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Ensaios-->A Doença Civilizada -- 20/05/2000 - 22:05 (André Mellagi) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
'Há muitas maravilhas, mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o homem'. Assim principia o louvor às conquistas do homem sobre as dificuldades da natureza no coro de Antígona, peça escrita pelo poeta grego Sófocles. O homem é o grande artesão do seu mundo; sua capacidade atual de aperfeiçoar o seu lugar e si mesmo não encontra similares no passado. O avanço científico conseguiu maximizar as potencialidades humanas. Sua voz pode ser escutada em qualquer canto do mundo via satélite; imagens são instantaneamente veiculadas nos noticiários da televisão. O braço do homem se estende no guindaste, seu olhar atinge supernovas amplificadas pela lente. Mas o campo onde o trabalho técnico e intelectual atua que quero discutir é a saúde. A medicina e a biologia muito contribuíram para o conhecimento dos organismos. A partir destes conhecimentos, elaboram-se técnicas especializadas de manutenção e aprimoramento da vida. Os prognósticos revelam curas de determinadas doenças, a tendência à longevidade continua sendo estampada nas capas de revista. Olhamos para as futuras gerações como se caminhassem, seguindo os passos das descobertas científicas, aos tempos do Gênesis bíblico quando os homens duravam centenas de anos. Alimentos vitaminados e com baixo colesterol são produzidos nas indústrias alimentícias de acordo com os padrões exigidos para uma boa nutrição. Tecnologia de máquinas de ultra-sonografia, aparelhos de cirurgia a laser, todos são um instrumental muito útil para o alcance de um diagnóstico e de uma intervenção propiciadora de bem-estar. No entanto, à medida em que a civilização avança patamares mais complexos de descoberta e controle sobre o ambiente, erradicando pestes e saneando o corpo humano, uma doença de múltiplos sintomas vem se produzindo em meio ao tão festejado progresso. Chamarei esta doença de doença civilizada.

A doença civilizada não é nada que não conheçamos. Possui, porém, uma gama muito grande de aspectos e formas, que podem acometer principalmente o indivíduo morador dos grandes centros urbanos. O fato curioso é que, mesmo estando a par dos instrumentais da medicina moderna, possuindo condições para tal, em muitos casos estes instrumentais estão voltados à cura dos males provocados pela mesma civilização que os criou. Fabricamos o carro para se chegar mais rápido a um local desejado; mas o congestionamento dos grandes centros emperra a sua função. Máquinas industriais aceleram a fabricação de artefatos em linhas de montagem; mas ainda é necessário que um trabalhador exerça sua monótona tarefa em uma parcela mínima do processo de produção. Para se obter o ingresso nestas maravilhas da civilização, costuma-se pagar um preço alto. Muitos vivem em trabalho estafante e perdem a propriedade do significado de suas tarefas. O ritmo acelerado da produção, dos lances financeiros e do mercado especulativo, exigem um sacrifício capaz de mascarar o próprio sofrimento, pois apenas sobrou as horas do dia reservadas à telenovela, ao futebol, aos paraísos artificias. Vivemos não mais para nós mesmos, mas para as coisas que criamos.

Podemos notar que a doença se alastra através do avanço técnico como um todo. Quando a razão não acompanha mais a vontade do ser racional, transforma-se em fórmula impessoal, modelo aplicável em qualquer situação. As exigências diárias alimentam o stress e a fadiga. As doenças cardiovasculares tornaram-se o fantasma inconveniente que devemos aprender a conviver; corta-se o cigarro (o amparo sufocante antes e depois das provações), a carne vermelha. Nossa dieta e conduta são regradas para que suportemos o peso das necessidades. Uma grande quantidade de cidadãos sofrem de pressão alta devido à ansiedade, à alimentação inadequada e rápida. Pois, como assim descreveu Freud o mal-estar na civilização ao expor o conflito entre o indivíduo desejante e a sociedade repressora, esta luta também se trava entre o ritmo cronobiológico da pessoa e os horários estipulados para comer, trabalhar, dormir, entreter. Muito estranho ainda pensar uma divisão entre os conhecimentos pois, abandonando os compartimentos sobre os quais foi distribuído, o biológico se mescla com o social, com o psíquico, com tantas outras divisões que esquecemos de ver o homem na sua totalidade. Assim expande a doença civilizada na vida do homem moderno: ataca o estômago, talvez fosse o churrasco de ontem e a bebida. O preço desta sobe, ou não é o bastante. As brigas diárias com a árvore do vizinho desconcentra o aborrecimento da úlcera; talvez um prozac alivie ao menos a angústia durante a hora do trabalho.

O stress desregula o sistema imunológico, o sedentarismo debilita a força vital. Os casos de mulheres que dão à luz por parto normal rareiam. Até que ponto nossa ânsia por segurança e conforto não nos prejudica? Pois a doença civilizada produz-se também na assepsia que torna o indivíduo alérgico ao mundo. A vacina funciona pois é o veneno enfraquecido que fortalece o corpo. Não podemos almejar que possamos viver em laboratórios, dado que um mundo em constante troca nós habitamos e ainda não encontramos o remédio para a morte. Mas por causa desta impotência não precisaríamos recorrer ao suicídio. Como dizia Artaud, é apenas uma hipótese...

Muito se sabe dos resultados mais benéficos nos tratamentos de prevenção de doenças do que a medicação destas. Porém, a doença civilizada costuma-se acomodar no encurtamento da visão a longo prazo, tamanha a velocidade flagrada em que as coisas correm quando a mente desperta nos dias de hoje. Defrontar as possíveis conseqüências da cega produção industrial é uma ação rotineiramente adiada. Nos países desenvolvidos, muitos movimentos de ONGs e outras manifestações conseguem alarmar quanto aos perigos que ameaçam o meio ambiente. Mas o alcance destas repercussões ainda está longe de promover mudanças drásticas.

Esperamos portanto que o diagnóstico da doença civilizada investigue o cancro que toma conta tanto do corpo como do espírito e mundos cultural e natural. Uma autocrítica sobre o nosso agir, sobre a produção da doença. E, se mesmo impossível desvencilhar do mal-estar, não há motivos para agravá-lo.

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