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Ensaios-->A originalidade brasileira -- 16/04/2007 - 12:18 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A originalidade brasileira

Gilberto de Mello Kujawski (*)

O Brasil é o país mais original do mundo. É o único que não tem governo nem oposição. Obra de S. Exa. o presidente Lula. Lula não governa porque ainda não desceu do palanque. Lula conversa, desconversa, deixa como está para ver como fica, adia tudo para depois de amanhã, não por tática, como acreditam os papalvos, mas porque tem horror de tomar decisões importantes. É o campeão do despistamento. Nunca se dá por achado. Faz discursos, bravateia, solta piadas nefandas, promete o mundo e o fundo, mas não governa. Quebra a hierarquia da Aeronáutica, melindra os comandos militares.

Faltam a Lula o perfil institucional, a compostura e a liturgia do cargo. Seu perfil é, antes, compadresco. Se não quer ser o Grande Irmão, quer ser o Grande Compadre de todos os brasileiros. Lula representa, com fidelidade alarmante, a figura daquele “homem cordial” descrito por Sérgio Buarque de Holanda em seu livro famoso. O “homem cordial” não é o homem polido, lhano no trato, hospitaleiro, como julgam as pessoas que não têm tempo de ler livros. Sérgio explica bem: “A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado” (Raízes do Brasil). O homem cordial não é nenhum expoente de civilidade, ele é, sim, o homem imerso na esfera do íntimo e do familiar, transportando para a vida pública os usos e os valores da vida privada, sem amadurecer como cidadão responsável e zeloso das leis e da ordem pública. A palavra “cordial” tem de ser tomada em sentido rigoroso e estritamente etimológico de cor, cordis, de pessoa só conduzida pelos humores do momento para o bem e para o mal. O homem cordial tem seus rancores, seus acessos de cólera e irritação, seus dias de lua e de fígado virado. Em suma, é o homem temperamental. Vinga-se de quem o prejudica, e coloca o amigo, o companheiro de partido, o eleitor acima da pátria e do Estado.

Lula, o Grande Compadre, faz festa para a múmia de Fernando Collor e abraça um Paulo Maluf embalsamado, mas Lula não governa e tem raiva de quem governa (ou governava). Diga o leitor se um país assolado há meses pelo apagão aéreo, pela crise devastadora da segurança, pelo mau desempenho da educação e da saúde, pelo PIB vergonhoso (agora maquiado para inglês ver), pela inércia exasperante da máquina administrativa, pela desmoralização da classe política, pela escalada sufocante de impostos, diga se um país assim tem governo.

Onde não há governo, não há oposição. A oposição, que já ia mal, anulou-se com o haraquiri do PSDB apoiando, secretamente, a candidatura de Arlindo Chinaglia para a presidência da Câmara. E que dizer dessa ridícula troca de nome do PFL para um insosso “Democratas”? Capitulação vergonhosa! Democratas todos querem ser, mas a virilidade de sustentar um partido alimentado pelos ideais de um liberalismo autêntico, impondo limites ao governo, defendendo a iniciativa privada, a privatização quando necessária e a liberdade individual, a isso ninguém se atreve. O partido terá agora a cara de Rodrigo Maia? Confesso que prefiro o semblante mais digno, experiente e austero de Marco Maciel.

Foi o Grande Compadre que começou a desmoralização calculada da oposição, anulando-a politicamente com o desprestígio do Legislativo, submerso numa enxurrada de medidas provisórias visando a castrar a iniciativa dos parlamentares. Lula reduziu o Legislativo a figura decorativa e a oposição, a trapo. A política é feita pela tensão sadia entre Executivo e Legislativo. Quando estão polarizados, passa a corrente da vida política e tudo vai em frente. Quando a tensão esmorece porque governo e oposição são fracos, a vida política se deteriora. O presidente, inflando o Executivo como fez, anulou a oposição. Esta perdeu o moral (a combatividade) e também a moral. Recolheu-se aos seus interesses corporativos e se deixou infiltrar pela corrupção organizada, gerando o mensalão e outros bichos peçonhentos.

O pouco de oposição que ainda resta no País mudou dos partidos para a imprensa. A oposição refugiou-se na imprensa livre. O PT sabe disso e já prepara sua ofensiva contra a liberdade de imprensa, apoiado, agora, pelo profissionalismo de Franklin Martins, recentemente contratado. (Pegou mal. Uma pessoa que sabe das coisas me garantiu que não foi um caso de “cooptação”, mas de longa e antiga cooperação. Ficará na memória a entrevista de Franklin com seu ex-colega da Bandeirantes Ricardo Boechat, chamando, cerimoniosamente, o entrevistado de “ministro”, sem que este perdesse a impassibilidade.) Por suspeitar na imprensa a última chama da oposição é que Lula até hoje não cumpriu a promessa da entrevista coletiva com que acenou no dia em que foi reeleito.

A maior ironia é que com toda a inchação do Executivo, nem assim o presidente consegue governar. Lula não pega nem no tranco. Então, sem governo, sem oposição, como é que o País continua de pé? Conta a lenda, não sei se indiana ou africana, que os elefantes, depois de mortos, continuam de pé por dias ou semanas. A carcaça dos paquidermes resiste por muito tempo à decomposição interna, sem se abalar.

Não sou tão pessimista assim. O Brasil não está morto e continua de pé porque já provou mais de uma vez ser maior do que o buraco (leia-se “governos”). No Brasil, escreve-se certo por linhas tortas. O método é confuso, mas o conjunto da obra nos redime.Talvez seja esta a verdadeira originalidade brasileira.

Henry Sobel - Solidarizei-me pela internet com o rabino Sobel, citando duas fontes eminentemente cristãs. A primeira foi Santo Agostinho: “Nem eu mesmo compreendo tudo o que sou.” A segunda é o próprio Jesus de Nazaré, no episódio da mulher adúltera: “Aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra.”


(*)Gilberto de Mello Kujawski, escritor e jornalista, é membro do Instituto Brasileiro de Filosofia
E-mail: gmkuj@terra.com.br


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