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Artigos-->PANORAMA CRÍTICO DE TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA, DE -- 27/02/2008 - 21:06 (Acácio Luiz Santos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
PANORAMA CRÍTICO DE TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA, DE LIMA BARRETO



por: Acácio Luiz Santos, revisto em 2005

originalmente apresentado como trabalho de graduação à Profa. Evelyn, na disciplina Literatura Brasileira III, do curso de Português-Literaturas da UFF-RJ





Ficção em crise denunciando a incapacidade de existência de valores estáveis



O início do século XX encontra a prosa de ficção em crise, processo instaurado ainda no século XIX. A estrutura enredo->desenlace : causa->efeito, própria do romance tradicional, era incapaz de possibilitar ao homem uma compreensão do mundo instável que o cercava. Instituições seculares da civilização ocidental já não davam conta dos problemas do homem novecentista. A literatura em crise da virada do século busca formas de representar a perda de parâmetros, valores e certezas do homem, bem como sua falta de perspectivas, soluções: Proust, Kafka, Joyce, Barreto. Tentaremos aqui mostrar como este último se enquadra nessa denúncia, em seu romance Triste fim de Policarpo Quaresma.





Estrutura trágico-quixotesca de Policarpo Quaresma



Em TFPQ, notamos que o autor como que funde dois marcos da cultura ocidental: a tragédia grega e o Don Quijote de Cervantes. Isso permite ao autor dar à personagem uma estrutura peculiar, tratando-a no início com aquela “ironia trágica” própria de Sófocles, e ir-se aproximando afetivamente dela até o final, sem que a narrativa, contudo, compartilhe sua visão de mundo. Os discursos assimilados por Policarpo Quaresma e as propostas apontadas por ele sucumbem ao poder estabelecido. Somado a isso a estrutura aparentemente linear do romance, vemos que Lima Barreto mostra como, dentro das estruturas dos discursos tradicionais e, portanto, dos romances tradicionais, não há lugar para questionamentos, tudo está harmonicamente imobilizado, os discursos dissonantes são sufocados. TFPQ mostra também a dificuldade de fugir a tais discursos dominantes e suas estruturas mentais: a verdadeira tragédia do homem da época.





Demasiada crença no livro



Outro problema apontado por Lima Barreto.é o da distorção, sob diversos aspectos, da idéia do papel do livro para a sociedade. O próprio Policarpo acredita em todos os rocha pitas e similares que lê. Um vizinho implicava: livro é coisa de gente formada. O internamento de Policarpo é atribuído aos livros, “coisas só de sábios e doutores”. Uma personagem, Genelício, escreve uma mescla de decretos oficiais e citações eruditas para fazer nome e se promover; com os mesmos objetivos, a personagem Armando Borges cria o truque do clássico: escrever de modo comum e depois “traduzir”, rebuscando a linguagem para se sobressair aos “poetastros e literatecos”. E ambos são elogiadíssimos pela imprensa. Em termos de Brasil, isso denota a pobreza de nossa cultura enquanto processo vivenciado; mais amplamente, é a denúncia da falência da "razão livresca".





A pátria de gabinete



É importante notar a profissão de Policarpo, numa repartição militar, para “respirar” mais de perto a pátria, até sua desilusão final, de que “pátria” era um mito que ele criara em seu gabinete. Essa ênfase no caráter burocrático de “pátria” aponta para uma mistificação e deturpação do conceito. Usado para reproduzir estruturas de poder (militares loucos para mandar no “rebanho de civis”), apoiado ideologicamente pelo positivismo, impõe-se manter sua mistificação e deturpação a todo preço. O texto questiona a relatividade de tal conceito, tanto na reflexão final de Policarpo sobre a consciência de pátria de cada indivíduo no processo histórico, como na observação de Olga sobre o confronto dos republicanos contra os revoltosos, de que nem só os republicanos seriam patrióticos: “É monopólio de vocês o patriotismo?”





Personagens: mitificando para desmistificar



O processo de construção de certas personagens em Lima Barreto encontra paralelos na obra de Kafka. Como este, Lima Barreto cria tipos tributários de todo um, digamos, formalismo da estrutura social, que parece ter existência autônoma ao homem. Assim vão surgindo em TFPQ o “general de pijama”, incompetente em tática militar, sempre sabendo de guerras por ouvir contar, preocupado em casar as filhas e arranjar “pistolões” para o filho (Albernaz); o almirante sem navio (Caldas); o militar medíocre preocupado com a aposentadoria (Bustamante); o “puxa-saco” dos poderosos (Genelício); o doutor ambicioso (Armando Borges); etc. Às vezes o puro caráter tipológico é quebrado, produzindo-se uma tensão `tipo X personagem`, como o desespero de pai de Albernaz para salvar a filha enlouquecida, Ismênia. Com os tipos, Lima Barreto denuncia o processo violento e hipócrita da sociedade, que só recompensa àqueles que se adaptem às suas exigências, e não tolera discussões.





Floriano Peixoto: crueldade e paternalismo



A extensa descrição que Lima Barreto faz da personagem histórica Floriano Peixoto é importante e não deve passar despercebida. Presidente da República, Floriano possui horror a mudanças. Trata os humildes como inferiores. Possui um descaso e lassidão a trabalhos de melhoria social. É plenipotente. Sua condescendência com atrocidades é fruto de sua dubiedade de propósitos e visa a mantê-lo no poder. “Fabrica” sua imagem popular. Por fim, seu modo de governar é o de uma tirania doméstica. Em suma: toda a sua figura é uma grande personificação das características, ideais e métodos de poder constituído nas repúblicas latino-americanas. Essa macroestrutura, com sua tirania doméstica, reproduz-se em diversas outras microestruturas, presentes no texto, que afirmam, consciente ou inconscientemente, o poder estabelecido.





Ismênia e o esvaziamento de perspectivas da mulher



O drama da personagem Ismênia é também representativo. A moça de temperamento fraco, condicionada desde pequena a fazer do casamento destino, fatalidade, abstração, motivo último da existência, e que sucumbe a ele, aponta para o esvaziamento do caráter, digamos, natural do casamento como instituição burguesa. A mulher é condicionada a ele por motivos que não lhe dizem respeito enquanto ser humano, mas que querem passar por naturais, inculcados que são desde a infância. Sem ele, a humilhação, o “título” de “solteirona”. E a mulher, presa a tão estreito círculo de idéias, quando as vê quebradas pode mesmo ter perdido a razão de viver. E a sociedade cuida de não lhe oferecer alternativas. Mesmo Olga, apesar de uma postura mais crítica, sucumbe (“se não fosse este [Armando], seria outro a ele igual, e o melhor era não adiar”), pelo “constrangimento de um comando fora dela”.





Tempo linear, interiorizado e questionável



Na estrutura complexa de TFPQ, as diferentes manifestações do tempo presentes contribuem, com sua mistura, para o caráter de denúncia da narrativa: há o tempo linear, oriundo da própria estrutura trágica e picaresca da obra, com suas ações concatenadas devidamente no decorrer da narrativa, seja em ordem direta ou inversa (por exemplo, sabemos que Policarpo fôra internado e depois, num flash-back, tomamos conhecimento de como isso se deu); há o tempo interiorizado, oriundo de um sentimento de escoamento da vida, ao se encarar um passado, antes cheio de certezas, sob uma nova perspectiva de perda, de vazio (por exemplo, a reflexão final de Policarpo, na prisão); finalmente, aparece o tempo enquanto categoria questionável, oriundo da própria manipulação dos conceitos de tempo pelo poder (por exemplo, a idéia positivista, oficial, de “lutar pelo amanhã”, que Caldas, Albernaz e Bustamante questionam do positivista Fontes, pois “não viverão para ver e tudo fica sempre a mesma coisa”; tal cena aponta para uma reflexão posterior, de Policarpo, de haver por trás disso “ou pueris pensamentos políticos ou interesse”).





Contrastes em/entre os espaços



O percurso de Policarpo, pelos espaços rural e urbano, permite ao narrador longas digressões sobre os seus respectivos ambientes e modos de viver. Tais digressões não são gratuitas, pois apontam para uma tensão `campo X cidade` (como, por exemplo, a que atesta a obra de Fialho de Almeida), onde sua aparência como que denuncia os efeitos nocivos que a sociedade lhes imprime. A lassidão do campo é o próprio reflexo de uma estrutura paternalista. A cidade, com suas ruas de fundação irregulares, denota o próprio imobilismo. A distinção de bairros, a valorização de Botafogo, a formação de uma “aristocracia suburbana”, os próprios túmulos no cemitério, tudo isso aponta para uma busca de distinção, mesmo após a morte, cujas causas podem-se buscar em nossa formação hierárquica. A medicina rural, dividida entre a clínica e o curandeirismo, também marca distinções. As reflexões de Armando, espantado com o fato de o sogro rico fazer de Policarpo seu compadre, ilustram bem o modo de pensar hierárquico, que busca nas relações pessoais e sociais modos de afirmação de acordo com o modelo doador ativo->receptor passivo.





O pecado de cometer idéias



As tensões entre `pesquisa X comodismo`, `visão crítica X visão acrítica` adquirem uma importância fundamental na obra de Lima Barreto. Tal se dá por causa de um imobilismo defendido pelo poder dominante, de caráter não-dialético e hostil a qualquer questionamento. As sucessivas decepções de Policarpo, até sua queda final, mostram bem essa hostilidade. Policarpo manda uma petição para a Câmara, fruto de anos de pesquisa silenciosa e desinteressada e é recebido não com críticas, mas com risos de mofa. Um requerimento que Policarpo traduz em tupi, língua a que se dedicou a aprender, é inadvertidamente despachado para o ministério e um sujeito que se dava ares de sábio “arrisca” dizer que é grego “por causa dos ‘yy’”. Seu projeto de reforma agrária é rasgado na capa para Floriano mandar um bilhete. Finalmente, sua carta de protesto contra as brutalidades republicanas é respondida com uma prisão e condenação. A situação de Policarpo ao fim do romance aponta para mais um problema do homem da época: o esgotamento da alma, a vida sem razões. A constatação de que “todo o sistema de idéias que o fizera meter-se na guerra civil se tinha desmoronado” é próprio do princípio dominante da época, em que o homem vê todos os interesses da vida se subordinarem a um interesse maior: o do poder; e todo o aparato ideológico que esse poder usa para se impor se esfacela por seu próprio caráter de absoluto, de afirmação inconteste. Lima Barreto, e isso é importante, não aponta saídas, apenas compartilha das conclusões finais de Policarpo, só pode apontar o esvaziamento de seu discurso, sem afirmar outro em troca… Denúncia da incapacidade de afirmação de valores ditos absolutos: literatura de crise.

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