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Redação-->A Cultura e o Vôo Equivocado -- 22/06/2004 - 07:22 (Georgina Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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O equívoco de direção foi percebido tardiamente. A rota incorreta levou a aeronave, proveniente de Marabá, a um pouso forçado na floresta amazônica, a mil quilômetros do seu destino. Doze, dos mais de cinqüenta passageiros, não sobreviveram. O atento vislumbre aéreo de um dos tripulantes poderia ter evitado essa tragédia em 1989. Habituado ao vôo e conhecedor da vegetação local, bastaria que a aeromoça lhe houvesse atendido a solicitação para que repassasse ao piloto a necessidade de recuperação do rumo norte.

Posteriormente ao fato, um dos depoimentos em circulação registrou que, imediatamente após o impacto da queda, uma das comissárias pôs-se a esconder alimentos para consumo individual. Precavia-se contra a imprevisibilidade do resgate, que veio a ocorrer três dias após. A atitude egocêntrica não minimizou, entretanto, o ataque dos insetos, a escuridão e o esforço de uma longa caminhada à procura de água. Fidélis Sarno, um dos sobreviventes, manifestou-se na ocasião de forma conclusiva: "Falar de solidariedade em casa é fácil. Na hora do aperto, é outra história". Referia-se à constatação de que apenas duas pessoas dispuseram-se a dividir água e comida com os demais. Mas retornemos àquele que primeiro percebeu o desvio e previu o esgotamento desnecessário de combustível via sudoeste...Por que teria sido a sua argumentação ignorada?

Poderíamos enumerar várias possibilidades para o ocorrido...da capacitação técnica do piloto à evidente existência dos inconvenientes passageiros que causam desconforto nas viagens aéreas. Isso alivia, certamente, o descuido da tripulação. "Fôssemos dar crédito a tudo que escutamos....", defenderiam-se. Por nossa vez, preservados por uma ótica mais distanciada, somos obrigados a admitir o particionamento cultural, muitas vezes com o enaltecimento envaidecido e discriminador de suas apropriações indevidas. No acidente relembrado, a cultura primordial do percurso estaria nas mãos dos responsáveis pelo funcionamento da aeronave, principalmente em se tratando da preservação de vidas. Na sobrevivência da floresta, porém, o temor da morte elegeu como culto o homem de aparência simplória, cujo presságio havia sido desprezado anteriormente. A situação emergencial, paradoxalmente, veio a comprovar que o sujeito detinha preciosas informações referentes à sobrevivência na selva, dentre elas a distinção das plantas retentoras de água ou comestíveis.

Transpondo a reflexão sobre o conceito de cultura para nossa vivência como escritores, podemos avaliar o quanto somos imprudentes ao desprezarmos contribuições que julgamos insipientes ou ″rasteiras″. Há algum tempo assisti a uma entrevista com Juca de Oliveira e ele falava sobre a necessidade de um considerável período de contato com a natureza para que pudéssemos decodificá-la e com ela interagir. Da mesma forma que, nos eventuais passeios ao campo, desprezamos os alertas das aves para as prováveis chuvas ou mesmo os cantos das cigarras que anunciam o entardecer, a alienação proposta pelo parqueamento cultural concorre para uma ignorância em alto grau, ao contrário do que normalmente se apregoa.

Sem a necessidade de apelarmos para o retrocesso histórico ou mesmo nos apoiarmos em relatos antropológicos que nos conduziriam a configurações etnocentristas de peso, precisamos estar atentos para a deselegante usurpação da cultura denominada erudita, utilizada impropriamente como uma mercadoria denotadora de status e deferência pessoal. Nada tão desagradável quanto uma argumentação impiedosa e surda aos benefícios da dialética, com o objetivo restrito à sofista manutenção da linha de raciocínio adotada.

O compromisso com o bom-senso certamente é a melhor saída para os impasses culturais. Qual o real valor do academicismo, descartada de antemão a excludência normalmente praticada e fomentada no meio em que se processa? Por que nos fechamos aos modelos que nos causam estranheza? Qual o mérito das retaliações exageradas às manifestações que julgamos primitivas ou pouco elaboradas? Uma concepção abrangente não comportaria – e até mesmo exigiria! – uma maior abertura para as diferenças?

Não importa a constatação de trechos irreconhecíveis em razão de uma visão condicionada. Necessário, porém, que sobrevoemos um campo livre, sem afetações e vaidades desmedidas. Pilotos que somos, é imprescindível operacionalizarmos um percurso sincero e curioso sobre o que ainda não decodificamos, nunca desconsiderando o fato de que, apesar do esforço, a efetivação do vôo decorre sempre do interior das nossas próprias cabines.






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