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Crônicas-->A vila, a vida e a brincadeira. -- 16/04/2002 - 10:54 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A vila e suas casas brancas, o aspecto provinciano e mágico mergulhado na grande cidade que estampa horrores nas bancas de jornais. Há muito tempo não visitava uma delas, o barulho das crianças perseguindo a partida de futebol. Os pedreiros de confiança, cúmplices dos antigos moradores, declaram-se profundos conhecedores dos sucessos e infortúnios dos que ali habitam: " - a moradora da casa três, Dona Eunice, está com aquele mal...como é mesmo o nome? Está parando de andar, coitada! Os filhos vêm sempre por aí. Seu Heitor trouxe uma menina para ajudar..."

A infância dos adolescentes ficou congelada no tempo: " - O Diogo, filho da Dona Beth era terrível... Êta menino do cão!... Até hoje tem uma banda que faz uma barulhada danada!... Guitarra pra cá, bateria pra lá, os velhos ficam incomodados, reclamando por sossego. E ele ainda manda avisar que é para eles esperarem só mais um pouquinho que logo, logo, vão ter! Isso é lá coisa que se diga?"

Meio a todo o burburinho da vila, avistei a Dona Emília. Estava lá na janela, cabelos soltos e desalinhados, inicialmente apenas denunciada pela transparência da cortina de voal. Em seu quintal, um simpático vira-latas, provavelmente o maior emissor de latidos da redondeza. Dias após, visitando novamente o lugar, pude conversar com a octogenária. Mora sozinha e possui um casal de filhos que vêm sempre visitá-la e com os quais vai ao médico. Há pouco tempo perdeu a sua arara, o que a fez sofrer muito... Um vizinho das redondezas, morador de um prédio próximo, inquietou-se com o barulho que o acordava no iniciozinho da manhã. Ameaçou dar queixa ao Ibama e a nora levou o animalzinho de Dona Emília para o sítio de uns amigos. Prometeram levá-la para revê-lo, mas ela não sabe se terá coragem...

Quando as pessoas são desconhecidas, os desabafos surgem, terapêuticos: "- Sabe de uma coisa? Os meus filhos trouxeram-me pra cá e acho que fui enganada...Tenho desconfiança de que isso aqui é uma clínica geriátrica...Só tem gente velha na calçada! Isso não me faz bem... "

Ao nos despedirmos, o nosso olhar tinha mais brilho e alegria. Tão bom conversar, sentir as palavras jorrando...aguçar a percepção de que estamos construindo uma história única e que, apesar disso, as vivências se fundem na empatia.

Olhei para trás, meus passos alcançando o portão e avistei as senhoras sentadas, tricotando e conversando em frente às casas. O síndico, um senhor careca, rodeado por assistentes, verificava os bueiros. Parecem todos tão entretidos quanto as crianças que correm suadas por entre eles. Não!...Dona Maria Emília está enganada... Gente é gente e ponto final!...A vida é uma brincadeira... cruel algumas vezes, interrompida em outras, mas certamente a idade conta muito pouco nisso. O preponderante é termos alguém que nos ajude a sair da inércia e dos abalos existenciais, intimando-nos ao riso e à elaboração de roteiros existenciais.

Atravesso a rua e revejo o jornaleiro e as manchetes. A nova percepção assemelha-se a um enorme e despretensioso convite para brincar com o mundo ...



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