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Artigos-->Getúlio: o suicídio de um assassino -- 27/08/2004 - 15:46 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Os 50 anos do suicídio de um assassino



por Josino Moraes (*) em 25 de agosto de 2004



Resumo: Getúlio Vargas é o fantasma vivo cuja herança nos ronda e impede qualquer possibilidade de desenvolvimento.



© 2004 MidiaSemMascara.org



Um artigo do publicável Sr. José Sarney, um dos genuínos espécimens da nomenklatura política familiar do País – vide seus dois filhos –, no dia 6 de agosto de 2004, no jornal Folha de S. Paulo, relatando, de uma forma light, próprio de sua privilegiada condição social, que lhe permite gozar de inúmeras e milionárias aposentadorias públicas, a verdade sobre a tentativa de assassinato do Sr. Carlos Lacerda e o conseqüente assassinato do Major Rubens Vaz, nos estimulou a contar aspectos conhecidos por raríssimas pessoas no País. A informação do Sr. Sarney fundamenta-se no trabalho do provável jornalista José Louzeiro: O Anjo da Fidelidade, A História Sincera de Gregório Fortunato. Editora Francisco Alves, 2ª edição , 2001. A primeira edição é de 2000. Apesar de seu título, com o óbvio apelo de marketing, o trabalho é bastante interessante. Outro aspecto que chama a atenção sobre a formação teórica do autor é quando ele afirma que Getúlio lia Adam Smith e Max Weber! (pg 37). Uma pergunta intrigante é quando foram traduzidas essas obras para o português. Suas leituras prediletas eram as obras de Augusto Comte, suponho, por mera dedução lógica.

Há alguns anos, quando pesquisava livros em sebos de Campinas, me deparei com uma obra importantíssima para a compreensão de nosso passado: Ascensão e Queda de Getúlio Vargas, obra esta composta por três volumes, de autoria de Affonso Henriques , de 1966; um trabalho gigantesco que demandou nada menos que doze anos de pesquisa e escrita, basicamente elaborado na Biblioteca do Congresso em Washington, por mais paradoxal que pareça. O autor, que apoiou a “Revolução de 1930”, redime com essa obra seus erros de juventude, como indicam suas primeiras palavras: “Este livro foi inspirado por um grande erro e uma grande injustiça praticados pelo autor, erro e injustiça que não desejamos sejam repetidos por outros cidadãos bem intencionados”. Parece ser uma sina nacional errar na juventude, pois, afinal, na nossa geração, muitos dos nossos atuais amigos liberais foram comunistas. O trágico é que a maioria de nossos ex-amigos ainda continua “comunista”, embora a palavra tenha perdido seu sentido original. Hoje, quase sempre, ser “comunista”, significa simplesmente viver de fartos impostos, ser membro da nova classe de privilegiados, ou seja, da nomenklatura. Eles não têm mais ideais, mas apenas prosaicos estômagos. Que vilania! Os que detêm o poder central apenas, com sua política externa, gostam de fazer fusquinhas aos nossos amigos americanos.

O pai de Getúlio Vargas foi o General Manoel Nascimento Vargas, que lutou na Guerra do Paraguai. Indíviduo saudoso da escravidão dizia coisas como esta: “ Os negros tinham o tratamento que mereciam: relho no lombo e ferros a prender-lhe os pés, os braços, o pescoço.” (Louzeiro, pg 38). Getúlio teve quatro irmãos, dois mais velhos, Viriato e Protásio e dois mais jovens, Spartaco (Pataco) e Benjamim (Beijo). Eles nasceram em São Borja, Rio Grande do Sul, fronteira com Argentina, via Rio Uruguai. Não se trata de mera coincidência que nosso grande ditador tenha sido fruto de fronteira, com toda sua tradição de caudilhos.

Reproduzimos um trecho do livro do Sr. Affonso Henriques, pg 53: “Quando Getúlio Vargas se encontrava em sua adolescência, seu pai enviou-o para estudar em Ouro Preto, a veneranda cidade mineira [então capital do Estado] , onde já se encontravam seus irmãos Viriato e Protásio. Nessa cidade, os três reunidos assassinaram, a tiros, um estudante de São Paulo. Os detalhes desse homicídio que, durante muito tempo, foram deturpados para favorecer os Vargas, foram publicados integralmente pela Folha da Manhã, de 15 de janeiro de 1930, e reproduzidos depois pelo O Estado de São Paulo de 25 do mesmo mês.” O assassinato se deu em 1897 e demorou exatos 33 anos para vir à tona para o País; isso para a mísera parte letrada da população. Até então, apenas Ouro Preto acompanhava com consternação tal vilania. Apesar de tudo, é provável que esse fato tenha contribuído para a derrota do Sr.Vargas nas eleições presidenciais daquele ano. Coisa de pouca valia, pois o Petiço, apoiado pelo Exército Brasileiro, tendo à frente seu grande amigo Góis Monteiro, deu o golpe que viria a destruir toda nossa possibilidade de futuro. A crise econômica, que veio na esteira da Grande Depressão de 1929, foi o substrato que permitiu tal mudança, tanto aqui como em praticamente toda a América Latina.

A vitória de Vargas significava o triunfo definitivo do positivismo comteano, que já em algumas oportunidades, desde o Império e através de isolados putschs militares já havia tentado, em vão, derrubar a monarquia e implantar sua ditadura republicana. Posteriormente, a Proclamação da República foi uma vitória de meia-boca, pois muitos oficiais não comungavam ainda com o apostolado positivista, e muitos civis, liberais influentes, Rui Barbosa dentre outros, gozavam de parte considerável do poder. Permitam-nos um pequeno parêntesis. A historiografia brasileira é extremamente complexa quanto a sua compreensão, pois ela é, basicamente, elaborada por marxistas ou filomarxistas, que não relatam os fatos, mas sim preocupam-se com suas interpretações e adjetivações. Um verdadeiro quebra-cabeça.

Retornemos ao assassinato do jovem paulista, estudante de direito, Carlos de Almeida Prado Junior. Segundo um ouro-pretano, o primeiro encontro entre Carlos e os Vargas e Baltasar do Bem se deu no bilhar Helena, onde os Vargas estariam judiando de um jovem mineiro. O jovem Prado, de forte porte físico, tomou as dores da vítima e os afugentou. Segue o relato, reproduzido por Affonso Henriques: “ No dia seguinte tôda a cidade sabia que os gaúchos haviam condenado à morte Carlos Prado. Êste, avisado, não teve mêdo, e, sabendo que à noite seria agredido, saiu a rua para seu habitual passeio. Ao passar perto da ladeira São José, foi alvejado a tiros pelos estudantes Viriato, Protásio , Baltazar do Bem, Kauffman, Getúlio Vargas e um outro de que não me lembra o nome. Estavam esses estudantes escondidos atrás de um muro ali existente e atiraram de surprêsa, caindo Carlos Prado atingido por nove projéteis. Foram os assassinos pronunciados e Viriato ocultou-se numa casa comercial, dali saindo dois meses depois, conduzido por Benjamim Tôrres, que, há cinco anos [ a carta é de 1930]foi assassinado no Rio Grande por capangas da família Vargas. Era juiz de direito em Ouro Preto o poeta, hoje, deputado, Augusto de Lima, que protegeu tão escandalosamente os gaúchos que o Govèrno de Minas o afastou. Getúlio, por ser menor, foi despronunciado pelo famigerado juiz e seguiu para o Rio Grande, acompanhado por seu pai.”

O sobrinho da vítima, Fausto de Almeida Prado, advogado, confirma integralmente o relato, precisando apenas a data e nome completo da vítima. Devemos precisar que o assassinato do grande médico Benjamim Tôrres encontra-se bastante detalhado na obra de Louzeiro. Isso ocorreu de fato em 12 de março de 1915.

Louzeiro apresenta uma versão ligeiramente diferente dos fatos. Segundo ele, o primeiro encontro entre as partes teria um fundo político, do qual teria partido a primeira animosidade. Os gaúchos, florianistas e castilhistas, em uma palavra, ligados ao Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), teriam organizado uma passeata cujo mote era: “Morte a maragaitada!” Os maragatos eram os federalistas, inimiigos dos Vargas etc. Logo haveria uma terceira facção, de tendência anarquista e liderada por Carlos de Almeida Prado, que, à frente de seu grupo, gritava o refrão: “ Castilhistas e maragatos são farinha do mesmo saco, lambedores de botas, comedores de tripas!” O que não bate é essa história de anarquistas, principalmente paulistas, em Ouro Preto, na época. Os anarquistas surgiram na cidade de São Paulo, por influência da migração européia junto à classe operária, e formaram a base do nascente Partido Comunista Brasileiro, fundado apenas em 1922. Ora, Carlos era filho de um líder republicano paulista, suponho que membro do Partido Republicano Paulista (PRP), provavelmente um liberal, dentro das limitações da época e das idéias no País.

Um segundo encontro teria se dado na manhã de 7 de jnho de 1897 – ele não precisa a data do primeiro encontro – teria ocorrido ao [os gaúchos] passarem pela Rua São José e avistarem o paulista e mais três colegas. Eles teriam tratado de surpreende-los em frente a uma loja. Prado teria feito uso de um stick – bastão, bengala, em inglês – , arma de defesa pessoal, e Viriato e Balthazar apanharam bastante, em bom português. Ele teriam retornado à pensão sangrando e cheios de dor. Eles teriam reorganizado um grande grupo e retornado, no mesmo dia, as seis da tarde, a mesma Rua São José. Getúlio, com apenas 14 anos, fez quentão de acompanha-los. Carlos, teria mostrado o stick e Viriato e Balthazar sacaram as armas. Os parceiros de Prado o teriam abandonado – que canalhas! – e ele teria decidido desarmá-los sozinho, com uma bengala! Viriato e Balthazar dispararam.A rua era conhecida como ladeira, como relata o habitante local no texto acima. Por que eles teriam retornado a Rua às seis da tarde? Qual a certeza de reencontrar o “inimigo” no mesmo local? A grande verdade é que tratou-se de um caso típico de tocaia, método característico dos Vargas e outros em São Borja; logo mais relataremos o atentado da Rua Toneleros, outro exemplo de tocaia. O processo terminou em nada, dada a grande força política do General Vargas, Pinheiro Machado e outros. Esse foi o “batismo” de fogo do Petiço, co-autor de um homicídio à traição, com apenas 14 anos.

Louzeiro, apesar de citar vagamente e imprecisamente a obra de Henriques, definitivamente não a conhece a fundo, como teria sido conveniente.

O grande sonho de Getulio era ser um militar, um ídolo admirado e respeitado pelas massas. O triunfo dos militares na então recente Guerra do Paraguai ainda estava latente. Ele chegou a matricular-se na Escola Militar de Rio Pardo, mas logo se desliga por motivos que Henriques não revela. Sem dúvida, sua inferioridade física jogou um grande papel nessa questão; não era apenas um baixote, mas, sobretudo, as pernas eram excessivamente curtas. Isso terminou desenvolvendo em Vargas sua grande doença: seu complexo de baixa estatura, daí seu apelido de Petiço, adjetivo que se aplicava também aos cavalos menores. Relata Louzeiro, pg 295: “No Catete, os fotógrafos recebiam instruções do DIP para não fotografá-lo na posição normal; deveriam pegá-lo de baixo para cima, afim de que parecesse sempre maior....” E mais: “O interessante é que para essas reuniões íntimas [ida aos bordéis], ele procurava convocar os amigos, mas todos da sua estatura.” Há uma obra de um psiquiatra brasileiro, Dr. Cláudio de Araújo Lima, Mito e Realidade de Vargas , sobre essa questão. Essa obra deve ser interessantíssima, a dar fé aos extratos mostrados por Henriques. Não cabem dúvidas quanto a personalidade doentia de Getúlio, tão comum aos ditadores.

Há exatamente 50 anos, Vargas encontrava-se encurralado pela oposição, com inúmeras denúncias de corrupção etc. Tudo aquilo que ele havia gerado desde 1930 – corrupção, populismo, nepotismo, despotismo etc – parecia vir à tona como uma avalanche. O imortal Vargas, que havia conseguido corromper até a Academia Brasileira de letras para permitir seu ingresso nesta, encontrava-se numa corda bamba. Para piorar sua sina, o contato de nossas forças armadas com o exército americano, desde o final da II Guerra Mundial, trouxe certos ventos democráticos aos nossos soldados, debilitando sensivelmente seu apoio por parte dos militares, até então irrestrito. Beijo se referia a esse aspecto como: “lacerdistas infiltrados nas Forças Armadas” ( Louzeiro, pg 501). Afinal, o fascismo, muito próximo ao positivismo, que constituía o cerne do cérebro de Getúlio e de nossos militares, havia sido fragorosamente derrotado. Qual a saída? Coube a intelligentsia de São Borja urdir a saída: assassinar o principal líder da oposição. Afinal, seus dois irmãos, o mais velho e o caçula, Viriato e Beijo, eram assassinos matriculados, quando não mandantes, via capangas, de crimes horrorosos. A trama foi urdida por Beijo, General Mendes de Morais, e os deputados Danton Coelho, Euvaldo Lodi e Lutero Vargas, filho de Getúlio. Apesar do Petiço não ter vocação para prêmio Nobel, tampouco era um débil mental para pensar em tal “projeto”, para utilizar a palavra que Beijo deu à operação. O estilo era sempre o mesmo: a tocaia. O instinto político de Getúlio, caso estivesse ciente, o levaria a ver no “projeto” seu próprio fim, como de fato foi o caso.

Um dos componentes da personalidade doentia de Getúlio era a propensão ao suicídio. Em 1932, ao ver cercado o Palácio do Catete por tropas do exército, e acreditando que elas vinham a depô-lo, muniu-se de um revólver, escreveu uma carta-manifesto à Nação, e declarou que não se entregaria e, em última instância, poria fim à própria vida. Na verdade, as tropas vinham para protegê-lo. Isso consta no depoimento do General Góis Monteiro e é confirmado por ninguém menos que Osvaldo Aranha. Isso só viria a se concretizar no dia 24 de agosto de 1954. A partir daí, ele se tornou, para o Brasil, o cadáver vivo de São Borja. Ou, talvez, o fantasma vivo cuja herança nos ronda e impede qualquer possibilidade de desenvolvimento.



(*) Josino Moraes é formado em engenharia pela Universidade Mackenzie e em economia pela Universidade de Estocolmo. É autor do livro A Indústria da Justiça do Trabalho – A Cultura da Extorsão.

josino.sp13.net











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