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Cordel-->SUBSTRATO DE IMPROVISO -- 08/07/2003 - 18:16 (José de Sousa Dantas) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
SUBSTRATO DE IMPROVISO

Repentistas: João Paraibano (JP) e Severino Feitosa (SF)
Cantoria em João Pessoa - PB, em 05/07/2003

Temas desenvolvidos pelos repentistas:

·O meu barco de ilusão
·Uma viagem ao sertão
·Outras facetas da vida
·Do que estava traçado em meu destino, eu tentei me livrar, não consegui
·KAROL nasceu para ser esbelta, sabida e bela
·Na mesa dos CAMBOIM, eu me sinto muito honrado
·Se não fosse a viola, o que seria dos lamentos do povo do sertão
·Fazenda Nova Esperança trouxe pra família a Paz
·Vejo a última esperança se queimando na fogueira da seca nordestina
·Meu curral ainda chora a morte de Azulão
·Dez irmãos, pai e mãe, beirando a mesa, pra jantar no clarão da lamparina
·Pra mim você é presente que a natureza me deu
·Eu quero viver do tanto dos anos que pai viveu
·Não me canso de ouvir cantoria desse jeito
·O trovão tem o som desafinado, mas eu gosto da música de trovão
·Coqueiro da Bahia

O MEU BARCO DE ILUSÃO
João Paraibano (JP) e Severino Feitosa (SF)

SF
Nunca desisti de nada,
sempre foi minha missão,
estou voltando à ativa,
como já fiz no sertão,
para não perder o vínculo
COM A MINHA PROFISSÃO.

JP
Eu estou na obrigação,
qu’eu já tenho de rotina,
patrão carrasco não poupa,
escravo não se domina,
e pobre só acha descanso
depois que a vida termina.

SF
A guerra não me fascina,
nem eu temo ao estopim,
eu me sinto é no começo,
não acredito no fim,
que as coisas que me assustam,
passam por longe de mim.

JP
Foi por isso que eu vim,
pra defender meu esporte,
arrancar sonhos do peito
e sacudir nas mãos da sorte,
para ver se realizo
antes da hora da morte.

SF
Eu sempre me fiz de forte,
para fugir do estresse,
abraçar quem me abraça,
conhecer quem me conhece,
para evitar atropelos,
que a vida nos oferece.

JP
A mão de DEUS já conhece
quais são os desejos meus,
e a vontade que eu tenho
de seguir os passos Seus,
QUE O ATRASO NÃO DOMINA
AOS SEGUIDORES DE DEUS.

SF
Eu conduzo os sonhos meus,
como a primeira jazida,
oratório que é dos anjos
ou peça de Deus polida,
conduzindo todos os sonhos
do horizonte da vida.

JP
Com matéria combalida,
eu vou gastando energias,
cansando as pernas humanas,
na curva das rodovias,
QUEM VAI PENSANDO EM TRAZER,
NÃO VOLTA DE MÃOS VAZIAS.

SF
Eu fui junto a noites frias,
pra ficar o clima ameno,
E AONDE TEM UM GIGANTE,
EU NÃO ME SINTO PEQUENO,
precisa ser tempestade,
que eu não temo a sereno.

JP
Eu nunca escolhi terreno,
na hora de percorrer,
que a ave só abre o bico,
pra cantar ou pra comer,
E EU QUERO ABRIR PRA CANTAR,
PRA NÃO CHORAR SEM QUERER.

SF
Eu nunca penso em morrer,
pra lhe falar a verdade,
esta semana plantei,
na minha propriedade,
um angico de tristeza,
pra o lambedor de saudade.

JP
Dentro da grande cidade,
saio rondando a favela,
abro a toalha da noite,
me escondo debaixo dela,
MINHA ILUSÃO É TÃO LINDA,
QUE EU QUERO MORRER COM ELA.

SF
Até mesmo a minha goela,
com o trabalho se cansa,
a velhice me acompanha,
mas me sinto uma criança,
PORQUE MINHA VOZ NÃO CHEGA
ONDE A MINHA VISTA ALCANÇA.

JP
Sei que não sou mais criança,
mas que me sinto seguro,
vou me esquecer do ontem,
para esperar o futuro,
que tendo um resto de vela,
eu não morro no escuro.

SF
Sempre caminho seguro
sem ganância e sem poder,
na cozinha lá em casa,
eu ouvia mãe dizer,
quem aprendesse a jogar,
era difícil perder.

JP
Pra gozar ou pra sofrer,
quero lutar satisfeito,
fazer da viola escrava,
botar em cima do peito,
e entrar nas guerras da vida,
defendendo o meu direito.

SF
Eu nunca me aproveito
de algum momento mesquinho,
não tendo o melhor wisky,
pois bebo qualquer vinho,
sempre prefiro a estrada,
que não me nega o caminho.

JP
MEU SONHO É CANTAR NO PINHO
AS CANÇÕES QUE DEUS COMPÔS,
mãe partiu pra outra vida,
pai tá pra partir depois,
e enquanto eu estiver vivo,
canto a saudade dos dois.

SF
Se o destino me impôs,
mas conquista eu me afino,
uma nova abertura
para mim vem do divino,
porque não vou ser contrário
aos sonhos do meu destino.

JP
Estou como um peregrino,
travessando poço e praça,
a boca bebendo o pão,
com a mão que o pão amassa,
escravizando a matéria,
pra alma viver de graça.

UMA VIAGEM AO SERTÃO
João Paraibano (JP) e Severino Feitosa (SF), em 05/07/2003

JP
Quando a imagem da tarde
parte sem dizer pra onde,
caboré solta um pio,
depois o outro responde,
a luz da lua vasculha
todo o quanto a terra esconde.

SF
O pássaro procura a fronde,
depois que voa de bredo,
se não teme a ventania,
mas no escuro tem medo,
primeiro faz a pesquisa
escolhendo um arvoredo.

JP
Um menino chupa o dedo,
com a barriga vazia,
um cego dobra a mochila,
esfrega a mão na bacia,
revoltado com os “perdoe’s”
que escutou durante o dia.

SF
No pátio da moradia,
um garrote se anima,
um cachorro junta as patas,
bota a cabeça por cima,
para aquecer o nariz,
com a mudança do clima.

JP
O sereno cai por cima
da rosa pra não morrer,
na última venda da esquina
se vê um ébrio pender,
lavando o peito com água,
pra solidão não doer.

SF
Bodegueiro não quer ler
a fraca caligrafia,
mas mexe nos caçuás,
botando a mercadoria,
que foi a sobra da feira,
que ele fez naquele dia.

JP
Namorando, o gato mia
na cumeeira das casas,
o céu acende as estrelas,
o fogão apaga as brasas,
a galinha esconde o pinto
na dependência das asas.

SF
O sol como cor de brasas,
e agora está diferente,
com a presença da noite,
ela muda de ambiente,
discursando de gravata
na janela do poente.

JP
Um bezerro impaciente,
berra pensando em mamar,
a ressonância dos ventos
faz a onda se agitar,
caçando um anel de prata,
que a lua perdeu no mar.

SF
A mãe vai no alguidar,
sem sentir uma aperreio,
bota o prato do menino,
pra ficar com bucho meio,
na dele bota pouquinho.
e a do marido é mais cheio.

JP
A mãe bota fora o seio,
para o pagão se nutrir;
uma formiga de roça
abre estrada pra seguir,
levando uma rosa morta,
que o galho deixou cair.

SF
Antes de se despedir,
o sol muito tremeluz,
ficam os raios flutuantes,
que o seu corpo produz,
como diz, sou eu que mando
no planeta com a luz.

JP
Um cachorro lambe o pus
de um ferimento inflamado,
um bico de luz vermelha
mostra um cortiço alugado,
onde as loucas de honras sujas
correm pra fazer pecado.

SF
O cavalo já cansado,
que cochila na cancela,
espera pelo seu dono,
para trazer sua sela,
além de arrochar a cilha,
depois inda monta nela.

JP
Já quem travessa favela
tem as armas criminosas,
por dentro do esmo passam
as brisas silenciosas,
tiram o sereno das nuvens,
sacodem em cima das rosas.

SF
As pétalas de muitas rosas,
que recebem vaga-lume
sendo os últimos vigilantes,
que têm em cima do cume,
o vento depois que passa,
leva pra longe o perfume.

JP
Num curral cheio de estrume,
uma vaca impaciente,
fica cavando e berrando,
passando o língua no dente,
SENTINDO A FALTA DO FILHO
DO JEITO DA MÃE DA GENTE.

SF
No hospital, o doente,
sem tomar sopa ou maçã,
só recebe a enfermeira,
que é sua guardiã
diz, ah meu Deus será que
estarei vivo amanhã.

JP
Descascando uma maçã,
em falso o pinguço pisa,
fala na dose de cana,
com sua algibeira lisa,
depois sai limpando a boca
com o colarinho da camisa.

SF
Chapeado sem camisa,
tem a meia e o calção,
fica esperando na rua,
descarregar caminhão,
que é também trabalhador,
sem carteira e sem patrão.

JP
NAS CASAS DO SERTÃO,
que esse povo foi criado,
é quando a galinha choca
com o papo dependurado,
esconde os filhos debaixo
de um caçuá emborcado.

SF
No curral de pouco gado,
a fartura é permanente,
a vaca dá muito leite,
deixa o bezerro contente,
e o touro fica feliz,
porque não tem concorrente.

JP
Uma fruta sem semente
tomba de cima do cacho,
quando o peba escabreado,
sai travessando o riacho,
cava três palmos de areia,
procura o que tem debaixo.

SF
As espumas dum riacho,
que parecem com um pano,
são levadas com a força
DO DEDO DO SOBERANO,
depois vão se desmanchar
NA BOCA DO OCEANO.

JP
Em algum poço artesiano,
um cururu se apossa;
chega um matuto da feira,
passa a água na mão grossa,
senta na mesa da janta,
e solta o cavalo na roça.

SF
Na hora que a chuva engrossa,
a terra não tem poeira,
quem volta para o casebre,
aumenta sua carreira,
para escutar na rede
A CANTIGA DO GOTEIRA.

JP
A traíra nadadeira,
busca a água num regato,
na casa de um povo pobre,
onde o comer é barato,
a colher toca um baião,
tocando o fundo do prato.

SF
É nessa hora que o gato
vai se esconder também
na quentura do fogão,
da panela de xerém,
termina fechando os olhos
pra não enxergar ninguém.

JP
Na boca que a noite vem,
vê-se o sereno cair,
a camponesa pra o quarto
fica pensando de ir,
tira a fita do cabelo,
reza um terço e vai dormir.

SF
O filho para sair,
um pedido a mãe faz,
mas ela diz, vá e venha,
com seus colegas leais,
se passar da meia noite,
eu mando o pai ir atrás.

JP
Onde passa um peba, atrás
um cão de caça rasteja;
a flor da jurema preta,
como capela de igreja,
fazendo chão ficar branco,
embora a terra não seja.

OUTRAS FACETAS DA VIDA

SF
Eu comecei muito alto,
quase caí do balanço,
e agora vou devagar,
da maneira de um boi manso,
que pra subir o topete,
primeiro toma um descanso.

JP
Se avança, eu avanço,
mas parando a embalagem,
eu ando de passos lentos,
dependendo da coragem,
não é só correndo muito,
que se tira uma viagem.

SF
Pra carregar a bagagem
não precisa correria,
se der grito no chiqueiro,
o pato se distancia,
CRAQUE QUE NÃO FAZ A MIRA
NÃO ACERTA A PONTARIA.

JP
Se me sobra uma fatia,
não vou pedir do seu bolo,
para o sábio eu sou doutor,
mas pra o matuto eu sou tolo,
que a parede sem prumo
é ruim de sentar tijolo.

SF
Eu sei que existe tolo,
para fazer confusão,
quem não conhece o trabalho,
não chega na conclusão
em FOJO que possui cobra,
é doido quem bota a mão.

JP
Nem sequer por confusão,
eu dou verdade a mentira,
quem tira leite de jia,
pois muito pouco suspira,
tem mais cuidado nos olhos,
do que no leite que tira.

SF
É por isso que a mentira,
sempre foi um desalento,
riqueza pode sobrar
na casa do avarento,
MAS NINGUÉM ALCANÇA AS NUVENS
SEM O TRANSPORTE DO VENTO.

JP
Pra que o rico avarento
pensar tanto no dinheiro,
esquecer da morte ingrata
e do suspiro derradeiro,
QUE PRA SE ALCANÇAR O CÉU,
POIS TEM QUE MORRER PRIMEIRO.

SF
Nem poder nem o dinheiro,
deixa o corpo tão forte,
cada um tem um destino,
pega no mesmo transporte,
porque só temos certeza
do extermínio da morte.

JP
Eu não reclamo da sorte
nem da crise que ameaça,
nem entro em luta dos outros,
para me ferir de graça,
quem passa pé pela mão,
só dá fé depois que passa.

SF
A vida da gente passa,
nessa grande correria,
cada trabalho é um pique,
que leva nossa energia,
e o resultado é depois
do saldo do outro dia.

JP
Na luta do dia a dia,
cada um que fique atento,
depois do leproso morto,
esqueça do ferimento,
quem botar mercúrio em cima
estrói o medicamento.

JP
Na hora que a morte vem,
bota primeiro uma ceva,
a matéria cambaleia,
ficam os olhos cor de treva,
quem tiver fortuna deixa,
quem tiver ouro não leva.
...........

JP
Não vejo ninguém seguro,
que a morte é traiçoeira
quem surgiu do pó da terra,
tem que voltar pra poeira,
que a vida todos desejam
e a morte não tem quem queira.

SF
Hoje a minha carreira,
terá que ser devagar,
um descanso na subida,
paro em qualquer lugar,
preciso do mesmo corpo
no momento que voltar.

JP
Cada olho é como o mar
com pranto apagando o riso,
quanto mais a cruz pesada
nos ombros do indeciso,
mas a alma fica leve
pra voar pra o paraíso.


DO QUE ESTAVA TRAÇADO EM MEU DESTINO,
EU TENTEI ME LIVRAR, NÃO CONSEGUI
Mote de Arimatéia

SF
Toda história da vida é diferente,
cada um tem um rumo ou um caminho,
que dá vôo igualmente um passarinho,
para ter a história permanente,
eu do sítio já fui um residente,
desbravando sertão ou cariri,
hoje em dia eu estou vivendo aqui,
sem curral, sem cavalo e sem turino.
Do que estava traçado em meu destino,
eu tentei me livrar, não consegui.

JP
Eu que sou sertanejo e corajoso,
vou voltar pra o antigo pé de serra,
se eu fosse trair a minha terra,
pois seria um covarde e criminoso,
sei que existe político mentiroso,
só que eu até hoje não menti,
tudo o quanto na vida eu construí,
foi com lágrima do sangue a sol a pino.
Do que estava traçado em meu destino,
eu tentei me livrar, não consegui.


KAROL NASCEU PARA SER ESBELTA, SABIDA E BELA
Mote de Ramalho

SF
Nós temos na cantoria,
uma bonita criança,
com sinais de esperança,
que só fluidos irradia,
Fátima é a companhia,
que se doa, para ela,
Zé Carlos é pai que zela,
lhe dando todo prazer.
Karol nasceu para ser
esbelta, sabida e bela.

JP
Oh meu Deus que maravilha,
peço a Deus que lhe acompanhe,
vendo o semblante da mãe,
tou vendo o rosto da filha,
cada olho dela brilha,
qual uma estrela amarela,
morena cor de canela,
que enche a mãe de prazer.
Karol nasceu para ser
esbelta, sabida e bela.

SF
Brinca com outros guris,
na escola não se atrasa,
é o brinquedo da casa,
que deixa o casal feliz,
não existe uma atriz,
pra ser linda como ela,
a que aparece na tela,
pra ela só vai perder.
Karol nasceu para ser
esbelta, sabida e bela.

JP
Sua mãe disse assim,
com sorriso encantador,
Karol é a minha flor,
que enfeita o meu jardim,
se ela nasceu de mim,
a minha vida está nela,
santa da minha capela,
que faz o meu sol nascer.
Karol nasceu para ser
esbelta, sabida e bela.

NA MESA DOS CAMBOIM, EU ME SINTO MUITO HONRADO
Mote de DANTAS

JP
Com todo gosto, eu preciso
cantar o tema de DANTAS,
que ama o som das gargantas,
e um verso de improviso,
está contemplando o riso
de Arimatéia ao seu lado,
e Orlando que é respeitado,
que gosta dele e de mim.
Na mesa dos CAMBOIM,
eu me sinto muito honrado.

SF
Tem bebida e tem café,
tem viola e poesia,
tudo o que a gente queria
para aumentar nossa fé,
não queria estar de pé,
queria ficar sentado,
depois que fui convidado,
foi que pra sentar eu vim.
Na mesa dos CAMBOIM,
eu me sinto muito honrado.

SF
Eu logo cedo cheguei,
pra ouvir os cantadores,
reduzirem as minhas dores,
não é que amenizei!
Toda hora observei,
com os colegas de lado,
fiquei emocionado,
no abrilhantado festim.
Na mesa dos CAMBOIM,
eu me sinto muito honrado.

JP
Muito obrigado a Orlando,
homem de tanta idéia,
primo de Arimatéia,
que está nos escutando,
DANTAS parabenizando,
que se encontra ao nosso lado,
eu fico prestigiado.
quando estou com time assim.
Na mesa dos CAMBOIM,
eu me sinto muito honrado.

SE NÃO FOSSE A VIOLA, O QUE SERIA
DOS LAMENTOS DO POVO DO SERTÃO
Mote de Zé Costa

JP
A viola é a flor da minha planta,
no momento que durmo, ela me acorda,
admiro o baião de cada corda,
misturado com os gritos da garganta,
a viola tem cinta como santa,
enfeitando um andor de procissão,
passa a noite gemendo em minha mão,
completando o meu pão de cada dia.
Se não fosse a viola, o que seria
dos lamentos do povo do sertão.

SF
Nosso povo não vai se divertir,
de Campina, de Patos, Coxixola,
sem ouvir o baião de uma viola,
de Cardoso cantando com Valdir,
sem ouvir Bastião ou Moacir,
vai ficar muito triste esse torrão,
como é que se ouve uma canção,
se acabando viola e cantoria.
Se não fosse a viola, o que seria
dos lamentos do povo do sertão.

JP
Entendi que nasci para cantar,
sou liberto da forma de um canário,
eu sou pobre e me julgo um empresário,
defendendo a cultura popular,
quando canto um galope a beira-mar,
um martelo, sextilha ou um mourão,
como é lindo inspirar-se num baião,
num poema ou Coqueiro da Bahia.
Se não fosse a viola, o que seria
dos Lamentos do povo do sertão.

JP
A viola que amo a todo instante,
eu não posso esquecer essa viola,
é com ela que eu cruzo a fazendola,
me tornei pois até Judeu berrante,
o seu corpo me serve de amante,
sua capa me serve de colchão,
o seu braço machuca a minha mão,
mas sou franco na sua companhia.
Se não fosse a viola, o que seria
dos lamentos do povo do sertão.

JP
Eu dou muito obrigado à natureza
e à viola que estou tocando nela,
esse grito que tem minha goela,
e essa voz que liberto estando presa,
quando quero fartura em minha mesa,
troco noites de sono pelo pão,
quando quero ouvir som, toco um baião,
quando quero um repente, a mente cria.
Se não fosse a viola, o que seria
dos lamentos do povo do sertão.

(Muitos Aplausos).

FAZENDA NOVA ESPERANÇA TROUXE PRA FAMÍLIA A PAZ
Mote de Bosco Camboim

SF
Foi Bosco que disse assim,
não é força da bebida,
que hoje está muito unida
a família Camboim,
hoje em dia é um jardim,
repleto de roseirais,
tudo isso foi capaz
depois da grande mudança.
Fazenda Nova Esperança
trouxe pra família a Paz.

JP
O pasto é cheio de trilha,
quanto mais vive, mais cresce,
pelo dia, o sol aquece,
pela noite, a lua brilha,
tem bezerro e tem novilha,
de vinte arrobas ou mais,
touro solto nos currais,
tem vaca braba e tem mansa.
Fazenda Nova Esperança
trouxe pra família a Paz.

SF
A paz foi como oferta,
que pra família chegou,
todo mundo se enlaçou,
sentindo a alma liberta,
hoje tem a porta aberta,
para as visitas normais
e os que eram rivais,
comungam nessa aliança.
Fazenda Nova Esperança
trouxe pra família a Paz.

JP
Fazenda cheia de amigos
meu Deus que brisa bonita,
não está faltando visita
dentro dos nossos abrigos
os que já foram inimigos,
já hoje não são rivais
ninguém não fala em punhais,
mas cachaça, farra e dança.
Fazenda Nova Esperança
trouxe pra família a Paz.

VEJO A ÚLTIMA ESPERANÇA SE QUEIMANDO
NA FOGUEIRA DA SECA NORDESTINA
Mote de Ramalho e Zé Costa

SF
A mudança no ato a gente faz,
atendendo a Zé Costa e a Ramalho,
como um boi que está no cabeçalho,
procurando comida em vegetais,
o inverno depois que se desfaz,
pra o nordeste aparece uma ruína,
no momento que a seca se inclina,
muita gente por lá fica chorando.
Vejo a última esperança se queimando
na fogueira da seca nordestina.

JP
Como é triste se olhar para o sertão,
que se vê pelo chão folha caindo,
já não tem o relâmpago se abrindo,
nem estalo bonito do trovão
sabiá não encontra mais melão
na estrada e na cerca de faxina,
nenhum veio no poço mais não mina,
só tem lágrima do povo derramando,
Vejo a última esperança se queimando
na fogueira da seca nordestina.

JP
O baixio se encontra sem ervança,
a campina já está ficando rala,
cada furo na terra é uma vala,
onde está se enterrando uma esperança,
como é triste se ver uma criança,
sem direito a uma papa de arrozina,
não tem leite que incha a teta fina,
a criança e a mãe ficam chorando.
Vejo a última esperança se queimando
na fogueira da seca nordestina.

JP
Só facheiro no cocho o gado come,
para o bode não tem mais jitirana,
essa seca perversa e desumana,
do sertão tá roubando o próprio nome,
um boi magro trambeca com a fome,
passa sede sem água na campina,
com espinho escanchado em sua crina,
uma perna mais fraca, outra mancando.
Vejo a última esperança se queimando
na fogueira da seca nordestina.

MEU CURRAL AINDA CHORA A MORTE DE AZULÃO
Mote de Celso Soares

JP
Tristonho disse pra gente,
meu boi morreu no vergal,
não sei se foi cascavel,
que tem peçonha no dente,
falta d’água e sol quente,
se foi tingui na ração,
só sei que encontrei no chão,
o meu boi morto na flora.
Meu curral ainda chora
a morte de Azulão.

JP
Foi ele um dos animais
dos mais bonitos da praça,
que era um touro de raça,
que enfrentava os cipoais,
era manso e nunca mais
vai ouvir som de cocão,
nem vai sentir o ferrão,
furando a pele por fora.
Meu curral ainda chora
a morte de Azulão.

JP
Chorei quando vi o touro
morrendo em cima da rampa,
nem sequer tirei a campa,
e nem espichei o couro,
apenas caí no choro,
nas quebradas do sertão,
olhando pra criação,
lamentando toda hora.
Meu curral ainda chora
a morte de Azulão.

DEZ IRMÃOS, PAI E MÃE, BEIRANDO A MESA,
PRA JANTAR NO CLARÃO DA LAMPARINA
Mote de Isaías Camboim

SF
Eu convido meu companheiro João,
pra cantar esse mote de Isaías,
que é fonte de lindas poesias
é espírito de muita inspiração,
é um filho da nossa região,
tem o sangue da raça nordestina,
é também de família campesina,
disse agora pra gente com certeza
Dez irmãos, pai e mãe, beirando a mesa,
pra jantar no clarão da lamparina.

JP
É um filme de tela sertaneja,
que eu venho assistindo do passado,
ver papai regressando do roçado
minha mãe regressando da igreja,
ao invés de wisky ou de cerveja,
uma jarra de leite, a vitamina,
a tigela de arroz ou de arrozina,
todos doze saudando a natureza.
Dez irmãos, pai e mãe, beirando a mesa,
pra jantar no clarão da lamparina.


PRA MIM VOCÊ É PRESENTE QUE A NATUREZA ME DEU
Mote de Dantas

SF
Essa festa nordestina
feita de nossas gargantas,
tem o nosso amigo DANTAS,
que noutro mote se inclina,
não sei se é pra menina,
que gosta do beijo seu,
sei que ele ofereceu
este mote diferente
Pra mim você é presente
que a natureza me deu.

JP
O seu riso encantador
é rosa que me levanta,
o seu olhar é de santa,
e eu servindo de andor,
essa semente de amor,
que eu plantei e nasceu,
mas antes Jesus benzeu
o embrião da semente.
Pra mim você é presente
que a natureza me deu.

EU QUERO VIVER DO TANTO DOS ANOS QUE PAI VIVEU
Mote de Isaías Camboim

SF
Foi ele o craque da vez,
que brilhou tanto no escrete,
morreu em noventa e sete,
só tinha noventa e seis,
tantas viagens que fez
no sertão que é seu e meu,
para ser feliz, viveu,
para a família era um santo.
Eu quero viver do tanto
dos anos que pai viveu.

JP
Odilon Nunes de Sá
me fez pagar por seu busto,
se o céu é lugar de justo,
eu sei que pai está lá
ao lado de Jeová,
Maria e o Galileu,
pra mim pai não faleceu,
apenas mudou de canto.
Eu quero viver do tanto
dos anos que pai viveu.

JP
Quando papai se apagou,
mamãe inda ficou nova,
seu corpo baixou pra cova,
a alma pra o céu voou,
rezou mais do que pecou,
ganhou mais do que perdeu,
subiu, mas depois desceu,
que essa vida é por enquanto.
Eu quero viver do tanto
dos anos que pai viveu.

JP
Pai viveu da fazendola,
como um dos nordestinos,
colocou seus dez meninos
na bancada da escola,
com repente e com viola,
criou cada filho seu,
da riqueza que nos deu
inda hoje almoço e janto.
Eu quero viver do tanto
dos anos que pai viveu.

JP
A gente já atendeu
parte da comunidade,
eu vou partir logo mais,
pra minha localidade,
tu ficas batendo lenha
na fogueira da saudade.

SF
Você tem meu endereço
sabe aonde é meu ninho,
lá tem a cama forrada,
tem a uva, tem o vinho,
MINHA CASA É COMO O CÉU,
QUEM VAI NÃO ERRA O CAMINHO.

JP
Todos amigos da gente,
que gostam do som da lira,
o querido retratista,
que também nos admira,
TIROU RETRATO DA GENTE,
mas do verso ele não tira.

NÃO ME CANSO DE OUVIR CANTORIA DESSE JEITO
Mote de DANTAS

SF
Inda tem na nossa mira
um mote pra terminar,
DANTAS quer ouvir cantar,
o céu da cor de safira,
tudo o que ele admira,
do forte ao rarefeito,
rio e riacho estreito,
vendo a terra progredir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

JP
Ou que noite divertida,
ouvir João Paraibano,
cantar poço artesiano,
a rolinha na bebida,
berro de vaca parida,
com o bezerro no peito,
um juá como confeito,
que apodrece pra cair.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

SF
Com diversos aparatos,
tenho visto cantoria,
que nada tem de poesia,
quando os poetas são chatos,
porém esses são pacatos,
que possuem força no peito
só que nenhuma é direito (*)
mas faz o verso sair.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.
(*) Canhoto

JP
João fale das marrecas,
dos espinhos dos ciganos,
da criança de três anos,
brincando com a boneca;
quando o peito esquerdo seca,
a mãe passa pra o direito,
depois que arrota no peito,
mãe bota para dormir
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

SF
Do jeito que está agora,
essa dupla improvisando,
não sinto o tempo passando,
sei que o tempo vai embora,
nem sequer lembro da hora,
porque estou satisfeito,
sento do lado direito,
pra Deus não me proibir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

JP
Eu nunca dei preferência,
a encontros desconhecidos,
ou disputas por partidos,
ou brigas por violência,
assistir uma audiência
de um juiz de direito,
ao discurso de prefeito
ou candidato mentir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

JP
Quando eu escuto a poesia
de João e de Feitosa,
a noite é maravilhosa,
o encontro é de alegria,
não falta nem energia,
vou pra casa e não me deito,
troco de roupa no leito,
com a mulher vou curtir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

SF
Eu passo a noite sentado,
nem ligo para despesa,
boto garrafa na mesa,
mas não fico embriagado,
quem estiver do meu lado,
assiste do mesmo jeito,
que eu hoje arranco do peito
a dor que vem proibir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

JP
Estou mais do que contente
aqui nesse Palace Hotel,
que a cultura de CORDEL
nasceu da alma da gente
Feitosa finda o repente,
o verso de João tá feito,
esse líquido tão perfeito
eu não canso de ingerir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.
(Palmas)
SF
Quando a viola afinada
se espalha com toda calma,
parece que minha alma
fica tão embriagada,
quem vier fazer zoada,
saia que eu não aceito,
hoje a noite eu só me deito,
depois que a dupla sair.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

SF
Parecendo uma assembléia,
que os deuses estão presentes,
saíram tantos repentes,
que esquentaram minha idéia,
junto com essa platéia,
que tenho todo respeito,
ouvindo o canto escorreito,
comigo vem aplaudir.
Não me canso de ouvir
cantoria desse jeito.

JP
Só que eu vou lavar o peito
com a outra dose agora,
Bosco está preocupado,
só reparando pra hora,
mas antes da hora certa,
não pense que eu vou embora.

SF
Mas antes de ir embora,
o meu companheiro João
Geraldo, veio e pediu
entre os dois a discussão,
para um falar do Brejo
e outro do Sertão.

JP
Tem sabiá no melão,
na algaroba, tem pardal,
tem cabrito no chiqueiro,
o boi manso no curral,
agora você me diga
o que tem na capital?

SF
Para todo o pessoal
dessa nossa cantoria,
mas atender a Geraldo,
eu vou com toda euforia,
para mostrar um pedaço,
que Deus deixou poesia.

JP
Lá eu chupo melancia,
no tempo da invernada,
tem batata de umbu,
pra gente fazer cocada,
tem queijo e tem requeijão
e tem caldeirão de coalhada.

SF
Aqui tem praia salgada,
que o nosso corpo sossega,
tem meninas desfilando,
tem bebida na adega,
e sertanejo só se banha
quando uma chuva lhe pega.

JP
Lá flores de beldroega
se vê em todo arredor,
mulher com cheiro de rosas,
homem cheirando a suor,
E EU VEJO A HORA ESSE BESTA
DIZER QUE AQUI É MELHOR !

SF
Aqui tudo é melhor,
na minha reflexão,
tem menina de biquíni,
que abala o coração,
e no sertão inda tem velha
de saia varrendo o chão.

JP
Lá ainda tem canção
do sabiá ao sol posto,
pirão e arroz da terra,
tem capão pra tira-gosto,
e aqui tem frango de granja,
se come, mas não tem gosto.

JP
Lá tem bolo e macaxeira,
jerimum e melancia,
leite do peito da vaca,
depois que amanhece o dia,
aqui o leite é de soja,
que só dá disenteria.

JP
Lá temos manancial
água branca, cor de gesso,
aqui a água é de canos,
que eu não sei o endereço,
botam tanto cloro n’água,
que eu quando bebo adoeço.

SF
Você diz que possui preço
o sertão e o cariri,
onde tem queijo de coalho
e onde voa o bem-te-vi,
mas você pra escapar,
desce pra cantar aqui.

SF
Nossa cantoria fina
está quase no final,
o nosso agradecimento
aos donos do local.
e aos ouvintes que apreciam
o repente natural.

SF
Mas antes que chegue a hora
dessa nossa despedida,
inda tem outro poeta,
que a gente lhe convida,
JATOBÁ, pra recitar
uma letra conhecida.

O TROVÃO TEM O SOM DESAFINADO, MAS EU GOSTO DA MÚSICA DO TROVÃO
JATOBÁ declamando seu poema

Como é bom acordar de madrugada,
escutando o trovão no infinito,
vai fazendo um dueto tão bonito
com a música que vem da passarada,
é a senha por Deus anunciada,
que a chuva virá molhar o chão,
espantando o reinado do verão,
pra o campônio dormir mais sossegado.
O trovão tem o som desafinado,
mas eu gosto da música do trovão.

Gosto tanto da musicalidade,
extraída do som desse instrumento,
que desperta o mais puro sentimento;
de voltar pro sertão, me dá vontade,
me agarro nas asas da saudade,
como um pássaro voando pro sertão,
um vaqueiro fazendo a oração,
com a chuva que cai molhando o gado.
O trovão tem o som desafinado,
mas eu gosto da música do trovão.

O seu ronco desperta a esperança
de quem sofre a espera do inverno,
o maestro do som é o Pai Eterno,
e o sertão é o palco da mudança,
espetáculo que aonde a vista alcança,
se deslumbra com a transformação,
troca a capa que tem a plantação
com o terno de tom esverdeado.
O trovão tem o som desafinado,
mas eu gosto da música do trovão.

A mais pura e poética sinfonia,
que o som do trovão provoca em mim,
como sendo o mais puro bandolim,
a toada a mais doce melodia,
e a grandeza de toda essa energia,
é que faz do barulho uma canção
pra nascer no meu peito a gratidão,
pra dizer ao Autor, muito abrigado!
O trovão tem o som desafinado,
mas eu gosto da música do trovão.

COQUEIRO DA BAHIA

JP
Tem Costa que também gosta
de ouvir nossas gargantas,
o nosso querido DANTAS
junto com sua senhora,
tem Ramalho que adora
o molho de poesia
Coqueiro da Bahia,
quero ver meu bem agora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora.

SF
Orlando, Bosco, Isaías,
Celso e Arimatéia,
formando a nossa platéia,
e que ficaram até agora,
DANTAS não fica por fora,
que é mestre da poesia
Coqueiro da Bahia,
quero ver meu bem agora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora.

JP
O querido JATOBÁ,
um filho de Cajazeiras,
suas frases são maneiras,
iguais a folha da flora,
que depois que o galho tora,
se perde na ventania
Coqueiro da Bahia,
quero ver meu bem agora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora.

SF
Meu poeta Jatobá,
Almani, Celso Soares,
ouviram nossos cantares
e na festa inda demora,
porém chegou nossa hora,
adeus até outro dia.
Coqueiro da Bahia,
quero ver meu bem agora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora,
quer ir mais eu vamos ,
quer ir mais eu vambora.


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