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Artigos-->UMA LEITURA DE GURIATÃ, DE MARCUS ACCIOLY -- 27/02/2008 - 21:04 (Acácio Luiz Santos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
UMA LEITURA DE GURIATÃ, DE MARCUS ACCIOLY



por: Acácio Luiz Santos

originalmente trabalho de graduação entregue ao prof. José Carlos Barcellos na disciplina Literatura Infantil de Língua Portuguesa, do curso de Português-Literaturas da UFF-RJ





Preliminares a uma leitura de Guriatã, de Marcus Accioly



Ao lermos este Guriatã: um cordel para menino, de Marcus Accioly, surpreendemo-nos mais uma vez com um intrigante, vasto e rico universo poético criado pelo autor. E deparamo-nos logo, como é natural, com uma grande dificuldade: a de se-lhe fazer uma leitura considerando-o meramente livro infanto-juvenil, embora ele haja recebido importantes prêmios literários nessa categoria. Por um lado, o livro contém elementos que apontam para três características fundamentais da poética do autor: problematização dos estilos épico/lírico/dramático; recuperação da essência do humano em suas duas grandes vertentes culturais, sagrada e comunitária; e emergência do menino como síntese/superação do binômio adulto/criança. Por outro lado, é interessante considerar as implicações pedagógicas contidas no livro. É o que tentaremos aqui, pelo seguinte roteiro: análise das três referidas características da poética do autor, seguida da análise dos elementos formais, técnicos e temáticos que compõem Guriatã.





A poética de Marcus Accioly: os três estilos



Em seu estudo sobre os conceitos fundamentais da poética, Emil Staiger procede a uma divisão tripartida dos estilos em lírico/épico/dramático, cuja correspondente expressiva recai, respectivamente, sobre sílaba/palavra/frase, sendo a divisão tripartida mesma erigida a partir da divisão tridimensional do tempo, respectivamente, em presente/passado/futuro. Por sua vez, em Marcus Accioly, a percepção do tempo é dinâmica: um tempo procura outro. Podemos configurar a percepção do tempo em Marcus Accioly nas seguintes linhas gerais: o presente busca o passado, o passado mergulha no futuro e o futuro renova o presente. Abrimos assim caminho, simultaneamente, para uma dinâmica das idades na obra de Marcus Accioly. Destarte, no épico, a maturidade busca a infância (Sísifo e Guriatã); no dramático, a infância mergulha na velhice (Íxion); no lírico, a velhice renova a juventude (Narciso). O elo que falta –a passagem da juventude à maturidade- é veiculado pela vivência poética, que instaura o ciclo. Marcus Accioly identifica vivência poética// amadurecimento// ciclo vital como um só processo, o que nos aponta como um primeiro elemento para a compreensão do pedagógico em sua obra.





A poética de Marcus Accioly: as duas vertentes culturais



Uma leitura da obra de Marcus Accioly permite identificar claramente seu trânsito pelas duas grandes vertentes culturais que formam o homem: sagrada e comunitária. Em que se fundamenta entretanto essa divisão bipartida? Uma resposta para o problema encontra-se no verbete “folclore” do Dicionário do folclore brasileiro, de Câmara Cascudo, onde o autor fala sobre a “existência dual da cultura entre todos os povos. Em qualquer deles haverá uma cultura sagrada, hierárquica, veneranda, reservada para a iniciação, e a cultura popular, aberta à transmissão oral e coletiva, estórias e acessos às técnicas habituais do grupo, destinada à manutenção dos usos e costumes no plano do convívio diário”. Ora, com a fragmentação do sagrado, visível na evolução da cultura ocidental, seus vários aspectos -doutrinário, polêmico e de idéias -percorrem desenvolvimentos próprios; dela advém ainda o problema formal, da elaboração cuidada, fundamento da literatura de base erudita. Já a cultura popular, em função dessa fragmentação do sagrado, torna-se folclórica propriamente dita, ingênua, transmitindo o convencional em lugar do essencial de outrora. Urge, pois, recuperar o homem em sua unidade, sagrada e comunitária. Assim, a épica em Marcus Accioly, vista como busca da infância, é simultaneamente retomada da origem essencial do homem, reentrada no caos primordial fundamentando uma nova relação do homem com o mundo, donde a complementaridade entre Sísifo –épica do sagrado- e Guriatã –épica do comunitário- enquanto recuperação da unidade do humano através das duas grandes vertentes que formam sua cultura.





A poética de Marcus Accioly: a emergência do menino



Correlata à percepção dinâmica do tempo em Marcus Accioly, temos uma inversão significativa da visão burguesa de criança. Nesta, a criança é o vir-a-ser, ponto de partida de uma trajetória em contínua (con-)formação, primitivo estado de coisas a ser “lapidado” pelo adulto racional para viver em sociedade. Já Marcus Accioly distingue a pessoa, criança ou adulto, do menino, como lemos nas Notas para menino pospostas a Guriatã: “As pessoas ou são crianças ou são adultos. Ser menino é outra coisa. Menino não é criança nem adulto e, sendo todas as idades, é sem idade. Por fora se conhece a criança ou o adulto. Menino é dentro.” Ora, é mais fácil encontrar meninos entre as crianças do que entre os adultos; donde o encontro com o menino ser expresso simbolicamente na épica de Marcus Accioly, pelo retorno à infância. Para Marcus Accioly, a criança/menino é o próprio ser, instauradora do espaço mágico, o onde que se busca, estado essencial para o despertar do autêntico homem.

Com esses elementos, acreditamos abrir caminho para uma leitura inicial de Guriatã.





Elementos formais de Guriatã



Caracterizamos Guriatã como a épica popular de Marcus Accioly, cujo vínculo com essa vertente da cultura já aparece no próprio subtítulo da obra, “Um cordel para menino”. Segundo o próprio autor, em suas Notas para menino, poderíamos classificar Guriatã como um romance-exagerado, a forma mais longa de cordel. Com efeito, o poema recorre a esquemas métricos, rímicos e estróficos próprios das formas de cordel e da literatura popular brasileira. O verso predominante é, portanto, o heptassílabo, seguido pelo pentassílabo. Da variedade de estrofes usadas, salientamos as seguintes: sextilhas (a forma mais popular de cordel), de esquemas rímicos em a-b-a-b-a-b (ex.: I) ou em a-b-c-b-d-b (ex.: XLII); décimas (próprias de temas mais solenes em cordel, como batalhas, lutas etc.), em a-b-b-a-a-c-c-d-d-c (ex.: LXXVII); quadras (esquema próprio da trova popular), em a-b-c-b (exs.: LI, LVII, LVIII). Outros elementos populares: adivinhas (XVII), improviso (XVIII), toada (XXI), cantigas (XXXIII, XXXIV), martelo agalopado (XLVI), coco-praieiro (XLVIII) etc. Por tais elementos, aliás, pode-se identificar a forte ligação com a música, tão própria da poesia popular. Por sua vez, as partes que compõem Guriatã são: dedicatória (ante-cap. I); invocação (I, vv.1/2); apresentação ou prólogo (I, v.3 a II); narração, a partir de o guriatã e o interlocutor, cujo núcleo é a luta do menino Sucram contra o Bicho-Papão, que a vincula à tradição dos romances de luta do cordel, e que é transmitida pela memória, como vemos em III: “-Fui, vim, trouxe na memória.” (III a LXXXIV); epílogo(s) (LXXXV a LXXXIX); peroração (XC) e considerações finais e assinatura, no acróstico com o nome do autor, anagrama do herói (Marcus/Sucram), com o qual ele se identifica (XCI). A estrutura épica de Guriatã aponta assim para uma viagem de auto-reconhecimento do poeta, rememorando a força da poesia primordial popular, o que viabiliza o amadurecimento do poeta no mundo (“gaiola”) e a percepção de seu ciclo vital (“guriatã”).





Elementos técnicos de Guriatã



Em Guriatã, é o próprio pássaro-título quem canta/conta a história do menino Sucram ao narrador do poema, adulto-menino. Segundo Câmara Cascudo, em seu Dicionário, guriatã é “ave do litoral de canto variado, imitando os outros pássaros canoros”, e seu nome científico é euphonia aurea, “bela voz de ouro”, o que o identifica ao próprio poeta. Em Guriatã temos, pois, a representação de um processo artístico encantatório de auto-reconhecimento, onde o poeta se encanta para aprender consigo, num jogo de estranhamento/ identificação. Por sua vez, o épico em Marcus Accioly se instaura pela passagem da recordação à rememoração. No lírico, de acordo com Staiger, o passado se dilui no fluxo do presente. Em Guriatã, ao invés, o presente perdido é recuperado pelo passado: “Resta trazer o passado /Como o presente perdido”(XCI). Ora, para haver o lírico é necessário salvar um mínimo presente que se possa preencher pelo destilamento da cadeia do tempo. O épico em Guriatã se aproxima do previsto por Staiger: o passado tornado presente. Por outro lado, aquele “presente perdido” desafiador, sinal da ruína do mundo lírico, como preconiza Accioly em sua Poética, define a busca do épico como imposição para fundamentar o novo homem. Donde o épico em Accioly não estar plenamente erigido, por não haver um presente a configurar (pois, como vimos, o presente está perdido). Já a representação de um processo artístico no poema, onde o menino é revelado sob diversas formas, criança (Sucram), adulto (narrador Marcus) e pássaro en/cantado(r) (“outro” do poeta), torna presente, pela linguagem poética, a realidade imersa no passado imemorial do homem: o dom de nomear, de apresentar um mundo pela força da Palavra. Pelo dom primordial do homem, pois, o épico encontra sua forma de reconhecimento poético em Guriatã.





Elementos temáticos de Guriatã



O tema geral de Guriatã é o reencontro da infância. O assunto, que melhor precisa o tema, é a luta de Sucram contra o Bicho-Papão para salvar o amigo Leunam. Ligados a estes dois elementos, outros dois prefiguram o sentido pedagógico da obra. O primeiro, o das tradições populares. Os meninos Sucram e Leunam são representados inseridos numa tradição cultural que lhes permite criar o novo (brincadeiras, jogos, travessuras). A infância, tornada encantatória pela busca épica, permite intuir os problemas essenciais do homem, donde a aproximação da obra aos contos de fada (cf. LXIV), o que, por sua vez, viabiliza o problema existencial do menino. A isto se articula ainda o segundo elemento, o pássaro que conta/canta a história, elemento en/cantado(r) que equaciona o processo artístico representado na obra, pela identificação menino/Sucram/Marcus/guriatã/poeta/vida. Com efeito, a busca do narrador do poema, tomada isoladamente, é apenas existencial; do mesmo modo, a busca de Sucram é apenas afetiva. É a intervenção do guriatã que as aproxima, tomando-as como partes de um todo maior, poético, que forma sua síntese e superação. Assim, a amizade de Sucram e Leunam simboliza o elo indissolúvel presente/passado, sem o qual a experiência humana se esvaziaria em perpétua amnésia, e a luta de Sucram é a representação épica do deslocamento de um presente não mais configurado, em busca do passado que o reilumine plenamente. No poema, pois, o tema reafirma a percepção do menino como imposição fundamental ao mundo contemporâneo, sem presente a configurar, para sua superação.





Conclusão



Ao fim de nosso trabalho, a indagação inicial persiste: como fazer uma leitura de Guriatã considerando-o meramente livro infanto-juvenil? Na verdade essa distinção, a rigor, não existe, pois já a criança intui os problemas essenciais do homem. O que há em arte literária é uma gradação de complexidade na percepção e forma de abordagem de tais problemas. Nesse sentido, visando a uma classificação da literatura em seu sentido pedagógico, que estamos estudando alhures, podemos falar, quanto ao grau de complexidade, em literatura para iniciados e literatura de iniciação; quanto à vertente cultural para a qual se volta, podemos ter literatura hierárquica, voltada para o sagrado ou erudito, e literatura de transmissão, voltada para o popular ou folclórico. Classificaríamos assim Guriatã como basicamente literatura de iniciação e de transmissão. Mas por ora tais classificações são meramente hipóteses. O que há de concreto é a obra Guriatã em sua beleza e suas implicações para uma possível poética do século XX, em seu resgate épico do homem-guriatã/menino-poeta.

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