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Ensaios-->Literatura de entretenimento e leitura do Brasil -- 22/11/2006 - 15:49 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Digestivo Cultural
Terça-feira, 21/11/2006

Literatura de entretenimento e leitura no Brasil

Luis Eduardo Matta

No dia 20 de novembro de 2003 – há três anos, portanto –, publiquei o meu artigo de estréia aqui no Digestivo Cultural, iniciando a minha gratificante trajetória como colunista desta notável revista eletrônica de cultura, da qual já era leitor regular desde os seus primeiros meses de existência. No artigo em questão, intitulado 'A LPB e o thriller verde-amarelo', eu abordava um tema pouco debatido nos nossos círculos literários (ou debatido sem o aprofundamento e a objetividade necessários) e que eu considerava, e continuo considerando, de suma importância: a escassez de uma literatura de entretenimento produzida por escritores brasileiros. A defesa dessa vertente literária historicamente desvalorizada por aqui – a qual eu apelidei, na ocasião, de LPB ou Literatura Popular Brasileira –, acabou rendendo um segundo texto, 'A LPB na novíssima Literatura', publicado nove meses mais tarde, em agosto de 2004, no site Paralelos e gerou uma ruidosa polêmica, que me rendeu centenas de mensagens de correio eletrônico e até algumas pequenas dores de cabeça.

O tema é inegavelmente delicado, pois, de certo modo, mexe com os fundamentos da literatura brasileira, contestando, ainda que apenas parcialmente, os rumos tomados pela produção literária nacional que, ao longo de décadas, privilegiou o livro como obra de arte, de denúncia ou espaço para experimentação, catarse ou reflexão e desvalorizou-o como um despretensioso objeto de lazer, capaz de preencher as horas livres do cidadão comum com momentos de diversão e distração. Ao longo do tempo fomos construindo, não sei se sem-querer ou intencionalmente, uma aura de deferência em torno do ato de ler, como se este fizesse parte de um verdadeiro ritual religioso de ode ao conhecimento e à grandeza da alma e da mente. Todo esse cerimonial sempre me incomodou por inúmeros motivos. O principal talvez tenha a ver com o fato de que eu, desde a infância, tenho com os livros uma forte relação de intimidade. O ato de ler sempre me foi natural. A leitura incorporou-se à minha vida de uma forma absolutamente tranqüila, sem sobressaltos de qualquer espécie, e nunca fui adepto dos discursos verbosos e cheios de pose, comuns no meio acadêmico e dos intelectuais de fachada, que enaltecem a leitura de maneira pomposa e artificial e referem-se a determinados escritores canônicos como se estes fossem deuses a serem adorados e não autores reconhecidamente talentosos e até mesmo geniais que, antes de tudo, merecem ser lidos do modo mais despojado e trivial possível. E é justamente este ato singelo e prosaico – o de ler – tão em desuso nos dias de hoje, que precisa ser resgatado e conduzido ao seu devido lugar no cotidiano simples do povo.

Quando se fala em literatura de entretenimento muita gente ligada ao mundo dos livros, automaticamente, se manifesta contra, antes mesmo de saber, ao certo, do que trata o assunto. Para essas pessoas, o simples fato de uma discussão a esse respeito estar sendo levantada constitui uma heresia e, em alguns casos, um verdadeiro atentado ao orgulho e à cultura nacionais. A seu juízo, o livro como mero entretenimento não possui nenhum valor. É subliteratura, não leva o leitor a crescer internamente e o aliena das grandes questões humanas, sociais e filosóficas; sua publicação, acreditam, deve-se, unicamente, ao desejo do autor e do editor de ganhar alguns cobres às custas de leitores ingênuos e despreparados intelectualmente, pessoas sem gosto estético, incapazes de dar valor à “verdadeira Literatura” e que não foram devidamente apresentadas ao que de melhor os grandes escritores produziram no decorrer da História. Essa mentalidade limitada e um tanto esnobe ajudou, e muito, a gerar a grande aberração que é a situação precária da leitura no Brasil contemporâneo. Pois, se por um lado, temos intelectuais encastelados em suas inexpugnáveis torres douradas de pretensa sabedoria dialogando entre si, para diminutas platéias de iguais ou para o espelho, por outro temos um imenso contingente de pessoas carentes de leitura e conhecimento, que nunca foram devidamente introduzidas no universo lúdico dos livros e permanecem distantes deles, muitas vezes por se sentirem incapazes de praticar a leitura com todo esse cerimonial amplamente apregoado pelos formadores de opinião.

Todos sabemos que ler é bom, que ler é importante, que ler abre positivamente a nossa cabeça, permitindo a entrada do conhecimento e o aprimoramento da nossa visão do mundo. De tanto essas máximas haverem sido repetidas, já se tornaram uma espécie de mantra, que todos repetem automaticamente. Acontece que não adianta dizer a uma pessoa pouco ou nada afeita à leitura que ler é importante, se na prática a sua relação com os livros for de repulsa. A única maneira desta pessoa se tornar uma leitora contumaz é sentir na prática que ler é, acima de tudo, um grande prazer, uma grande diversão, o meio mais interessante de entretenimento cultural jamais inventado pelo ser-humano. Só assim ela adquirirá o hábito da leitura. Mas como fazer isso num país como o nosso em que o hermetismo lingüístico é incensado à maneira dos intrincados textos jurídicos, onde a literatura é tratada como uma deusa e onde existe uma conexão reduzidíssima entre a elite intelectual e o “povão”?

Muitas das cartas desaforadas que recebi a propósito dos meus dois artigos anteriores sobre a necessidade de estabelecermos no Brasil uma tradição de literatura de entretenimento me acusavam de pregar o fim da excelência literária que sempre permeou a história cultural brasileira, substituindo grandes autores de inegável genialidade por best-sellers estupidificantes e de linguagem fácil e pobre, copiados do que de pior a literatura contemporânea norte-americana produziu. Outros afirmavam que esse debate era ridículo e inócuo, pois não seria uma literatura de entretenimento brasileira que faria as pessoas lerem mais. Em primeiro lugar, quem leu com atenção os artigos sabe que, em nenhum momento, eu propus que a literatura de entretenimento tomasse o lugar da literatura brasileira existente, ainda porque eu não seria maluco de pregar um absurdo desses, uma vez sendo um leitor entusiasmado de muitos escritores brasileiros clássicos e contemporâneos, consagrados ou não. A minha proposta era e continua sendo a de abrir um caminho a mais na literatura brasileira, conciliando estilos e tendências, já que há lugar para todos. Então, essa primeira acusação é improcedente e deve ser sumariamente posta de lado. Em segundo lugar, um livro de entretenimento não é necessariamente um livro de baixa qualidade e, tampouco, um livro que irá vender horrores. Essas são confusões bastante comuns, aliás. Há livros de entretenimento, como os de Alexandre Dumas, Frederick Forsyth e Georges Simenon, que possuem enormes méritos literários, ao passo que muita literatura dita de proposta padece da falta de qualidade. Por outro lado, nem toda literatura de entretenimento será um best-seller, do mesmo modo que nem todo best-seller é literatura de entretenimento. Na verdade, o que pude perceber, analisando as cartas em que o tema era atacado (foram pouco menos de cem num total de cerca de oitocentas), foi um evidente preconceito aliado a um total desconhecimento do que seja literatura de entretenimento e, sobretudo, sobre as conseqüências negativas que a sua quase ausência tem no ambiente literário brasileiro.

Também enganam-se aqueles que afirmam ter sido eu o responsável por levantar o debate sobre literatura de entretenimento no Brasil. Quem primeiro falou publicamente sobre o assunto, até onde eu tenho notícia, foi o célebre poeta e crítico literário José Paulo Paes que, nos final dos anos oitenta, escreveu um ensaio a respeito intitulado 'Por uma literatura brasileira de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)', que integra o livro A Aventura Literária – ensaios sobre ficção e ficções. Foi inspirado neste texto de Paes que decidi refletir mais a respeito do assunto, visitei livrarias, conversei com inúmeros leitores e livreiros e passei a ter uma percepção mais ampla e precisa acerca da relação entre os leitores comuns e os livros. O termo LPB surgiu por acaso durante a redação do primeiro artigo, ao estabelecer um paralelo com a música popular brasileira (MPB) que, a despeito da sua declarada não-erudição conseguiu se firmar como paradigma de qualidade e excelência. O que seria da música brasileira atual, se não tivessem surgido o samba, a MPB e o BRock? Fatalmente seríamos grandes consumidores de música pop estrangeira. Pois é exatamente isso o que acontece com os livros. Na falta de uma literatura brasileira que atenda ao paladar de um público amplo, desejoso de uma ficção despretensiosa, digestiva, de leitura descomplicada e enredo criativo e atraente, onde uma história de começo, meio e fim bem definidos é contada, as traduções de títulos, principalmente os de língua inglesa, ocupam soberanamente esse espaço. Do mesmo modo, a escassez de uma literatura de entretenimento nacional dificulta a formação de leitores, principalmente nas escolas, pois as aulas de literatura brasileira acabam se concentrando nos autores canônicos ou regionalistas, cuja prosa sofisticada e de difícil assimilação para a maioria, acaba gerando toda sorte de preconceitos em relação ao ato de ler, que passa a ser visto como algo complicado e enfadonho. Sobretudo se o livro vier acompanhado daquele verdadeiro tiro de misericórdia no gosto pela leitura que é o famigerado teste de interpretação do livro, o maior inimigo da formação de leitores no Brasil.

No seu brilhante ensaio, o nosso saudoso José Paulo Paes afirma, em dado momento, que “Numa cultura de literatos como a nossa, todos (os escritores) sonham ser Gustave Flaubert ou James Joyce, ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie. Trata-se obviamente de um erro de perspectiva: da massa de leitores destes últimos autores é que surge a elite dos leitores daqueles, e nenhuma cultura realmente integrada pode se dispensar de ter, ao lado de uma vigorosa literatura de proposta, uma não menos vigorosa literatura de entretenimento”. Creio que esse trecho resume de forma bastante elucidativa o que eu prego ao defender a LPB. Acompanhando o panorama da literatura no Brasil ao longo da última década e meia, verifico que muitos escritores e intelectuais se lançam em acaloradas discussões absolutamente supérfluas, para não dizer anódinas, sobre estética e excelência literárias. Criam atritos, fazem intrigas e muitos chegam a romper relações entre si para o resto da vida, jurando inimizade eterna. Enquanto isso, o povo brasileiro, alheio a tudo isso, continua refém da própria ignorância e alijado do mundo dos livros. Não há como negar que uma das grandes deficiências de muitos dos nossos escritores tem sido a sua baixa capacidade de se comunicar com um público mais amplo. Imagino que muitos, ao escrever seus livros, miram em si próprios ou num leitor mais sofisticado e se esquecem das massas. Isso não é absolutamente uma crítica minha e menos ainda um demérito deles, mas se pretendemos, de fato, construir um país de leitores, como sempre se sonhou, é preciso ter consciência de que a literatura – ou, ao menos, parte dela – terá de transpor as muralhas do castelo onde se mantém confinada e se misturar ao povo humilde nas ruas para tentar lhe mostrar que ler pode ser mais interessante e fascinante do que assistir à TV, jogar videogame ou sair para festas todas as noites. Se queremos que o povo leia, não adianta escrevermos apenas para o deleite da crítica acadêmica, pois caso um dia o Brasil se torne um país de grandes consumidores de livros, estes livros, infelizmente, não serão de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Mário de Andrade ou Clarice Lispector. Seria ótimo se fossem, seria maravilhoso se todo mundo se sentisse atraído por essa grande literatura, mas precisamos enxergar e aceitar a realidade e não viver eternamente presos a utopias. A literatura brasileira tal qual a conhecemos, por mais extraordinária que seja – e ela é – não tem apelo popular, com raríssimas exceções, e suas chances de ser absorvida por um público amplo de milhões de potenciais leitores (o Brasil, afinal, tem 180 milhões de habitantes) são muito, mas muito pequenas.

No entanto, já há alguns tímidos sinais de que esse panorama começa a mudar. De uns anos para cá, noto que alguns escritores – poucos ainda – vêm se aventurando pela literatura de entretenimento e publicando seus trabalhos, sobretudo nos gêneros policial, ficção-científica e ficção sobrenatural. A maioria não conseguiu espaço nas grandes editoras e menos ainda na mídia literária e não goza ainda de qualquer prestígio (há exceções), mas verifico que já há uma consciência por parte de alguns dos novos autores para a necessidade de se fazer uma literatura mais voltada para o lazer do leitor médio, que é o leitor majoritário. Muitas dessas obras têm qualidade e talvez seja apenas uma questão de tempo para que alcancem a visibilidade que merecem. Quando isso acontecer, todos ganharão: os escritores de um modo geral, o mercado editorial como um todo e, principalmente, o país que, enfim, começará a dar passos concretos rumo a um futuro onde teremos uma grande população leitora (será preciso mudar, também, a metodologia de ensino de literatura nas nossas escolas, mas esse assunto rende outro artigo). E, aí sim, com muita leitura, o Brasil estará aparelhado para, enfim, ingressar no clube das nações desenvolvidas.

Nota do Editor
Hoje, coincidentemente, é também aniversário de Luis Eduardo Matta.

Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 21/11/2006


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