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Ensaios-->Os blogs e a subjetividade masculino x feminino -- 23/04/2004 - 08:37 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. O homem e a mulher refletidos nos blogs. Assim que o tempo permitir, já me decidi por fazer uma abordagem sobre o tema. As anotações que possuo ainda são insuficientes, mas as tenho inserido no Word para uso posterior. Embora circunscrita à comunidade de internautas, creio que bem refletem as tendências sociais e psicológicas da nossa sociedade, devido ao intimismo e à espontaneidade que permeiam essas empreitadas individuais.

Com a disseminação dos computadores, o seu uso atrelado à exigência básica do mercado de trabalho, essas máquinas vêm se tornando um importante substituto ou facilitador, na tentativa de aplacar a solidão e os conflitos existenciais do mundo contemporâneo. Nos diários virtuais, os desejos e configurações da polaridade masculino e feminino ficam ressaltados nas variadas faixas de idade e a autenticidade dessas naturezas eclode por detrás de alguns dos papéis impostos socialmente. Sem dúvida, as fachadas e negociações utilizadas nos processos de conquista do par seriam muito melhor compreendidas através de uma leitura atenta dessas páginas particulares. Os autores selecionados para as citações, as últimas narrativas dos roteiros de lazer, os conflitos internos, as queixas. O poema extraído do blog 'letras proibidas', da simplesmente 'Ana', exemplifica o quadro:

Domingo, Março 21, 2004

'você me disse, assim como quem não quer nada.
- eu não cortei os pulsos...
eu te digo:
- melhor assim...
fico agora eu aqui...com a certeza que preciso cortar os vínculos...

alguém aí tem uma tesoura?...ou canivete...gilete...navalha...faca...'.


As relações interpessoais têm sofrido intensas reformulações, nem sempre benéficas. Cito como exemplo os ambientes de trabalho, nos quais os paradigmas de recursos humanos, baseados estes nos valores de cooperação e equipe vêm a contradizer-se na aplicação prática da política empresarial vigente. Uma dicotomia perversa impõe-se aos empregados, dos quais se exige sociabilidade e inter-relacionamento produtivo, mas nos quais se implanta o medo do desemprego, resultando isso em competição desmedida e inimizades internas, contraprodutivos a longo prazo.

No que se refere aos relacionamentos afetivos e às apreciações que se atribuem os parceiros, percebe-se, devido ao ar confessional dos blogs, que os discursos 'embalados' para impressionar durante a conquista caem por terra no dia posterior ao do primeiro encontro. Caso o homem lhe tenha despertado atração, a mulher auto-rotulada independente em atendimento ao figurino da modernidade, incoerentemente fica magoada com a demora ou ausência do telefonema 'after-day'. Muitas vezes dispara através do blog a sua decepção e indignação. Eles, por sua vez, geralmente mais lacônicos, dizem-se de 'saco cheio' das mesmas e fazem questão de registrar tal impressão nas suas páginas. Enfim, os blogs demonstram a quantas anda a disposição para digerir o outro e falam de estratégias fracassadas. Tomem como exemplo a afirmação do personagem de um conto do talentoso Marcelo Montenegro, no blog 'carro bomba na terra do nunca':

'Mulheres que falam t-i-a, sabe como é? Ai Kat-i-a, você precisa conhecer minha t-i-a. Insuportável, conheço algumas. Que falam imitando criança. Credo. Caras sem graça metidos a engraçado. Mulheres com as unhas pintadas de preto. Joanete, joanete é foda. Problema na coluna, manja?, quando o cara anda assim meio curvado, sem postura? Mulher que exagera no regime e fica com aquele aspecto indisfarçável e eu diria quase mesmo que assustador de gorda-que-emagreceu-repentinamente. Caras que não tomam decisões, que sempre perguntam onde você quer ir?, o quê que você quer fazer? E apelidinhos então? Nossa, é foda. Minha irmã e o namorado se chamam de mô. Assim, sem o menor pudor, na frente de todo mundo. Como pode? E quando o cara chama a mulher de mãe e ela o chama de pai? Eu já acho ridículo quando um filho chama o pai de papai e a mãe de mamãe. Barriga de cerveja. Como assim? Cara magro com barriga de cerveja, acho horrível. Mulheres que pedem só um traguinho. Que devolvem o cigarro molhado. Caras que devolvem o cigarro quente com uma brasa enorme. Pessoas que soltam informações adicionais e aparentemente despretensiosas, assim, como não quer nada, num canto do assunto, só pra impressionar. Mulheres que vivem citando antigos namorados. Ex-namorados que viram amigos de ex-namoradas. Mulheres que gostam de futebol. Mulheres que não gostam de futebol e ainda falam bostas engajadas do tipo mas que graça tem onze homens correndo atrás de uma bola? Homens de sunga. Namoradas que caem fora e não devolvem livros e cds é uma merda. Caras que tentam nos entupir com suas referências é uma merda também, embora deva admitir que alguns têm a manha de fazer isso de um modo que não parece que estão fazendo isso. Mulheres que tratam os namorados como uns bananas. Caras que permitem que suas mulheres o tratem como uns bananas. Mulheres muito atrevidas, assim, gratuitamente atrevidas. Caras muito santinhos. Que pedem desculpas sem motivo e exageradamente. Homens chatos. Mulheres chatas. Chatos em geral. Chato só se for engraçado. Não existe chato engraçado. Porra! Claro que existe chato engraçado. Pra mim chato é chato e acabou. Cê tá enganada. Não começa'.

Da adolescência à maturidade, pode-se colher na Internet testemunhos significativos dos anseios e frustrações relativos às parcerias. No interessante blog de uma mulher de meia-idade que se intitula apenas 'Maria', a intimidade revela-se, despida e plena, protegida pelo anonimato. Transcrevo alguns fragmentos dos seus textos abaixo:

Terça-feira, Março 30, 2004
Quando um não pode ser, sim.

'Namoros de menina, tive. Casamento, separação, re-casamento.
Tudo.
Exerci ser mulher plenamente.
Por isso que agora desejo un altri.
Quero alguém que me queira, no tempo que estiver comigo.
E se tiver outra, nem diga, não quero.
Serei leal aos meus sentimentos.
Sofrerei, por certo, se souber que as tem, mas sei que posso outros, logo, nem quero saber, nem quero entender'.

Terça-feira, Abril 20, 2004

'Acordei assim, perfumada de festa. Sem ressaca, sem dor. Um acordar terno como há muito não lembro ter (...) Não quero me tocar, não tenho ninguém para me mostrar. Excitada, nua, ocupando a cama, ocupada na cama. Hoje não estou com essa vontade. Queria um homem, qualquer ele.
Queria aquele no qual me reflito ontem.
Necessidades do corpo. Obrigatório levantar. Antes fosse tesão, mas é xixi do remédio. A idade leva a isso...
Mato o maldito que virou o espelho para cá!
Coisa pior que se ver sentada, mijando, não há. E no entanto... gostei. Levantei dali direto para o chuveiro. O espelho estava no caminho. Nua, pernas inchadas — quem manda dançar nos saltos altíssimos — cara amassada. Mais próxima pude ver os olhos escurecidos pelo rímel, borrados de Lancôme, os cabelos desfeitos... dormi com um brinco. Onde estará o outro?
Nada consegue fugir a uma manhã solitária.
Mulheres quando vão ao espelho costumam encontrar rugas, peitos caídos, bundas estriadas, coxas de celulite, inconformidades etárias, plásticas mal feitas. Isso nunca me incomodou. Sou virgem destes espelhos. Prefiro outros, que desvelem e não revelem. E eu que não aprecio me ver, enxergo nos outros os reflexos que gosto.
Sinto falta de partos que jamais farei. Sou mãe de filho que parido, não nasceu. Mãe de mim. Os seios, queria-os mais caídos, mais usados. Faço neles a ausência do filho. Queria ser magra para ter menos dores a sofrer. Gorda para suportar melhor a angústia.

Minhas verdades, pavorosas, são descobertas em outros olhos, nunca os meus.
Quem sabe perca a alma se me encontrar no espelho? Quem sabe seja uma Alice do lado de cá? Quem sabe fugindo sempre para fora?
Não sei me ver sozinha, acho que nunca soube. Desta carente solidão onde acabei me aprisionando, o reflexo de meu espelho'.


Registro também um trecho do blog 'lanterna de diógenes' do Caco, baiano de trinta e seis anos, que demonstra a efemeridade das relações atuais:

'Então, por enquanto, sinto que a minha paixão favorita é extinguir paixões. Até alegro-me em vê-las mortas, espalhadas de barriga pra cima ou de bruços pelo chão. E hei de continuar só, barrando a minha esperança, os meus sonhos, só até o dia em que meus golpes, por mais fortes e precisos, não resultem no costumeiro vazio, visto ter encontrado a mais combativa das paixões: talvez... mas... Não! Quem? O que? Ora, paixões... são restos, folhas secas, uma noite de combustão'.

Como se vê, material é o que não falta e certamente o estudo propiciaria uma visão panorâmica, tanto da percepção como da real necessidade afetiva dos homens e mulheres. A crescente troca virtual, aliada à manifestação dos conflitos latentes reprimidos, representam uma boa contrapartida para que se separe o joio do trigo, ou seja, para que se caia a máscara decorrente da imposição dos interesses comerciais que vigoram por aí afora. A Internet tem passado por uma grande transformação e existe a possibilidade de, com o movimento cultural espontâneo que nela desponta, alguns 'engodos' serem repensados. No tocante à negociação amorosa, por exemplo, uma constatação mais realista no que toca à necessidade de cumplicidade e afinidade para uma prática de vida conjugal faz-se necessária. As 'apenas' siliconadas e lipoaspiradas, o visual priorizado em detrimento da complexidade da vida, estas ao invés da cobiça alheia prometida pela indústria da beleza, acordam solitárias, ainda que a dois. Não percebem que os parceiros valorizadores desse 'canto de sereia', são nômades na prática e ausentes no cérebro. Os 'sarados', quando alienados, que transbordam de suor as academias equipadas e ainda surpreendem-se ao serem constantemente traídos, mantêm durante um longo tempo a esperança de encontrar a mulher ideal em razão dos seus desenvolvidos bíceps e tríceps. Isso, entre inúmeros outros aspectos que aqui poderiam ser mencionados prontamente. Afinal, todos demonstram sinais de cansaço, mas não compreendem os motivos das relações mal-sucedidas.

Nos tempos atuais, praticamente ausente a disponibilidade para a escuta, o confessionário da Internet possibilita um discurso preservado e sem interrupções que não as resultantes da própria censura interna. Atentos a esse material, para benefício da compreensão da subjetividade do masculino x feminino com a qual temos nos deparado, certamente obteremos uma série de explicações honestas para essa 'Torre de Babel' afetiva que vem se instalando impiedosamente.

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'Essa menina que um dia você seduz/ e um dia depois / sem mais nem mais, esquece/ ela no fundo é uma boa atriz/ quando beija a sua boca e nada acontece/ Essa menina que você seduz/ agora é uma atriz/ saída de outra peça/ chamada 'Doces Ardis'.../ quando beija a sua boca/ ela começa a fraquejar/ por onde anda a sua mão/ você só quer se aproveitar/ e ela delira/ rodopiando no salão/ os dois parecem um casal/ mas é mentira/ Essa menina pode ir pro Japão/ na vida real/ você é quem enlouquece/ apaga a última luz/ e nos cantos do seu quarto/ a figura fosforesce/ ao som do último blues/ na rádio cabeça/ se puder esqueça/ a menina que você seduz'.'

(Último Blues - Chico Buarque/ 1985)





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