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Crônicas-->VAMOS VER O JARAGUÁ JOGAR? -- 15/02/2002 - 17:34 (Antonio Albino Pereira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
. -Vamos ver o Jaraguá jogar, compadre?
Ouvi aquilo bem longe, afinal, eu estava estirado no sofá da casa de minha mãe, depois do almoço, e que almoço: galinha caipira, pernil assado e strogonoff, além do trivial arroz, feijão e salada e, é claro, aquele molho de quiabo com abóbora que minha mãe faz toda vez que vou visitá-la.
-Vamo lá!.
-Então passo aqui quatro horas pra gente ir.
-Tá bom.
Era uma oportunidade de ver o time da minha cidade natal jogar, mesmo que valesse pela terceira divisão do campeonato goiano, mas era um programa melhor do que ver o Faustão e enchendo a barriga de cerveja. Na hora combinada meu compadre passou e me pegou. Fomos de carro. A distância era de mais ou menos um quilômetro da casa de mamãe mas não abrimos mão do conforto do vectra do compadre, afinal, eu estava cansado de tanta comilança, sem contar o calor de 35 graus.
Lá chegamos. Meu sobrinho de dez anos foi também; filho do compadre, não desgruda.
-Quanto é o ingresso?
-Dois reais. Menino não paga.
-Então me dê dois. Ocês tão muito enrolado nessa bilheteria, quando a gente entrar já acabou o primeiro tempo (risos). Lá dentro, mais ou menos umas trezentas pessoas. Público bom. Já vi jogo dos profissionais em Brasília não passar de cem pagantes. Primeiro passamos no barzinho.
-Uma cerveja e duas cocas. As cocas eram pro meu compadre e seu filho.
-Vai ter que botar no copo, não pode subir com latinha não.
-Porque? Alguém vai querer acertar o juiz?
-Só vai.
-Então me dá logo. Tá muito enrolado, deixa que eu ajudo, Me dê alguns copos aí. Vai anotando aí que na saída a gente acerta, viu? Meu menino é que vem pegar.
-Tá bom.
-Vamos que tá começando.
Encontramos um amigo. Membro do Conselho de Administração do Jaraguá Esporte Clube. Fomos conversando e bebendo.
Já na arquibancada, sentados confortavelmente naquele cimento duro, pipoqueiro gritando, vendedor de geladinho passando...Começa o jogo.
-Só tava esperando a gente chegar pra começar, disse o compadre.
-É claro, você é diretoria.
E o jogo rola. Ao lado um locutor empolgado da rádio cidade narra o jogo. Em campo dois repórteres, um em cada gol. E o jogo rolando. Pressão total do Jaraguá, perdendo gol atrás de gol.
-Mas quem é o adversário? Pergunto pela décima vez.
-É o Aruanã, alguém grita lá de cima. Empatamos lá em um a um, aqui vai ser moleza.
E o jogo rolando. Pressão total e o Jaraguá faz um a zero. Vibração da galera. O jogo continua. O primeiro erro do bandeirinha do lado de cá acontece. A torcida não perdoa. Ele é loirinho, de cabelo pintado. Essa era a deixa.
-O rapaz queima a rosca.
-Queima a rosca não, é veado mesmo.
Gritaria total. E o bandeira sofre nas mãos da torcida. De repente alguém reconhece o juiz.
-Valfredo, eu te conheço. Cê é lá de Itaporanga, seu ladrão. Itaporanga tá disputando a vaga com o Jaraguá!
Caíram em cima do juiz agora. Muita vaia e gritaria. A mãe do coitado, que não tinha nada com a coisa, é que sofria.
O jogo já tava ficando monótono. Um a zero e o time da casa relaxou. De repente meu amigo conselheiro se espanta e diz:
- rapaz, tô preocupado com o que os cavalos estão comendo.
- Que cavalos?
- Aqueles ali, atrás do gol. Eles se abaixam mas só tem terra vermelha. Tô encucado.
- Cê tá preocupado é com isto, olha o jogo.
Que jogo que nada. Desde o início que o cara observava os cavalos. Eram três e estavam dentro do estádio. O gramado é todo rodeado por uma cerca de tela e lá atrás de um dos gols estavam os cavalos. Passei a observar. Realmente não tinha nada para os cavalos pastarem ali. Eles se encaminhavam pro outro lado do campo.
- Quê que eles vão procurar do outro lado, ali não tem nada. O cara tava mesmo encucado com os animais. E o jogo rolando...
- Olha lá, eles estão voltando. Na certa vão beber água pra pastar mais um pouquinho (risos).
- E onde é que eles vão achar água?
A essa altura o pessoal em volta dele já estava observando os cavalos também. Todos acompanhavam a descida dos animais. De repente, perto dos cavalos, viram um galo e uma galinha.
-Olha o galo comendo a galinha.
-Aonde?
-Lá, depois dos cavalos.
O Juninho, filho do compadre despertou de sua pipoca.- Que que foi?
-É o galo correndo atrás da galinha.
-Correndo? Disse um dos torcedores.
-Tô explicando pro menino aqui.
De repente uma falta para o time adversário quase do meio de campo. Ninguém deu muita bola pra falta, nem mesmo o nosso goleiro, que ficou olhando a bola entrar à sua direita, achando que era dois lances. Gol do Aruanã.
-Frangueiro, imitação de goleiro, fdp...e outros “elogios” ditos naquele momento de desespero dos torcedores.
Intervalo. Os cavalos continuavam suas indas e vindas em busca de comida. E o nosso amigo lá, observando tudo. E eu também.
-Juninho, mais duas cocas e uma cerveja aqui pro compadre. Lá vai o Juninho. Eles comentam que o menino gosta de gastar por isto vai lá buscar. Eu já tava na quarta cerveja e ele, coitado, na sétima viagem por que, às vezes não dava pra trazer de uma vez só.
Recomeça o jogo e logo o Jaraguá faz dois a um. Alegria total. Observo que tem uns meninos assistindo o jogo em cima do muro do estádio.
-Muita gente em cima do muro, compadre.
- É! A meninada tá igual o nosso prefeito!
E o jogo continuou. O time adversário empatou. O juiz sofreu, o bandeirinha muito mais e o Juninho, coitado, buscou mais umas cocas e cervejas.
Terminada a partida, todos tristes, pois o empate desclassificou o Jaraguá, sem ânimo nem pra xingar o juiz, que afinal não teve culpa de nada. Saímos.
Os meninos pularam dos muros de volta aos seus quintais. Os cavalos, o galo e galinha ficaram lá. Os cavalos tentando achar grama na terra vermelha e o galo querendo comer a galinha.
Na saída, demos carona para “Seu Polé”, 90 anos, lúcido e, aparentemente, saudável, vizinho de minha mãe a mais ou menos 50 anos, antigo jogador do time. Me lembro do que ele me disse no carro: - Os jogadores de hoje não tem coração; no meu tempo a gente sofria com uma desclassificação dessas. A gente ia pra cima deles com raça. Hoje não tem mais isto.
Estas foram as últimas palavras sábias que ouvi de “Seu Polé”. Alguns dias depois me telefonaram de Jaraguá, para comunicar o seu falecimento.
“ Seu Polé” morreu sem ver o Jaraguá jogar na primeira divisão. Eu quero viver para ver; quem sabe aos noventa anos....

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