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Artigos-->TJN - 011 = Espírito de má orelha... Ó que barulho!... -- 08/02/2007 - 00:22 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. Por paterna precaução, em meados de 1950, imediatamente ao termo do ensino primário, fiz dois exames de admissão para o ensino secundário: aos cursos do liceu e industrial. Logo adiante, à entrada de Outubro, porque o vocábulo "industrial" me soava melhor, meu pai matriculou-me na Escola Infante D.Henrique, onde tive como professor de português o consagrado poeta Pedro Homem de Melo.



Ó que senhor de elevado esmero, ó que aristrocata em extrema elegância, ó que vocabular sincopado bem sonante na expressão. Só que, por causa de um enviesado zun-zun que se propalava no recreio, sentia-me em estado de inquietação péssima quando o mestre me acariciava a cabeça e me massajava o pescoço. Foi por causa deste repetido pormenor, que me punha com uma vontade imensa de gritar, que no ano seguinte fui matriculado no Liceu D.Manuel II. Desta feita, sem o saber, apanhei com outra celebridade na disciplina de Português, Óscar Lopes, um vulgaríssimo e corrente professor-cidadão que sabia manter os alunos à distância óptima.



Muito mais tarde, ao dealbar dos anos 80, quando versos meus já corriam na voz de Toni de Matos, de Fernando Maurício, de Beatriz da Conceição e dezenas de outros, tive uma boa meia-dúzia de serões fadistas onde convivi com o conceituado poeta portuense, devotado fã de António Botto e Federico García Lorca, que por esta altura ainda não tinha entrado no repertório da Amália.



Então, embora sob a mesma peculiar elegância, o doutor parecia andar bastante à rasca economicamente. No Requinte, na avenida da Boavista, e no Fado, no largo de São João Novo, e na Taverna São Jorge, no Passeio das Virtudes, a fadistagem ajudava-o na venda de pequenas brochuras de poesia, propositamente metrificada para se adaptar às músicas de fado clássico.



Quem pela primeira vez cantou "Povo que Lavas no Rio", foram Maria da Conceição, hoje Maria da Fé, e Fernando João.



Nos anos 60 e 70, Pedro Homem de Melo lograra a apresentação de programas de Folclore na RTP, mas só muito mais tarde ascende à ribalta do Fado através de Amália.



Numa dada noite, num manuscrito que tirei do bolso, pedi-lhe que apreciasse uns versos meus. Com os óculos na ponta do nariz leu ou fingiu que leu e disse com um sorriso pleno de ironia:" - O nome do autor, António Torre da Guia, é interessantíssimo...".



O doutor Pedro, senti-o muitíssimo bem, não gostava mesmo nada do turbo e inquietante brilhozinho que eu inevitavelmente punha nos olhos ao olhá-lo. O diacho da sineta que me meteram nos ouvidos em miúdo, face a face entre adultos, funcionava em silenciosa estridência insuportável...



Torre da Guia
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