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Artigos-->TJN - 009 = A indiferença -- 08/03/2007 - 12:03 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. A Indiferença





Olhava-me ao espelho enquanto com a ponta dos dedos puxava os pelos da barba para avaliar o seu comprimento, quando ouvi a sirene da ambulância na rua das traseiras.

- Ainda não é hoje que levas o desbaste –decidi.

Mais tarde, quando saí para os trinta minutos de bica e jornal soube que uma criança de 7 anos tinha sido atropelada ao atravessar a estrada junto à escola primária. Ainda estava muita gente no local, apreciando as medições da GNR para definir eventuais responsabilidades. Mais uma vez fiquei a pensar que se devia fazer um estudo sobre esta característica dos portugueses se amontoarem junto ao local do desastre. Será compaixão ou será um prazer mórbido? Talvez um dia alguém resolva estudar o assunto!

Quando à hora do almoço a fui apanhar na escola, a minha neta de sete anos, contou-me que o rapaz tinha morrido.

- Foi a professora que nos disse – acrescentou.

Disse-o de uma forma neutra como se o facto não tivesse a mínima importância. Mesmo sabendo que as crianças possuem autodefesas próprias para este tipo de “colisões” da vida, impressionou-me aquele desapego.

- Não tiveste pena?

- Eu não avô. Ele era mau como às cobras. Andava sempre a bater-nos.

- Achas que merecia morrer, só por isso?

- Então!...

No momento em que faço este desabafo ainda não recuperei da perturbação que me invadiu. Onde falhei? Onde falhou a minha geração?

Que valores transmitimos aos nossos filhos? Que é feito do respeito pelos nossos semelhantes, da compreensão, da sensibilidade e do amor? Que estranha apatia é esta perante a morte trágica de uma pessoa? Batia-nos, perturbava as nossas vidas, logo… a morte!

Pensei, por momentos, que devia tentar demonstrar que aquele raciocínio estava errado.

Mas, lembrando-me do regozijo demonstrado por muitas pessoas pelo assassínio premeditado de um perigoso paraplégico e da maneira como tem sido vilipendiado um homem que defende o diálogo para resolver conflitos que redundaram em violência, como vou conseguir explicar isso a uma criança?

Eu vou fazer uma reflexão. Vou estudar uma estratégia para conseguir convencer a minha neta que o ódio só gera mais ódio. Que todas as pessoas que vivem neste planeta têm os mesmos direitos independentemente da sua cor, da sua nacionalidade, da sua crença religiosa e do seu estatuto social. Quem se considera mais culto, mais educado e mais rico tem obrigação de se interessar pelas dificuldades dos mais desprotegidos para tentar suprir, pelo menos, o mínimo que lhe permita sobreviver.

Se existe violência não devemos procurar estudar as suas causas? Como se fosse uma epidemia, a violência devia ser estudada, discutida e averiguada para se poder encontrar um vírus eficaz. Aos tiros e à bomba não vai haver salvação para ninguém!

Estupidamente resolvemo-nos pela extinção total e colectiva.



António José Pereira da Mata

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