Eram bebês, e por assim serem tinham suas graças: coloridos, puros, promissores. E só podiam ter mesmo graça se por conta de uma careta, que sorriso derramam! E a felicidade de uma palminha ou de poucas cosquinhas? E que curiosidade desperta uma folha seca, um palito, uma caixa de fósforo, para seus olhos ávidos por tudo descobrir. São de uma pureza de quem chega limpo e luzindo, prontos para emplacarem a nova estrada. Zerinhos como carro e a mercê de seus dirigentes, aguardam as paisagens que serão apresentados. Aquele que os conduzem por caminhos esburacados, contam logo com um amortecedor quebrado. Quem dirige com imprudência, corre o risco de perder o achado.
Mas ocorre que logo de cara muitos apodrecem na fábrica, e outros, abandonados nos primeiros cem quilómetros. Sem quem os queiram, amontoam-se em prateleiras de casas de caridade. E pelo amor de Deus! Amem-os. E dos que eram Josés, Mateus, Anas, Terezas, alguns ainda conservam suas graças. Outros, anónimos e sem graça, vivem só com a graça de Deus.
E já sem nome, teto, camisa, identidade, esses carros a muito enguiçados, atravancam o trànsito urbano pelo menino chato que vende bala no farol; pela mulher inconveniente que pede esmola na rua; pelo ladrão desgraçado, que viola, mata, estrupa. Persistem, essas latarias enferrujadas, a emporcalhar toda cidade, morando, mendigos, embaixo da ponte. Ah! Pedregulho nos pés de quem tem sapato. Sim, eles gritam qual garça esganiçada sua existência, pela fome que o menino passa em frente ao restaurante, no desplante do homem que morre na calçada. E por mais que os amontoem, excrementos, no depósito carcerário, bem a distància dos olhos, persistem em feder em suas rebeliões.
E nesses gritos surdos e diários, ouve-se um apelo, persistente, desesperado:
" Estou cansado moço,
De obras de caridade,
Sejas tu caridoso,
E delas não há necessidade.
Carece sim a responsabilidade,
Pra acabar com essa indecência,
E a esmola por favor,
Que sejas tua consciência. "
Engraçado... não eram estes, Josés, Mateus, Anas, Terezas... que um dia ainda bebês sorriram encantados por coisa pouca?
Suzana Siniscalco de Oliveira Costa - Maio de 1994