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Artigos-->Um conto de Lygia Fagundes Telles à luz da Psicanálise -- 26/02/2011 - 16:50 (Alzira Chagas Carpigiani) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
A união entre psicanálise e literatura costuma gerar bons frutos para o universo das pesquisas. Esse é o caso do objeto de estudo deste trabalho, o conto de autoria de Lygia Fagundes Telles, intitulado Verde Lagarto Amarelo, cuja temática explora os sentimentos desequilibrados, que funcionam como barreira para separar dois irmãos: Rodolfo, o mais velho, e seu irmão mais novo, Eduardo.

O objeto central do conflito, alimentado pela rivalidade e pelo ciúme sentidos por Rodolfo em relação a Eduardo, é a figura materna. Uma mãe que nutria sentimentos contraditórios por seus dois filhos. Eduardo, ela aceitava por conta da beleza física e das demais qualidades &
9472; com as quais parecia se identificar, por evocarem a ordem e a limpeza &
9472; e Rodolfo, ela rejeitava por ele não ser bom, limpo e magro, características que a narrativa nos leva a acreditar que ela valorizava exageradamente, e que por sua vez, permite-nos considerar também a existência de possíveis sintomas neuróticos presentes nela.

Dessa forma, temos uma figura materna na qual se sobressai um caráter negativo, funcionando como elemento castrador em vez de orientador. Sua atuação tende a reforçar em Rodolfo as características que o aproximam, fantasiosamente, de um lagarto, um ser primitivo, um “bicho venenoso, traiçoeiro, malsão”, que não é digno de afeto ou contato físico e que, por conta disso, vê alimentada em si a ferocidade de seu id, que não lhe permite, apesar de ser adulto, alcançar a maturidade ideal.

É pelo discurso narrativo de Rodolfo, um narrador em primeira pessoa, que o leitor tem acesso aos mecanismos de defesa que a personagem utiliza numa tentativa, quase sempre frustrada, de reprimir sua raiva. A somatização é o mecanismo de defesa mais relevante da narrativa, na qual Rodolfo se destaca, de acordo com seu próprio julgamento, pela obesidade e pela transpiração excessiva, que encharca suas roupas o tempo todo, principalmente diante da dificuldade em lidar com a presença física do irmão, que além de não lhe permitir esquecer a infância &
9472; estágio onde está situada a origem de sua neurose &
9472; força-o também, involuntariamente, a despeito de ser o filho mais velho, a ocupar uma situação de inferioridade na constelação familiar.

Ainda em relação ao suor excessivo, parece-nos pertinente acrescentar que “Quando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos.” (MOTSLOY apud Zimmerman, 1999, p. 239). É interessante observar que o maior órgão do corpo humano é a pele e é através desse órgão que Rodolfo, numa reação psicossomática, “chora” toda vez que se vê exposto ao objeto que lhe aviva a antiga dor.

O ato de escrever torna-se, então, a única forma de Rodolfo se aproximar de algo que talvez pudesse conduzi-lo à sublimação de suas dores. Ele usa a literatura como último recurso para encontrar a gratificação de seus impulsos reprováveis e é por isso mesmo que, talvez, ele a preserve com tanta mesquinhez.

Entendemos que é através da interação social que o indivíduo cresce e se estrutura enquanto sujeito; nesse conto, no entanto, a literatura também funciona como justificativa do isolamento afetivo de Rodolfo, que opta por se afastar do irmão, incapaz de compreender a dimensão de seu sofrimento, por não ter vivenciado os mesmos conflitos na infância. Eduardo, ao contrário de Rodolfo, sempre se sentiu adequado à família e dos pais recebeu os estímulos necessários para o desenvolvimento sua personalidade.

A narrativa não propõe um final terapêutico para Rodolfo, que vê o último bem que lhe resta ser usurpado por Eduardo. Este &
9472; influenciado pelo irmão que admira &
9472; conclui seu primeiro romance e espera que Rodolfo faça uma avaliação crítica, provavelmente favorável como de costume, de sua criação literária.

O que vem a seguir na narrativa permanece em aberto. Pode ser que os desejos conscientemente inaceitáveis de Rodolfo sejam, por fim, canalizados para alternativas socialmente mais aceitas... &
9472; ou não &
9472; isso com certeza dependerá, como acontece também na vida do ser humano real, do desempenho de seu aparelho psíquico e da interação resultante entre seu Id, Ego e Superego.



REFERÊNCIAS:

TELLES, Lygia Fagundes. Os Melhores Contos. São Paulo: Global, 1985.

BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

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