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Artigos-->Jesus no Egito -- 27/07/2005 - 16:59 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Brasília, DF, 30 de agosto de 1999.



Prezado Editor de O Globo



Sobre o artigo “Jesus no Egito”, escrito pela jornalista Leneide Duarte e publicado nesse jornal em 19 Fev 99, gostaria de emitir algumas considerações.



Há, logo no início daquele artigo, uma prova cabal do profundo desconhecimento da jornalista acerca do assunto – para não dizer ignorância mesmo – quando afirma que “o espantoso é terem os egípcios demorado dois mil anos para divulgar os caminhos de Jesus no Egito”.



Ora, não é só agora que os coptas estão imprimindo às pressas um mapa da passagem da Sagrada Família pelo Egito, para comemorar o jubileu dos 2000 anos do cristianismo. Esse mapa já existe há séculos, baseado na trabalho incansável de inúmeros estudiosos. O que se pode duvidar é da exatidão de alguns detalhes aqui ou acolá, porém o itinerário tem uma lógica bastante plausível, ainda que os fugitivos de então não tivesse um fotógrafo e uma jornalista de O Globo para registrar seus passos.



Na Idade Média, a peregrinação à Terra Santa incluía, muitas vezes, a passagem pelos sítios sagrados da cristandade que se encontram no atual Cairo Velho (antiga cidade de Babilônia, construída pelos persas quando conquistaram o Egito), onde havia, na época de Jesus, uma comunidade judaica. A Sagrada Família estava, pois, “em casa”, junto de sua gente, e abrigou-se por algum tempo no local onde hoje se encontra a cripta da Igreja de São Sérgio, cuja construção foi iniciada há 1500 anos. Na mesma região se encontram uma sinagoga, a Igreja de São Jorge (onde há objetos de suplício, com que os romanos torturaram os primeiros cristãos no Egito), a Igreja Suspendida (porque foi construída sobre bastiões de uma antiga fortaleza romana), o Museu Copta, muito rico em objetos históricos, e uma mesquita que é a quarta mais antiga do mundo.



Após uma estadia no local onde hoje fica o Cairo Velho, a Sagrada Família seguiu viagem pelo Rio Nilo em direção ao Baixo Egito – sem nenhum jornalista para registrar o fato. Há um mapa encontrado em vários livros coptas que tratam do assunto e que podem ser adquiridos em vários bazares do Cairo Velho. Todos eles, invariavelmente, traçam o itinerário da Sagrada Família, desde a chegada ao Cairo, a viagem ao sul, ao longo do qual foram construídos, posteriormente, muitos mosteiros. Esses livros registram ainda alguns milagres que teriam ocorrido ao longo do percurso da Sagrada Família. Depois de a Sagrada Família se esconder no sul por alguns meses, os livros também dão conta de que aquelas santas pessoas retornam pelo Nilo ao atual Cairo Velho, para daí seguirem à atual Israel, via Heliópolis – local onde há a famosa “Árvore da Virgem”, local de grande peregrinação, por onde até passou a princesa Diana há uns anos.



Para a fundamentação do itinerário da Sagrada Família no Egito, os estudiosos basearam-se, especialmente, em tradições orais. Marcos, o Evangelista, foi quem iniciou a evangelização cristão no Egito, vindo a se tornar o primeiro Patriarca da Igreja de Alexandria, a atual Igreja Copta. Ele e seus companheiros poderiam, portanto, ter recebido um número de informações bem maior do que ousa imaginar nossa cética jornalista. O primeiro mosteiro no mundo foi construído por Santo Antão. Sabe onde? No Egito. Não houve, portanto, nenhum hiato profundo entre a passagem de Jesus pelo Egito e a chegada de Marcos e outros cristãos àquele país, para considerarmos o itinerário proposto pelos coptas como uma ficção, como quer a jornalista. Fazer uma comparação do “Evangelho segundo São Saramago” com as tradições coptas é uma grande gozação. É óbvio que Saramago escreveu apenas uma ficção. Marxista e ateu, anticlerical e anti-religioso, ele pode apenas imaginar um Cristo à la Che Guevara, nunca entender que Ele é o nosso Salvador espiritual.



Continuando sobre mapas, há um outro em que estudiosos reproduzem o itinerário do Êxodo, em que Moisés leva seu povo à Terra Prometida. Partindo de Ramissés (perto do atual Porto Said), passaram por uma lagoa, que na baixa-mar permitia a passagem a pé, seguiram a peregrinação pelo Sinai até Jericó, passando por Moab (atual Jordânia). Não passaram, segundo os estudiosos, pelo Mar Vermelho. E por que Moisés levaria uma multidão de pessoas para enfrentar o mar no peito? Criado e instruído na corte do faraó, conhecendo muito bem a geografia da área, por que iria fazer uma bobagem desta magnitude? Seria o mesmo que a jornalista de O Globo, em caso de perigo, fugir de sua redação na Glória, atravessar o Aterro do Flamengo e se atirar nas fétidas águas do mar em frente. Não seria mais inteligente escolher um caminho 180º diferente?



Uma teoria ou uma hipótese histórica só pode ser derrubada por uma outra mais consistente e devidamente fundamentada. As últimas pesquisas nos garantem que a humanidade teve origem na África, o que levou pessoas ligadas aos ditos Movimentos Negros (geralmente, os verdadeiros racistas) a exultarem, porque Beethoven teria sangue negro... Por enquanto, temos que aceitar que nosso ancestral comum teve origem no coração da África, mas nada impede de encontrarmos no futuro um osso humano mais antigo aqui no Brasil, quem sabe mesmo no Rio de Janeiro, em frente à redação de O Globo.



Tentar tirar qualquer valor histórico do itinerário proposto pelos coptas, sem apresentar nenhum argumento senão o próprio ceticismo, é apenas fazer fofoca. E quem quer fofocar deve assinar uma coluna social no jornal, nunca discorrer sobre História.



Atenciosamente,



Félix Maier



Obs.: O missivista viveu 2 anos no Cairo (1990-92) e é autor do livro “Egito – uma viagem ao berço de nossa civilização”, Editora Thesaurus, Brasília, 1995.









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