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Artigos-->A política como idéia -- 09/07/2004 - 00:43 (Darlan Zurc) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


(Para meu pai, o animal político Albino, e para meu irmão, o muito popular Dênio.)





Um irmão meu tem interesses no lado prático da política, possui qualidades tipo carisma, desenvoltura e simplicidade e, ao contrário do ex-presidente João Figueredo, não odeia o cheiro do povo.



Nem sou o oposto exato dele nem alimento a mesma antipatia de Figueredo, mas gosto basicamente das teorias e estudos sobre o tema. A prática do poder não é minha praia; e não é porque me faltam quase todos os méritos para assumir a função de homem público.



E querendo fazer esse mergulho nos textos que buscaram a compreensão do assunto — uma vez que a experiência será dada somente com o acúmulo considerável de tempo —, ele, então, pediu para que eu indicasse algumas leituras básicas.



De cara pensei em Maquiavel, “O príncipe”. Claro que aquela análise dele sobre Tito Lívio é importante, contudo, meu querido irmão quer apenas uma lista introdutória, e só. Sendo assim, a grande obra “Política”, do filósofo Aristóteles (o mesmo gênio que criou a clássica frase “O homem é um animal político”), é imprescindível, indispensável! Assim como é insubstituível a “República”, de Platão.



Em matéria de discurso e exaltação, nada mais delicioso do que as “Catilinárias”, do orador Cícero, um dos romanos mais intelectualizados da época. São bons aperitivos, antes de Cícero, os discursos de Péricles, governador grego, que se encontram no livro “História da Guerra do Peloponeso”, do historiador Tucídides.



O teor político da fase inicial do cristianismo e do que ficou registrado na “Bíblia” — a exemplo do “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, que é uma das inteligentíssimas saídas de Cristo diante da malícia humana — está tão indireto e sem maiores detalhes que, no fundo, quase nada disso encontraríamos lá. De qualquer modo, a “Bíblia” continua sendo objeto de atenção das massas e grande fonte de inspiração até para quadros partidários.



Santo Agostinho é exemplo de pensador que, apenas espremendo seus livros até o esgotamento, obteríamos alguma coisa de estudo ou doutrina política. Se bem que ele deu um dos passos decisivos para a ligação religião-governo.



Há análises na Idade Média sobre o papel que caberia à religião em um Estado, mas como se sabe da forte religiosidade da cultura medieval, a participação da Igreja nas decisões políticas é inquestionavelmente completa. E dessa união que durou séculos, raríssimas obras serviriam para explicar o quadro político atual senão aquelas que, da Idade Moderna em diante (ou melhor, do pensador Montaigne para cá), já propõem a separação entre os três poderes (legislativo, executivo e judiciário) e restringem a interferência religiosa em assuntos do governante.



Onde acharemos algo mais amoral (e pouco religioso) do que o maquiavelismo ou aquilo que entendemos como maquiavélico? A sordidez do mundo nunca mais foi a mesma depois de Maquiavel. E nem depois de Hobbes, que acertou ao concluir que “O homem é o lobo do homem”.



Do século XVI ao XVIII, ao lado do aumento escandaloso do poder dos reis, que governavam com força ilimitada — a grande exceção é a Inglaterra —, apareceram idéias e livros que discutiam a origem do próprio poder e a necessidade dos seus limites. John Locke e Jean-Jacques Rousseau são modelos dessa filosofia antiabsolutista. O livro “Do contrato social”, do cavalheiro e iluminista Rousseau, não me deixará mentir. Se bem que o Iluminismo era essencialmente contra a concentração do poder, ainda mais um monarca com plenos poderes (ou “podres poderes”, cantaria Caetano Veloso).



Depois do Iluminismo ocorre a Revolução Francesa, ambos ainda no século XVIII. E é na Revolução que aparece a divisão clássica do mundo político em correntes ideológicas.



O surgimento das categorias “esquerda”, “direita” e “centro” ocorreu na França revolucionária, partindo dos mais exaltados aos mais moderados e entre os que assumiam posição dependendo do confronto dos dois últimos.



Há quem diga (e são muitos) que o conteúdo ideológico ou o sentido dessas categorias já se perdeu hoje, porém, a diferenciação básica entre progressistas (esquerda) e conservadores (direita) permanece válida desde quando foi criada.



Uma das fontes inspiradoras da esquerda ainda é o “Manifesto comunista”, de Friedrich Engels e Karl Marx, por isso sua leitura é obrigatória. Assim como é fundamental (pelo meno uma parte) a obra-mãe do pensamento econômico de direita que é “A riqueza das nações”, de Adam Smith.



Inescapável e excelente é a conferência “A política como vocação”, de Max Weber. O que existe de mais atual em política é provável que esteja neste texto. A tendência de profissionalização do candidato — algo comum em partidos como o PFL — certamente tem Weber como pai.



Grande mestre da prática e político de primeira grandeza foi Abraham Lincoln. Muito habilidoso e culto, Lincoln é exemplo de capacidade invejável. O livro organizado por Hernani Donato, “Grandes discursos da história”, traz um belo texto dele, além de outras delícias do gênero humano tipo o pronunciamento de Napoleão Bonaparte, após perder uma batalha, ou um sermão de Pe. Vieira. Todos de altíssima qualidade retórica e, note bem, com um certo viés político embutido.



Muito interessante e necessário também é o livro “Minha luta”, de Adolf Hitler, no qual ele registra os passos que deu até antes de chegar ao poder. Hitler, pelo menos na tradução para o português, escrevia muito, muito bem. Já o anti-Hitler, o filme “O grande ditador”, não é livro, tudo bem, mas é formidável. Nada melhor do que Chaplin para curar pecaminosos pensamentos nazistas.



O extremo do totalitarismo, do abuso ilimitado da força — principalmente no contexto da Guerra Fria e do autoritarismo stalinista —, foi exposto no romance “1984”, de George Orwell. Existe também o filme com o nome idêntico, porém, o livro é muito, muito mais chocante.



E do choque, vamos navegar, por fim, em tempo calmo. O “Dicionário de política”, organizado por Norberto Bobbio, deve fazer parte de uma lição de casa desse tipo. A propósito, Bobbio assegura que a base ideológica que separa esquerdistas e direitistas continua atual. E é verdade. Veja seus argumentos no livro “Direita e esquerda”.



Embora muitos dêem pouca importância, as enciclopédias são sempre um guia intelectual necessário. O verbete “Política”, da ótima “Enciclopédia Mirador internacional”, é uma verdadeira aula.



Sendo esta listagem bem livre — tão livre, e talvez injusta, que só indiquei as obras que, tortuosamente, tive contato —, não poderia, mesmo assim, esquecer a produção local. O ex-ministro da Cultura Francisco Weffort, por exemplo, além de ter escrito “O populismo na política brasileira”, uma vez coletou vários textos fundamentais e os publicou em “Os clássicos da política”. Ambos são leitura inadiável.



Um clássico brasileiro que ainda não li (que pecado!), mas que sugiro assim mesmo (principalmente para entender as delicadas relações sociais no Nordeste), é “Coronelismo, enxada e voto”, de Victor Nunes Leal.



Para ver uma incrível coletânea de documentos políticos nacionais desde o século XVI até o século passado, o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (CEBELA) hospeda em seu site (www.cebela.org.br) uma cópia completa do livro “Textos políticos da história do Brasil”, elaborado por Paulo Bonavides e Roberto Amaral.



Analisando os últimos anos do modelo brasileiro, o livro “Anos 90: política e sociedade no Brasil”, organizado por Evelina Dagnino, tem artigos extremamente interessantes. Renato Janine Ribeiro, que sempre nos ensina quando escreve ou quando fala, colaborou redigindo o primoroso texto “A política como espetáculo”. Marilena Chaui, com “Raízes teológicas do populismo no Brasil”, faz também uma viagem filosófica como poucos.



Pensador como poucos é Olavo de Carvalho. No seu “O jardim das aflições” existe um breve estudo sobre os fundamentos dos movimentos políticos recentes e o quanto de semelhança há (para espanto geral) entre o neoliberalismo e o socialismo. Por essas e outras, pare tudo que estiver fazendo agora e se dedique a este livro.



E se em Filosofia (segundo uma frase antiga) quem perde ganha à medida que aprende mais, em política o candidato pode ganhar apenas de vez em quando ou nunca — algo nada bom —, mas sempre terá como aprender. Isso é pelo menos um consolo.





Texto enviado aos jornais “Tribuna Feirense”, de Feira de Santana (BA), e “Folha Metropolitana”, à revista “Com Classe” e à “Revista Guarulhos” (ex-“Guarulhos S/A”) — os três últimos são de Guarulhos (SP) — e ao site www.prefacio.net.











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