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Artigos-->O professor universitário e os seus percalços acadêmicos. -- 12/02/2010 - 16:03 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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.Há algum tempo atrás, o professor universitário representava uma esperança de reformulação e aperfeiçoamento social. Nos dias atuais, é atingido pelo grito de socorro de uma sociedade impotente. Devido ao grande acesso à escola superior e ao aumento crescente do número de estabelecimentos de ensino, torna-se impossível filtrar o nível de preparo de grande parte dos alunos que neles ingressam. Tal heterogeneidade, carência educacional e ausência de pré-requisitos torna muitas das vezes impraticável a boa atuação profissional.



Por outro lado, na maioria das faculdades particulares ocorre uma corrida desmedida ao lucro, aliada aos recursos de marketing e mídia que objetivam atrair o maior número possível de alunos pagantes. Exige-se então dos professores uma destreza sobrehumana. Nas universidades públicas, as interferências políticas nem sempre objetivam a qualidade de ensino, prejudicando em muito a prática acadêmica e os resultados dela decorrentes. Prova disso são as agremiações discentes, quando comprometidas e orquestradas por interesses políticos eleitoreiros, cujas reivindicações ativistas impedem o acesso dos alunos às salas de aula.



Geralmente não tarda para que o professor iniciante perceba que os seus ideais esbarram em questões conflitantes que privilegiam interesses insólitos, numa constelação bem mais grave do que imaginava. A configuração é ampla e permeia cada indivíduo dessa engrenagem, seja ele aluno, professor, dono ou reitor de estabelecimento de ensino. Na verdade, os jogos de interesse e poder se sobrepõem ao que há de mais importante, ou seja, à estimulante troca de conhecimentos (sim...aluno também ensina!...) e enriquecimento da formação ética e reflexiva, não só dos futuros profissionais, como de toda a comunidade, acadêmica ou não.



Em desprezo às propostas de inserção profissional num contexto social dinâmico, à capacitação das pessoas para o auto-convívio harmonioso extensivo aos demais e à capacitação para as questões decorrentes da complexidade multidisciplinar crescente, as universidades lançam os seus professores como soldados temerosos e estabalhoados. A batalha é árdua e solitária. Através dos mesmos, as instituições de ensino tentam "enquadrar" os seus alunos, na maioria das vezes carentes do ponto de vista educacional, num sistema falido de ensino, perseguindo uma ponte mediadora entre a sobrevivência financeira e o ideal sócio-educativo a que se propõe teoricamente. É óbvio que esse fator, por si só, dificulta a boa relação professor x aluno.



Quanto à impressão de estar sozinho nessa conjuntura educacional, já lamentava Heidegger com relação aos alunos:



"Se em geral me retraio há um longo tempo, isso se dá porque me deparei em todo o meu trabalho com uma falta de compreensão aflitiva e não pude ter mais do que umas poucas experiências pessoais belas em minha atividade docente. Já perdi aliás há muito tempo o costume de esperar dos assim chamados alunos um agradecimento qualquer ou mesmo uma meditação sincera."



Retornando aos dias atuais, a verdade é que imediatamente após o início da sua prática profissional, o professor entra em contato com as várias lacunas e rupturas existentes na vivência acadêmica. Sendo fruto, ele mesmo, dessa engrenagem educacional, tem dificuldade para refletir sobre o quadro que vivencia e propor soluções, embora perceba uma grande inadequação no que diz respeito à prática do ensino. Há longos hiatos, difíceis de se diagnosticar. Ocorre distanciamento da grade curricular com o momento e a prática social. Não há supervisão adequada. A eterna política da "educação bancária", criticada pelo professor Paulo Freire, limita a reflexão, o acesso ao conhecimento vasto, a busca pela transformação e a interação entre professor x aluno como algo imprescindível na engrenagem educacional.



Alguns profissionais, deixando as inseguranças internas superarem o profissionalismo, passam a transmitir apenas informações ("faço a minha parte...quem pegar, pegou", referem-se à matéria dada). Como a ponte professor x aluno torna-se árida, a despeito das inúmeras folhas "xerocadas" disponibilizadas, a frustração de ambas as partes impossibilita o gosto pelo conhecimento. Ponto para o fracasso de todos os envolvidos!



Outros professores excedem no despreparo. Além da ausência de consistência teórica e reflexiva à sua prática, tornam-se mestres das "abobrinhas". Algumas das vezes utilizam-se de proselitismos pessoais e políticos e em outras, mal resolvidos emocionalmente, exercitam jogos de poder ou ironia, manipulando o emocional dos alunos.



Há ainda mestres que, embora dotados de equilíbrio e respeito no trato com os alunos, privilegiam avidamente o conhecimento. Embora extremamente bem-intencionados, não conseguem envolver os alunos e sequer estimulá-los rumo às próprias conclusões. Talvez estejam estagnados em uma demanda intelectual excessivamente egóica, não percebendo que o magistério é uma relação entre pessoas com subjetividades diversas. Para auxiliá-las, o que é dever do professor, faz-se imprescindível grande esforço para atingir o aluno em alguma particularidade motivacional, consideradas as suas percepções e anseios próprios.



Avançando, chegamos a um ponto crucial: o processo educativo deve estar vinculado à ética e à cidadania. Nesse contexto deve se desenrolar, numa percepção bem-intencionada e considerando-se as constantes demandas e transformações sociais. Para tal, a reflexão faz-se indispensável. A ética não sobrevive encapsulada e a sua essência necessita ser provocada e instigada, numa postura investigativa e socrática. Na futura prática profissional dos então alunos, o desenvolvimento técnico não poderá prescindir disso para o alcance do bem estar pessoal e social. Para ajudá-los a atingir esse objetivo, o professor deve trazer essas premissas em sua bagagem pessoal. A forma como exerce a sua cidadania, a prática da dialética na sua interação com os alunos e o respeito ao pensamento alheio vão interferir diretamente na qualidade da sua docência. É necessário, portanto, que ele considere os contextos psicológicos, sociais, psicopedagógicos, ambientais e evolutivos, entre muitos outros, estabelecendo relações entre eles. Abertura para as mudanças, descobertas recentes, novos valores e proposições. O mundo se transforma a todo o instante e com isso urgem necessidades variadas. O ideal é que se atenda a uma abrangência multidisciplinar, não ficando a aula restrita a um conhecimento específico e com o apoio adequado dos variados recursos pedagógicos.



"O pensamento transdisciplinar é precisamente uma primeira abertura, uma ação concreta sobre a nossa realidade, para nela inserir a visão de um real global e não mais causal, revelado pela nova física quântica, um real"holístico" no qual todos os aspectos da realidade podem ser considerados e respeitados, sejam eles científicos, materiais, afetivos ou espirituais". (RANDON, 2000)



Enfim, a questão é ampla e as novas propostas na área educacional e pedagógica são indispensáveis. O mundo, aí inserido o homem numa visão holística, está em constante desenvolvimento e dele e para ele deve orbitar a vivência acadêmica. É impraticável um modelo educacional estático. Só através de uma educação ética para a mudança se formará uma aliança positiva entre professores, alunos e a sociedade a que pertencem.







Bibliografia:



LUDZ, Úrsula (org.). Hannah Arendt – Martin Heidegger: Correspondência. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 2001.



GIL, Antonio Carlos – Didática do Ensino Superior – São Paulo: Atlas, 2009.



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