo Maffei – médico, jornalista, historiador, romancista e crítico literário, autor dos romances “A Greve” e “Maria da Greve”, entre os mais conhecidos – é bastante longo e se o lesse in totum, estaria abusando da paciência dos senhores e senhoras. Em atenção à preciosidade do tempo, escolho alguns trechos mais pertinentes:

“Chico, o Poeta do Piauí”.

“Nos meus tempos de andejo por esses brasis afora, estive, por diversas vezes, nos anos 40, em algumas cidades do Piauí. Todas me impressionaram negativamente tanto pela pobreza material como cultural. Nesse conjunto ficaram-me, entretanto, algumas impressões fortes, excepcionais: as “Sete Cidades”, um estranho médico, misto de sábio e de santo, que residia em Simplício Mendes, o Dr. Isaías, a quem cometi a deslealdade de esquecer o resto do nome, e uma certa publicação literária de Parnaíba. Sobre as “Sete Cidades”, fiz, na ocasião, uma grande reportagem para “O Cruzeiro”, então a revista semanal de maior circulação no país. Quanto ao meu colega de Simplício Mendes – eu também sou médico – sobre ele já ouvira referências em todo o sertão, da Bahia para o Norte, de variados tipos: como médico, como homem e como cultura. Quando o conheci aconteceu-me algo parecido ao que havia Bates deparado. Há mais de um século, em 1848, navegando o Tocantins em direção às cabeceiras, esse naturalista topou próximo de Baião, com uma aldeia de meio milheiro de habitantes dos quais a maioria de mulatos, poucos negros, alguns índios e nenhum branco. Travou relações com um funcionário público ali sediado, Soares de nome, moço, mestiço de branco e curiboca que lhe convidou a ver sua biblioteca. A casa não era casa, mas sim uma choça de pau-a-pique, coberta de sapé, na margem do rio. Examinando-a não teve o enfado do galo da fábula que encontrara, ao invés de um grão de milho, uma pérola. Bates não era animal; era naturalista e pela cultura especialmente diferenciamo-nos dos irracionais. Espantou-se. Havia, entre a aparência e a pobreza do mameluco e de sua habitação e a variedade qualitativa dos livros existentes, algo insólito. Escreveria para a história: “Fiquei surpreso ao ver numerosos clássicos latinos em muito boa encadernação, e entre eles, Tito Lívio, Virgílio, Terêncio e as Epístolas de Cícero”. Foi para mim um espetáculo desusado.” Eu conhecia já, desde os anos 30, essa passagem, citada por Tristão de Athayde, e foi exatamente isso que senti mais tarde ao meu contato com Isaías, um médico que faria inveja a uma Academia de Medicina. Restara-me ainda outra grande impressão, por paradoxal em relação ao atraso do Piauí, que espantaria novamente a Bates. Foi quando me tornei amigo – e seu colaborador – de um bizarro tipo de comerciante, variação parnaibana de Mecenas, Ranulpho Torres Raposo, que executou a incrível façanha de se transformar no único e mais antigo editor de um anuário de cultura do país, circulando regulamente desde 1924, o “Almanaque da Parnaíba”, com 300 páginas cada um.
Leio agora “Universo das Águas”, de Francisco Miguel de Moura, e, como Bates, voltaria a me pasmar se não percebesse que por trás de uma editora do tipo “Grupo/Cirandinha” tem que haver certa massa cultural, porque o livro é mercadoria que necessita do mais refinado mercado, daqueles que praticam um dos mais sublimes atos de liberdade, a leitura. E esse se cria como qualidade, só através de uma sedimentação da quantidade cultural. Percebe-se, assim, que o Piauí também deu seu salto qualitativo de saber.
(...)
Todas essas reflexões vieram à tona porque foi dessa forma que senti “Universos das Águas”. Nele me reencontrei com os fenícios das “Sete Cidades”, com Isaías, com Ranulpho, e também com Sócrates, o mundo do feitiço do verbo. Nele, “A Rua Triste” me levou de volta ao primeiro sentimento amargo que tive na infância ao tomar conhecimento do “beco das mulheres”, em Itu. Nessa poesia a gente encontra a mesma rua que existe e existiu em todas as cidades do mundo, em todos os tempos. “Dois Soluços para Tiago” é como se Thiago de Melo estivesse presente, falando com a gente, dialogando como queria Sócrates. “Burocratismo” é uma beleza viva sobre um tema de mediocridade, demonstrando que só os poetas dão vida ao que realmente existe. “Tratado dos Marginais” é um panfleto vivo. Lembra-nos Ibn el Faridh, um poeta árabe a quem De Felice atribui extraordinário encantamento, que exerce sobre os ouvintes pela magia do verbo. Sócrates não entreviu esse dom na escrita. Foi pena. A poesia dá alma às palavras e nas de Chico a gente a encontra. ”(11)
***
Quanto ao ensaio da Profa. Deolinda Marques, acima mencionado informo que está disponível, em separata e também em apêndice da minha “Antologia” hoje lançada, comemorando os quarenta anos de duro mas gratificante convívio com as letras e com a poesia em particular, nesta festa que é também dos 40 anos do Círculo Literário Piauiense (CLIP), movimento fundado por mim, Hardi Filho, Herculano Moraes, Tarciso Prado, Osvaldo Lemos e mais alguns que andam dispersos por aí.

Teresina, 12 de maio de 2007
________________________
*Palestra proferida nesta data, na Academia Piauiense de Letras, por ocasião do lançamento da “Antologia” de poemas escolhidos pelo próprio autor, em comemoração aos seus 40 anos do livro “Areias” (sua estréia) e também os 40 anos de fundação do Círculo Literário Piauiense (CLIP).
________________________
** Francisco Miguel de Moura é membro da Academia Piauiense e do Círculo Literário Piauiense. Poeta, ficcionista e crítico literário.


BIBLIOGRAFIA

1 - Schopenhauer, Arthur - A Arte de Escrever, Ed. L& PM Pocket, Porto Alegre, 2005, pg.138.
2- Calvino, Ítalo - Por que Ler os Clássicos – Ed. Cia. das Letras, SP, 1994 – pg. 9.
3 – Idem, idem – pg. 186.
4 – Idem, idem – pg. 201.
5 – Idem, idem – pg. 9 a 16.
6 – Schopenhauer, Arthur – O Pensadores (Obra que tem a consultoria de Rubens Rodrigues Torres Filho) – Abril Cultural, SP, 1980, pg. XI.
7 – Byron – in “Parerga e Paralipomena”, de A. Schopenhauer, Ed. Abril Cultural, SP, 1980, pg. 197 (Obra “Os Pensadores” – pg.197.
8 – Sant’Anna, Affonso Romano de – in Revista “O Escritor”, da UBE-SP, março/2006, pg.21
9 – Amora, Antônio Soares – Teoria da Literatura – Ed. Clássico-Científica, S.Paulo, 1971, pg. 24.
10 – Maciel, Nilto – A Leste da Morte, Ed. Bestiário, Porto Alegre, RS, 2006, pg. 11 a 17 (Citação resumida para ilustrar esta palestra).
11 – Maffei, Eduardo – Chico, o Poeta do Piauí, artigo no Jornal da Bahia, ed. de 30.3.1980 – Salvador – BA.


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