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Discursos-->Elogios à Patrona da Cadeira 32 da Academia de Medicina/RN -- 31/08/2006 - 20:12 (Ana Maria de Oliveira Ramos) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
ELOGIOS DA ACADÊMICA ANA MARIA DE OLIVEIRA RAMOS À PROFESSORA MARIA GISELDA SILVA TRIGUEIRO, PATRONA DA CADEIRA DE NÚMERO 32, DA ACADEMIA DE MEDICINA DO RIO GRANDE DO NORTE.

Natal, 01 de Abril de 2003.

A Academia de Medicina do Rio Grande do Norte reúne-se nesta data, em Sessão Solene para ouvir os Elogios da Acadêmica ANA MARIA DE OLIVEIRA RAMOS à Professora Dra. MARIA GISELDA DA SILVA TRIGUEIRO, Patrona da cadeira de número 32.
(Cerimonial realizado pelo 2º Secretário da Academia, Acadêmico Gley Nogueira Gurjão)

COMPOSIÇÃO DA MESA

1. Acadêmico ALDO DA CUNHA MEDEIROS, Vice-Presidente da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte;
2. Conselheira Dra. EMÍLIA MARIA TRIGUEIRO MORAIS DE PAIVA, Vice-Presidente do Conselho Curador do Memorial da Medicina do Rio Grande do Norte, representando o Presidente do CREMERN;
3. Acadêmico IVIS ALBERTO BEZERRA DE ANDRADE, Secretário de Saúde do Estado;
4. Acadêmico OLÍMPIO MACIEL, Presidente Conselho Curador do Memorial da Medicina do Rio Grande do Norte;
5. Dr. LUIZ ALBERTO CARNEIRO MARINHO, atual Diretor do Hospital Giselda Trigueiro;
6. Professor Dr. HIRAM DIOGO FERNANDES, Paraninfo da turma de médicos formados no ano de 1970.
7. Dr. ROMILDO BATISTA DE FARIA, ex-Secretário de Saúde do Estado, representando a turma de médicos formados no ano de 1970.
8. Dra. MARIA JOSÉ DE AGUIAR, ex-Diretora do antigo Hospital Evandro Chagas, no momento em que o mesmo foi denominado Hospital Giselda Trigueiro.



Discurso realizado pela Acadêmica Ana Maria de Oliveira Ramos

Digníssimo Vice-Presidente da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte, Acadêmico Aldo da Cunha Medeiros, demais autoridades presentes, familiares da homenageada, queridos colegas dos bancos da Faculdade de Medicina, minhas senhoras, meus senhores, caros colegas Acadêmicos,

Preâmbulo
Quebrando um pouco o protocolo, farei um breve preâmbulo, justificando a composição da mesa. Como podem ver, nela encontramos três nobres Acadêmicos, o Acadêmico Aldo, nosso Vice-Presidente, o Acadêmico Ivis, atual Secretário de Saúde do Estado e o Acadêmico Olímpio Maciel, representante maior desta casa, o Memorial da Medicina.
Entre os membros da mesa vemos ainda, a Conselheira Emília, representando o Presidente do nosso Conselho. A Dra. Emília, no entanto, além de cuidar com muito carinho e dedicação do acervo do Memorial, mantém laços importantes com a Academia, tendo sido responsável pela heráldica de nossa insígnia e pela criação artística da Bandeira da Academia, a pedido do Acadêmico Carlos Ernani Rosado, em Setembro de 1997.
Nessa sessão solene, não poderia faltar à mesa a representação daqueles que foram treinados em infectologia pela nossa homenageada. Assim, a presença de Dr. Luiz Alberto entre nós, reflete o cuidado e o compromisso com a continuidade da obra por ela criada, o Hospital Giselda Trigueiro, onde funciona a Residência Médica de Doença Infecciosas e Tropicais e do qual ele é o atual Diretor.
A presença dos demais componentes é um resgate ao passado. Nosso querido Professor Hiram Diogo Fernandes, Patrono da turma de médicos formados há 32 anos, recebe hoje a reverência de todos os presentes e sobretudo dos meus colegas do Curso de Medicina que aqui se encontram. Quanto ao Dr. Romildo e à Dra. Maria José, a eles farei referência especial durante este elogio.
Elogio
O que eu poderia dizer em uma Homenagem Solene a Dra. Giselda? Como posso fugir das palavras ditas em homenagem póstuma a ela feita em 1987, nesta Academia, por seu maior colaborador, Acadêmico Daladier da Cunha Lima, que tão bem a conhecia de perto? Começo então meus elogios à Patrona da cadeira de número 32, Dra. Maria Giselda da Silva Trigueiro, recordando o momento em que a conheci.
A responsabilidade de proferir elogios à saudosa Professora Giselda imediatamente transportou-me no tempo, há anos atrás, quando então eu era aluna do Curso de Medicina. Pela primeira vez na história do curso médico da nossa Universidade uma mulher seria escolhida Paraninfa de uma turma, da qual tenho a honra de pertencer. Permitam-me demonstrar publicamente a intensa saudade, agora revivida, daquela que soube nos cativar com seu carisma, nos engrandecer com sua sabedoria, nortear nossa vida profissional com seu exemplo e que tão prematuramente se foi do nosso convívio.
Sempre que relembro a figura altiva e ao mesmo tempo meiga, elegante, sofisticada, inteligente, humana e amiga da nossa inesquecível Dra. Giselda, retorno aos bancos da antiga Faculdade de Medicina, com saudades. Sua presença marcou profundamente a conduta profissional e ética daquela turma de 41 jovens médicos formados em 1970, da qual foi indicada Paraninfa, por unanimidade. Nossa turma foi também sábia na escolha do seu Patrono, Professor Hiram Diogo Fernandes e do Orador da Aula da Saudade, o saudoso Professor Getulio de Oliveira Sales. Os colegas Waldir Mendes, Orador da Turma e Maurilton dos Santos Morais, Orador da Aula da Saudade, marcaram nossas despedidas dos bancos da Faculdade, com discursos emocionados.
Desde os primeiros anos do curso médico tínhamos notícias de uma professora da Disciplina de Infectologia, famosa por suas aulas magistrais, por sua imensa capacidade de comunicação, por sua cultura, por sua competência profissional, por sua humanidade no trato com os doentes e por seu jeito elegantemente exótico, este último talvez o mais marcante entre nós jovens e motivo maior do despertar de nossa curiosidade...
Lembro muito bem de como ficamos encantados ao encontrá-la pela primeira vez. Ela entrou na sala de aulas do antigo Hospital da Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, de um modo imponente e altivo, porém irradiando simpatia... Sua voz fluiu serena, acompanhada de um lento piscar de olhos e, naquele momento, acredito que uma aura especial nos envolveu... Como num passe de mágica, uma sensação sublime, um encantamento maior se fez presente, como soe acontecer no amor à primeira vista. De repente, éramos 41 jovens, embevecidos por seu saber, enamorados pelo seu modo de ser e, sobretudo, apaixonados pela arte que ela passou a nos ensinar... A arte de ser médico...
Foi ela que nos alertou sobre a importância da realização de pesquisas epidemiológicas e elaboração de trabalhos científicos. Criou, na nossa turma, o I Congresso Estudantil de Infectologia do Curso Médico, distribuindo temas e ensinando-nos como realizar pesquisas de campo, coletar referências bibliográficas e redigir trabalhos científicos. Naquela ocasião, ofereceu prêmios para os melhores trabalhos, o que serviu de estímulo para o futuro desenvolvimento investigativo-científico da nossa turma.
Foi com seu jeito generoso de ser que começamos a enveredar pelo lado humano da medicina. Foi dela que escutamos, ao final do curso, já como nossa Paraninfa, as seguintes palavras: “Tendes, à vossa frente, as mais amplas perspectivas de participação humana através da missão de zelar pela vida dos vossos semelhantes. Compenetrai-vos disto e sede dignos desta missão transcendental, oferecendo aos que sofrem os melhores conhecimentos técnicos e as mais delicadas facetas da generosidade”. Naquele momento ela já pregava a necessidade de uma humanização da medicina, tão carente e tão procurada nos dias atuais. Hoje, tenho plena convicção que foi com ela que aprendemos a amar a arte humana e espiritual de ser médico...
Sua partida, tão prematura, marcou saudosamente a todos nós e aqueles que com ela conviveram, mas deixou uma recordação saudável, uma lembrança melancólica e uma sensação de orgulho por termos tido a oportunidade de conhecê-la.
A importância da sua figura marcante para a Academia de Medicina do Rio Grande do Norte foi fundamental, desde o momento da sua criação. Em primeiro de Outubro de 1985, dezessete médicos reuniram-se para fundar a Academia de Medicina do Rio Grande do Norte e entre eles havia apenas uma mulher. Dra. Maria Giselda Silva Trigueiro foi Membro Titular Fundador desta Academia, ocupando a cadeira de número 11, cujo Patrono Perpétuo por ela escolhido foi o Dr. Francisco Xavier Soares Olavo Montenegro. Com a sua morte tão prematura, em 11 de Maio do ano seguinte, sua cadeira permaneceu vazia até 1988, quando foi ocupada pelo colega Acadêmico Dr. José Rubens Marcondes Aguiar.
Em 1995, o número de Acadêmicos foi ampliado e eu, ao ter sido escolhida pelos nobres membros desta Academia para compor seu quadro, além de me sentir muito honrada, encontrei uma oportunidade de prestar uma homenagem maior àquela que até hoje continua norteando os meus passos. Escolhi Dra. Maria Giselda da Silva Trigueiro para ser Patrona Perpétua da Cadeira de número 32, que agora ocupo.
A Academia de Medicina do Rio Grande do Norte muito se orgulha em ter tido a figura de Dra. Giselda no seu quadro de fundadores e, principalmente, em tê-la como sua primeira líder, ao assumir a presidência no momento da sua criação. Apesar de breve, esse salutar convívio na Academia foi suficiente para firmar convicções do seu poder de liderança e de competência. Ao ocupar cargo tão relevante, ao lado de figuras tão imponentes da medicina do nosso estado, ela mostrou à classe médica que despontavam, com ela, o pioneirismo e a força da mulher...
Nossa homenageada nasceu em Missão Velha, no Ceará, viveu sua juventude e realizou seus estudos em Recife, Pernambuco, mas foi em Natal que lançou suas sementes familiares e se dedicou intensamente à sua profissão, sentindo-se, por adoção e por direito, uma cidadã norte-rio-grandense, com título indicado por Dr. Vivaldo Costa e homologado unanimemente pelos integrantes da Assembléia Legislativa Estadual. Ao receber aquele título, assim falou: “Aqui vivi minhas lutas, chorei meus desenganos, cantei as minhas vitórias, afirmando-me profissionalmente, consolidando grandes amizades e integrando-me à sociedade norte-rio-grandense.”Seu curriculum vitae é invejável, tendo diplomas de Filosofia Ciências e Letras e de Didática Geral, obtidos na Universidade Católica do Recife, em 1951 e em 1955, respectivamente. Como aluna do curso médico, participou da pesquisa “Valor da biópsia hepática no diagnóstico da fibrose hepática por E. Mansoni”, realizada na Clínica de Doenças Tropicais e Infecciosas do Hospital Pedro II, no Recife, concluindo sua formação médica em 8 de dezembro de 1959.
Em 1961, substituiu o Professor Francisco Xavier Olavo Montenegro, na regência da Cadeira de Doenças Tropicais e Infecciosas da Faculdade de Medicina do Rio Grande do Norte. Seis anos depois, o Sanatório Getúlio Vargas foi transferido para um prédio novo e sua antiga sede foi transformada em hospital para tratamento de doenças infecto-contagiosas, recebendo o nome de Hospital Evandro Chagas, sob sua direção.
Defendeu tese de Livre Docência em 1976, sobre “Tétano no Rio Grande do Norte – Alguns aspectos epidemiológicos e clínicos”, sob a orientação do Professor Ricardo Veronesi, da Disciplina de Doenças Infecciosas da USP, uma referência internacional no assunto.
Em recente manuscrito a nós dirigido, o eminente Professor Veronesi assim se referiu à nossa homenageada: “Giselda teve papel importante, se não decisivo, em 1980, na criação da Sociedade Brasileira de Infectologia por mim fundada, com total apoio dessa magnífica companheira. Tive, nesses 20 anos de salutar convívio com Giselda, a satisfação de receber o carinho e a amizade de seu esposo, Professor Kerginaldo Trigueiro e seu três filhos. Giselda foi mãe e esposa exemplar e seu trajeto pela Medicina foi marcado por episódios que honraram e dignificaram sua família, seus amigos, seus discípulos e seus colegas”.
Discorrendo ainda sobre o seu curriculum vitae, nossa homenageada realizou estágio na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e participou de inúmeros trabalhos apresentados em Congressos Nacionais e publicados em revistas de importância científica, dentre outras inúmeras atividades de chefia, ensino e pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Nessa inumerável lista, salientam-se conferências proferidas, aulas magistrais, participação em bancas examinadoras de concursos universitários locais e de outros estados e em Conselhos Editoriais de revistas médicas.
Exerceu a presidência da Sociedade Norte-rio-grandense de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical seccional do RN e, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, ocupou os cargos de Chefe do Departamento de Infectologia e Coordenadora do Curso de Medicina. Foi ainda Presidente da Associação Médica do Rio Grande do Norte e da Sociedade de Médicos Escritores do Estado. Vale recordar a sua grande capacidade criativa ao escrever versos de literatura de cordel.
Ela trouxe para Natal o XVI Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical que, presidido por sua liderança, mostrou a quase mil congressistas de outros Estados da Federação a competência científica dos nossos participantes locais e as belezas naturais da nossa cidade. Durante este evento, tive a satisfação de conhecer o Professor Luiz Carlos da Costa Gayotto, a quem devo muito da minha formação em hepatopatologia. O Professor Jayme Neves, da Universidade Federal de Minas Gerais, que deste evento também participou recorda, em contatos mantidos conosco, de uma chuva torrencial que quase atrapalha o lauto jantar que ela ofereceria aos participantes do Congresso, ao redor da piscina da sua residência. Este incidente não foi capaz de fazê-la perder seu bom humor, embora em prantos de desapontamento...
Representou o Brasil em Congresso Internacional realizado na Suécia, discorrendo sobre um tema do qual era profunda conhecedora, “O tratamento do tétano”, ilustrando sua apresentação com uma das maiores casuísticas mundiais, tornando-se assim, conhecida e respeitada no mundo científico nacional e internacional. Sobre esse tema, participou como colaboradora na redação do capítulo de livro do professor Jayme Neves.
Recordo como a mesma sentia-se frustrada ao ouvir o ruidoso barulho do trem que até hoje ainda trafega diante do antigo Hospital Evandro Chagas, pois à sua passagem seguiam-se ataques convulsivos dos recém-nascidos tetânicos dos quais ela tratava com tanto carinho e dedicação. Nossos plantões, como estudantes, eram regidos pelos apitos e pelos tremores da máquina que até pareciam invadir aqueles pequeninos corpos já tão agredidos pela toxina do bacilo tetânico.
O Professor Veronesi a ela se referiu como sendo “uma figura impressionante pela sua postura e entusiasmo diante dos problemas de Saúde Pública, quando teve a oportunidade de reerguer, reorganizar e reformar o velho hospital, onde comandou a batalha contra epidemias que atingiam o Rio Grande do Norte”.
Após sua morte, em Maio de 1986, a direção do Hospital foi oficialmente assumida pela Dra. Maria José de Aguiar que, juntamente com o então Secretário de Saúde do Estado, Dr. Romildo Batista de Faria, oficializaram a mudança do nome anterior para Hospital Giselda Trigueiro, em Janeiro de 1987. Vale ressaltar que ambos, aqui presentes e compondo esta mesa, foram meus colegas da turma de médicos de 1970 e que, por terem tido a honra de conhecê-la de perto e pelo carinho a ela dispensado, sentiram a necessidade de tão justa homenagem resgatando, nesse ato, toda gratidão devida à sua memória.
Duas metas prioritárias para ela, alcançadas como todas as demais de sua vida, foram a criação do Departamento de Infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e da Residência Médica em Doenças Infecciosas e Tropicais, no ano de 1974. Dessa última, saíram e ainda saem grandes profissionais especialistas em Infectologia, orgulho da nossa medicina e reflexo da sua capacidade de transmitir conhecimentos.
Entre os que com ela conviveram mais de perto, temos a honra de citar o nome da Dra. Ivalda Santana, sua grande amiga e quase irmã e com quem aprendi a admirar a parasitologia e a morfologia dos agentes infecciosos microscópicos. Para iniciar os atendimentos médicos após a criação do Hospital Evandro Chagas, Dra. Giselda contou com a colaboração de dois então doutorandos voluntários, o Dr. Iron Idalino e o Dr. Vivaldo Costa, esse último à qual se referia como “minha madrinha”. Outro colaborador seu, a quem ela denominava carinhosamente de seu “primeiro assistente”, foi o Acadêmico Dr. Daladier da Cunha Lima, aqui presente, com o qual ela dividiu experiências e responsabilidades com a formação de uma geração de competentes especialistas em doenças infecciosas e tropicais.
Um ano após a sua morte, em 28 de abril de 1987, o Acadêmico Daladier, em Homenagem Póstuma realizada pela Academia de Medicina do Rio Grande do Norte, tão bem e com tanto conhecimento de causa, a ela saudosamente se dirigiu. O nobre colega demonstrou, naquele momento, sua grande admiração e seu enorme respeito à nossa homenageada, em adjetivos contidos em várias frases da sua saudação.
O Acadêmico Daladier traçou assim o seu perfil e sua forte personalidade, no decorrer de suas emocionadas palavras: “inovadora, irrequieta, otimista, didata, obstinada, líder, regente, ponto de equilíbrio, cientista, pesquisadora, administradora, participativa, carismática, humana, virtuosa, amiga, carinhosa, afetiva, alegre, contagiante, exuberante, bem humorada, irônica, magnânima, elegante, ética, culta e, no final da sua breve existência, digna, corajosa, determinada...”.
Justas homenagens lhe foram feitas, quando a Universidade Federal do Rio Grande do Norte a condecorou com o diploma de Professor Emérito “Post-Mortem” e quando seu nome foi denominação dada, por alunos médicos concluintes do ano de 1986. Foi brilhante e justa a saudação feita, naquela ocasião, pela oradora da Aula da Saudade, a Dra. Joyce Leandro Cabral de Medeiros, quando a ela assim se referiu: “Que sublime pessoa humana serviu-nos de exemplo, por sua rígida abnegação à causa médica, hoje imortalizada duplamente, com seu nome no Hospital de Doenças Infecciosas e Tropicais do Estado e como membro da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte”.
Na verdade, após a sua morte, seu nome ficaria apenas eternamente gravado nas mentes desoladas dos Acadêmicos. Ao escolhê-la como Patrona Perpétua da cadeira 32 que ora ocupo, tenho orgulho de realmente tê-la tornado imortal. Foi também elegantemente saudada pelo Acadêmico Dr. José Rubens Marcondes Aguiar, ao assumir seu lugar na cadeira de número 11 desta Academia, em 1988.
Nossa querida mestra soube conciliar seu lado profissional com outras facetas de vida e conseguiu também ser mãe e esposa com brilhantismo. Sei o quanto é difícil para uma mulher conciliar tais afazeres e se sentir vitoriosa. Pelo exemplo de amor e dedicação à medicina demonstrados no seu dia a dia e partilhado com seu esposo Dr. Kerginaldo, seu grande incentivador, transmitiu aos seus dois filhos mais velhos, Franca e Gustavo, a paixão pela arte de curar. A filha mais jovem, Carla, preferiu seguir outros rumos, porém, certamente, com o mesmo ímpeto e a mesma mania de perfeição herdados da mãe. Seus três filhos vieram ao mundo na Maternidade Januário Cicco, pelas mãos do Acadêmico Fernando Ezequiel Fonseca e foram assistidos, na sua infância, pelo Acadêmico Heriberto Ferreira Bezerra.
Sua trajetória foi brilhante, porém breve. Sua presença, no entanto, ficará permanentemente marcada na memória daqueles que a conheceram, cabendo a nós mantê-la acesa entre aqueles que vierem posteriormente, através de momentos como este, fazendo ver a todos que brilhantes lições de vida permanecem como sementes a serem eternamente germinadas.
Sentimos, em tudo que trilhou, um enorme pioneirismo que orgulha a classe médica do Rio Grande do Norte e do Brasil, honra por demasia esta Academia e, principalmente, serve de exemplo ao sexo “frágil” sobre a fortaleza da mulher.
Essa força se fez presente até nos seus últimos momentos que foram partilhados com seus entes queridos. Ela era forte, especial... Não permitiu que ninguém, exceto a família, seus médicos assistentes e os mais íntimos a vissem nos seu momentos finais de agonia. Conseguiu lucidez suficiente para se despedir daqueles a quem muito amava e até agradecer aos responsáveis pela sua formação profissional, chegando mesmo a telefonar para o Professor Jaime Neves, próximo à sua morte. Seu esquife fechado escondia a matéria inerte, porém ela, em vestido de gala, nos fitava com aqueles olhos alertas, marotos e brilhantes, vindos de uma tela a óleo de corpo inteiro, pintada anos antes, quando fora nossa paraninfa! E é aquela imagem viva e forte que guardaremos para sempre em nossa memória.
Apesar de achar precoce o chamado divino, enfrentou o desafio da morte com dignidade, força, determinação e sem revolta, deixando em nós a tristeza da sua ausência, a saudade do seu convívio marcante e o orgulho de podermos dizer que a conhecemos de perto.
Na sua lápide deixou o seu protesto: “Aqui jaz Giselda, muito contra a vontade...”. Seu grito em muito se assemelha ao de Cervantes, quando afirmou que “a maior loucura que um homem pode fazer nesta vida é deixar-se morrer”. Fazemos coro com seu protesto, sendo relutantes em aceitar o seu prematuro desaparecimento, pois sua mente brilhante ainda tinha muitos ensinamentos a transmitir e o seu coração, muito amor a ser compartilhado. Com sua partida a medicina do Rio Grande do Norte perdeu uma grande fonte de saber, porém persistem seus exemplos de generosidade para com o ser humano...
Sinto-me, deste modo, uma pessoa bastante privilegiada por ter tido a chance de sorver seus ensinamentos científicos e de ter podido usar seus exemplos de vida como espelho de conduta profissional. Agradeço à Academia a oportunidade de a ter escolhido como Patrona Perpétua da cadeira 32 que ora ocupo, eternizando-a com esta homenagem. Um espírito com tanta luz não se apaga. Com certeza, seus reflexos e sua imagem pairam entre nós, neste momento solene e ficarão presentes nesta casa, o Memorial da Medicina do Rio Grande do Norte, santuário sagrado da nossa história.
Encerrando minhas palavras, restam os mais sinceros agradecimentos a Franca e a Dr. Kerginaldo, que muito gentilmente me conduziram aos aposentos de Dra. Giselda, onde pude sentir sua presença espiritual em cada parede, em cada móvel e até no ar. Eles a mim confiaram documentos importantes que serviram para conhecê-la um pouco mais. Agradeço ainda ao amigo mineiro de Diamantina, Minas Gerais, Professor Célio Hugo Alves Pereira que generosa e pacientemente colaborou na elaboração deste elogio, conseguindo-me contatos com os maiores mestres da nossa querida homenageada, Professores Dr. Jayme Neves e Dr. Ricardo Veronesi.
Ambos agregam-se a nós nesta justa homenagem. Destes últimos eméritos Professores recebi emocionados depoimentos por escrito a seu respeito, os quais passo às mãos do nosso Presidente, para que sejam entregues aos familiares da nossa inesquecível Dra. Giselda...
Muito obrigada...

Ac. Ana Maria de Oliveira Ramos
Natal, 01 de Abril de 2003



Comentarios

Deusinete Diniz  - 21/03/2020

O seu texto sobre a nossa irmã e medica que reinou em nossa cidade Natal, foi, muito emocionante, parabéns Ana pelo seu trabalho.

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