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Redação-->Eu, ela e Nosso Carro -- 28/09/2004 - 21:52 (Domingos Oliveira Medeiros) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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EU E MEU CARRO
(Por Domingos Oliveira Medeiros)

Eu também já fui zero. Zero à direita. Hoje, sou zero à esquerda. Ano de fabricação: 44 - Modelo 45. Em perfeito estado de conservação. Assim, eu acho. Mas, no mercado, a coisa é diferente; as exigências são muitas. E o preço cai bastante. Preconceito contra os idosos? Talvez. Ou contra o automóvel? É mais viável. Melhor dizendo: é mais provável.

Na verdade, estou bem usado. Usadão, para ser sincero. Vivo me consertando. Correndo atrás de peças nas oficinas. Originais ou genuínas. Mas só encontro adaptações. Peças improvisadas para restabelecer funções desgastadas. Pelo tempo. Na estrada.

Ando devagar, porque não tenho pressa, como diz a canção que simboliza a zona rural. A zona onde o tempo corre normal. Sem atropelos. Do mesmo jeito que eu: a vinte ou quarenta por hora. O máximo que o relógio marcador suporta; sem risco de cair no precipício. Ir pro buraco.

Não uso mais álcool. Só bebo gasolina. Meu consumo é alto. Inflacionado. Três quilômetros por litro. Quando vou até a esquina. Comprar pão. Pão torrado. Para o meu chá das três. Depois dos remédios. Embora ciente de que, contra o tempo, não há remédio. Com o tempo, todos chegamos ao mesmo destino. O terreno baldio onde se guardam as sucatas. De todos os automóveis que se moveram, um dia, pelas estradas da vida. Acumulando curvas perigosas; intercaladas com tardes prazeirosas, e muitas histórias; muitas andanças. Um tanque cheio de lembranças.

Apesar de tudo. Apesar de tantas dúvidas e certezas. Já não tenho farol alto. Minha vista é embaçada. Pela chuva na estrada. Não saio quase de noite. Minhas rodas andam presas. Já não seduzem mulheres. Não uso mais a buzina. Que anda rouca, sem serventia. Ando pouco na estrada. Vivo mais encostado. Na garagem ou na calçada.

A lataria é um lixo. Está toda enrugada. Suspensão enferrujada. Muita pedra na estrada. O perigo por companhia. Vez em quando a derrapada. O pneu ficou careca. O eixo está empenado. O pisca-pisca falhando. O motor quase fundido. Fumaça preta soltando. Carburador entupido. Barulho ensurdecedor. Tem grilo por todo lado. O estofado e o assento. Em petição de miséria. Já está todo rasgado. Apesar de tudo isso. De viver mais no conserto. Meu carro, jamais eu vendo. Não há valor que o pague. O seu valor de estima. O seu valor estimado.

Igual a mulher ao meu lado. A minha eterna carona. Juntos, já enfrentamos muitos e variados atoleiros. Quantas vezes trocamos o pneu furado. Quantas idas e vindas no bombeiro! Nem por isso estou disposto a trocar de bagageiro. Que carregou, e ainda carrega, todas as nossas compras. As nossas feiras. As sacolas de nossos gostos e nossas manhas. Entupindo prateleiras. Conservadas em geladeiras. Somos dois carros usados. Depreciados pelo tempo, sim. E cheios de defeitos. Porém, sempre que possível, consertados. Velhos e arranhados. Ainda assim, somos dois apaixonados.


28 de setembro de 2004






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