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Contos-->Escolhas? -- 11/07/2002 - 14:30 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. Não ser réplica de sua mãe... A intenção era definitiva. A disposição de seu tempo na cozinha, o empenho na brancura das camisas, o percurso afobado na feira e a escuta aflita. O olhar atento identificava problemas que precisariam ser contornados com urgência. Não, não e não!... Haveria de existir um mundo mais pleno, pastas de couro atravessando o corredor do Fórum, o glamour perfumado de mulher cobiçada, íntima de rotas aéreas e visitas à Grécia e a Paris.

Amigos vêm, outros vão... Paixões intensas, por que não? Sem vocação pra ter filhos, a honesta percepção disso já é um passo à frente. Ressalta a importância pra quem curte, mas estaria mentindo se...Toca o telefone e Flávia lasca a unha na tentativa de alcançá-lo. E o "oh, que merda!" atravessa pelo fio, agudo e desesperador. Desligam do outro lado e ela se lança a investigar as possibilidades: - Será o Guto? Ele não ia ligar domingo, a mulher em casa...

Telefona para a amiga e ficam trocando idéias: - Por que os homens temem tanto se envolver? Ela tem certeza de que Guto não é feliz no casamento, mas não tem coragem de pular fora. Covarde que ele é!... A outra acompanha : - Você não vê o Mauro, que fica nesse chove não molha? Por isso é que eu saí mesmo ontem à noite....e você nem imagina o que eu vou fazer depois dessa puxada que eu vou dar...O médico vai aproveitar e fazer outra lipo. Falei que eu quero ficar sequinha, sequinha...

Flávia desliga e pensa na cansativa inutilidade desses finais de semana. A disputa é acirrada... A roupa deverá ser escolhida com o mesmo perfeccionismo da mãe por ocasião do preenchimento dos seus dias. Forte percepção visual para distinguir alguém do mesmo nível, pois pé-rapado não dá...E aquela disposição de escuta, o casamento falido do cara sendo desenrolado como um filme, arrastado e repetitivo. Com tanta estrada na Defensoria, tanto problema já descascado, precisa agora é de se divertir. Quem sabe alguma amiga possa acompanhá-la numa viagem? Tem que pensar direitinho nisso. Mulher feia não, porque queima filme. Bonita, nem pensar... Talvez seja melhor ir sozinha e ver no que é que dá.

O interfone dispara...A comida do restaurante chega e com ela as lembranças de outros domingos. Novamente surge a mãe... A casa cheia, a macarronada enfastiada de parmesão, as risadas adoçadas por pudins de claras. E de novo aquele olhar atento, o abraço macio de quem sabe confortar. A cada três palavras do pai, duas prestigiavam a mulher dedicada, perfeccionista e competente que não se esquecia das flores e de tudo agenciar. A pressa do casal para se recolher à noite a intrigava...parecia coisa de criança, os olhares matreiros insinuando cumplicidade.

Flávia não quer mais pensar no passado!... Tudo isso já está morto, perdido num tempo completamente descompactuado com a vida atual. Tem de hidratar o cabelo e ligar para outra amiga. Quem sabe um cineminha? Receber alguém casa, nem ousar! A faxineira nova faltou e a casa está de pernas para o ar. Pilhas de processos se esparramam pela casa, roupas espalhadas pelo quarto à espera de organização. Droga!... Novamente a imagem da mãe retorna... Uma ponta de inveja reascende. Não vai adiante quando se depara com a lembrança dos seus últimos dias. À viuvez, seguiu-se o mal de Alzheimer e a posterior internação. O mundo de hoje não comporta doença em casa, nem adianta tentar...

Vem a sensação de que qualquer rumo fracassa e todo o esforço é em vão. Mas pensar não leva a nada, não é saudável... As rugas chegam mais rápidas e o mundo é das pessoas felizes, que se agitam e perseguem vencer. Ensaia um sorriso na vidraça, a janela emoldurando existências diferentes, cada um acreditando-se plenamente responsável por suas escolhas, porém apenas restringindo-se a um papel para sobreviver.


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