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Ensaios-->TJN - 011 = Defesa de Tese Pessoal -- 13/02/2007 - 09:20 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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DEFESA DE TESE PESSOAL

À consideração do Fórum JN
e na expectativa
de que não se bata mais no ceguinho...


Se o proclamamos, desejando felicidade para todos, almejo lídimo que jamais a humanidade civilizada consumou, no momento e na circunstância em que o fazemos, existirá sempre uma minoria que intimamente não o deseja. Todavia, se fosse possível consultar um a um, a unaminidade, com algumas insignificantes e surpreendentes excepções, decerto que se exprimiria.

Ora, como desejamos nós então a felicidade generalizada se também em maioria e em termos factuais não aceitamos individualmente descer um degrau sequer abaixo da situação em que estamos colocados? Que conclusão exacta tirar pois da paradoxal ambiguidade equacionada? Não só em Portugal, mas no mundo inteiro, terá então Vasco Pulido Valente razoabílissimo discernimento quando afirma que não regulamos bem da cabeça?

Enunciado o fundamental busílis, partindo para equacionar a polémica latente, eis-me entre Salazar e o 25 de Abril, respectivamente 35 anos e 33 anos de corpo e alma, pensando e sentindo por mim em relação à minha existência. Não confio nem desconfio, sou eu. Não me faço carregar de preconceitos que desde há muito descarreguei do raciocínio..

Nasci em 1939 e fui rigorosamente educado à tona da tradição e normas decorrentes, sob os princípios e valores que à época tacitamente se aplicavam. Quem em data aproximada atrás ou à frente tenha nascido, saberá naturalmente o tanto que em tão curta frase abarco. Tive a dita, durante a adolescência e a assunção adulta, de nunca me ter integrado no esconso sistema policial político que reprimia tenazmente qualquer tipo de oposição. Limitei-me assim, com muitíssimos solavancos ao contrário, a seguir o curso social que levava ao melhor nível de vida possível. E consegui-o satisfatoriamente na minha perspectiva. Vivia e trabalhava aprazivelmente na Ilha de Moçambique, feliz com minha esposa, duas filhas e com todos, sem qualquer espécie de discriminação, com quem mantinha relações, quando inopinadamente ocorreu o 25 de Abril.

Sequer vale a pena descrever o que foi a queda vertical que desde logo iniciei até à iminência de ficar completamente de rastos, perdendo de imediato tudo quanto de material estóica e persistentemente tinha adquirido. Em inevitável sequência, ao longo de 5 anos, acabei também por perder a família que com empenhado desvelo havia constituído. Ah... Que tinha eu a ver com as actividades e masmorras pidescas, com as ambições políticas e as tramas que se degladiavam? Em absoluto, nada. Para que queria eu a proclamada liberdade se não a podia usar, à deriva na vida, vencido pela desculpa das portas fechadas, sem trabalho e pendurado aos 35 anos de idade ao derradeiro sacrifício de meus pais? Em extremo recurso emigrei para França onde penei a grande penar para conseguir a legalização e lograr enfim trabalho tranquílo. Passei de quadro administrativo a operário. Desci de sopetão todos os degraus da escadaria que honradamente tinha subido.

Venho pois de perpassar uma existência que nada tem a ver com o lado condenável do regime de Salazar ou de tudo quanto de degradante se seguiu ao 25 de Abril. Quem não aprecia e louva a coragem de Salgueiro Maia, o pragmatismo utópico de Vasco Gonçalves, a coragem política de Sá Carneiro, a melhoria de vida de milhões de pessoas, a plena liberdade de expressão, a tenacidade moderadora de Ramalho Eanes e o sensato equilíbrio de Cavaco Silva?

Quem não verbera as torturas e os calabouços da PIDE, a censura e o cerceio sobre a palavra, a locupletação fraudulenta, a libertinagem e a devassidão, a corrupção de colarinho branco, a falta de segurança pública, os assaltos com espancanmento e a permanente temência de viver sob o bem pago bla-bla da mesma estúpida conversa de lineu?

Quem não entende pois o íntimo pendor de um cidadão, bom e mau, certo e errado que deseja para si e para o seu país os lados bons de Salazar e do 25 de Abril? Quem concebe Deus sem a existência do Diabo? Vencesse um ou outro, o que restasse, para que serviria?

De resto, agora, dos quase 8 anos que trabalhei em Moçambique e com integral justiça, pretenderia tão-só que me devolvessem os haveres que fui obrigado a perder e os descontos que legalmente efectuei para nada. Fui funcionário da ZAMCO, o consórcio internacional que construiu a barragem de Cabora-Bassa e que há tempos o nosso actual primeiro-ministro negociou como quis. Terei sido um grandessíssimo parvo. Poderia ter prevenido e arranjado a minha vidinha de outra maneira a ponto de jamais poder justificar o que agora possuísse.

'Ando sem luz no caminho,
sem afagos, sem carinho,
ninguém ouve a minha queixa...
O vento calou-se agora
e na tristeza desta hora
até o vento me deixa.'

A vida vista de dentro para fora por cada um de nós não é de facto de forma alguma aquilo que a vida realmente é para todos. Podemos imaginar e presumir a vida de outrem, mas não poderemos nunca senti-la. Por isso todos tardamos em apreender a diversidade da existência humana colectiva e geramos preconceituosamente a incompatibilade.

Prezo-me de ter amigos assumidamente facistas, comunistas, anarquistas, benfiquistas, sportinguistas, homosexuais e até ladrões.

PS = Agora, 'é fácil': tome-se esta última frase isoladamente e descontextualize-se. Ó que grandiosa e genial habilidade.

António Torre da Guia

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