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Artigos-->TJN - 009 = A guerra do Batepá -- 03/02/2007 - 12:13 (TERTÚLIA JN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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A GUERRA DO BATEPÁ



Quando se tem uma certa idade e somos incentivados a acreditar num glorioso passado recente através de apontamentos apologéticos de suspeita proveniência, o pensamento regride no tempo até à memória de outros episódios que, não negando aqueles, os complementam, para bem da Verdade.

Nem sempre é agradável recordar factos do passado. Muita gente não gosta e zanga-se facilmente quando são revelados, mesmo que muitos anos lhe tenham passado por cima.

Contudo, porque da sua omissão resultará sempre uma meia verdade, quando não uma mentira, não devemos contemporizar enviando-os para as profundezas do esquecimento.



No final da década de 50, estava colocado na Base Aérea nº 1, em Sintra, um Comandante de Companhia que em determinada altura elegeu um pastor alemão como mascote da referida Companhia, tendo mandado construir-lhe um “palácio” no espaço mesmo em frente. Chamava-se Fernando Santos Ferreira e era primo de Santos Costa, ministro de Salazar.



Os camaradas do meu tempo recordar-se-ão que a versão oficial dos problemas na Índia a partir de Dadrá e Nagar Aveli, nos foram transmitidos por esse capitão, acto que teve lugar numa velha garagem de camionetas, na altura adaptada para funcionar como cinema. Salazar, que defendia o “sacrifício total” na defesa do império ultramarino, promoveu a herói um guarda fronteiriço morto durante a invasão, que Santos Ferreira não tratou muito bem, tendo apresentado uma versão diferente e nada abonatória do seu comportamento perante o inimigo, o que não impediu que o seu nome tenha sido dado a algumas praças e ruas do nosso país.

Naquela altura muitos de nós, embora conhecendo o grau de parentesco que o ligava ao ministro Santos Costa, não deixámos de louvar a sua coragem.

Não sabíamos, e muitos ainda hoje não sabem o que foi a “Guerra do Batepá”, nem tão pouco que Santos Ferreira teve grandes responsabilidades num dos actos mais vergonhosos do nosso colonialismo.

Em Fevereiro de 1953, sendo Carlos Sousa Gorgulho Governador de S. Tomé e Príncipe, na sequência de alguma agitação provocada por algumas medidas contidas no Plano de Fomento e mal recebidas pelos roceiros, por fazerem perigar a mão de obra escrava que utilizavam, deu-se um massacre que vitimou cerca de um milhar de trabalhadores nativos. Chacinados e deitados ao mar segundo ordem directa de Gorgulho:

- “Deita essa merda ao mar para evitar mais chatices”.

O Tenente Santos Ferreira, homem do Governador, tinha sido chamado para o cargo de comandante da polícia em substituição do Capitão Salgueiro Rego, que se recusara a pactuar com o plano do Governador, sendo posteriormente preso e embarcado para o Continente.

Eduardo Alexandre Viegas Ferreira de Almeida, no livro “Quarenta Anos de Aviação” e publicado por sua mulher já depois da sua morte, relata-nos estes acontecimentos, atribuindo a Santos Ferreira o nome que foi dado a esta guerra por, quando assistia aos interrogatórios, recomendar:

- “Bate, pá! Bate com força que o gajo acaba por confessar. Bate, pá!”

Transcrevo uma passagem do seu relato:

“A pequena cadeia, mesmo no centro da cidade, estava superlotada. Os gritos dos presos ouviam-se em toda a cidade. Pela madrugada uma camioneta carregava os mortos na cadeia e ia deitá-los ao mar, onde os tubarões os faziam desaparecer. Numa noite de excepcional calor, numa cela onde caberiam apertados uns quinze presos, morrem sufocados cerca de uns cem”.

Também José Alvarenga, filho do Coronel Clodomir Alvarenga nos relata no seu “site” este episódio, visto que seu pai como capitão em 1953 foi enviado para S. Tomé para substituir Santos Ferreira, logo depois de terminado o massacre.

Os três longos anos que se seguiram de investigações e julgamentos revelaram que poucos esforços foram feitos para apurar a verdade, tendo o Governo Português mandado encerrar as investigações em 1956.

Clodomir Alvarenga terá mesmo afirmado:

- “Aquilo tratou-se de uma tentativa de extermínio e era impossível que Salazar, sempre tão bem informado, o desconhecesse.”

Quem tiver curiosidade em conhecer o nosso passado comum, no qual também se incluem as nossas vergonhas, encontrará aqui a “ponta da meada” para averiguar mais pormenores sobre este lamentável e odioso acto da nossa História.

A verdade pode doer mas deve ser enfrentada para que os alicerces do nosso futuro não fiquem minados à partida.



António José Pereira da Mata
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