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Cordel-->CANTORIA NO DIA DO TRABALHADOR -- 06/05/2003 - 16:35 (José de Sousa Dantas) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
CANTORIA NO DIA DO TRABALHADOR,
em João Pessoa, 01/05/2003

TEMAS DESENVOLVIDOS DE IMPROVISO PELOS REPENTISTAS

·A guerra deixou feridas que nunca mais vão sarar
·É bonito a ramagem do feijão se enroscando no milho pendoado
·Segure o remo
·Tem muito o que se cantar na hora do sol se pôr
·É o vento dos anos quem apaga a estrela do céu da mocidade
·O trabalhador
·Este ano a pobreza festejou uma safra completa no sertão
·A inveja é a ação de quem não tem competência
·O Brasil está preso atualmente nas algemas do crime organizado
·Passei a noite perdido nas curvas do corpo dela
·Cantador vai morrer sem ter direito de passar uma braça em minha frente
·São as coisas que eu faço sem gostar.
.São as coisas que eu gosto de fazer.

A Guerra deixou feridas que nunca mais vão sarar
RAIMUNDO CAETANO

Há um cenário imperfeito
de muita destruição,
têm muitas casas no chão
tem muita gente sem leito,
lá está do mesmo jeito,
a TV pôde mostrar,
BAGDÁ é um lugar,
que tem almas destruídas.
A guerra deixou feridas
que nunca mais vão sarar.

Se viu a terra tremendo,
muito sangue consumindo,
diversos mísseis subindo,
com bombas estremecendo,
mesmo a RÚSSIA não querendo
a FRANÇA sem apoiar,
o poderio militar
invadiu as avenidas.
A guerra deixou feridas
que nunca mais vão sarar.

É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado
João Paraibano (JP) e Raimundo Caetano (RC)

JP
Como é lindo se ver lá na ribeira
o matuto rezar igual um santo,
o lambu chamar outro pelo canto,
pra cantar com outro na capoeira;
se ouvir a pancada da goteira
quando tem uma brecha no telhado,
uma lata com fundo enferrujado,
cada pingo que cai, toca um baião.
É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado

JP
Como é lindo se olhar pra o panorama,
ver a nuvem banhada de orvalho,
uma rosa brotando em cada galho,
uma fruta vingada pela rama,
o matuto botando o pé na lama,
com um pé no chinelo, outro calçado,
o boi manso com a canga no arado,
mastigando o sobejo da ração.
É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado.

RC
Vão embora o castigo e a ternura
e o sertão se engrandece até no nome,
abundância chegando mata a fome,
dá pra ver camponês com mais bravura,
que ele vive no campo da fartura,
agradece a Deus ajoelhado,
não espera prefeito e deputado,
e não espera promessa de eleição.
É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado.

JP
Vê-se a baixa coberta de ervança,
a formiga onde passa deixa um trilho,
na cintura da cada pé de milho,
a boneca parece uma criança,
no impacto do vento se balança,
tendo duas, uma de cada lado,
o cabelo vermelho cacheado
com dois palmos abaixo do pendão.
É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado.

RC
O inverno se ajusta como a luva,
na grandeza de Alá do céu que existe,
camponês não consegue viver triste
e nem chorar como os prantos da viúva,
agradece aos espaços pela chuva
e pelo pingo na terra derramado,
cura todas as chagas do passado
e se esquece das crises do verão.
É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado.

JP
Pé de planta por mais que seja grosso,
com o peso das frutas quebra a galha,
e a espiga de milho racha a palha,
que aparece a carreira de caroço,
uma jia molhada sai do poço,
com o lodo no papo pendurado,
nela às vezes um sapo vem montado,
de carona com os pés roçando o chão.
É bonito a ramagem do feijão
se enroscando no milho pendoado.

SEGURE O REMO
João Paraibano (JP) e Raimundo Caetano (RC)

RC
Na lei da vida
cada um pode subir,
quem não consegue sorrir,
tem direito de chorar,
sem ser perdido
nada pode ser achado
e nada sai sem ser entrado
e nem finda sem começar.
Segure o remo da canoa meu amor,
segure o remo pra canoa não virar,
segure o remo, que o remo
comanda a proa,
quem nunca andou de canoa
não sabe o que é remar.

JP
Passou a chuva,
só tá caindo garoa
e o povo de João Pessoa
vem agora me escutar,
eu também gosto
de fazer o meu repente,
pra o povo ficar contente,
escutando o meu cantar.
Segure o remo da canoa meu amor,
segure o remo pra canoa não virar,
segure o remo, que o remo
comanda a proa,
quem nunca andou de canoa
não sabe o que é remar.


Coisas que o homem não faz
João Lourenço (JL) e Sebastião Dias (SD)

JL
Coisas que o homem não faz
repentista dá um show,
quem fez a rosa de plástico
nunca aromatizou,
VITALINO fez boneco,
só que um nunca falou.

SD
O homem nunca pensou
investir no pé de serra,
plantar semente do amor,
levar Deus perante a terra,
tirar a paz dos entulhos
da destruição da guerra.

JL
O homem não faz na terra
uma coisa que me agrada,
que o homem não tem dinheiro
pra fazer uma chuvada,...
água que cai de avião
não presta pra criar nada.

JL
O homem fez lamparina,
cadeira, birô e renda,
quando uma peça se quebra,
o homem faz a emenda,
o sol se apagasse um dia
não tem mais quem o acenda.

SD
O homem compra fazenda,
mas isso não adianta,
pinta uma planta no quadro,
mas não sai rosa da planta,
e se fizer um passarinho
ele nem voa nem canta.

SD
O homem faz uma estrada
e constrói sua palhoça,
desenha uma melancia
verdinha da casca grossa,
só que não tem a doçura
daquela que sai do roça.

JL
O homem pensa que esboça,
muitas vezes se derrota,
faz o nível que apruma,
retira o ouro da grota,
bota água nas torneiras,
mas nas nuvens ninguém bota.

SD
O homem é idiota,
pensando que é sabido,
e desenha um arco-íris,
porém não é parecido,
retira água de um coco,
mas botar dentro, eu duvido.

Tem muito o que se cantar na hora do sol de pôr
João Lourenço (JL) e Sebastião Dias (SD)

SD
Quando é bem de tardezinha,
o povo fica pasmado,
na moita que tem no prado
se aninha uma rolinha,
silencia uma andorinha,
e se avista um beija-flor,
que mesmo sem ter motor,
voa e dá ré pelo ar.
Tem muito o que se cantar
na hora do sol se pôr.

JL
Repentista sai cantando
a mais bonita toada,
caminhando na estrada,
com o sol se ocultando,
a lua vem clareando,
no mais belo refletor,
inspirando o cantador
a fazer verso exemplar.
Tem muito o que se cantar
na hora do sol se pôr.

SD
Quando o céu tá desbotado,
antes de passar das seis,
o pobre do camponês
chega da roça cansado,
inda reza ajoelhado
para Deus, Nosso Senhor,
segue o rito interior,
lava os pés, vai se deitar.
Tem muito o que se cantar
na hora do sol se pôr.

JL
Eu já sei que nessa hora
a nuvem fica cinzenta
e uma barra pardacenta
parecendo a da aurora,
a moçada que namora
chega para seu amor,
dizendo guarde o licor
que mais tarde vou tomar.
Tem muito o que se cantar
na hora do sol se pôr.

SD
Uma palha seca voa
no sopro da ventania,
é assim no fim do dia,
a natureza é tão boa;
uma garça na lagoa
vai pescar o seu setor,
uma abelha beija a flor
tira o néctar do pomar.
Tem muito o que se cantar
na hora do sol se pôr.

É o vento dos anos quem apaga
a estrela do céu da mocidade
João Lourenço (JL) e Sebastião Dias (SD)

JL
Nossa vida é tão bela e passageira,
vai embora tão rápido como o vento,
como o tempo não espera um só momento,
vi o tempo pintando a cabeleira,
é a vida sublime e prazenteira,
o poeta é quem diz com liberdade,
cada dia que passa na verdade
minha infância, não vejo quem me traga.
É o vento dos anos quem apaga
a estrela do céu da mocidade.

SD
No passado eu também fui muito forte,
mas depois que eu perdi a meninice,
ingressei na estrada da velhice,
entreguei-me a Deus a própria sorte,
hoje em dia me assusto com a morte,
minha vida só é dificuldade,
e no albergue da vila da saudade,
procurei residir, mas não tem vaga.
É o vento dos anos quem apaga
a estrela do céu da mocidade.

O TRABALHADOR
Valdir Teles (VT) e Louro Branco (LB)

LB
Existe sempre o trabalho
no mundo em todo setor,
é o homem o principal
agente fornecedor,
e em todo produto tem
SUOR DO TRABALHADOR.

VT
O nosso trabalhador
não tem salário de fé,
que duzentos e quarenta
é um salário ralé,
pra quem paga é muita coisa,
mas pra quem ganha não é.

LB
O trabalhador de fé
acorda de madrugada,
junta toda a ferramenta,
pra cumprir sua jornada,
a sua lida diária
é por Deus abençoada.

VT
Constrói mansão e estrada,
piscina, escola, galpão,
igreja, presídio, torre,
organiza a instalação,
ensina, vende e fabrica,
é mestre na profissão.

Este ano a pobreza festejou
uma safra completa no sertão
VALDIR TELES

O inverno tá bom para o roceiro,
já tem água da chuva em fonte rasa,
a fartura já tem em toda casa
e acabou de uma vez o desespero,
o relâmpago cortando o nevoeiro,
toda noite vem chuva com trovão,
tem batata, tem milho, arroz, feijão,
só não tem pra comer quem não plantou.
Este ano a pobreza festejou
uma safra completa no sertão.

A pobreza já pode festejar,
todo canto se encontra milho assado,
o feijão tem na mesa temperado
e tem pamonha pra gente empanzinar,
meu irmão já mandou me convidar
para as festas daquela região,
eu mandei avisar a meu irmão,
bote o prato na mesa que eu já vou.
Este ano a pobreza festejou
uma safra completa no sertão.

Foi a terra por Deus abençoada,
hoje em dia o sertão tá diferente,
todo mundo tem rama e tem semente,
toda área da gente está molhada,
vou trocar a viola numa enxada,
e vou de novo voltar pra região,
cavar cova de enxada e plantar grão,
foi na roça que papai me criou.
Este ano a pobreza festejou
uma safra completa no sertão.

A inveja é a ação de quem não tem competência
DAUDETH BANDEIRA

O invejoso não tem
amizade com vizinho,
bota pedra no caminho
de quem vai ou de quem vem;
se vir alguém se dar bem,
dói na sua consciência
e começa uma penitência
pra fazer-lhe uma traição.
A inveja é a ação
de quem não tem competência.

Viu-se em Santa Luzia
um invejoso sujeito,
assassinar um Prefeito –
um símbolo da simpatia –
Seu ato de covardia,
e extrema malevolência,
lacrou sua violência
e maculou o sertão.
A inveja é a ação
de quem não tem competência.

O Brasil está preso atualmente
nas algemas do crime organizado
DAUDETH BANDEIRA

O Brasil se rendeu de ponta a ponta,
sob as mãos de um poder brutal e rijo,
que impera num negro esconderijo,
onde alguns terroristas tomam conta,
se tentar reagir é uma afronta,
pode até seu castigo ser dobrado,
que o terror se sentindo ameaçado,
vai ficar bem pior daí pra frente.
O Brasil está preso atualmente
nas algemas do crime organizado.

SE EU PUDESSE FARIA
Zé Viola (ZV) e Zé Galdino (ZG)

ZG
Eu faria o presidente
ser mais honesto e sincero,
pedindo a todo País
pra enfrentar a FOME ZERO,
pra ver a minha Nação
feliz do jeito que eu quero.

ZV
Tirava da nossa gente
essa tal pobreza escrava,
a viola tocaria,
a cultura aumentava,
mamãe não envelhecia,
e meu pai ressuscitava.

ZG
Se eu pudesse deixava
meu sertão alvorecer,
SÃO PAULO sair do tráfico,
o RIO não padecer,
e ressuscitava TIM LOPES,
que morreu sem merecer.

ZV
Faria com meu poder,
na terra que nos encanta,
meu pai se santificar
e a minha mãe virar santa,
e os meus filhos cantavam
do jeito que seu pai canta.

ZV
Na região que estou
eu iria trabalhar,
pra ver o pobre sem terra
tendo teto pra morar,
quem quer plantar não tem terra,
quem tem não quer trabalhar.

ZG
Se eu pudesse ia ajudar
a criança nua e crua,
que só tem por companhia
o vento, a noite e a lua,
pra não ver mais a coitada
pedindo escola na rua.

Passei a noite perdido nas curvas do corpo dela
Zé Viola (ZV) e Zé Galdino (ZG)

ZG
Fazia todo agrado,
no corpo da minha dama
e no rangido da cama,
eu ficava alucinado,
eu com gesto de tarado,
ela sendo Cinderela,
só na cama, eu e ela
com muito abraço e gemido.
Passei a noite perdido
nas curvas do corpo dela.

ZV
Passei a noite todinha
para relaxar que eu sei,
e ela me chamou de rei,
e eu lhe chamei de rainha,
ela na costela minha
e eu na costela dela,
quando lhe chamei de bela,
ela disse: meu querido.
Passei a noite perdido
nas curvas do corpo dela.

ZG
O seu corpo de princesa
me deixou apaixonado,
eu fiquei logo amarrado,
pra mim não é mais surpresa,
um bife em cima da mesa,
um jantar à luz de vela,
nesta hora eu disse a ela,
hoje eu sou o seu marido.
Passei a noite perdido
nas curvas do corpo dela.

ZG
Eu fui pra minha dormida,
o meu amor não quis ir,
eu comecei insistir,
venha cá, minha querida,
você é a minha vida,
não vá assistir novela,
convenci e disse a ela,
aproveite o meu sentido.
Passei a noite perdido
nas curvas do corpo dela.

ZG
Ela é a companheira,
que me beija e me namora,
meu coração lhe adora,
eu lhe amo a vida inteira,
não quero que costureira,
faça vestido pra ela,
e eu só lhe acho bela,
sem sutiã, sem vestido.
Passei a noite perdido
nas curvas do corpo dela.

Cantador vai morrer sem ter direito
de passar uma braça em minha frente
Zé Viola (ZV) e Zé Galdino (ZG)

ZG
Minha mãe me botou em uma escola,
pra ser grande poeta repentista,
o meu nome hoje em dia está na lista,
de poeta que canta e que consola,
minha fama aumentou com a viola,
produzindo meus versos de repente,
nessa arte eu sou mestre competente,
não existe poeta do meu jeito.
Cantador vai morrer sem ter direito
de passar uma braça em minha frente.

ZV
Convidei pra cantar, você dizia,
que era rápido nas improvisações,
estou vendo que não tem condições
de ser grande na minha cantoria,
se esforça, peleja, mas não cria
uma estrofe que seja mais potente
da que faço cantando de repente,
sou maior, ninguém tira o meu conceito.
Cantador vai morrer sem ter direito
de passar uma braça em minha frente.


SÃO AS COISAS QUE EU faço sem gostar
SÃO AS COISAS QUE EU gosto de fazer
Zé Viola (ZV) e Zé Galdino (ZG)

ZG
Morar junto a vizinho fuxiqueiro,
enfrentar uma briga de emboscada,
discutir com a mãe da namorada,
viajar de carona sem dinheiro,
escutar um poeta cachaceiro,
ir a festa dançante sem dançar,
vender tudo e não ter com que pagar,
entrar numa novela e levar bronca,
me deitar com mulher que dorme e ronca.
São as coisas que eu faço sem gostar.

ZV
Fazer verso pra o povo me escutar,
recebendo os aplausos da platéia,
transformar em poesia a idéia,
vez em quando ser primeiro lugar,
dedilhar na viola e improvisar,
trabalhar com coragem pra vencer,
pelo dom de cantar, agradecer
a meu Deus pela luz que me ilumina,
decantar com a inspiração divina.
São as coisas que eu gosto de fazer.

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