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Ensaios-->Conheça um país chamado Cuba -- 02/02/2007 - 17:10 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Conheça o país Cuba

Revista Veja, 11/01/2007

Política
Da revolução à decadência com Fidel Castro
A virada socialista de 1959 e o isolamento
pós-soviético, nos anos 90

Cuba foi um dos últimos países a se libertar do domínio espanhol. Sua independência foi em muito patrocinada pelos Estados Unidos, que tinham interesse econômico na ilha. Cuba era próxima à Flórida, possuía grandes belezas naturais e era a principal produtora mundial de açúcar. O grande herói da independência cubana foi o poeta e jornalista José Martí, porém ela não teria se concretizado sem a 'ajuda' dos norte-americanos. À beira da revolução, o clima em Cuba era tenso. Explodiam revoltas que buscavam a sua independência. O patriotismo aflorava em busca da liberdade. Com o apoio dos EUA, a vitória cubana foi fácil. Mas Cuba saiu da dominação espanhola e passou a ser dominada pelos EUA. Em 1901 foi incorporada à Constituição cubana uma emenda que previa a 'doação' da Baía de Guantánamo para os norte-americanos instalarem uma base militar. Ao longo de cinco décadas, ditaduras mantidas pelos EUA foram instaladas em Cuba. Em 1953, o ditador era Fulgêncio Batista, que governava segundo os interesses de empresas transnacionais. Os cubanos não tinham poder de decisão sobre seu país e a liberdade era uma utopia. O povo não estava ao lado de Batista e passou a contestar seu despotismo. No mesmo ano, um grupo de jovens, comandado por um ex-líder estudantil e jovem advogado chamado Fidel Castro, atacou a Fortaleza de Moncada, em Santiago. Objetivavam tomar armas para financiar uma revolução. Mas fracassaram e somente 30 dos 150 revoltosos sobreviveram. Estes foram condenados à prisão e, depois de cumprirem parte da pena (Fidel cumpriu 22 meses), foram anistiados e banidos de Cuba. Foram derrotados, mas Castro passou a ser uma referência na luta contra Fulgêncio Batista.

Exilaram-se no México, reorganizaram-se e começaram a treinar para uma nova tentativa de revolução. Nesse momento Ernesto Guevara, o Che, aderiu ao grupo. Também faziam parte dele Camilo Cienfuegos e Raúl Castro, irmão de Fidel. Constituíram o Movimento Revolucionário 26 de Julho. Em novembro de 1956 partiram de um porto mexicano no iate Granma com destino a Cuba. Eram 82 pessoas armadas com dois canhões antitanque, 35 rifles com mira telescópica, 53 fuzis mexicanos, 3 metralhadoras Thompson e 40 metralhadoras leves. Os motores defeituosos e a sobrecarga do Granma, bem como o mau tempo e erros na navegação atrasaram a chegada dos revoltosos. Com isso, o governo de Batista, sabendo da tentativa revolucionária, organizou um contra-ataque. Logo após o desembarque as tropas do governo dizimaram os revolucionários. Os únicos doze sobreviventes dispersaram-se e se embrenharam na mata. Quase sem comida, desprovidos de água, com poucas armas e em condições físicas horríveis, caminharam durante dias até chegarem a Sierra Maestra, onde se reuniram novamente. Sobreviveram graças ao apoio que receberam dos camponeses. Os remanescentes do grupo, liderados por Fidel, Che, Raúl e Cienfuegos, juntamente com os novos recrutados, foram obtendo importantes e estratégicas vitórias contra as tropas governistas. Numa verdadeira epopéia, a guerrilha revolucionária caminhava rumo à capital cubana. Com a vitória final finalmente consumada, Fulgêncio fugiu do país e no dia 1º de janeiro de 1959 as colunas guerrilheiras tomaram toda a ilha.

Guinada socialista - Um novo capítulo da história cubana começava. Fidel Castro projetou um governo fortemente nacionalista e disposto a combater a corrupção. Houve, então, a ampla reforma urbana e agrária, o aumento da construção de escolas e hospitais, a distribuição mais igualitária da renda, as maciças campanhas de alfabetização, a nacionalização das empresas, a elevação dos níveis salariais. Em abril de 1961, Fidel Castro, em célebre discurso, finalmente anunciou que Cuba se tornaria um país socialista. Assim, aproximou-se da URSS em busca de ajuda militar, técnica, financeira, econômica e diplomática. A URSS passou a comprar açúcar a preço acima do mercado e a vender petróleo mais barato para Cuba. A URSS financiou Cuba para ter um modelo socialista no continente americano. Em represália, os EUA impuseram um bloqueio comercial contra a ilha, e obrigaram outros países a fazê-lo também - na América, somente o México não aderiu. Também romperam relações diplomáticas e tentaram, sem sucesso, invadir Cuba, a partir da Baía do Porcos. Para evitar mais invasões, os soviéticos, então comandados por Nikita Krutchev, instalaram mísseis nucleares em Cuba. Kennedy, o então presidente norte-americano, ordenou um bloqueio naval à ilha. URSS e EUA quase promoveram uma hecatombe nuclear, mas acabaram acertando um acordo que determinava a retirada dos mísseis russos e o compromisso dos EUA de não mais invadirem Cuba. Esse episódio ficou conhecido como a Crise dos Mísseis.

Com o colapso da URSS no final de 1991 as dificuldades de Cuba foram agravadas. Já não podia mais vender seu açúcar para a URSS acima do preço de mercado e comprar petróleo barato. Além disso, os EUA agravaram o embargo comercial contra a ilha em 1992 e 1996. Cuba tornou-se, assim, um país relativamente isolado do resto do mundo. Com pouco petróleo, os cubanos tiveram de encontrar meios de locomoção alternativos, como a bicicleta. Os índices sociais decaíram. Sem poder comercializar com boa parte dos países do planeta, Cuba teve seus recursos financeiros prejudicados. A ilha hoje abriga um ditador em decadência senil, presos políticos, um paredão onde três dissidentes foram executados em 2003, prisioneiros de guerra, militares americanos e uma onda de cidadãos que tentam, dia após dia, deixar o país a bordo de um bote inflável. Em Cuba, cercada de mar por todos os lados, convivem o inigualável poderio americano e o desafio insistente a ele levantado pela revolução de Fidel Castro, a idéia da liberdade e sua negação, as filas para comprar comida e as comodidades do fast food e outros paradoxos. Nos estertores de um regime que parece não acabar nunca, o fuzilamento de três cidadãos que seqüestraram um barco para fugir da ilha e a condenação de mais 75 pessoas a penas que chegam a 28 anos de prisão por delito de opinião abalou a fé até mesmo de grandes admiradores de Fidel Castro. O escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, velho amigo do regime castrista, finalmente rompeu com ele.





Economia
Depois do colapso, a fé
no futuro do capitalismo
A abertura a empresas estrangeiras
e a vida sob a economia paralela

Na virada do século, Cuba vivia um momento de exuberante fé no futuro do capitalismo. Havana ficou colorida por outdoors estampando o nome de marcas famosas como o sabonete Lux, os automóveis italianos Fiat, a cerveja canadense Labbat. Javier Sottomayor, o esplêndido saltador cubano, atleta olímpico orgulho da revolução, aparecia num cartaz propagandeando os tênis alemães da Adidas. Entre eles, timidamente, em algumas esquinas longe do centro, sobrevivem as placas com palavras de ordem socialistas e a fisionomia barbuda de Fidel Castro e Che Guevara, um tanto deslocados. Entre os esqueletos de prédios da parte velha da capital, uma loja da Benetton oferece roupas européias a preço de free shop. Do outro lado da rua, dois cafés de luxo com seus cristais e mármores competem por clientes. No cardápio de ambos, lagosta e vinhos franceses. Guindastes, andaimes, aroma de tinta fresca estão por todo lado na capital. Cuba e sua capital estão lentamente renascendo da decrepitude de quase quarenta anos de sufoco. Nos quartos dos hotéis as televisões retransmitem a programação da CNN e de emissoras francesas e italianas. Os cubanos, que não têm acesso à TV a cabo, contentam-se com os dois canais oficiais. Mesmo neles, no intervalo das novelas brasileiras, assistem ao comercial da Emtel, a companhia telefônica local, que, com 49% de capital mexicano, é um símbolo dos novos tempos na ilha. Para um país comunista cuja economia recebeu extrema-unção depois do desmonte do bloco soviético, de onde recebia 8 de cada 10 dólares de seu orçamento, Cuba vai muito bem. O frescor da circulação do dólar pela economia informal transmite uma estranha sensação de vitalidade e normalidade como se Cuba tivesse, finalmente, despertado de um pesadelo. Depois de anos de colapso, os serviços de transporte voltaram a funcionar e os ônibus circulam com alguma assiduidade pelos bairros. De um esquema de dezoito horas sem eletricidade por dia, Havana quase não precisa mais racionar energia.

A cidade também está com nova cara. Havana, fundada pelos espanhóis em 1519, tem arquitetura tão imponente, com suas fontes, praças e parques, que uma simples demão de tinta e uma fonte luminosa ligada operam milagres visuais. Nossa Senhora da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba, não tem nada a ver com a ressurreição urbana da capital. O santo milagreiro é o de sempre nesses casos, o dólar. Em 1993, Fidel Castro legalizou o uso da moeda americana em transações comerciais, abrindo caminho para a renovação econômica e de humor que hoje contamina boa parte de Cuba. Na década passada, apenas 2% dos cubanos trabalhavam em atividades que, mesmo pagando salário em peso cubano, os colocavam em contato direto com o dólar. Hoje são cerca de 8%, e o número não pára de crescer. Garçons, prostitutas, motoristas de táxi clandestinos, prestadores de serviços aos estrangeiros residentes na ilha são profissões cobiçadas. Estão próximos do dólar e dos grandes privilégios que ele traz. Ganham gorjetas e têm seus serviços pagos em moeda forte. Com dólar pode-se ir às compras no shopping center Carlos III ou nas dezenas de lojas menores espalhadas pelo país que só vendem em moeda americana. Pode-se sentar num restaurante chique ao lado dos turistas - e ir à feira comprar o produto das cooperativas agrícolas do interior que vendem seu excedente em moeda forte. Alguns gastam seus dólares, como os turistas alemães, italianos e holandeses, com as prostitutas. Todo cubano tem seu 'invento', gíria que descreve a ampla gama de pequenas ilegalidades em que se mete disciplinadamente boa parte da população para desviar para o próprio bolso alguns dólares que circulam na economia. São truques para os quais o governo faz vista grossíssima. Quase 1 milhão de cubanos, dos 11 milhões que vivem na ilha, trabalham hoje em alguma atividade ligada ao capital estrangeiro.

Concorrente desleal - O mais significativo, porém, é o dinheiro que chega, de graça, de Miami, enviado pela raivosa e rica comunidade de 1,1 milhão de cubanos exilados. A maior parte dos dólares entra no país via México trazida em espécie na própria bagagem por visitantes batizados de 'mulas', a mesma designação que os traficantes dão a quem leva droga de um lado a outro das fronteiras nacionais. Cerca de 10% aterrissam de maneira oficial, transferidos eletronicamente de Miami pelos canais reconhecidos pelos governos americano e cubano. Em apenas um ano, os cubanos de Miami enviaram 1,1 bilhão de dólares para Cuba, um recorde. Em segundo lugar, como fonte de divisas, está o turismo. Só em 2000, cerca de 1,8 milhão de estrangeiros visitaram a ilha. Em 1990, foram apenas 300.000. A indústria turística, com um crescimento de 18% em 2001, já é a principal do país e movimenta anualmente 2 bilhões de dólares. Milhares de cubanos perceberam o filão e tentaram entrar nesse lucrativo mercado. Só que trombaram com um concorrente desleal: o próprio governo comunista, que investiu em infra-estrutura e, com seu habitual apetite totalitário, não está disposto a dividir o bolo. Um dos objetivos na atual perseguição aos proprietários é rastrear os interessados em usar o imóvel como ponto comercial. Muitos o transformam em pousada, alternativa barata aos hotéis cinco-estrelas, 80% deles geridos pelo governo. Outros insistem em abrir 'paladares', como são conhecidos os restaurantes caseiros. Há três anos, 600 deles funcionavam em Havana. Em sua incontrolável sanha contra qualquer sinal de prosperidade fora do aparato burocrático do Partido Comunista, o governo inventou um imposto de 800 dólares e uma série de restrições. Os paladares ficaram reduzidos a algumas dezenas.

A ilha de Fidel, que já possuía a mais liberal lei de investimentos estrangeiros da América Latina, modernizou ainda mais seus regulamentos para atrair capital em 1995. Os investidores estrangeiros agora podem ser donos de 100% dos empreendimentos na ilha. Têm direito assegurado de repatriar integralmente seus lucros, sem impostos. No Brasil, o limite de repatriação é de 27%. Os funcionários e diretores estrangeiros das empresas mistas também podem remeter a seus países de origem até dois terços do salário livres de qualquer taxação. Não há interferência na contratação ou demissão de funcionários cubanos das empresas estrangeiras. Além disso, o governo cubano proibiu a si mesmo, por lei, de expropriar propriedades de estrangeiros na ilha. Uma sinalização ideológica de grande significado, quando se lembra que os revolucionários cubanos tungaram mais de 2 bilhões de dólares em patrimônio de estrangeiros em Cuba ao tomar o poder pelas armas há 39 anos. As expropriações foram a causa central do embargo econômico decretado pelos americanos contra Cuba em 1962, três anos depois da revolução, e de pé até hoje. O embargo econômico atual serve principalmente de mote para os discursos de Fidel Castro. É cômodo para Fidel colocar a culpa de todos os problemas do país num histórico, poderoso e vizinho inimigo, os Estados Unidos. Na realidade, o embargo traz alguns pequenos problemas para as entidades assistenciais internacionais que não podem comprar todo o remédio de que necessitam. Na semana passada, a Organização Mundial de Saúde revelou que faltam aos pacientes cubanos cerca de 300 tipos de medicamento que poderiam ser conseguidos mais facilmente se não pesasse sobre Cuba o embargo econômico decretado pelos americanos. A saúde de Cuba vai bem. A ilha tem a menor taxa de mortalidade infantil da América Latina (9 por 1.000), a menor incidência de Aids (onze infectados por milhão de habitantes) e longevidade de país rico, na casa dos 76 anos. O embargo, é óbvio, não tem um efeito tão danoso como querem fazer crer os dirigentes cubanos. Mas a atração que Cuba exerce sobre os americanos é fortíssima. Mesmo com o embargo e a franca hostilidade entre os dois governos, 84.000 turistas americanos visitaram Cuba no ano passado. Um número maior que o de turistas brasileiros.

Resultado bizarro - O terror fiscal é hoje, de longe, a mais poderosa arma de coerção do regime cubano contra a economia paralela. Para tomar conta de carros na porta de um hotel, um cubano paga 54 dólares por mês ao governo. Quem deseja alugar um quarto da casa para turistas precisa entregar 250 dólares fixos todo mês ao Estado. A partir daí paga mais de acordo com o que receber do inquilino temporário. Os cálculos são draconianos. Como quase sempre se é obrigado a pagar mais do que se recebe do hóspede, a prática acabou sendo abolida da ilha. A paisagem de casarões degradados e escurecidos pela má conservação é uma das marcas registradas das cidades cubanas sob o regime de Fidel Castro. Nos últimos tempos, algumas fachadas passaram a ganhar uma demão de tinta, reluzente sinal de que mudanças estão ocorrendo na ilha. Quatro décadas após a revolução comunista, o que há de novo em Cuba é um fenômeno de duas vias. De um lado, uma crescente injeção de dólares no país que não se via desde que a madrinha União Soviética desabou, junto com o Muro de Berlim, quinze anos atrás, deixando Cuba entregue à penúria. De outro, na contramão, o governo cubano empenhado em reprimir qualquer sinal de prosperidade da população, como se os dólares recém-chegados representassem um demônio a ser exorcizado, e não uma tábua de salvação. Hoje, não há nada mais perigoso em Cuba que reformar uma casa ou pintar sua fachada sem autorização - o imóvel pode ser até confiscado. É a senha de que seu proprietário pode ser um 'bisnero', eufemismo para os que se aventuraram no business, a iniciativa privada. Ou que recebeu um bom naco dos 800 milhões de dólares enviados pelos exilados em Miami para ajudar parentes na ilha.

De tanto acender uma vela para o santo e outra para o diabo, execrando o capitalismo sem deixar de estimular a entrada de capital externo, o governo de Fidel Castro acabou numa encruzilhada. Não consegue mais reverter os efeitos da concessão feita no auge da crise econômica, no início dos anos 90, que permitiu que milhares de cubanos tentassem a sorte em bicos ou num pequeno negócio por conta própria. Ao mesmo tempo, busca a todo custo manter o total controle da economia e da população. O resultado é bizarro: em vez de estimular a reforma das casas, confisca o imóvel de quem tenta torná-lo mais digno, como se o país ou a revolução estivessem ameaçados por uma demão de tinta. Cerca de 85% dos cubanos vivem em casa própria, mas só podem trocar de imóvel se não houver compensação financeira no negócio. Para dar um verniz de justiça social aos confiscos, os imóveis atingidos viraram creches, clínicas médicas, escolas de computação e asilo. Enquanto isso, a imprensa oficial encarregou-se de transformar em bandidos os proprietários que viraram sem-teto.




Sociedade
No cotidiano, um eterno
salve-se-quem-puder
Saúde e educação são para todos,
mas o jeitinho é uma necessidade

Produtos básicos de limpeza, de higiene pessoal e comida são artigos de luxo em Cuba. Viajando de leste a oeste da ilha, o que se vê é uma nação em colapso. Mercado negro, sonegação, corrupção, prostituição, malandragem e jeitinho passam são moeda corrente no país. Cuba é um salve-se-quem-puder. A economia é tão complexa que até a mais brilhante inteligência teórica teria dificuldade de entender seu funcionamento. Longe do turismo requintado e das estatísticas oficiais do governo, as dificuldades da população se aprofundaram com o fim da Guerra Fria. Com a suspensão da ajuda da União Soviética, no início dos anos 90, foi imposto o período especial, marcado principalmente por um severo racionamento de energia. A nação começou a se deteriorar. O salário que os cubanos recebem é o mesmo de sempre, mas antes pagava todas as contas do mês. Agora não paga. O Partido Comunista de Cuba teve de encarar o problema e, sem saída, abriu timidamente a economia para o capital estrangeiro.

A abertura da economia gerou empregos e atraiu capital estrangeiro para a maior e mais charmosa ilha do Caribe. Mas não melhorou a vida da maioria do povo. A cesta básica de alimentos distribuída pelo governo dura apenas uma semana. Para garantir o sustento para o resto do mês, os cubanos precisam fazer bicos. Os pesos só podem ser gastos em poucas lojas e em mercados públicos que vendem o mínimo do básico: arroz, feijão, açúcar, sal, café, cigarro, palito de fósforo, alguns legumes e pouca coisa a mais. Mesmo assim, a quantidade é limitada por pessoa. Outros artigos de primeira necessidade são destaque nas lojas - rolos de papel higiênico, panelas, recipientes plásticos, lamparinas, panos de chão são exibidos na vitrine. Produtos que no Brasil ficam escondidos no fundo da loja.

As roupas vendidas em pesos são usadas - o preço varia conforme o número de vezes que elas foram recicladas. Mais variedade de produtos só nas 'tiendas' que vendem artigos importados, em dólar, ou então no mercado negro, que oferece artigos de porta em porta. O comércio paralelo é movimentado por pequenos furtos feitos por operários das fábricas, funcionários de armazéns estatais ou empregados de lojas. A opção pela ilegalidade é involuntária. Não tem saída. O povo depende do dólar para comprar sabonete, xampu, detergente, bolacha e leite. A economia cubana está dolarizada desde 1993, quando o governo permitiu que o dinheiro americano circulasse no país. Esse precedente causou mudanças profundas na sociedade. Quem tem acesso ao dólar, como os que possuem parentes no exterior que lhes enviam remessas do dinheiro regularmente, vive melhor que os demais. Essas pessoas abriram negócios para atender os turistas e aos poucos adquiriram um padrão de vida que as distancia da grande massa de trabalhadores. Está surgindo uma nova classe social em Cuba: a pequena burguesia.

Sob as barbas de Fidel - A juventude começa a se questionar se faz sentido passar tantos anos na universidade para depois receber um salário que não dá para viver. Sabem que se pode ganhar 40 dólares por mês como cozinheiro de um 'paladar', restaurante particular. Uma grande massa de jovens está concluindo que estudar muito não enche o bolso de ninguém. Eles trabalham para empresas estatais, já que a ociosidade é crime em Cuba, e passam as horas livres perambulando pelas ruas em busca de dólares. A ilegalidade está escancarada sob as barbas de Fidel e todos fingem que não vêem. Na verdade, não só estão a par de tudo como participam do processo. A operação de um pequeno negócio mostra bem como a atividade informal está organizada no país. Percebendo a presença de turistas no local, inspetores do governo fazem uma visita ao proprietário. Para manter uma casa particular é preciso pagar um imposto para o governo. O valor é de 100 dólares mensais por quarto. Geralmente há mais de um quarto em cada casa, mas paga-se por apenas um. Sonegação clássica. A multa pelo descumprimento da regra é de 500 dólares. Para passar pela inspeção vale tudo. Desde oferecer suco de frutas, café e biscoitinhos até subornar o inspetor.

Além do imposto mensal, os donos de negócio próprio têm de entregar anualmente 10% do lucro ao governo. Em Santiago de Cuba, ponto de partida dos revolucionários que tomaram o poder em 1959, a prostituição é visível nas ruas e nos hotéis de luxo. No quatro-estrelas Casa Granda, que fica no Parque Céspedes, onde Fidel Castro fez o primeiro discurso vitorioso da revolução socialista, prostitutas e gigolôs se misturam com hóspedes e músicos cubanos. A polícia assiste a tudo sem interferir. Todos levam um bom dinheiro nessa história. As prostitutas 'classe A', como dizem os cubanos, podem ganhar até 100 dólares por cliente. A maior parte do dinheiro fica com o gigolô, que compra roupas e maquiagem para suas moças e paga um pedágio à polícia para poder tocar o negócio. Fidel condenou a prostituição em vários de seus longos discursos, mas anda calado. A atividade é um dos pontos altos do turismo, que atrai mais de 1 bilhão de dólares para o país a cada ano. A todo momento somos abordados nas ruas por algum cubano oferecendo tabaco muito em conta, uma 'jinetera', como são chamadas as prostitutas, drogas e até balas e bombons.

Saúde burocratizada - O furto já é uma atividade institucionalizada em Cuba. O comércio ilegal de tabaco, um dos principais itens de exportação do país, é dos mais visíveis. Muitos cubanos obtêm o sustento da mesma forma. Como em qualquer lugar do mundo, a ilegalidade rende muito dinheiro. O charuto Cohiba, marca famosa criada pelos revolucionários, é vendido a 385 dólares a caixa de 25 unidades na loja da fábrica, em Havana. Dez vezes mais caro do que é cobrado nas ruas, cuja procedência é duvidosa. Em Cuba, o turista é bem tratado porque representa o caminho mais curto para chegar ao dólar. Também não há arma de fogo. Esse é um aspecto positivo de Cuba. Não há assaltos, só pequenos furtos. Arma é proibida, nem no mercado negro se pode encontrar um revólver. O Código Penal é muito rígido. Os cubanos preferem ficar longe da criminalidade mais pesada. É agradável, ainda, ver crianças calçadas e vestidas decentemente. Todas estão na escola, sem exceção. Mão-de-obra infantil também não se vê. As crianças têm tempo para se divertir jogando bolinha de gude e beisebol nas ruas. O estudo é obrigatório, e os pais que desobedecem à lei são multados. Ao contrário do que se imagina, porém, a escola não é totalmente gratuita. Custa 40 pesos mensais para o ensino primário, cerca de 20% do salário médio cubano. Também surpreende o fato de que não há vagas suficientes nas universidades. Há um teste de seleção, como o vestibular no Brasil.

A saúde é para todos, mas o acesso é burocratizado. Tem gente que não consegue ser operada por falta de médico, equipamento cirúrgico, leito ou qualquer outro problema. Os cubanos reclamam, principalmente, da falta de medicamentos. Muitos pensam em deixar o país e já não é mais preciso recorrer a um bote improvisado para atravessar os 120 quilômetros que separam a ilha da Flórida, nos Estados Unidos, onde vivem mais de 1 milhão de cubanos, cerca de 10% da população. O governo não proíbe a saída para maiores de 18 anos, mas é difícil um cubano conseguir um visto permanente fora de casa. O governo permite o matrimônio cubanos com estrangeiros residentes em Cuba, mas cobra alto pela concessão, 800 dólares. A conta ainda inclui a tarjeta branca, autorização para um cubano sair do país (150 dólares), passaporte (50 dólares) e passagem aérea (400 dólares). Isso sem considerar o preço que um estrangeiro pede para casar-se, cerca de 500 dólares. A soma total chega a quase 2.000 dólares.

Ícones americanos - A sociedade cubana está fragilizada. Sabe que vive um período de transição e teme o futuro. Fala-se muito no país sobre a debilidade da saúde de Fidel Castro. De fato, os discursos dele estão mais curtos. A voz apagada e rouca atrapalha. O sucessor ainda não está definido, mas para os cubanos ninguém está à altura de Fidel, há mais de quatro décadas no poder. Os cubanos são fidelistas, não socialistas. Entretanto, o enriquecimento de algumas pessoas já está colocando essa harmonia em jogo e causa insatisfação por parte dos menos abastados. Há um clima tenso no ar. Os cubanos estão inquietos. Há pouco tempo não se via ninguém reclamar dos primitivos e lotados ônibus que circulam pelas ruas. Hoje, o povo questiona, sem receio, até quando terá de agüentar tamanho incômodo. É proibido criticar o governo, mas ouvem-se freqüentemente queixas contra preços altos e autoritarismo da polícia. Alguns acreditam que a situação difícil do país vem do embargo econômico. Os mais críticos lembram a falta de iniciativa do governo em promover o desenvolvimento, quando contava com a ajuda farta dos soviéticos. Para o governo cubano há ainda uma situação delicada a resolver: as relações com os Estados Unidos. São mais de quarenta anos de animosidade, com raros períodos de calmaria. Cedo ou tarde essa questão terá de ser resolvida. Alheios a qualquer situação diplomática, crianças andam pelas ruas com o Mickey estampado nas camisetas e adultos exibem camisas de times de beisebol dos Estados Unidos. Os ícones americanos convivem pacificamente com as imagens dos heróis da revolução Fidel Castro e Che Guevara, reproduzidas à exaustão nas fachadas dos prédios públicos, nos outdoors ou em qualquer estabelecimento comercial. Para os cubanos, o que está em jogo não é ser revolucionário ou contra-revolucionário. O que importa é a luta pela sobrevivência.


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