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Ensaios-->REFORMA DA UNIVERSIDADE E BIODIVERSIDADE -- 29/11/2006 - 18:51 (Délcio Vieira Salomon) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. REFORMA DA UNIVERSIDADE E BIODIVERSIDADE

Délcio Vieira Salomon*

“A necessária reforma da universidade é decorrente da reforma do pensamento. Esta precede aquela e compreende o contexto e o complexo numa rede relacional. A reforma institucional surge da prblematização que ocorrer no seu interior e considera a inseparabilidade do múltiplo e do diverso para a ampliação do nível de consciência do real”(Edgar Morin)

RESUMO

Reflexão sobre a ecologia como expressão de estudo transdisciplinar que há de caracterizar a universidade contemporânea, sobretudo em seu momento de reformulação, visando à sua adaptação às necessidades e preocupações do mundo hodierno e sua responsabilidade para com a sociedade. Tese predominante nesta abordagem: uma reforma de universidade que não levar em conta a transdisciplinaridade e a ecologia corre o risco de projetar uma instiuição caduca, antes mesmo de nascer. Reforça-se assim a idéia de uma universidade na formação de líderes para agir num mundo que se tornou unipolar, onde predomina a vontade da “grande potência” sobre as demais nações, levando estas à degradação da Vida, para atender às imposições daquela.

Palavras-chave: interdisciplinaridade – transdisciplinaridade – complexidade – problematização - ecologia – autonomia - reforma universitária


Vivemos uma época em que a preocupação com a ecologia tornou-se uma das características do pensamento de todos aqueles que são capazes de enxergar a importância da Vida como valor e a sobrevivência do ser humano sobre o planeta Terra como o desafio dos desafios de nosso tempo.

No momento em que se pensa em reforma universitária e já existe um projeto elaborado pelo Ministério de Educação, importa lembrar que a “nova” universidade que se pretende não pode menosprezar sua responsabilidade para com toda a problemática que o conceito de ecologia faz eclodir.

Se a universidade que resultar desse processo de reformulação não encampar, como seu principal objetivo, a dimensão ecológica, está fadada a nascer caduca, pois terá feito “tabula rasa” de toda a possibilidade inerente à sua natureza de universalidade e de atender à sociedade na solução do problema mais relevante dos dias atuais.

Esta a motivação da presente reflexão, fruto da ousadia que leva seu autor a colocar a ecologia não só como a expressão mais autêntica da transdisciplinaridade como também a defender sua identificação com a nova universidade com que todos sonhamos.

Para que a “nova” universidade se caracterize como transdisciplinarmente ecológica, não lhe faltam o suporte acadêmico e o estofo teórico e operacional. O Brasil já possui massa crítica e grupos de excelência mais do que suficientes para a realização desse projeto. Ocioso seria lembrar as instituições que já se consagraram ao tema e à ação de preservação e recuperação da Natureza, desde o IBAMA, passando por museus, institutos de pesquisa, notadamente os voltados para a biodiversidade, ONGs, empresas até a quantidade de cursos e trabalhos publicados. Basta dizer que sob a rubrica “transdisciplinaridade e ecologia” deparei na internet com mais de dois mil títulos, entre indicações de insituições, cursos, livros, teses, monografias, dissertações, artigos, ensaios, debates, conferências etc

Sabemos que a idéia de Universidade, desde as primeiras no século XII (a de Bologna, a de Paris, a de Oxford) implica a união, num só espaço físico e num só topos ideológico, da diversidade de contribuições intelectuais visando à integração do saber, à produção do conhecimento, à formação de líderes e de profissionais de alto nível, em função das necessidades da sociedade, através da qual e pela qual a universidade se cria.

E tudo isso no referente à ecologia já existe no Brasil. Mas disperso, sem a integração que, sob a chancela que um projeto de universidade, sobretudo transdisciplinar, exige.

As primeiras universidades surgiram a partir de um movimento, ao encarnar a necessidade ou o desejo de agrupar-se para agir, de duas grandes corporações: a universitas magistrorum e a universitas scholarium(1), com o objetivo de concretizar as aspirações que uniam estudantes interessados e mestres competentes.

Um novo tipo de “corporação” já se constata em nosso país. Sobretudo quando se pensa na realidade das cooperativas e das ONGs. Falta apenas o élan que provocou no passado a junção das duas “universitates”. Certamente, os movimentos docente e discente institucionalizados em suas associações representativas, juntamente com os veículos de comunicação têm hoje esse condão. Por isso acredito na força da idéia. Os interessados na renovação da universidade não devem esperar de governo, notadamente do MEC a reforma por todos sonhada e freqüentemente idealizada. Sobretudo, porque governo e MEC não querem abrir mão de seu poder sobre a universidade e tudo farão para não reconhecer a condição fundamental da autêntica mudança da instituiçào: a autonomia(2).

Só mesmo ao governo não interessa esta evidência: antes de elaborar projeto de universidade cumpre declarar, reconhecer, assegurar plenamente sua autonomia. Só com autonomia íntegra poderá a própria universidade agir em busca de sua transformação. Mas, no Brasil, infelizmente, nossos governantes têm o vezo de “procurar a coroa, antes de ter a cabeça”, como já dizia Tristão de Athaíde.



1 SOBRE A REFORMA DA UNIVERSIDADE QUE SE PROJETA

Se o projeto da “nova” universidade propõe ser ela integrada a seu tempo, não pode descuidar da transdisciplinaridade e da ecologia. Depois que se lê Piaget, Gusdorf e nosso patrício Hilton Japiassu sobre inter e transdisciplinaridade e os textos de CASTORIADIS, Cornelius e COHN-BENDIT, Daniel. De l’ecologie a l’autonomie; de DUPUY, Jean-Pierre. Introduction à la Critique de l’Écologie Politique, as reflexões de Basarab Nicolescu e os ricos depoimentos registrados pela UNESCO, somos obrigados a concluir que a ecologia é a primeira e prioritária manifestação de transdisciplinaridade surgida no século XX e que exige do século XXI sua institucionalização como tal(3) .
Tudo isso constitui, nesse momento, o leitmotiv de propor a idéia

Ao pensar em transdisciplinaridade, enquanto instância epistemológica que implica a interdisciplinaridade e a esta se sobrepõe, através de coordenação de disciplinas e interdisciplinas do sistema de ensino inovado sobre a base de uma axiomática geral, com vários níveis e de objetivos múltiplos, mas com vistas à finalidade comum, estabelecida pelos sistemas envolvidos, há de se concluir que a ecologia já atingiu esse nível e só uma universidade transdisciplinar que tenha a ecologia como seu principal fulcro é capaz de sua legítima institucionalização.

Acredito que como idéia há de provocar acolhida. Há de se convir com o que dizia C. Castoriadis: “A Ecologia faz renascer a relação esquecida e oculta da sociedade com a utopia. Utopia entendida como desejo de mudança e horizonte da nossa atividade, sem prejudicar a possibilidade de materialização efetiva dessa mudança”. E diante da catástrofe que se avizinha, o grito de alerta: “Não basta denunciar o perigo para se precaver contra ele”. É preciso muito mais. E o mínimo que vejo nesse “muito mais” é a criação urgente de uma universidade visceralmente transdisciplinar de ecologia.

Ao apontar essa dimensão, estou pensando numa instituição que já nasça revolucionada e revolucionária, liberta de sua estrutura atual. Não se pode aceitar que a universidade seja pelo governo “reformada” nos mesmos moldes que tem pautado suas reformas (a da previdência, a tributária, a agrária, a política, a do Judiciário etc). Há de se pensar na “nova”universidade, até com mais ousadia do que fizeram Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, quando implantaram a Universidade de Brasília, ao estruturá-la inovadoramente em cima do sistema departamental, libertando-a da forma tradicional herdada de séculos, chantada que era na cátedra, em cursos e disciplinas isolados, com a preocupação de somar saberes e não de coordenar a produção do conhecimento científico, “em função de objetivos comuns”. Ao departamentalizar a universidade aqueles pensadores já pensavam na alocação de disciplinas em um só “topos”, mas com suas portas abertas e suas redes de comunicação com os demais departamentos através da adoção de mecanismos fundados na coordenação e na flexibilidade, ao dispor as disciplinas em cursos e currículos. Anteviam, por certo, a implantação do diálogo interdisciplinar. Infelizmente aquele projeto, ao ser encampado pelos militares da ditadura de 64, foi desvirtuado, por acoplá-lo ao projeto do norte-americano Rodolph Atcon.

Hoje a realidade da ciência e da teconologia está a exigir um novo tipo de universidade: a que atinja, como programação nuclear de suas atividades, a transdisciplinaridade, cuja expressão mais autêntica, em nossos dias, é, sem dúvida, a ecologia em toda sua abrangência.

O Brasil seria pioneiro? Que bom. Mais um titulo a ombrear com o pioneirismo de um Santos Dumont, de um Carlos Chagas, de um Oswaldo Cruz e .... por que não? .... da genialidade de nosso povo que, apesar de viver num país desgraçado pelos colonizadores e pela maioria dos políticos que os sucederam, inventou a alegria de viver para sufocar a tristeza do sofrimento e da miséria.

O estudo, a pesquisa e a prática da gestão ambiental requerem mais do que a mera interdisciplinarização. Exigem a transdisciplinarização, pois tal necessidade epistemológica impregna o tecido que se pretende coser, ou o objeto que se deseja construir, quando se recorre a disciplinas tão afins como as exigidas em cursos eminentemente ecológicos.

É verdade que em termos de racionalidade e até de lógica tradicional, se deveria defender projeto de uma universidade interdisciplinar, uma vez que a universidade brasileira ainda não atingiu a etapa epistemológica da interdisciplinaridade (há apenas exemplos esporádicos de produção interdisciplinar). Mas penso dialeticamente, E em dialética (teoria, lógica e método) há de se defender o “salto qualitativo”, o processo progressivo-regressivo, contínuo-descontínuo, em oposição ao processo cumulativo. Para pensar dialeticamente o comportamento humano e social é condição necessária opor-se à concepção ou ao modelo aristotélico do “natura non dat saltus”, há muito superado. Em nome da dialética, há de se pregar a transformação, a revolução e não a defesa do “status quo”: a eterna relação de causalidade temporal, a uniformidade empírica ou as chamadas “leis da natureza”, propostas pelo estagirita e encampadas pelos positivistas e racionalistas de todos os tempos e de todos os naipes para todos os ramos do saber.
Precisamos ter coragem para empreender esta transformação da universidade, pois como muito bem lembra um dos maiores especialistas atuais em transdisciplinaridade - Basarab Nicolescu, “se as universidades pretendem ser agentes válidos do desenvolvimento sustentável, têm primeiramente que reconhecer a emergência de um novo tipo de conhecimento - o conhecimento transdisciplinar”(4). Nicolescu chega a apontar uma “abertura multidimensional da Universidade em quatro direções: a da direção à sociedade civil; a de outros lugares de produção do novo conhecimento; a do espaço-tempo cibernético; a dos objetivos da universalidade; em direção à redefinição dos valores que governam sua própria existência” (Idem, ibidem).

Para defendermos a transdisciplinaridade como o suporte referencial da transformação da instituição máxima da inteligência na sociedade, e pensando no leitor pouco afeito à leitura sobre transdisciplinaridade e ecologia, há necessidade de recorrermos à relação da interdisciplinaridade com a transdisciplinaridade.



2 DE INTER E TRANSDISCIPLINARIDADE


Em 1956, como conseqüência de um simpósio sobre as ciências do homem, dezessete especialistas, sob a coordenação de Lynn White,jr publicaram Frontiers of knowledge in the study of man. As contribuições foram desde a Genética (“a natureza humana vista por dentro”) até a Religião (“o símbolo e a substância”), passando pela Psicologia, a Antropologia Cultural, a Arqueologia, a História, a Sociologia, a Política, a Geografia, a Economia, a História da Ciência, a Musicologia, a História da Arte, a Literatura, a Lingüística, a Matemática e a Filosofia.
O objetivo primeiro do livro foi o de divulgar, em linguagem não técnica, os novos métodos de pesquisa, os novos enigmas e as novas qualidades da profundidade do conhecimento adquirido pelos estudiosos da natureza humana - os humanistas de nosso tempo - bem como comunicar o entusiasmo que acompanha a busca da compreensão de si mesmo por parte do homem de ciência e do intelectual.

Após alertar o leitor de que os capítulos, apesar de escritos por especialistas, não tinham o caráter de especializações, mas representavam os setores acadêmicos habituais em que se dividem os humanistas contemporâneos, mostrava tratar-se de um ângulo de aproximação do fenômeno humano. E concluía: como ocorre nas ciências naturais, também nas humanidades se está realizando um trabalho bastante frutífero por meio dos métodos tradicionais, aplicados a temas tradicionais e ainda resta muito por fazer neste sentido: a novidade não é a maior das virtudes. Seu propósito se resumia em propor a tarefa de descrever as frentes de expansão do trabalho humanístico.

Conforme confessa Lynn White,jr “à medida que os capítulos chegavam se percebia cada vez mais claramente que eles estavam integrando algo muito distinto de mera soma de partes”, atestando o seu conjunto “a realidade de um novo tipo de humanismo; um humanismo despojado de preocupações localistas e de preciosismos, que já não se ocupa exclusivamente da tradição ocidental de cultura nem dos interesses de uma sociedade aristocrática”(WHITE, jr., 1963, p. X).

O capítulo final de Frontiers of knowledge é escrito pelo próprio Lynn White, jr. para mostrar como conclusão a que chegara ou como síntese das diversas contribuições ali registradas, “as mudanças de cânones de nossa cultura”.

Sua leitura leva a uma convicção preponderante de que nossa imagem de pessoa humana está mudando. Sintoma desta mudança é o fato que já não se considera adequado analisar o Homem: fala-se de gente, dos modos em que atua e interatua, pensa e sente, em termos da pauta de uma cultura determinada e de como o desvio das normas dessa cultura conforma os indivíduos e eventualmente reestrutura a pauta cultural. “A idéia mais difundida neste livro é o conceito antropológico de cultura: ele tem penetrado em todo os campos do estudo humanístico” (WHITE, jr., 1963, p.306).

Defende a tese de que os próprios cânones de nossa cultura herdados dos gregos estão mudando: o cânone do Ocidente substituído pelo cânone do universo; o cânone da lógica e da linguagem (por dois mil anos o Ocidente teve como axioma que a lógica e a linguagem constituem instrumentos aperfeiçoados da analise e da expressão intelectuais) substituído pelo cânone dos símbolos (começa-se a ver que o traço distintivo da espécie humana é sua condição de animal criador de símbolos - o Homo signifex - que tem a necessidade de criá-los para enfrentar humanamente a experiência); o cânone da racionalidade (pelo qual a razão é o atributo humano por excelência e tudo o que não seja racionalidade é menor que ela e é subumano) deslocado de seu pedestal para aceitar em pé de igualdade o cânone do inconsciente (a razão não é tudo na mente humana e esta não está completamente condicionada, uma vez que pode conseguir um grau extraordinário de liberdade e de objetividade e a percepção do alcance, dos perigos e das potencialidades do inconsciente torna-se essencial para nossa nova imagem de pessoa) e finalmente o cânone da hierarquia de valores substituído pelo cânone do espectro de valores (segundo o cânone da hierarquia de valores algumas atividades humanas são por natureza mais proveitosas que outras, do ponto de vista intelectual e espiritual e pelo novo cânone toda atividade humana encerra a possibilidade de grandeza. A noção de espectro de valores se opõe a todos os dualismos em que esteve escondida no Ocidente, durante mais de dois mil anos, a unidade da experiência humana real).

Ainda que o coordenador destas abordagens científicas sobre o fenômeno humano não tenha explicitado, percebe-se que se atingiu, com aquela publicação, objetivo relevante: mostrar que as fronteiras do saber caíram e que as demarcações entre as diversas ciências se apagaram pelo próprio evoluir do conhecimento científico.

A referência aos ensaios coordenados por Lynn White,jr. foi feita para proporcionar-nos, por um lado, a constatação de que os “humanistas contemporâneos”, a que se refere, engrossam as mesmas fileiras (quando não se identificam) com os ecologistas de hoje e, por outro lado, uma comparação de épocas para se evidenciarem dois blocos teóricos velozmente sucessivos tanto para a sistematização do conhecimento científico quanto para o emprego do método científico na pesquisa.

“Frontiers of knowledge” é de 1953 (a tradução argentina aqui utilizada de 1963). Embora o coordenador tenha dito que as diversas contribuições ali trazidas “estavam integrando algo muito distinto de uma mera soma de partes” (mesmo levando em conta que cada um tenha feito seu trabalho sem saber do tratamento dos outros), não se lê num momento sequer daquelas diversas abordagens, o termo “interdisciplinaridade”. Este só vai surgir na década seguinte, e reflete a preocupação central dos centros de estudos europeus, sobretudo a partir dos trabalhos de Piaget, Gusdorf, Boudon, da UNESCO e da OCDE (Organization et Coopération du Développement Économique). A interdisciplinaridade ocupou durante a década de setenta os grupos de estruturalistas dos mais diversos matizes.

Curiosamente, apesar da inexistência de referência à interdisciplinaridade na coletânea, freqüentemente se deparam afirmações que sinalizam a afinidade, a conjugação, a vinculação entre disciplinas e até se insinua a interação entre elas, do tipo desta declaração de Gordon R. Willey, ao escrever sobre a Arqueologia (As neves do passado): “A arqueologia participa tanto da antropologia como da história. O arqueólogo deve conhecer a etnologia da região a que se vinculam os problemas que está pesquisando. Deste modo poderá projetar a conduta presente e observada sobre as formas inertes da vida passada (WHITE, jr., 1963, p. 53).

Ou desta constatação de Gardner Murphy, ao tratar da Psicologia, sob a ótica de “novas vias para o descobrimento de nós mesmos”:
Os problemas que preocupam à ciência já não permanecem escrupulosamente separados em compartimentos estanques, pertencentes a uma ou outra disciplina. A bioquímica, a fisiologia, a medicina e a psicologia estão intervinculadas em uma delicada rede com a qual procuramos apreender a verdade (...) Preocupa-nos mais a realidade da função do que a demarcação nítida das disciplinas acadêmicas (WHITE, jr., 1963, p.21).

Em 1967, sob a direção de Jean Piaget, a Gallimard publica Logique et connaissance sicientifique - Encyclopédie de la Pléiade. No prefácio justifica o empreendimento:

Em síntese, a epistemologia contemporânea constitui um campo de pesquisas a uma só vez científicas e autônomas, que constituiriam uma disciplina separada, reconhecida e devidamente etiquetada se ela não fosse por sua mesma natureza essencialmente interdisciplinar. Mas a complexidade de suas tarefas é dupla. Ela deve tratar de todas as formas de conhecimento e este plural implica desde já colaboração. E ela deve se ocupar, por sua vez, de cada uma dentre elas, de uma multiplicidade de pontos de vista interdependentes e complementares: o do especialista da ciência em tela, ou o do lógico ou os pontos de vista historico-críticos e socio - ou psico-genéticos, senão etológicos. Basta dizer que para expor de maneira completa os problemas abordadaos nesta obra, seria necessário um numero indefinido de tomos e um exército de colaboradores (PIAGET, 1967. p. XI).


Piaget consegue a cooperação de dezoito especialistas para escrever este tratado de epistemologia, onde sua “epistemologia genética” torna-se o suporte referencial para mostrar a interdisciplinaridade da Lógica, das Matemáticas, da Física, da Biologia, da Cibernética e das Ciências Humanas (Psicologia, Sociologia, Economia, Lingüística) e tratar de problemas específicos como: o dos limites da formalização, a crítica ao reducionismo, a relação da lógica e da dialética, em Lógica; o dos números irracionais, a descoberta e a invenção nas matemáticas, as estruturas e as categorias, a epistemologia matemática dos números naturais, a das probabilidades, em Matemática; o dos conceitos físicos, o das representações concretas em microfísica, a da grandeza física “tempo” e as relações entre o sujeito e o objeto no conhecimento físico, em Física; a questão da finalidade, das teorias do desenvolvimento e a dialética, em Biologia; a epistemologia do acaso nas ciências sociais, em Ciências Humanas. Termina o tratado com dois grandes capítulos sobre a Classificação das Ciências e as principais correntes epistemológicas contemporâneas.

Em determinado momento Piaget se detém para tratar especificamente do “exame das relações interdisciplinares” e o faz partindo justamente do ponto-de-chegada que caracterizou o empreendimento de Lynn White, jr. há pouco lembrado: a existência de vinculações entre as diversas ciências. Segundo Piaget:

O biólogo sabe muito bem que tem necessidade de conhecer a química, a física e certos setores das matemáticas e sua preparação universitária leva em conta esta ordem hierárquica. Um químico sabe claramente que sua disciplina é incompreensível sem a física e um físico utiliza constantmente as matemáticas . Nas ciências humanas, ao contrário, um psicólogo pode ignorar de todo (não por direito, mas por ser um fato freqüentemente constatado) a lingüistica, a economia, a lógica simbólica etc, um economista pode desconhecer a psicologia experimental e a lingüistica, um lingüista pode até se isolar mais ou menos hermeticamente etc. As razões sem dúvida se encontram no fechamento das faculdades universitárias, cujo conservadorismo está inerente a toda instituição social revestida de prestígio inconteste. Basta que a economia política se vincule ao direito, a lingüística às ciências históricas e filosóficas, a psicologia às ciências ou à filosofia para que os programas de estudo evidenciem as ignorâncias recíprocas. Mas razões mais profundas se prendem de um lado à falta de hierarquia entre as disciplinas e de outro, e sobretudo, a uma espécie de prudência metodológica, ao mesmo tempo confiável e discutível, que freia a pesquisa das estruturas comuns e retarda assim os trabalhos interdisciplinares (PIAGET, 1967, p. 1120).

Dedica mais de vinte páginas para mostrar a possibilidade de interdisciplinarização entre as diversas ciências humanas.

Hoje, quase cinqüenta anos após esta constatação de Piaget, a interdisciplinaridade já se tornou uma necessidade, uma exigência da universidade brasileira contemporânea e já deveria há muito estar institucionalizada tanto na alocação das disciplinas nos departamentos que configuram a estrutura universitária como na composição dos currículos que formam os diversos cursos ministrados. Sobretudo a pesquisa (principal suporte do tripé de apoio da instituição universitária vista dinamicamente: as atividades indissociáveis de ensino-pesquisa-exstensão) já deveria ser interdisciplinar para a solução da maioria dos problemas tanto de produção de conhecimento quanto de sua aplicação.

Como já foi lembrado, infelizmente tal fato ainda não se deu em sua plenitude. Conta-se apenas com experiências esporádicas. Além dos motivos apontados por Piaget há os que configuram a síndrome da “patologia do saber” conforme a denominou Gusdorf e que foi tão bem estudada por H. Japiassu em sua tese de doutoramento na França em meados dos anos setenta. Resumindo-o: a “consciência esmigalhada” incapaz de formar uma imagem de conjunto do mundo moderno - a dilaceração do saber pelo excesso de especializações científicas e técnicas - interesses de grupos ou classes nos ramos de conhecimentos (o que revela a persistência até hoje, porém agravada, dos “idola tribus, theatri e fori” de Bacon)(5). No fundo, motivos “extracientíficos” dignos da ocupação de uma Sociologia do Conhecimento.

Feito este registro, importa declarar que esta reflexão está sendo levada a cabo numa perspectiva metodológica(6): não se propõem incursões deliberadas nos territórios da Filosofia da Ciência, da Epistemologia, nem das demais metaciências, coirmãs da Metodologia Científica, como a Lógica, a Psicologia do Conhecimento, a Sociologia do Conhecimento, a História da Ciência, embora seja impossível não recorrer a tais disciplinas, sem invadir suas fronteiras, quando o discurso é metodológico. Como se vê, trata-se de uma exigência também ela de natureza interdisciplinar, para que tal reflexão se realize. Pessoalmente já não consigo construir algo em termos metodológicos a não ser interdisciplinarizando a metodologia com as demais metaciências. Uma proposta que segue o exemplo de Piaget(7).

Segundo Basarab Nicolescu, há de se distinguir três graus de interdisciplinaridade: a) um grau de aplicação . Por exemplo, quando os métodos da física nuclear são transferidos para a medicina, resultam no aparecimento de novos tratamentos de câncer; b) um grau epistemológico . Por exemplo, transferindo os métodos da lógica formal para a área do direito geral, geram análises interessantes de epistemologia do direito; c) um grau de geração de novas disciplinas . Por exemplo, quando métodos da matemática foram transferidos para a física geraram a física matemática e, quando transferidos para os fenômenos meteorológicos ou para os processos do mercado de ações, geraram a teoria do caos; transferindo métodos da física de partículas para a astrofísica, produziu-se a cosmologia quântica e, transferindo métodos computacionais para a arte, obteve-se a arte computacional.

Sobre a transdisciplinaridade, importa sublinhar que o prefixo 'trans' indica, que o conhecimento de que se ocupa está, ao mesmo tempo, entre as disciplinas, através das diferentes disciplinas e além de todas as disciplinas. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente , e um dos imperativos para isso é a unidade do conhecimento.

Voltando a Basarab Nicolescu, é curioso observar como o grande pensador evita o pedestal de pretensos “especialistas” sobre transdisciplinaridade e coloca seu pensamento ao nível do leigo interessado, a partir de uma interrogação:

-Existe algo entre ou através das disciplinas e além de todas as disciplinas? E nos responde:

Na presença de vários níveis de Realidade, o espaço entre as disciplinas e além das disciplinas está cheio, assim como o vácuo quântico está cheio de possibilidades: da partícula quântica às galáxias, do quark aos elementos pesados, que condicionam o aparecimento da vida no universo. A estrutura descontínua dos níveis de Realidade determina a estrutura descontínua do espaço transdisciplinar , que por sua vez explica por que a pesquisa transdisciplinar é radicalmente distinta da pesquisa disciplinar, mesmo quando totalmente complementar. A pesquisa disciplinar diz respeito, na melhor das hipóteses, a um único e mesmo nível de Realidade; além do mais, na maioria dos casos, refere-se a apenas um fragmento de um nível de Realidade. Por outro lado, a transdisciplinaridade diz respeito à dinâmica engendrada pela ação de diferentes níveis de Realidade ao mesmo tempo. A descoberta dessas dinâmicas passa necessariamente pelo conhecimento disciplinar. Embora não se trate de uma nova disciplina ou de uma nova superdisciplina, a transdisciplinaridade é nutrida pela pesquisa disciplinar; ou seja, a pesquisa disciplinar é esclarecida de maneira nova e fecunda pelo conhecimento transdisciplinar. Nesse sentido, a pesquisa disciplinar e transdisciplinar não são antagônicas, mas complementares. (NICOLESCU, 1999, p. 2)

A meta da transdisciplinaridade é a compreensão do mundo presente, e como tal não pode ser alcançada dentro do quadro de referência da pesquisa disciplinar. Motivo por que a transdisciplinaridade se realiza, a meu ver, sobre três pilares: - os níveis de Realidade, a complexidade do próprio fenômeno a estudar e o uso da dialética. São eles que determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar. Eles emergem da mais avançada ciência contemporânea, especialmente da física quântica, da cosmologia quântica e da biologia molecular(8).

Voltando a Nicolescu, é determinante para a compreensão da transdisciplinaridade, frisar que ela é globalmente aberta:
Os níveis de Realidade são inseparáveis dos níveis de percepção e estes últimos lançam as bases da verticalidade dos graus de transdisciplinaridade. A transdisciplinaridade está ligada tanto a um nova visão como a uma experiência vivida. É um caminho de auto-transformação orientado para o conhecimento de si, para a unidade do conhecimento e para a criação de uma nova arte de viver.(idem, ibidem, p.3)

Como nossa reflexão sobre transdisciplinaridade visa mostrar sua vinculação com a universidade que se projeta para o mundo contemporâneo, não poderia passar desapercebida de nossas considerações, a preocupação da UNESCO com o problema. Em recente relatório a Commission internationale sur l education pour le vingt et unième siècle (Comissão internacional sobre a educação para o vigésimo primeiro século), presidida por Jacques Delors apresentou verdadeiro plano de ação, cujo núcleo se refere à transdisciplinaridade.Segundo o referido relatório, o surgimento de uma nova cultura capaz de contribuir para a eliminação das tensões que ameaçam a vida em nosso planeta será impossível sem um novo tipo de educação que leve em consideração todas as dimensões do ser humano.

Comentando-o Nicolescu observou pertinentemente:
Todas as várias tensões - econômica, cultural, espiritual - são inevitavelmente perpetuadas e aprofundadas por um sistema de educação moldado por valores de outro século e por um desequilíbrio acelerado entre as estruturas sociais contemporâneas e as mudanças que estão ocorrendo atualmente no mundo contemporâneo. Apesar de uma enorme diversidade de sistemas de educação de um país para outro, a globalização dos desafios de nossa era envolve a globalização dos problemas da educação. Os diferentes tumultos que continuamente atravessam a área da educação em um país ou outro são apenas sintomas de uma mesma falha: a desarmonia que existe entre os valores e as realidades da vida planetária em um processo de mudança. Muito provavelmente, posto que não exista uma receita milagrosa, há contudo um centro comum de questionamento, que nos incumbe de não nos omitirmos, se verdadeiramente quisermos viver em um mundo mais harmonioso. (Idem, ibidem, p.4 )

Niconescu cita Jacques Delors, por ter enfatizado fortemente os quatro pilares de um novo tipo de educação: aprendendo a conhecer, aprendendo a fazer, aprendendo a viver em conjunto e aprendendo a ser. Como aponta Niconescu, a abordagem transdisciplinar pode dar importante contribuição para o advento deste novo tipo de educação. Resumindo-o:

Aprendendo a conhecer significa, antes de mais nada, o treino nos métodos que podem ajudar-nos a distinguir o que é real do que é ilusório e a ter acesso inteligente ao fabuloso conhecimento de nossos tempos. Mais do que ensinar conteúdos importa formar o espírito científico. Não é a assimilação de uma enorme massa de conhecimento científico que dá acesso ao espírito científico, mas a qualidade do que é ensinado. E aqui qualidade significa guiar o aluno até o verdadeiro coração da abordagem científica que é o permanente questionamento com relação ao que resiste aos fatos, às imagens, às representações e às formalizações. A abordagem transdisciplinar será um complemento indispensável para a abordagem disciplinar, porque significa a emergência de seres continuamente conectados, capazes de adaptarem-se às exigências cambiantes da vida profissional e dotados de uma flexibilidade permanente sempre orientada na direção da atualização de suas potencialidades interiores. Aprendendo a fazer está intimamente relacionado com a formação profissional, o que necessariamente passa por uma fase de especialização. Contudo, num mundo tumultuado, onde predominam mudanças velozes provocadas pela revolução informática, toda vida que estiver congelada em uma mesma e única ocupação pode ser perigosa, porque corre o risco de ser levada ao desemprego, à exclusão e à debilidade alienante. A especialização excessiva deveria ser proscrita em um mundo que está em rápida mudança. Se quisermos verdadeiramente conciliar a exigência da competição e a preocupação com oportunidade igual para todos os seres humanos, no futuro, cada profissão deveria ser uma profissão a ser tecida, uma profissão que ataria, no interior dos seres humanos, fios, unindo-os às outras ocupações. Claro, não se trata simplesmente de se adquirirem várias competências ao mesmo tempo, mas de criar um núcleo interior flexível capaz de permitir um rápido acesso à outra ocupação no caso de vir a ser necessário ou desejável. Nesse contexto, a abordagem transdisciplinar pode ser de extrema valia, justo porque a postura transdisciplinar implica desenvolvimento da criatividade. Como reforça Nicolescu “criar as condições para o surgimento de pessoas autênticas envolve assegurar as condições para a realização máxima de suas potencialidades criativas”. Em vez de níveis impostos pela competição, que jamais leva em consideração o ser interior, esses níveis seriam, na verdade, níveis de ser . A abordagem transdisciplinar está baseada no equilíbrio entre a pessoa exterior e a pessoa interior. Sem esse equilíbrio, 'fazer' não significa nada mais do que 'se submeter'. ' Viver em conjunto ' não significa apenas tolerar dos outros as diferenças de opinião, de cor de pele e de crenças; submeter-se às exigências do poder; mas, também, negociar o certo e o errado dos inúmeros conflitos, separando, definitivamente, a vida interior da vida exterior. A atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica e transnacional pode ser aprendida. Uma vez que em cada ser há um âmago sagrado, intangível e inato. Contudo, essa atitude inata é apenas potencial e pode permanecer não atualizada para sempre, ausente em vida e em atos”. Para que as normas da coletividade sejam respeitadas, precisam ser validadas pela experiência interior de cada ser. A atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica e transnacional permite-nos compreender melhor nossa própria cultura, defender melhor nossos interesses nacionais, respeitar melhor nossas convicções religiosas e políticas. Como em todas as outras áreas da Natureza e do Conhecimento, a unidade aberta e a pluralidade complexa não são antagônicas. Aprendendo a ser aparece inicialmente como um enigma insolúvel. Sabemos que existimos, mas como podemos aprender a ser? Podemos começar aprendendo que a palavra 'existir' significa para nós: descobrir nossos condicionamentos, descobrir a harmonia e desarmonia entre nossa vida individual e social, testar as fundamentações de nossas convicções, a fim de descobrirmos o que se encontra embaixo. Questionar, questionar sempre: aqui também, o espírito científico serve-nos como um guia precioso. Aprendendo a ser é também um permanente aprendizado no qual professores informam alunos tanto quanto alunos informam professores. A formação de uma pessoa passa inevitavelmente por uma dimensão transpessoal. O desrespeito para com esse processo necessário tem uma distante origem em uma das tensões fundamentais de nossa era, ou seja, a tensão entre o material e o espiritual.

Há uma interrelação extremamente óbvia entre os quatro pilares do novo sistema de educação. Na visão transdisciplinar, há uma transrelação que conecta os quatro pilares do novo sistema de educação e tem sua fonte na nossa própria constituição, enquanto seres humanos. Uma educação viável só pode ser uma educação integral do ser humano. Uma educação que é dirigida para a totalidade aberta do ser humano e não apenas para um de seus componentes. Atualmente, a educação privilegia o intelecto, enquanto relativiza a sensibilidade e o corpo. Isso foi necessário na era passada, a fim de permitir-se a explosão do conhecimento. Mas se esse privilégio continuar, seremos empurrados na lógica louca da eficiência pela eficiência, que só poderá terminar em nossa autodestruição. Quem pensa em transdisciplinaridade para a educação há de pensar no surgimento de um novo tipo de inteligência, fundada no equilíbrio entre inteligência analítica, sentimento e corpo. É apenas dessa maneira que a sociedade do século XXI poderá reconciliar a efetividade com a afetividade.

A conclusão de Niconescu é verdadeiro aceno a uma pedagogia transdisciplinar:

É bastante óbvio que as várias áreas e épocas da vida requeiram métodos transdisciplinares extremamente diversos. Mesmo que a educação transdisciplinar seja um processo global de longo prazo, ainda é importante descobrir e criar lugares que ajudem a iniciar esse processo, que assegure seu de-senvolvimento (Idem, ibidem, p.10).

Por isso há de se concordar com ele:
A Universidade é o lugar privilegiado para uma educação dirigida às exigências de nossos tempos. Poderá também ser o eixo central de uma educação direcionada não apenas a crianças e adolescentes, mas também a adultos. Instilar o pensamento complexo e transdisciplinar nas estruturas e nos programas da Universidade permitirá sua evolução em direção a sua missão até certo ponto esquecida atualmente - o estudo do universal . Além disso, a Universidade poderia tornar-se o lugar privilegiado da aprendizagem da atitude transcultural, transreligiosa, transpolítica e transnacional, no diálogo entre a arte e a ciência, que é o eixo da reunificação entre a cultura científica e a artística. Uma Universidade renovada tornar-se-ia o lugar para acolher esse novo tipo de humanismo.(Idem, ibidem, p.11)

A ruptura entre ciência e cultura, que se manifestou há três séculos, é uma das mais perigosas. Por um lado, há os detentores de conhecimento puro e sólido; por outro, os praticantes do conhecimento ambíguo e superficial. Essa ruptura reflete-se inevitavelmente no funcionamento das universidades que favorecem o desenvolvimento acelerado da cultura científica a custo da negação do sujeito e do declínio do sentido. Tudo deve ser feito no sentido de reunir essas duas culturas artificialmente antagônicas - a cultura científica e a cultura literária ou artística - de forma que possam transpor para uma nova cultura transdisciplinar, condição preliminar para a transformação das mentalidades.

A Universidade não só está ameaçada pela ausência de sentido, mas também pela recusa de compartilhar conhecimento. A informação que circula no espaço cibernético gera uma riqueza sem precedente histórico. A despeito dos desenvolvimentos atuais é possível, contudo, que os 'pobres de informação' se tornem cada vez mais pobres e que os 'ricos de informação' se tornem cada vez mais ricos. Uma das metas da transdisciplinaridade é pesquisar os passos necessários para adaptar a universidade à era cibernética. A universidadeprecisa tornar-se uma zona livre de espaço-tempo cibernético.


3 INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE SOB A INFLUÊNCIA DA DIALÉTICA

Na introdução, foi apontada a necessidade da presença da dialética ao pensar a realidade, e nesta a universidade como processo, ao mesmo tempo em que se projeta uma reforma autêntica, em que se faz necessário o “salto qualitativo” em oposição aos defensores do “status quo” e das “leis da natureza” eternas e intocáveis. Na seção 2, foi lembrado que transdisciplinaridade se realiza sobre três pilares: - os níveis de realidade, a complexidade do próprio fenômeno a estudar e o uso da dialética. São eles que determinam a metodologia da pesquisa transdisciplinar. Como os níveis da realidade e a complexidade envolvem sempre conflitos, quando o propósito é conhecer a realidade, a dialética como método é o recurso natural para superar complexidades, conflitos e problemáticas. Aliás já apontava em artigo escrito para Caminhos – Do sonho de Piaget à transdisciplinaridade : “provavelmente por causa da influência da dialética ou como resultado de seu encontro com outras correntes de pensamento contra o monopólio positivista (ou contra sua pretensão de constituir-se em tal monopólio), surge a necessidade da interdisciplinaridade no início e mais tarde, da transdisciplinaridade”.(SALOMON, 1993, p.27)(9)

H. Japiassu, ao comentar o L’épistemologie des relations interdisciplinaires de Piaget, observou :

Num certo sentido, a posição de Piaget segue a mesma orientação. Assim, ao explicar e justificar a ascensão do interdisciplinar, descobre nele uma reação de oposição à filosofia positivista que limita o campo das ciências humanas na medida em que lhes funda fronteiras consideradas como “naturais”. O grande mérito de Piaget, nesse particular, consiste no fato de enfrentar corajosamente o positivismo e de insurgir-se contra seu espírito que ainda governa a ciência e a mentalidade universitárias de nosso tempo (JAPIASSU, 1976, p.75)



Independente da influência e das barreiras criadas pelo positivismo, há outros obstáculos a serem superados para se atingir tanto a interdisciplinaridade como a transdisciplinaridade, a partir de tarefas prévias como:

- não se pode almejar atingir a transdisciplinaridade sem passar pela interdisciplinaridade, pois esta é condição necessária, embora não suficiente para a constituição daquela;

- necessidade de redução de óticas diversas visando a elaborações unívocas, visto que a pesquisa interdisciplinar é necesesariamente uma pesquisa de equipe (embora a recíproca não seja verdadeira)

- necessidade de ir além da racionalização das tarefas, objetivando atingir-se as fases de operacionalização e de interpretação, no processo de pesquisa, com conceituações, classificações e marco teórico de referência já interdisciplinarizados

- finalmente necessidade de uma linguagem comum, diferente, mas oriunda da linguagem de cada disciplina integrada no sistema.

Em todos essas fases de necessidade, a presença da dialética é imprescindível. Morin pensava dialeticamente quando propõs a epistemologia da Complexidade – termo oriundo da Cibernética, que incorpora à sua obra, opondo-se ao pensamento linear, reducionista e disjuntivo e considerando a incerteza e as contradições como parte da vida e da condição humana e, ao mesmo tempo, sugere a solidariedade e a ética como caminho para a religação dos seres e dos saberes.

Aliás, foi este o mesmo motivo, a mesma inspiração que me levou a defender a tese de livre-docência em 1977, mais tarde convertida no ensaio: A maravilhosa incerteza.

Tenho para mim que a complexidade defendida por Morin está baseada no grande princípio da dialética: “tudo está ligado a tudo”. Por pensar dialeticamente desta forma, defende teoricamente uma rede relacional e interdependente, pois nada está isolado no Cosmos, mas sempre em relação a algo. Nesse ponto, ao ocupar-se do “homo complexus”, faz eco ao pensamento marxista: ao mesmo tempo em que o indivíduo é autônomo, é dependente, numa circularidade que o singulariza e o distingue simultaneamente. Como o termo latino indica: “complexus – o que é tecido junto”( MORIN, 1997, p. 44)



4 TRANSDISCIPLINARIDADE COMO EXIGÊNCIA DA CIÊNCIA E DA UNIVERSIDADE CONTEMPORÂNEAS



Além do que foi exposto na primeira seção, onde a interdisciplinaridade já foi enfocada como exigência das ciências e da universidade contemporâneas, cumpre aqui acrescentar mais um argumento a essa constatação. Argumento que aponta, como conseqüência, para a transdisciplinaridade como exigência da universidade de hoje.
Piaget sempre postulou a adoção de uma “política” que pudesse efetivar estruturas novas para as universidades, capazes de criar todos os tipos de cooperação entre os especialistas dos vários ramos do saber (JAPIASSU, 1976, p. 70).

Como visionário que antevia o processo da transdisciplinarização como resultado da interdisciplinarização, batalhou em seus últimos escritos por uma universidade da interdisciplinaridade. Se vivo estivesse, hoje batalharia com o mesmo entusiasmo por uma universidade da transdisciplinaridade.

Obviamente que o estabelecimento dessa política ou dessa filosofia tanto da inter como da transdisciplinaridade visa a

- criar todos os tipos de cooperação entre especialistas dos vários ramos de saber

- rearticular as disciplinas afins ou conexas que se alocam em cada departamento na moderna estrutura universitária

- proporcionar novas estruturas mentais para conseguirem-se e assegurarem-se “interações cada vez mais estreitas entre especialistas, não somente no mesmo nível hierárquico, que podemos chamar de plano horizontal, mas também e, sobretudo, uma coordenação que seria orientada para um fim, a partir de um nível superior e que chamaremos de plano vertical ou de finalidade ( objetivos humanos e sociais)” (JAPIASSU, 1976, p. 70)

Em 1972 a OCDE promoveu uma pesquisa de tipo survey, aplicando um questionário intitulado Estudo sobre as atividades interdisciplinares de ensino e de pesquisa nas universidades (francesas), em que procurava detectar motivações e objetivos em relação à interdisciplinaridade.

Quanto às motivações foram arroladas como principais: a) por parte dos estudantes: necessidade de reorientar estudos sem perda de tempo, necessidade de melhor adaptação ao emprego, possibilidade de criação de novas carreiras, aumento do interesse e da curiosidade, formação de espíritos mais abertos etc. - b) por parte dos professores e pesquisadores: encontrar uma solução humana para a especialização crescente, de realizar empreendimentos com objetivos comuns a partir de pontos de vista diferentes, de desencorajar as pesquisas isoladas, de abrir novo campo do saber, etc. Isso sem falar das motivações próprias às necessidades do sistema universitário e das que estão vinculadas aos interesses propriamente científicos.

Quanto aos objetivos, os principais foram repertoriados por Clark Abt:

- despertar entre os estudantes e os professores interesse pessoal pela aplicação de sua própria disciplina a uma outra;

- estabelecer vínculo sempre mais estreito entre as matérias estudadas;

- abolir o trabalho maçante e por vezes “bitolante” que constitui a especialização em determinada disciplina;

- reorganizar o saber;

- estabelecer comunicações entre os especialistas;

- criar disciplinas e domínios novos de conhecimento, mais bem adaptados à realidade social;

- aperfeiçoar e reciclar os professores, reordenando-os, de sua formação especializada, a um estudo que vise à solução de problemas;

- reconhecer o caráter comum de certos problemas estruturais etc (JAPIASSU, 1976, p. 56)

Condição necessária para se atingir institucionalmente a interdisciplinaridade e, por conseguinte a transdisciplinridade, é o desenvolvimento de uma “ciência crítica”, que seja capaz de superar o mito da “neutralidade científica” e atingir fins extracientíficos, ou seja, capaz de analisar as relações que as ciências têm com a sociedade. A exigência de uma ciência crítica é projeto autenticamente dialético.

Hoje a sociedade está a exigir dos cientistas e das universidades o reencontro da unidade do fenômeno humano.

Aliás, antes de apontar para o reencontro da unidade do fenômeno humano, importa remontar à globalidade ou melhor à totalidade do fenômeno social. Na mesma perspectiva e mesma convicção apontadas por Goodmann quando escreveu:

O processo do conhecimento científico é ele próprio um fato humano, histórico, social; isso implica, ao estudar a vida humana, a identidade parcial entre o sujeito e objeto de conhecimento. Eis porque o problema da objetividade se coloca diferentemente nas ciências humanas e na física ou na química. Sendo o comportamento um fato total (nota de pé-de-página: trata-se, e isso é óbvio, de uma totalidade relativa que não é senão um elemento da totalidade homens-natureza), as tentativas de separar seus aspectos ‘material’ e ‘espiritual’ não podem ser, no melhor dos casos, senão abstrações provisórias, sempre implicando grande perigo para o conhecimento. É a razão pela qual o pesquisador sempre deve esforçar-se por encontrar a realidade total e concreta, ainda que saiba não poder alcançá-la, a não ser duma maneira parcial e limitada, e para isso esforçar-se por integrar no estudo dos fatos sociais a história das teorias a respeito desses fatos, assim como por ligar o estudo de fatos de consciência à sua localização histórica e à sua infra-estrutura econômica e social (GOLDMANN, 1973, p.27-8)


Exigência problemática, que começou a encontrar resposta na “pesquisa orientada”, outra expressão legítima da pesquisa interdisciplinar, onde se dá o processo integrativo das várias disciplinas e, hoje, torna-se condição da própria pesquisa transdisciplinar.

Como frisa Japiassu, “não basta o enriquecimento recíproco das pesquisas, mas um conhecimento mais “inteiro” e concertado do “fenômeno humano”( JAPIASSU, 1976, p. 71).

Diante dessas considerações é que se aponta aqui a necessidade de uma universidade com pretensões à contemporaneidade, revestir-se da característica ao mesmo tempo transdisciplinar e ecológica. Sem dúvida um projeto revolucionário, mas que é reforçado pela colocação de Castoriadis, quando escreve o Da ecologia à autonomia, sobretudo quando diz :

Que o movimento ecológico engloba todo o problema político e todo o problema social, pode ver-se imediatamente a partir duma questão aparentemente limitada [...] Esta questão ultrapassa-se a si mesma. Desde logo, ela implica a totalidade da produção; e depois (ou melhor, ao mesmo tempo) implica a totalidade da organização social. A única tentativa que eu conheço pessoalmente de levar em conta seriamente a questão no seu conjunto, é o projeto Alter sobre o qual trabalha em França o matemático Philippe Courrège com um pequeno grupo de colaboradores [...] Como isso implica a totalidade da produção, consequentemente empenhou-se na construção de um pequeno “sistema” completo (ou melhor de uma grande gama de tais sistemas, dependente cada um dos objetivos finais que se propõe). Sistema completo, com uma matriz fechada que cobre a totalidade das “entradas” e “saídas” duma pequena região quase auto-suficiente. Courrège viu de igual modo, e ele di-lo, que o que sobre o plano “técnico” e “econômico” é uma solução senão simples pelo menos possível, levanta problemas políticos e sociais - ele chama-os de societários - imensos: a definição de objetivos finais da produção, a aceitação pela comunidade de um estado estacionário, a gestão do conjunto etc. Aqui, posso dizer que me sinto em terreno familiar: não porque tenha, evidentemente, a solução, mas porque são questões sobre as quais reflito e trabalho há trinta anos e que se tornam ao mesmo tempo mais precisas e claras quando se dá uma base concreta à idéia de unidades sociais autogovernadas e vivendo numa boa parte de recursos locais renováveis. (CASTORIADIS, 1981, p.26-7)

Sobretudo, quando se pensa que a idéia matriz de universidade está umbilicalmente ligada à de participação no mundo social e político em que se insere, seja este pensado em termos nacionais ou internacionais e nenhum responsável pela instituição máxima da inteligência pode ignorar o que as evidências nos escancaram: infelizmente vivemos num mundo unipolar, em que “a grande potência” faz o que bem entende e os demais países o que devem. Cabe à universidade preparar os futuros líderes para se contrapor a essa concepção perversa, genuinamente ligada à falta de compreensão ecumênica e ecológica da humanidade.

Depois da recusa pelos Estados Unidos do pacto de Kyoto, está mais do que claro que só interessa ao império americano, o domínio sobre todo o planeta, pouco se importando se são os maiores poluidores da Terra. Nenhuma preocupação demonstram “ao afrontar a comunidade mundial e a todos os movimentos em favor da preservação do planeta e redução das desigualdades sociais”, como bem assinalou o manifesto do Forum Brasileiro de Mudanças Climáticas reunido em Porto Alegre em março de 2001.




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


1 BASTIDE, Roger. “Approche interdisciplinaire de la maladie mentale”. In: The Social Sci-
ences: problems and orientations. UNESCO,1969

2 CASTORIADIS, Cornelius; COHN-BENDIT, Daniel. Da Ecologia à Autonomia (De l’eco-
logie a l’autonomie ). Coimbra: Centelha, 1981

3 GOLDMANN, L. Dialéctica e Ciências Humanas. Tradução de Margarida Garrido e J.
Vasconcelos Esteves. Lisboa: Presença, 1973.

4 GUSDORF,G.Introduction aux sciences humaines. Paris: Ophrys, 1974.

5 JAPIASSU,Hilton. Interdisciplinaridade e Patologia do Saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

6 MORIN, Edgar; BOCCHI, Gianlucca; CERUTI, Mauro. Os problemas do fim do século. 3 ed. Trad. Cascais Franco. Lisbo: Editorial Notícias, 1996.

7 ---------. Por uma reforma do pensamento. In: PENA-VEJA, Alfredo; NASCIMENTO, Elimar Pinheiro. O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade. Rio de Janeiro Garamond, 1999.

8 --------. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

9---------.Complexidade e Transdisciplinaridade: a reforma da universidade e o ensino fundamental. Natal: EDUFRN, 1999.

10 NECOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. Tradução portuguesa de Lúcia Pereira de Souza. São Paulo: Triom, 1999.

11 - PIAGET, Jean. Interdisciplinarité. Paris: OCDE, 1972.

12 - PIAGET, Jean et alii. Logique et Connaissance Scientifique. Paris: Gallimard, 1967.

13 - POLLITZER,G. et alii. Princípios Fundamentais de Filosofia. Tradução do original fran-
cês. São Paulo: Hemus, 1970.

14 - SALOMON, Délcio Vieira. A maravilhosa interceteza: ensaio de metodologia dialética so-
bre a problematização no processo do pensar, pesquisar e criar. São Paulo: Martins Fontes,
2000.

15 - _______. Do Sonho de Piaget à Transdisciplinaridade no Ensino Universitário. Caminhos,
Belo Horizonte, n.7, 22-31, jun. 1993.

16- WHITE jr, Lynn et alii. Fronteras del Conocimiento en el Estudio del Hombre (Fron-
tiers of Knowledge in the Study of Man). Buenos Aires: EUDEBA, 1963.




NOTAS

(1) Universitas, no latim medieval, significava corporação.

(2) Apenas, como grito de alerta (ou, quem sabe “vox clamantis in deserto”): a retórica do atual ministro da Educação, dizendo que “defenderá” a autonomia da universidade, não, porém, a soberania, sob o falaz argumento de que esta pertence ao Estado e aquela a outras instituições, como a universidade, ressoa como eco do que dizia o antigo ministro Paulo Renato que acabou reduzindo a frangalhos a autonomia garantida pela Constituição. Em nome dessa óbvia colocação, colocada como premissa, mais uma vez o governo está defendendo que concede (quando deveria simplesmente reconhecer) a autonomia da universidade pública. Na realidade defende uma autonomia castrada, típica da “ética” do neoliberalismo: “o que é meu é meu, mas o que é do outro, merece ser negociado”. Já demonstrei a falácia dessa colocação tão a gosto do MEC em Caminhos,n. 18, dez. 199, p.29 – 42.
(3)Além do texto acima de Nicolescu, lembro ao interessado outras referências biliográficas mais recentes como: GIBBONS, Michael, et al., The New Production of Knowledge - The Dynamics of Science and Research in Contemporary Societies, London, 1994. - NICOLESCU, Basarab. La Transdisciplinarité, Rocher, Paris, 1996. Congresso International Que Universidade para o Amanhã? Evolução Transdisciplinar na Universidade, Locarno, Suíça, de 30 de abril a 2 de maio de 1997. Esse documento pode ser encontrado na Internet, site: .

(4) Condição para o Desenvolvimento Sustentável - Conferência no Congresso International 'A Responsabilidade da Universidade para com a Sociedade', International Association of Universities, Chulalongkorn University, Bangkok, Thailand, de 12 a 14 de novembro de 1997

(5) São de quatro gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinalamos nomes, a saber: ídolos da Tribo; ídolos da Caverna; ídolos do Foro e ídolos do Teatro. (...) Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. É falsa a asserção de que os sentidos do homem são a medida das coisas. (...) Todas as percepções (...) guardam analogia com a natureza humana e não com o universo. Os ídolos da caverna são os dos homens enquanto indivíduos. Pois, cada um (...) tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões segundo ocorram no ânimo preocupado e predisposto ou em animo equânime e tranqüilo (...) Há também os ídolos provenientes de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si a que chamamos de ídolos do foro, devido ao comércio e consórcio entre os homens. Com efeito os homens se associam graças ao discurso e as palavras são cunhados pelo vulgo. E as palavras impostas de maneira imprópria e inepta bloqueiam espantosamente o intelecto. (...) E por fim, ídolos que imigraram para o espírito dos homens por meio das diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais (...) Não pensamos apenas nos sistemas filosóficos, na sua universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor, mercê da tradição, da credulidade e da negligência. (BACON, Francis. Novum Organum. Tradução e notas de José Aluysio Reis de Andrade. In: Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural, 1979, p. 21-23)

(6} Ao afirmar que o enfoque é eminentemente metodológico (por ter sido a área em que trabalhei na universidade e a ela tenho me dedicado desde 1963), estou, de certo modo, justificando por que, neste artigo, pouco me detenho na ecologia. Para minha convicção teórica e metodológica é suficiente constatar a tese-eixo desta abordagem: a ecologia, se não foi a primeira, foi das primeiras a atingir no século XX o “status” da transdisciplinaridade.

(7) Piaget abre Logique et connaissance scientifique declarando : “A lógica, a metodologia e a teoria do conhecimento, ou epistemologia, constituem três ramos do saber, em que somente a primeira apresenta contornos precisos. Mas a terceira leva sempre desvantagem em delimitar seu domínio e, se a segunda não apresenta unidade orgânica, ela se divide em capítulos distintos, em, que uns se subordinam nitidamente à primeira, enquanto as outras se vinculam cada vez mais à terceira” (PIAGET, 1967, p.3)

(8} Não se pode menosprezar o que há de diretamente compreensível na teoria quântica e na teoria da relatividade: a teoria quântica afirma que a energia emitida por qualquer corpo somente pode realizar-se de forma descontínua, através de múltiplos inteiros de uma quantidade mínima denominada por Planck de quantum de energia. A teoria da relatividade afirma que que o espaço e o tempo estão em íntima e interdependente relação, isto é, não são absolutos, são sempre relativos e dependem do observador.

(9} Não esqueçamos que um dos grandes princípios da Dialética ou uma de suas leis é a “ a interdependência e ação recíproca entre os fenômenos”. Politzer refere-se a esta interdependência dizendo que “o método dialético considera que nenhum fenômeno da natureza pode ser compreendido, quando encarado isoladamente, fora dos fenômenos circundantes; porque qualquer fenômeno, não importa em que domínio da natureza, pode ser convertido num contra-senso quando considerado fora das condições que o cercam, quando destacada destas condições; ao contrário, qualquer fenômeno pode ser compreendido e explicado, quando considerado do ponto de vista de sua ligação indissolúvel com os fenômenos que o rodeiam, quando considerado tal como ele é, condicionado pelos fenômenos que o circundam”. (POLITZER, Georges et alii. Princípios fundamentais de filosofia. Tradução. São Paulo, Hemus, s.d., p. 37).



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