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Poesias-->O AUTOCIDA -- 30/08/2002 - 14:14 (ALEXANDRE FAGUNDES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O AUTOCIDA.



Falo sério: decidi matar-me.

Digo isso assim, sem cerimônia,

para afastar os leitores mais sensíveis.

Quem passar deste ponto, já vai sabendo:

esta é a carta de um “autocida”.;

se lhe dói na alma, vá ler amenidades.



Aviso dado, vamos ao inventário.;

passemos ao balanço de meus bens.

E o façamos logo, que o tempo é curto.

Creiam: morrer é fácil como mentir,

mas explicar “os porquês” é difícil.;

é complicado como engolir o choro da angústia.



Tenho algumas roupas de mau gosto.;

(Eu as queimaria, se me cabe dar opinião)

Tenho pouquíssimos bons livros.;

(Não enriqueceriam biblioteca alguma)

Tenho nenhum dinheiro e poucas dívidas.

(Nada que leve a família à falência, embora mereça)



Tenho também uns pedaços de poemas egoístas.;

(Que só eu entendo e nem eu gosto)

Tenho umas idéias para livros obscuros.;

(Que, para a sorte de todos, jamais registrei)

Tenho umas fotos imbecis.

(De coisa e gente que a ninguém importam)



Tenho ainda uns sonhos confusos.;

(Que nunca realizaria, ainda que teimasse em viver)

Tenho uns planos estéreis.;

(Que nunca tive coragem de por em prática)

Tenho umas vontades anêmicas.

(Que nunca me moveram da inércia mais cômoda e viciosa)



Tenho – estão anotando? - uns amores impossíveis.;

(Que nunca revelei para não envergonhar minhas musas malditas)

Tenho umas mágoas injustas.;

(que guardei, feito calos, para justificarem meus fracassos)

Tenho umas alegrias equivocadas.

(Que alimentei com o caldo egoísta das dores alheias)



Tenho ou não motivos para nutrir essa “desalegria”?

Tenho ou não razões para apertar este miserável gatilho?

Tenho ou não que apressar meu ocaso?

Não sejam cínicos como eu.; assumam:

esta foi minha primeira decisão altruísta.

Ela não salvará minha alma, mas aliviará as suas.



Saibam, infelizes, que a existência só é curta para os amigos dela.

Para mim, que a nego, a maldita se finge de eterna.

As noites são longas e só eu não vejo a lua.

A brisa passa ao largo de mim.; eu que me queime.

Perco os trens, as carteiras e a vergonha.;

As pedras todas tropeçam em mim.



Então, estou decido e nada me faz mudar de idéia.

Aviso logo: leiam quietos e não falem comigo.

Saibam do meu fim como quem vê um filme.

Noticiem minha tragédia como quem conta piadas.

Comemorem minha morte como quem vai parir.

Ou me deixe sozinho, pois pouco me importa.



E o pior é que sou feliz assim (mesmo tão podre).

O pior é que sei sorrir assim (mesmo babando ácidos tantos).

O pior é que só eu não concordo com este meu fim tão mesquinho.

Sim, pasmem: vou matar-me e sou contra matar-me!

Esta é a minha derradeira contradição:

Vou morrer sendo tão louco pela vida.



____________________

SE GOSTOU DESTE POEMA, LEIA "CONTRA A MARÉ" E "INFERNO EM MIM", DO AUTOR ALEXANDRE FAGUNDES



















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