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Contos-->Orquidea no Mel -- 07/03/2002 - 00:03 (Erasmo Junior) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Ela parece uma estrela de céu nublado porque na minha vida é sempre noite. Agora estou olhando para as minhas pinturas com todos os prêmios adquiridos ao longo desses dois anos que nunca me valeram um mero polimento. O cavalete armado porta mais uma tela vazia aguardando a próxima criação, dez mil, vinte mil, não sei o quanto pagarão por mais um desses abortos, nem sei por que sou tão caro.
Estou quebrado para sempre. Não consigo ser suficientemente grande para conter o amor que estou nutrindo pela sua existência.
Então, quando a chuva começa a batizar a noite lá fora (posso escutar), eu decido começar a obra. Pego o estilete, estico meu braço, expondo o pulso esquerdo da maneira mais obtusa possível. Será que se faz valer assim, desse jeito, trabalhando em uma condição subumana de dor, dor e dor?
Deslizo a lâmina, carne contra aço, suaves e amantes. Não lembro quando comecei a pintar, não consigo lembrar de muita coisa antes dela. Nem depois. Aliás, mal consigo entender o que se passa comigo agora. A linha deixada sobre a cicatriz na pele se tinge com sangue bem devagar, e não me parece o suficiente; mais uma vez. Um leve esguicho se atira para fora do vaso e me sinto satisfeito. Vamos lá, meu tempo é curto.
Pego o pincel e vou ao cavalete. A primeira colhida sempre sai mais escura que as seguintes, mas eu já domino essa maldita técnica de sofrimento há muito tempo. Os minutos passam e passam e vou decorando a tela branca com traços feitos de meu próprio sangue, tirando um pedaço de mim para compor mais um trabalho de arte. A fraqueza começa a arder em meus ossos, meu coração dispara e apresso as pinceladas.
Resta pouco para o final.
A visão embaça, mas o meu alívio é poder enxerga-la com o olho da mente e do coração. Vamos, imploro para a imagem que se forma, tênue e tenra, ajude-me a acabar mais esse quadro para você. Sabia disso? Todos os outros, o ateliê inteiro, as vendas, os esboços, são seus. Absolutamente seus, e você nunca precisou me ajudar porque no final das contas é você quem os faz, através do meu sangue e do meu sofrimento.
Sinto-me muito tonto e quase satisfeito. As pinceladas trêmulas e o suor frio completam os últimos momentos da obra. A melhor que eu fiz em muito tempo, com vários tons do vermelho se opondo a palidez da tela, uma textura absorvente, refletora do vazio. Será que ela vai olhar para esse quadro? Nunca consegui saber se isso aconteceria, mas eu não canso de esperar.
...
Pronto. O pincel cai da minha mão, não há mais cavalete, nem tela, nem estúdio, nem noite chovendo. Apenas um leito macio, onde ela me espera transbordando seu calor e seus espinhos, eu não sabia que ela tinha espinhos, espere, me espere, se ergue de onde está e sorri para mim, com pena e carinho. Por favor, não tenha pena, tudo menos isso, não tenha pena de mim, leve os quadros ou fique comigo mas não sinta piedade. O seu cheiro, doce e maduro, como um óleo em minhas narinas, uma orquídea no mel, da natureza e do colostro das amantes, rasga o resto da minha carne. Ela continua sorrindo e se afasta, mesmo sem andar, se afasta de mim flutuando, de frente e de braços abertos, cada vez mais distante, deixando meus quadros e minhas feridas para trás, por favor não me abandone, eu mato, eu morro, eu destruo, qualquer coisa por você mas não me deixe sozinho com esses malditos quadros
...
...
...

Nem amanhecer, nem entardecer; na minha vida é sempre noite. O seu ultimo quadro, diz o meu agente, alcançou quarenta mil nesses três dias em que você esteve internado. Essa coisa de fazer dinheiro com sangue e arte deu certo mesmo, e sorri para mim, dentes tortos e idiotas. Três dias, eu pensava que tinha sido apenas um sonho ruim, três malditos dias.
Não posso vender. Faço outro, mas esse eu não quero vender, respondo para ele.
Tudo bem, tudo bem, você quem sabe, mas o próximo talvez não atinja tanto, estamos trabalhando com arte de ponta, profissionais de ponta, as resenhas são muito positivas, mas já se fala em até quando vai durar essa sua vida de artista da dor. Você ficou muito fraco pra fazer esse último quadro, sabia? Quase morre.
Não consigo mais escuta-lo. As suas palavras se dissolvem em flores e esgoto saindo de uma boca com dentes tortos. Tudo o que desejo é sair logo daquela cama de hospital e retornar para o meu ateliê, colocar a obra na vitrine, aguarda-la passar. Eu sei que ela vai passar, cedo ou tarde, vai passar e vai olhar para aquilo e entrar para me perguntar. O meu coração me diz isso desde a ultima pincelada.
Quando ela passou em frente ao meu ateliê pela última vez, eu estava organizando as telas que ficavam expostas para quem passasse na rua. A mesma atitude; passos lentos, cuidadosos, com a cabeça erguida e olhos quase fechando, como se o sol a ofuscasse de alguma coisa, que ridículo, o sol a ofuscando. Seguia cadenciada em seu ritmo erudito, em roupas sinceras, ultrajando-me na minha insignificância de artista a contemplar a inspiração. Aquele que cria a arte nada mais faz do que uma copia borrada de algo que nunca vai possuir, sei disso pela maneira com que ela atravessava a minha vitrine. Quando eu penso que finalmente terei minhas obras notadas, ela segue em frente, sem mover um músculo do seu pescoço, deixando-me para trás mais arrasado, mais ferido e desesperado.
Incapacidade, a minha cabeça roda e roda. Da próxima vez preciso que seja diferente e, eu sei, ela vai olhar. Não há mais nada a fazer.

* * *

Era a minha quinta entrevista na semana, toda vez a mesma coisa, as mesmas perguntas e as mesmas respostas adocicadas me prometendo o bendito emprego. A vez em que cheguei mais perto de ser contratada foi para fritar batatas no fastfood, mas também não deu certo, não sei porque.
Faz muito tempo que eu rodo e rodo sem conseguir nada.
O meu sono parece que foi embora junto com a possibilidade de ser admitida em algum canto. Faz meses que venho brigando com a noite, rolando de um lado para o outro da cama sem conseguir fechar os olhos, por mais cansada que esteja. Quando pego no sono depois de muito, muito tempo, é como se eu fosse jogada em um tipo de prisão sem muros, sozinha, no escuro, procurando uma saída de volta para a lucidez. Eu acordo, ainda de noite, não consigo mais pegar no sono e choro para que a manhã chegue logo.
Na entrevista: você esta desempregada há quanto tempo, a mulher me pergunta. Treze meses, eu minto, porque na verdade já são mais de dois anos. Tem experiência no que, tem segundo grau completo, tem filhos, tem mais de vinte e cinco anos, tomou café da manhã hoje, saiu nervosa de casa? Não, não, não e não, eu não tomo café nem almoço há muito tempo, porque simplesmente sinto um asco profundo por comida.
Tem alguma doença, ela pergunta, nem olha na minha cara, os óculos na ponta do nariz, olhar para baixo caindo sobre uma ficha de papel, rolando a caneta com a ponta dos dedos sobre a mesa. Eu tenho convulsões desde pequenininha, mas quando eu tomo o remédio, não tenho nada. Ah, é? Você acha que isso poderia atrapalhar o seu emprego? Não, nunca me atrapalhou, eu tomo o remédio e não sofro nada.
Mentira. Deixei de tomar meus remédios meses atrás, quando o meu dinheiro se esgotou completamente. Ainda sobravam alguns comprimidos, mas toda vez que eu pensava em toma-los, sentia o coração disparando e vontade de chorar. Tenho tido convulsão quase todo dia
...
...
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...
...
Quando volto a mim, estou no chão com a cabeça no colo de algum funcionário do lugar, com a mulher contratante me olhando de perto, a cara esquisita. Meu deus, você tomou mesmo o seu remédio, que perigo minha filha, já pensou se você cai no meio da rua, você esta se sentindo bem, quer que alguém te leve para um hospital? Não, não. Eu vou para casa.
Ela me fala, sinto muito, sinto muito. Eu sei que perdi uma chance outra vez. Quando já estou de volta na rua, noto que estou com a camisa coberta com baba e a calça molhada de urina. No outro instante, estou chorando de novo, com o coração saindo pela boca de tão rápido. Não dá mais tempo para nada essa semana, nenhuma nova tentativa, nem perspectivas. Nunca pensei em me prostituir, cometer crimes, deus me livre, eu não sou capaz de coisas ruins e tenho medo de ter convulsão novamente. Parece até que eu sabia quando ia ter, ficava o dia todo me monitorando, esperando vir a tremedeira e o bate-bate. Quando eu me cansava e esquecia que podia ter, voltava a mim caída em algum canto.
Sem mais o que fazer e cedo demais para voltar para casa, eu tomo rumo para o retiro musical. Depois que eu descobri o retiro, desde que fiquei desempregada, ganhei alguns magros minutos sem tristeza no meu dia. Andava uns três quilômetros do centro até a quinta principal, passava a catedral e a região das galerias de arte e, antes do viaduto que volta para o centro, encontrava a casa que servia como o retiro. Vou seguindo para lá sem medo de ter convulsão novamente porque eu sei que só com o fato de me dirigir para um canto tão maravilhoso, a possibilidade de eu passar mal se suprime.
Na ida eu troco olhares com algumas vitrines de arte que nunca me agradaram.
Então, quando eu chego no retiro, me sento logo na frente, no meio de indigentes e outras pessoas necessitadas, porque eu também era necessitada, e espero começar. Umas oito crianças sentadas em banquinhos no palco improvisado, cada uma com seu instrumento, violinos e violoncelos, iniciam junto com uma velha professora no piano as quatro estações de Vivaldi. Primavera em E maior, Allegro, Largo e pianíssimo sempre, Danza pastorale: allegro. Estou toda arrepiada, como uma orquídea no mel. Mesmo sabendo que o não realizado agora é o não realizável para a minha vida, sinto-me coroada com aquelas notas tão doces, estou toda arrepiada. Em G menor, verão, Allegro non molto. Cada instrumento permeando meus pensamentos para bem longe, para um lugar especial onde eu sou feliz por eternos poucos minutos do meu dia.
Adagio – presto. Presto. A velha professora sorri para mim, de costas em seu piano. Sinto vontade de gritar, rir, e chorar, e dançar. Só resta a mim na platéia porque alguns dos missionários do retiro passaram servindo café e leite com queijo quente e os indigentes se foram. Obrigada, não quero nem mesmo o sanduíche porque tudo o que eu coloco no estômago, vomito. Me deixem, o que eu preciso agora é do Outono, F maior, Allegro, Adagio, Allegro. Aqueles docinhos, crianças tão doces, tocando para mim. Se eu pudesse, eu teria aprendido a tocar também, talvez pudesse estar ali junto delas ao invés de apenas admira-las.
Meu coração, tão cheio de conforto no retiro, refúgio da minha dor. Inverno, o meu momento preferido, Allegro non molto, largo, as crianças menores tocando sozinhas, entram as do meio, agora todas estão juntas tocando, sob a guia da professora. Ontem tocaram Grieg, Morgenstemning, Anitras Dans, I Dovregubbens Hal e eu chorei bastante de emoção, mas o Vivaldi, o Vivaldi não me cabe. Estou toda arrepiada, me tremendo, com o coração disparado, aplaudindo e aplaudindo. Hoje é sexta, que pena que não os verei amanhã nem domingo. Voltar para casa é sempre um sufoco porque eu caio do meu vôo de alivio, da minha fuga, e volto para a realidade. Sei que quando chegar ninguém vai falar comigo ou me perguntar nada. Fogem de mim e não me dirigem a palavra porque não consigo arrumar emprego, porque não tomo mais o remédio e porque não procuro um médico para resolver isso. Eu nasci quebrada, eu falo sempre, nasci quebrada e morrendo. Depois que abandonei meus pais para morar com um monte de primas numa pensão, as coisas desandaram. E agora, mesmo querendo voltar, precisando voltar, é tarde demais...
Finalmente, Allegro. Queria que não acabasse. São as ultimas passag
...
...
...
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...
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...
...
...

* * *

Chego de volta ao ateliê, com o ultimo quadro comigo. O agente tinha avaliado novamente e o valor disparou mais uma vez. Quatro pessoas tentaram negociar, mas ele sabia que eu não ia vender aquela obra.
Coloco no cavalete da entrada, virado de frente para a vitrine. Já era noite e eu sabia que não a veria passar mais hoje, e que se a visse novamente, seria na segunda-feira. Tranco as portas, coloco os alarmes e cadeados, removo-me para os meus aposentos. Antes de ela ter entrado na minha vida, há dois anos atrás, eu era um artista medíocre que morava no próprio ateliê, cheirando thinner e tinta óleo. Hoje ainda moro no mesmo ateliê, ganho dinheiro, prêmios, convites irrecusáveis pelos meus trabalhos e me sinto uma farsa, um fracasso, e, pior de tudo, mais infeliz do que quando era um desprezível. Sou uma farsa porque toda essa revelação artística, revolucionária, suicida e verossímil, imprevisível e inspirada, não vem de mim, mas vem da imagem dela. Todos os meus pensamentos se procriando em função de uma única criatura que eu vejo esporadicamente, e que me faz incapaz de se aproximar ou de perguntar qualquer coisa.
Massageio os pulsos cortados, por cima dos curativos. Se você fizer isso de novo, disse o médico, vai morrer. Eu não ligo mais.
No meu quarto de esboços, guardo os rascunhos que usei para a ultima tela. O chão ainda exibe manchas coaguladas de sangue e o estilete permanece caído no mesmo canto onde eu o soltei. Há uma revista de generalidades importante aberta em cima do banco com um retrato meu no meio da página. “O artista da dor: pintor prodígio de vinte e seis anos retrata seus sentimentos compondo telas com o próprio sangue.” Na foto, estou de lado, com um pincel na mão, uma meia expressão vazia e sem inspiração alguma; os quadros ao fundo são apenas borrões vermelhos. “Desde o seu debut antes do natal do ano retrasado, o artista da dor vem se aprofundando cada vez mais numa obra visceral e emocionada, misturando uma bagagem cultural única, com toques de Monet, Bosch e Portinari, e elementos caóticos centrados em fractais e figuras femininas”.
Então é isso, eu sou um borrão. Desde antes conhece-la, desde antes das minhas surras no colégio e mal estares infantis, eu sou um borrão.
Guardo a revista, sento no banco e coloco uma nova tela vazia no cavalete. Se você pintar de novo, vai morrer. O que mais eu posso tirar então, doutor, de uma vida vazia onde eu não consigo completar o que me falta, onde dói a consciência de ama-la, uma orquídea no mel, tão tenra, cadenciada, seus cabelos nos ombros, passando diante de todos os meus prêmios sem prestar atenção a nenhum deles, passando diante de minha vida resumida em uma obra feita para ela, quântica, adstringente. Ela não me nota, doutor, porque eu sou um borrão e fico guardado no fundo do ateliê. O que sai de mim, as obras de sangue, devem ser exibidas. Essas, sim. E mesmo essas, ela não nota.
Pego o estilete novamente. E o pincel. Eu não tenho medo de morrer, o meu pavor é o fato de estar vivo, suportando as dores das perdas e o desespero de me ver perdendo alguém que eu nunca tive. No espelho do fundo da sala eu vejo meu reflexo quebrado, estou muito pálido, sem uma gota de sangue. Sobrou pouca coisa para uma nova realização. O mundo continua a passar lá fora e a chuva volta a pesar, furiosa; o telefone toca repetidas vezes, não vou atender. Passam as horas e continuo sentado no banco, imóvel, com o estilete na mão olhando para a tela, mas não estou conseguindo lembrar do rosto dela, por mais que a ame, e por mais que a deseje, sem saber o que pensar, completamente perdido porque estas coisas fogem de mim. O telefone toca de novo, o celular, o Pager. No fax, as mensagens de propostas para exposições não param de chegar, mas eu nunca liguei para isso.
Como era mesmo o rosto dela? Pequeno e fino, olhos poligonais, discretamente caídos, as pálpebras, os cílios longos e escuros escondendo o brilho intenso da pupila, lábios tão roxos e sem contorno que se perdem com o branco da pele, com a linha do nariz miúdo, discreto. Toca a minha campainha. Corto o pulso novamente, em cima da ferida recente, eu penso sempre nessa hora, feridas abertas são portas para eu entrar. Toca de novo, de novo. Batem na porta, sinto o sangue fluir livremente para o pincel. Nem preciso mais toca-lo com as cerdas, ele jorra sozinho em direção da tela. Três batidas tímidas na porta que depois se silenciam completamente, em sinal de desistência, as pontas dos dedos adormecem
...
...
Como é mesmo o rosto dela?
...
Uma orquídea
no mel.

* * *

Fiquei com vergonha pelas criancinhas terem me visto cair na frente delas, tremendo e se debatendo. Ficaram assustadas, eu não queria assusta-las, juro que não queria que isso acontecesse de novo e justo no retiro, onde eu achava que estava protegida de mim mesma. A professora tentou me ajudar e me deu um cartão e um santinho com alguma oração, falando para eu procurar ajuda, que eu podia ter epilepsia, ou uma outra doença grave. Eu já sei, eu já sei. Tomei um copo de água com açúcar, limpei as excreções e fui embora. Na segunda esquina vomito a água. Estou de volta às ruas sem saber se volto para casa, se continuo rodando, rodando.
Não quero mais voltar ao retiro.
Perder os movimentos, a estrutura clássica das sonatas, allegro, adagio, allegro. Andante, largo, presto. Quando eu estou em casa, a única coisa que consigo fazer é escutar meus compositores preferidos, como se eles pudessem me entender através da música que tocam para mim. Scherzo, prestíssimo. A trilha sonora da minha vida é Beethoven, sonata número 14. Vivaldi. Corelli em violino, aquelas crianças iam toca-lo na próxima semana e eu não poderei mais vê-las. Começa uma garoa, atravesso a sexta principal em esquina com o alambrado demolido. Os carros voltam para casa e o ruído no trânsito me faz pensar nos tempos em que eu ainda vivia com minha família, tomando os remédios e sobrevivendo melhor. Faltava muita coisa ainda, mas quando eu tive uma crise e fui abusada pelo meu pai durante o tempo que passei desacordada, minha mãe o colocou para fora de casa, chocada. Foram várias vezes. Não tem como esquecer, eu pelo menos não consigo deixar isso para trás sem ficar longe de todos eles, aqui, nesse inferno. As primas falaram que eu podia me aposentar ao invés de trabalhar, que o meu problema é grave e que sou uma inválida.
A garoa vira chuva, igualando seu barulho com o ruído do trânsito. Já estou toda encharcada, mas não faz diferença.
Quando atinjo a região das galerias de arte, a maioria fechada, paro para olhar uma por uma. Meu pai ainda me procurou há um tempo atrás, mas eu fugi dele e não deixei mais rastro. O que vejo nas vitrines não tem o mesmo valor que uma cantata ou sonata, que transparecem as coisas com muito mais facilidade, são muito mais dramáticas e intensas. Quadros cafonas, estatuetas esquisitas, artistas falidos. Então eu chego no ateliê do centro da avenida e começo a olhar o seu interior pelo vão das barras de metal sobre a vitrine. São poucos quadros, muitos cavaletes vazios, e bem na frente, em destaque, há uma tela maior, delicadamente pintada em vermelho. Um rosto feminino.
Percorro os olhos para a porta de entrada, de madeira pesada, escrito “artista da dor” em pequenas letras de metal. Nunca tinha notado esses quadros. Volto para o retrato de mulher, um rosto muito triste, inteiro em tinta vermelha. Borrado mas perfeitamente nítido, os contornos, e muito familiar. Os outros quadros são belos também, mas aquele se sobressai por causa da intensidade.
A chuva permanece forte. Os carros começam a diminuir no fluxo da avenida. No reflexo do vidro, por trás das barras de metal, vejo o meu rosto molhado, de uma mulher acabada. Fico inteira arrepiada, meu deus do céu, não pode ser, e vou deslizando a imagem formada até que ela fique em cima da tela com o retrato. Meu coração está tão disparado que mal consigo senti-lo bater. De alguma maneira, o reflexo se encaixa quase que perfeitamente naquela obra tão sensível. Não sei se é algum tipo de coincidência, de ironia, mas aquele é o meu rosto, o meu rosto pintado por alguém muito delicado. Sou eu mesma? O artista da dor, esse é o nome. Há uma luz fraca nos fundos do ateliê, ou talvez só impressão minha, será que eu estou entrando em convulsão novamente? Podia ser uma lâmpada deixada acessa de propósito, toco a campainha. Nada. Penso nas crianças tocando com a professora e nas minhas respostas para as entrevistas quando me perguntavam a respeito da minha vida. Não consigo fingir o tempo todo nem consigo mais lutar, nem consigo dormir ou me concentrar porque eu fico muito ansiosa, como se esperasse por alguma coisa que não sei o que é e agora encontro um quadro com o meu rosto, será que era isso que eu estava esperando, será? Toco de novo, aguardo, e de novo. Bato na porta desesperada. Não há mais ninguém ali e vou ter que esperar novamente para ver o quadro de perto e descobrir quem o fez, e se não for o meu retrato, eu vivo esperando
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...
Ando nas ruas, sem rumo, sempre noite, tomando chuva e me sentindo tonta. Não como nada há muito tempo, o meu organismo fraqueja
e fraqueja, e fraqueja
e não há mais nada para mim.


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obrigado pela leitura. Ficaria muito feliz se recebesse algum comentario.
Erasmo Júnior
teeth@uol.com.br

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