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Ensaios-->Promessa de Natal- Depoimento -- 28/12/2000 - 00:36 (Vânia Moreira Diniz) Siga o Autor Outros Textos
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DEPOIMENTO LITERÁRIO

A Promessa de Natal

Eu tinha dez anos quando meu pai me chamou para falar de minha amiga Mariana, por quem eu perguntava seguidamente. Ela deixara de freqüentar o colégio e me falaram que estava doente e eu não podia vê-la durante algum tempo. Estranhei o modo como diziam isso como dando a entender que não queriam prosseguir o assunto. Nesse dia meu pai falou mais detidamente sobre o que eu queria. Olhando-me com atenção ele perguntou se estava sentindo muita falta de minha amiga:
- Claro, respondi. O que ela tem?
- Está doente. Ficará fora um longo período e vai fazer uma operação na cabeça.
- Por que? O que aconteceu com ela?
Ele contou-me uma longa história dizendo que ela tinha um tumor e precisava curá-lo. Durante todo o período em que não pude ver Mariana rezei e chorei muitas vezes pedindo a Deus que não deixasse minha amiga morrer. Ficava imaginando como estaria e se eu podia vê-la, mas sempre evitavam responder-me. Naquele dia meus pais me chamaram e disseram que finalmente eu ia vê-la
- Quer visitá-la, minha filha?
- Claro que sim. Onde? Ela já está em casa?
- Sim, mas você vai sentir uma diferença em Mariana. Ela teve que raspar o cabelo para a operação e por isso usa um bonezinho. Não se preocupe. O cabelo dela crescerá.
- Com a cabeça raspada? O cabelo dela era tão bonito!
- Era não. É. Vai crescer e voltará a ser o mesmo. Mas não pergunte nada a sua amiga. Só se ela falar antes.
- Está bem. Quero vê-la.
Foi com muita tristeza que avistei a minha colega e notei o quanto estava triste. Seu rosto estava mais magro e abatido, mas continuava lindo e os olhos azuis tão expressivos estavam suavemente marcados por uma tristeza. Usava um boné extremamente charmoso que combinava com a blusa e acompanhando a cor dos olhos o que fazia com que eles ficassem mais perto da cor turquesa. Quando me viu levantou-se vindo abraçar-me e fomos para seu quarto conversar.
- Por que não visitou-me antes?
- Diziam que você não podia receber visitas
- Eu estou com a cabeça raspada. Agora já está crescendo um pouco. Mas me sinto esquisita
- Você está linda. Com esse boné ninguém vê.
- Minha mãe comprou um monte deles. Mas não gosto de saber que estou sem cabelo debaixo deles.
- É só por um tempo. Cabelo cresce logo.
Mariana começou a freqüentar as aulas e todo o colégio a mimava e a tratava com muito carinho. Mas eu sentia que a minha amiga não estava bem. Tinha dores de cabeça e um dia começou novamente a faltar até que minha mãe me contou que ela teria que se operar de novo. Chorei arrasada e nos encontramos dias depois a seu pedido:
- Vânia, Você acha que vou morrer?
Sobressaltei-me enquanto respondia
- Puxa, não fala bobagem. Logo ficará boa.
- Quer fazer uma promessa comigo?
- Sim, qual é?
- É um pedido de natal. Faltam três meses e eu queria ficar boa. Vou doar meu presente. Vou rezar e darei todos os meus presentes para uma criança pobre. Quer reforçar? Você faria isso por mim? Vamos fazer juntas?
Olhei-a penalizada e prometi que faria. E ansiosamente me perguntava se Mariana estaria ali no dia de natal.

2ª PARTE
Durante dois meses Mariana ficou entre a vida e a morte. Não sei exatamente o que ocorria, mas eu não compreendia porque ela passava por tanto sofrimento. Contei à sua mãe a promessa que havíamos feito e Dona Diana revelou uma coragem inigualável.
- Vânia comprarei todos os presentes que Mariana poderia querer. E tenho certeza que no dia de Natal ela estará aqui para distribuir por algumas crianças pobres. Quer ir comigo?
- Quero, vou pedir à minha mãe para comprar também os meus. Eu prometi à Mariana.
- Sim, minha filha, mas é preciso ter fé. Sem ela nada conseguiremos. Promete?
Olhei para a mãe de minha amiga tão linda quanto ela, porém tão triste e me sentia muita penalizada todas as vezes que a via. Sua força, entretanto era incomensurável.
Já tinha falado sobre a promessa com meus pais e eles haviam concordado, mas eu estava tão arrasada que minha fé estava abalada. Às vezes tinha a impressão que Mariana realmente ia morrer e não conseguia pensar em outra coisa.
Os dias se passavam e não me deixavam ir ao Hospital até o dia que minha colega saiu do coma. Ela pediu para me ver e meus pais resolveram que eu teria forças para ajudar Mariana. Ela estava extremamente fraquinha e minhas esperanças tornavam-se mais complexas, porém sua mãe me dissera que tinha certeza de sua recuperação. Nunca vira fé tão inabalável. É como se ela tivesse vendo o futuro. Faltavam vinte dias para o Natal e eu não entendia muito, todavia via todo mundo muito triste. Às vezes notava o pai de Mariana chorando com desespero e perguntei à minha mãe o que estava realmente acontecendo.
- Vou lhe dizer com sinceridade, minha filha. Afinal você está observando tudo. Sua amiga fez essa cirurgia e ficou inconsciente durante algum tempo. Mas agora que está lúcida tudo depende da reação de seu organismo. Se reagir bem poderá ficar boa logo. Mas poderá ocorrer a possibilidade dela piorar.
As lágrimas desciam indiscriminadas pelo meu rosto e então meu pai disse com suavidade:
- Não chore. Precisa ter fé e ajudar Mariana a querer viver, ter ânimo.
Aos poucos Mariana foi adquirindo mais cor e coragem. Já comia melhor, mas ainda ficava quase o tempo todo deitada, entretanto eu notava que cada dia ela parecia se sentir melhor.

3ª PARTE
Quando cheguei ao hospital com minha mãe achei Tia Diana diferente e seu sorriso fez com que eu notasse que algo estava causando aquele entusiasmo. Enquanto arrumava alguns cadernos que trouxera para Mariana, ouvi uma parte do diálogo das duas em que minha tia dizia que a filha ficaria boa definitivamente e que tivera um sonho. E fiquei muito impressionada quando a ouvi dizer:
- A promessa das meninas valeu. Mariana ficará boa, mas o sonho foi claro dizendo que em breve eu ficaria doente.
- Como doente? Perguntou minha mãe.
- É a promessa de natal das meninas. Minha filha voltará a ser o que era.
- Que bom! Ela está reagindo bem?
E entre trêmula e incrédula escutei suas palavras impressionantes:
- Otimamente. O médico está encantado. Mas escute o sonho revelou que eu em breve ficarei doente. A mesma doença de Mariana. Mas até lá veremos.
Trêmula e fria entrei no quarto de minha colega tão querida e a encontrei sentada na cama lendo um livro de histórias que eu tinha mandado para ela na véspera. E olhando para mim com um sorriso que há muito eu não via me falou com alegria
- Entre Vânia vamos arrumar todos as coisas de natal e escolher onde vamos distribuir os presentes. Os resultados de meus exames foram ótimos e estou me sentindo perfeita. Como não acontecia há muito tempo. Por que está tão pálida? Está se sentindo mal?
Olhei-a procurando sorrir enquanto pensava que se Deus ajudasse Mariana estaria boa e o resto do sonho de sua mãe seria apenas insinuada pelo cansaço e tensão em que ela estava.
Nossa promessa foi cumprida e o Natal foi o mais feliz que jamais tivemos, mas a sombra daquelas palavras machucou-me durante meses ininterruptamente. Jamais esquecerei da tristeza e dor que senti com a dúvida a perturbar-me durante muito tempo.

CONCLUSÃO
Vários meses depois Mariana chegou ao colégio acabrunhada e parecia que algo estava acontecendo. Pediu-me que no recreio fôssemos conversar e então me contou que sua mãe não andava bem de saúde. Tinha dores de cabeça incríveis e ela me disse então uma frase que me deixou em transe.
- parece até que está com os mesmos sintomas que eu tive...
- Impressão sua, deve ser uma indisposição. Não fique pensando negativamente. Não faz bem.
Ela olhou-me e parecia pelo seu olhar que estava desolada e totalmente apavorada. Seu rosto bonito revelava uma ansiedade que eu logo captei. Lembrei-me de toda a cena da conversa que eu ouvira e quase podia ter a certeza que Dona Diana estava realmente doente. Mas não queria acreditar.
Tudo evoluiu com exames que comprovaram que ela estava com um tumor no cérebro e que não era benigno.
O sofrimento daquela família não foi suave. Depois que sua mãe se operara Mariana quase não falava. Isolou-se de uma tal forma que parecia estar querendo ficar doente. E muitas pessoas lhe disseram da importância de seu entusiasmo numa doença em que o sistema imunológico para reagir precisa ao lado de tratamento físico, de boas condições psicológicas.
A quimioterapia como quase sempre trágica deixou Dona Diana anêmica e várias transfusões de sangue precisaram ser feitas. Mas em nenhum momento a jovem mulher mostrou estar sem forças.
Seu lindo rosto expressivo agora abatido pelo mal procurava se animar e a falta de cabelo disfarçada por um turbante faziam com que as pessoas íntimas que lhe viam chorassem escondido.
Depois de seis meses de sofrimento, A mãe de Mariana foi subjugada pela fraqueza da própria da doença e já nos últimos momentos transmitiu ao marido segundo eu soube muito tempo depois que se despedia feliz porque deixava em seu lugar a filha e seu vasto caminho, mesmo que ela não pudesse acompanhar a vida de Mariana pelo menos nesse plano.
A garota sofreu muito e os poucos e lentamente foi se recuperando, mas jamais esqueceu esses meses tormentosos, embora tenha consciência que sua mãe morrera realizada pela concretização da Promessa de Natal.

Vânia Moreira Diniz
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