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Ensaios-->CLODOALDO FREITAS (1855-1924) -- 22/10/2006 - 12:05 (Francisco Miguel de Moura) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
CLODOALDO FREITAS (1855 -1924)

Francisco Miguel de Moura*

INTRODUÇÃO


Entre tantos destaques que já se fizeram ao primeiro ocupante da cadeira nº 1, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, tendo escolhido como patrono seu amigo e poeta José Manuel de Freitas, e de cuja insituição foi o primeiro presidente, cabe referir inicialmente à condição de ter sido ele um eminente homem de pensamento, no final do séc. XIX e primeiro quartel do séc. XX. O que afirmo está em Teresinha Queiroz, está em Celso Barros, está em Cistino Castelo Branco, nos livros, ensaios e biografias que publicaram.
Por isto, como introdução, falemos um pouco do Brasil de seu de tempo, de antes do seu tempo, especialmente do Nordeste. Podemos dizer que a cultura brasileira começa no Nordeste, de modo especial em Pernambuco, nossa capitania mais progressista e Bahia, nossa primeira capital. A partir do relativo liberalismo da colonização portuguesa, nos séc. XVI eXVII, segundo refere o historialdor Florival Cáceres, começa o nosso nativismo que alguns historiadores da cultura classificam de “escola” – assim como antes se chamou de “literatura dos viajantes” àquela literatura a partir da Carta de Caminha e continua com os jesuítas – acontece a partir dos primeiros anos da colonização, do progessos de Pernambuco e se perpetua nas revoluções pernambucanas, a partir mesmo da invasão holandesa à Bahia (1624-1625) e da expulsão dos holandeses de Maurício de Nassau, de Pernambuco (1630-1654). Por estas e outras razões, isto é, de cultura e tradição, o Nordeste foi eleito para sede das primeiras escolas superiores: Medicina na Bahia e Direito, em Pernambuco (15-5-1828) Essa última foi tão famosa que seus filósofos como Tobias Barreto, Sílvio Romero e outros criaram a famosa “Escola do Recife”, que se adiantava ao resto do Brasil na renovação do pensamento e da filosofia, e daí espraiava-se para o política, jornalismo, literatura e artes, de modo geral.
Segundo Antônio Chrysippo de Aguiar, o piauiense e professor da Faculdade de Direito do Recife, Antônio Coelho Rodrigues (1846-1912), membro da comissão de examinadores da banca à qual se submetera Sílvio Romero (1851-1914), tivera uma atuação brilhante como contestador dos novos. A certa altura, recusando-se a explicar o argumento anterior ao examinador da vez (Coelho Rodrigues), diz Sílvio Romero:
– Nisto não há metafísica, Senhor Doutor, há lógica.
– A lógica, replica Coelho Rodrigues, não exclui a metafísica.
– A metafísica, treplica o doutorando, não existe mais. A metafísica está morta.
– Foi o senhor quem a matou? Perguntou Coelho Rodrigues.
– Foi o progresso, foi a civilização, repondeu o bachareal Sílvio Romero – retirando-se, segundo o mesmo, por não suportar mais “esta corja de ignorantes”.
Evidentemente Sílvio Romero foi reprovado, o mestre ganhou, inclusive pela hilaridade da situação, mas os novos venceram. A “Escola de Recife” dominou praticamente o Brasil por todo o Segundo Império e espraiou-se pela República. O episódio, resumidamente, é aqui mostrado apenas para que tenhamos idéia do que era a cultura nordestina de então, a cidade de Recife culturalmente muito mais importante que o Rio e São Paulo, e a participação dos piauienses nesses embates, nesses estudos. Coelho Rodrigues era do Partido Conservador, monarquista, mas os mais novos, Higino Cunha, Abdias Neves e Clodoaldo Freitas, abraçaram de frente as idéias positivas, naturalistas, ateístas, originadas em Comte, Spencer, Darwin, Haeckel e outros e levaram-nas para a tribuna e o jornal nas suas renhidas polêmicas com o clero.
Celso Barros, um dos maiores estudiosos de Clodoaldo Freitas, no seu livro “Confronto de Idéias”, escreve: “Ele filiou-se a essa corrente com grande entusiasmo e fervor. Dirigia as suas atenções para o campo que se tornara comum na preferência dos filósofos de cujas idéias se impregnou o grupo dos jovens que chegavam àquela Faculdade. E os filósofos que tal influência exerceram na mente desses jovens são aqueles que absorveram, no seu pensamento, a nova ordem em que foi colocada a idéia da Natureza, que, a partir de Giordano Bruno (1548-1600) adquiriu a sua dignidade, marcando portanto aquela transição de que falar Ernst Cassirer (1874-1945) – “do naturalismo dinâmico da Renascença para a Matemática Física.””



BIOGRAFIA

Clodoaldo Freitas (7.9.1855, Oeiras – 1924, Teresina), cujo nome completo era Clodoaldo Severo Conrado Freitas, bacharelou-se na Faculdade de Direito de Recife, em 1880. Sua atuação sócio-cultural não se cingiu apenas ao Piauí e Pernambuco: estendeu-se por outros Estados (Amazonas, Pará, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro), tendo residido em alguns desses estados e ajudado a fundar a Academia Maranhense de Letras, da qual era membro. Foi muito atuante como jornalista, político e magistrado. Mas sua ação avulta também na literatura, deixando publicados cerca de 14 obras e muitas outras inéditas. Começou com “Os Fatores do Coelhado”, 1892, obra política, e entrou pela história com “História do Piauí” (sinopse), 1902; “Vultos Piauienses” (apontamentos crítico-biográficos), 1903; “Memórias de um Velho”, romance publicado em rodapés do jornal “Pátria”, em 1905; “O Bequimão”, 1908; “Em Roda dos Fatos”, 1911; e “Contos a Teresa”, 1915. Mas praticamente, o que se conhece hoje de Clodoaldo Freitas se resume a “História de Teresina ”(1988), “Em Roda dos Fatos”(1996) e “Vultos Piauienses” (1998), todos reeditados pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, a partir de 1988. Últimamente a Academia Maranhense de Letras anunciou a reedição do romance histórico “O Bequimão”, por editora do Sul, sob os auspícios do Governo do Maranhão. Literariamente foi romancista, contista, cronista e a poeta já reconhecido, embroa no último gênero tenha produzido bem pouco.
Na sua História da Faculdade de Direito do Recife, Clóvis Beviláqua (1859-1944) assim se expressa a respeito de Clodoaldo:
“Inteligência superior, possuindo largo preparo literário e filosófico, tendo-se ensaiado em várias direções, (...) foi principalmente jornalista vivaz, solerte, elegante e maleável, para quem não havia assunto árido, e cuja pena mais se enriquecia em vibrações e mais se aligeirava no produzir, quanto mais dela exigiam a circunstâncias.”
Um trechinho de sua prosa em “Vultos Piauienses” é capaz de mostrar seu vigor, sua força e seu destemor na imprensa (para a confirmação das afirmações de Clóvis Beviláqua), na defesa da verdade e dos seus pontos de vista, atacando os fatos quando fosse necessário, viessem de onde viessem:
“O Doutor Coelho Rodrigues, que nunca foi escritor, que nunca teve a bossa de jornalista, que nunca teve estilo, foi completamente batido nessas lutas em que, por sua inexperiência ou mau gênio, se colocava do pior partido, brandindo a arma do doesto, da injúria pessoal, não contra uma idéia, mas contra um homem, trocando os indivíduos pelos princípios, o que importava completa obliteração e falta de orientação política


***

Agora, para mostrar a prosa do livre-pensador, destaque-se uma página da crônica sobre o Dia de Finados do livro “Em Roda dos Fatos”:
Aproxima-se o dia dos mortos!
Entremos no campo santo. Aqui dormem no sono exaustivo da morte os que descansam da peregrinação terrestre e se afundaram no eterno não ser, nesse abismo insondáve, de que todas as religiões pretendem medir a extensão e explicar os mistérios.
Como filosofava o poeta de Hamlet, ninguém nunca voltou da viagem às terras desse país desconhecido e longínquo, cujas raias ninguém pode atravessar duas vezes.
Todos sonham referindo-se a esse sono sem sonhos. É nos mistérios desse mistério que as religiões de todos os povos vão buscar títulos para as suas visões teológicas.
O poeta hebraico, no seu soberbo materialismo, só lembrava ao homem mortal que era pó e em pó havia de se tornar.Realmente, aqui neste lúgubre recinto, povoado por centenas de cadáveres, só existem, como remanescentes da vida, as ossadas e a poeira das ossadas já consumidas. Os próprios gusanos, que nasceram e se alimentaram da sânie apodrecida das carnes em decomposição, extinto o pasto, morreram a seu turno na hedionda solidão sepulcral. Para além desse mistério é que podem vicejar pomposamente os rosais do sonho com a sua floração ridente de ilusões imortais.
..........................................................................................................................
Não morrerei de todo, dizia o poeta, e este brado de vaidade é, simultaneamente, o brado unânime dos crentes, que supõem não morrerem completamente e, mais ainda, esperam nessa vida imortal, desconhecida, ficar na convivência e na intimidade de Deus, que é infinito, na plenitude de um gozo também infinito, e nada conturba.
Essas campas solitárias, eloquentes na sua gélida mudez, respondem às interrogações de todas as religiões e de todas as filosofias. Aí se dissolvem as afinidades da matéria transformadas em substâncias simples, que vão fecundar a terra, nossa mãe carinhosa.

***

É impossível deixar de recitá-lo também, nesta oportunidade, como poeta. Registra Cristino Castelo Branco (1892-1983), em seu livro “Frases e Notas”(1957), dois sonetos, dos quais um, o primeiro, eu também anotei em minha obra “Literatura do Piauí”. E aquele contemporâneo de Lucídio Freitas e do pai acrescenta a seguinte nota valorativa, pela qual começamos como introdução:
“Em 1921, quando seu filho, o grande Lucídio Freitas (1894-1921), estava no leito de morte, aos vinte e sete anos de idade, vencido pela tuberculose, saíram do coração de Clodoaldo Freitas dois sonetos profundamente sentidos, que leio sempre com viva emoção, testemunha que fui daquela dor imensa.”



I

Dou-te esperanças que não tenho, e ponho
Nessa doce ilusão minha ventura...
Mártir do amor de pai, quanta amargura
Me punge ao despertar de cada sonho!

Eu nunca me postei ante os altares
Nem jamais invoquei de Deus o nome;
Vendo entretanto o mal que te consome,
Ergo, contrito, ao céu tristes olhares!

Bem sei que as leis fatais da natureza
Não se amolgam jamais ao nosso pranto,
Não têm jamais da nossa dor piedade!

Na agonia mortal dessa certeza,
Contemplo a definhar, cheio de espanto,
Gênio, glória, beleza e mocidde!

II

A esperança é o pão dos desgraçados...
Dele há muito me venho alimentando!
Onde o coração humano e quando
Golpes tão fundos recebeu dos fados.

Pobre Corina, companheira aflita,
Mais do que eu talvez, desatinada!
Ai mãe! Triste mulher! Tão malfadada
Foste em tua prole, Níobe bendita!...

Sofro dobrado, filho, o teu tormento,
Todo o meu ser concentro nas tuas dores,
Minha vida, minh’alma e pensamento!

Sofresse o teu sofrer e eu pudesse
Transferir para mim tantos horrores,
Talvez menos horrores padecesse...

Para um ateu, a poesia não foge, se ele a tem no coração, pois a poesia não lógica nem metafísica. Clodoaldo Freitas prova isto como já o fizera Higino da Cunha. Religião e fé são outros departamentos. Cada ser humano é um. O que se precisa é ser realmente humano. E isto Clodoaldo Freitas o foi, como vimos.
Através de informes apostos à nova edição de “O Bequimão”, que traz o subtítulo “Esquisso de um Romance”, preparada pela Academia Maranhense de Letras e editada pela Sciliano, SP, com recursos do Governo do Maranhão, sabe-se que é uma narrativa capaz de suscitar múltiplas e variadas leituras. Tomando como seu objeto um dos mais legítimos e controvertidos episódios da riquíssima história colonial do Maranhão, séc. XVII – a tão conhecida revolta do Beckman – o autor recupera camadas densas e superpostas da história e da memória, cujo olvido é ameaça permanente do tempo.
Clodoaldo, temperamento inquieto, indomável, homem que não se dobrou aos poderosos ou políticos do seu tempo, foi tudo o que uma pessoa com tal natureza podia ser, em virtude de sua inteligência e capacidade de trabalho e de luta em prol daquilo que acreditava. E acreditava, como vimos, na liberdade, na justiça, no direito, na honra, nas boas letras, na boa escrita, na filosofia naturalista, por isto torna-se, nas longas batalhas que enfrentou, um polígrafo respeitado, abrindo várias frentes do pensamento e da comunicação, na ânsia do saber e do progresso. Não somente pelos livros que publicou em vida, a maioria em capítulos nos jornais, mas pela imensa obra inédita deixada, que está a merecer reedição, e pela sua vida de homem sério, a quem as virtudes humanas valiam como mandamentos, embora não professasse nenhuma religião e se confessasse um materialista, inserido na corrente filosofica vigente entre os maiores filósofos e intelectuais do seu tempo.


Obras Consultadas:


Antologia dos Poesta Piauienses, de Wilson Carvalho Gonçalves, Teresina, 2006.
Dicionário Histório e Biográfico Piauiense, de Wilson Carvalho Gonçalves, Teresina, 1992.
Frases e Notas, de Cristino Castelo Branco, Irmãos Pongetti, Rio, 1957.
Literatura do Piauí, de Francisco Miguel de Moura, APL/Banco do Nordeste, Teresina, 2001.
Academia Piauiense de Letras – Os Fundadores, Diversos autores (Clodoaldo - Inteligência Superior, de Celso Barros Coelho) , Teresina, 1997.
Literatura Piauiense - Escorço Histórico, de João Pinheiro, Fundação Mons. Chaves, Teresina, 1994 – 2ª. Edição.
Confronto de Idéias, de Celso Barros Coelho, Zodíaco, Teresina, 1997.
Direito Civil – Coelho Rodrigues e a Ordem de Silêncio, de Antônio Chrysippo de Aguiar, Halley Gráfica Editora, Teresina, 2006.
Revista da Academia Piauiense de Letras, nº 60, 2002 – Teresina, Piauí.

Teresina, Pi, 24 de outubro de 2006.

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*Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da APL, trabalho escrito para o Seminário Comemorativo do Sesquicentenário do nascimento de Clodoaldo Freitas, ocorrido de 21 a 25 de outubro de 2006, na APL..
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